Sobrinha de Pazuello advoga para Brookfield, dona do shopping onde ele passeou sem máscara

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Mais precisamente, para a Tegra Incorporadora, uma das empresas da multinacional canadense, gigante do setor imobiliário, com braços no agronegócio e na aquisição de terras; Manauara Shopping minimizou episódio com o ex-ministro da Saúde, em Manaus

Por Alceu Luís Castilho

Eduardo Pazuello estava em casa. Em Manaus, terra onde sua família fez fortuna, ao longo do século 20, ele ostentou sua face sem máscara em caminhada pelo Manauara Shopping, na tarde de domingo. Questionado por populares, ele disse, rindo, que estava indo comprar o equipamento de proteção — obrigatório. A administradora do shopping emitiu nota dizendo que o ex-ministro da Saúde recebeu a orientação “de se dirigir a um quiosque próximo para adquiri-la de imediato”.

Empresa do grupo Brookfield administra o shopping em Manaus. (Imagem: Divulgação)

O Manauara Shopping é administrado pela Aliansce Sonae, líder em seu mercado. Essa empresa pertence à multinacional canadense Brookfield Asset Management, dona de um império com mais de US$ 575 bilhões em ativos, US$ 110 bilhões no Brasil. Essas atividades no país começam no setor imobiliário e se estendem para diversos setores, como infraestrutura e energia, entre eles o agropecuário — inclusive com a aquisição de 269 mil hectares de terras.

Uma das empresas do grupo Brookfield é a Tegra Incorporadora, quinta maior do país, até 2007 Brookfield Incorporações. Uma das principais advogadas da Tegra é Renata Pazuello Fernandes Wahmann, sobrinha e sócia do general em empresa de navegação e em postos de gasolina no Amazonas. Ela é filha da falecida Elizabeth Pazuello, irmã de Eduardo. Entre 2003 e 2020, foi requerente ao lado do tio — e de várias outras pessoas da família — em um processo de inventário.

O Manauara Shopping disse oficialmente, em nota, que o ingresso de Eduardo Pazuello no shopping não deveria ter ocorrido e pediu desculpas pela falha de protocolo, “que será apurada e resultará desde já em amplo reforço de treinamento”. O ex-ministro é um dos investigados pela CPI da Covid-19 no Senado, criada no dia 13. Saiba mais sobre o papel dele na crise sanitária, quando o país ainda tinha quatro vezes menos mortes: “Esplanada da Morte (IX): Eduardo Pazuello, o ministro das 100 mil mortes, é o gestor da matança“.

BOLSONARO E MINISTRO REUNIRAM-SE NO BNDES NO MESMO DIA DA BROOKFIELD

Renata Pazuello é filha de Elizabeth Pazuello e de Luiz Frederico Fernandes Wahmann. Nos anos 70, durante a ditadura, Luiz Frederico foi do Conselho Diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), no tempo em que ela era presidida por Pedro Leão Velloso Wahmann. (Os Pazuello se alternam entre Amazonas e Rio, onde nasceu Eduardo.) Antes, Pedro Wahmann era vice-presidente da ACRJ, apoiadora do golpe de 1964 e do AI-5, em 1968.

De Olho nos Ruralistas contou, em março, um pouco da história do clã: “Família Pazuello: do enriquecimento ao lado do ‘Rei da Amazônia’ ao colapso político“. Um dos irmãos de Eduardo foi tema de outra reportagem: “Irmão de Pazuello foi acusado de participar de grupo de extermínio no Amazonas“. Os dois irmãos eram representados, em uma das empresas, pelo antigo chefe de gabinete de Roberto Campos no Ministério do Planejamento — isso durante o governo Castello Branco.

Bolsonaro e Pazuello, ainda aliados. (Foto: Reprodução)

Mais de cinquenta anos depois, o presidente Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, foram recebidos no dia 14 de outubro de 2020, às 16h30, pelo presidente do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, pouco antes do lançamento do projeto Genomas Brasil.

Uma hora e meia antes, às 15 horas, pelo menos cinco diretores do banco — como mostra a agenda oficial de cada um — participaram de reunião com três representantes da Brookfield, o CEO Henrique Carsalade Martins, o presidente do Conselho de Administração, Luiz Ildefonso Simões Lopes, e Ana Zambelli, diretora do setor de private equity.

Homônima de uma chefe de cozinha, Ana Zambelli era, até março de 2020, do Conselho de Administração da Petrobras. Essa reunião no BNDES contou também com dois representantes de outra empresa do grupo Brookfield, a BRK Ambiental: a diretora-presidente Teresa Cristina Querino Vernaglia e Sergio Garrido de Barros, vice-presidente financeiro e de relação com investidores. A BRK, antes Odebrecht Ambiental, tinha vencido na B3, um mês antes, leilão de concessão do setor de saneamento na região de Maceió. Teresa e Garrido estiveram no BNDES novamente no dia 18 de março, em encontro com o presidente Montezano.

A Brookfield via com otimismo o governo Bolsonaro em 2019, diante da possibilidade de privatizações e aquisições de ativos. “A mudança de governo já está gerando um interesse renovado no Brasil”, afirmou no início daquele ano um de seus principais executivos mundiais, Sam Pollock. A empresa canadense avançou no Brasil após a Operação Lava Jato, diante das “pechinchas” geradas no mercado. Uma das empresas adquiridas pelo grupo foi exatamente a Odebrecht Ambiental, renomeada para BRK.

Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas.|

Foto principal (Jaqueline Bastos/Arquivo Pessoal): fotógrafa flagrou Eduardo Pazuello à vontade no shopping 

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