Reeleito governador do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB) tem uma trajetória histórica de resistência a qualquer demanda indígena de demarcação e ocupação de terras tradicionais. Alvo da Polícia Federal por emissão de notas frias para a JBS, o tucano também tem feito vistas grossas aos ataques contra os indígenas e privilegia os grupos menos vulneráveis.

Ainda como deputado, Azambuja participou do Leilão da Resistência, em 2013, quando ruralistas do Mato Grosso do Sul e de outros estados doaram dinheiro, gado, grãos e outros produtos para garantir resistência jurídica e criação de milícias – item que foi barrado depois pela Justiça – contra a causa indígena.

Líder da bancada ruralista durante mandato na Câmara, Azambuja articulou para que projetos como a PEC 215/2000 vingassem. Em tramitação, o projeto tira da União e passa para o Congresso a aprovação e a demarcação de terras de povos tradicionais, contrariando a Constituição e garantindo uma manobra que impediria qualquer avanço na questão, já que o Legislativo é dominado pelos ruralistas.

GESTÃO TEVE CONFRONTOS HISTÓRICOS

Assim que assumiu o governo, o tucano atuou no confronto em Antonio João, na fronteira com o Paraguai, quando fazendeiros mataram Semião Fernandes Vilhalva, indígena Guarani Kaiowá, em setembro de 2015. No ano seguinte, em julho, o agente de saúde Guarani Kayowá Clodiodi Aquileu de Souza morreu em uma emboscada de fazendeiros que atacaram a ocupação próxima da aldeia Te´Yikuê, em Caarapó, com mais seis índios feridos a bala.

Enterro de  Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, morto durante o governo Azambuja. (Foto: Ana Mendes/Cimi)

O Mato Grosso do Sul foi o campeão de assassinatos e suicídios de índios em 2016, com 48 mortes.

Em agosto, enquanto estava em campanha para a reeleição, a Polícia Militar de Azambuja retirou um grupo Guarani Kaiowá de uma ocupação a balas, vindas de um helicóptero, sem ordem judicial. O governador não hesitou em elogiar a PM e criticar o Ministério Público Federal (MPF), que questionou a legalidade da ação.

Após a morte de Clodiodi, Azambuja propôs que a União abatesse a dívida estadual em R$ 80 milhões para que fossem feitas as demarcações. O então ministro da Justiça José Eduardo Cardozo sugeriu uma negociação com recursos da União, mas ela foi rechaçada pelos fazendeiros, que consideraram os valores baixos. Azambuja tentou uma nova negociação com o governo Temer, sem sucesso.

Azambuja tem feito propaganda sobre mutirões de saúde para os indígenas. Mas ela se limita aos ocupantes de terras regularizadas. No caso das milhares de famílias Guarani Kaiowá que vivem confinadas nas beiras da estrada, o governador tem relutado em dar cestas básicas para a mínima sobrevivência, o que provocou uma intervenção judicial do MPF. Em 2017, foi fornecida carne podre para aldeias Terena.

FORTUNA DE AZAMBUJA DOBROU

Entre 2006, quando era candidato a deputado federal, e 2018, a fortuna de Azambuja saiu de R$ 20,22 milhões para R$ 38,7 milhões. Ou seja, um aumento de 91,4%, quase o dobro do que ele tinha, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Com três grandes fazendas e um pesqueiro, ele somou ao seu patrimônio rural a fazenda Barreirinho, de 256 hectares, em Maracaju, a principal base eleitoral de sua família. A declaração de bens entregue em 2014 mostra que ela vale R$ 1,2 milhão. No total, ele possui 2.751 hectares, principalmente em Maracaju, mas também em Campo Grande e Porto Murtinho.

Usina Laguna fez doações para a campanha de Azambuja em 2014; em 2018, sócios doaram. (Foto: Facebook)

A fortuna de Azambuja se reflete também na campanha milionária que teve em 2014, apoiada por várias empresas e pessoas – com claros interesses no estado – ligadas ao agronegócio. A campanha foi a mais cara do Mato Grosso do Sul: R$ 25,32 milhões em 2014, quase R$ 1 milhão a mais que seu principal adversário, Delcídio do Amaral, na época filiado ao PT. Empresas e pessoas ligadas ao agronegócio foram os principais doadores de Azambuja naquele momento, somando R$ 19,6 milhões.

Por força da lei, a campanha em 2018 foi oficialmente bem mais barata: R$ 3,5 milhões. O agronegócio continuou atuando: Azambuja recebeu R$ 2,5 milhões do Fundo Partidário, mas o R$ 1 milhão restante veio de pessoas físicas ligadas ao agronegócio.

Alguns passaram de um lado para outro das doações, como Romildo Carvalho Cunha e José Joaquim Ferreira de Medeiros, sócios da Usina Laguna. Em 2014, a empresa – que produz álcool em Baytaporã – foi responsável por R$ 126 mil para Azambuja. Em 2018, sem espaço para doação de pessoas jurídicas, Romildo e José Joaquim doaram R$ 21 mil cada um.

Entre as pessoas físicas que contribuíram nas duas campanhas de Azambuja se destaca o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso do Sul (Aprosoja–MS), Juliano Schmaedecke. Ele doou R$ 70 mil em 2014 e R$ 50 mil em 2018.

Governador Azambuja é dono de 2.751 hectares em Maracaju.

DOADORES SÃO ACUSADOS DE CORRUPÇÃO

Uma das características das doações para Azambuja na campanha que o elegeu governador em 2014 foi o grande número de empresas e pessoas físicas doadoras envolvidas em denúncias de corrupção.

O maior doador individual Azambuja foi o pecuarista – e ex-gerente de banco – Ivanildo da Cunha Miranda, com R$ 550 mil. Durante a operação Lama Asfáltica, Miranda revelou que agia como operador do ex-governador André Puccinelli (MDB), preso por corrupção. Ele trabalhou também para Delcídio do Amaral (agora no PTC).

Segundo o doleiro Lúcio Funaro, Ivanildo foi responsável por facilitar empréstimo para a Agropecuária Margrif e emitir notas falsas, que visavam a dedução de ICMS, para a JBS e a Buriti Carnes. A Buriti Carnes foi a segunda maior empresa doadora de Azambuja, com R$ 747 mil.

Entre os protagonistas da Lama Asfáltica ligados ao agronegócio estão outros quatro grandes doadores para a campanha do governador reeleito: Antonio Celso Cortez, com R$ 300 mil; Zelito Alves Ribeiro, R$ 250 mil; o ex-prefeito de Leo Renato Miranda, R$ 250 mil, e João Roberto Baird, R$ 200 mil.

Em 2014, a JBS foi a maior doadora de Azambuja, com R$ 1,7 milhão. Segundo a delação dos proprietários da empresa, os irmãos Wesley e Joesley Batista, as propinas da companhia para Azambuja chegaram a R$ 1,4 milhão.

O governador é suspeito de armar um esquema de notas frias para JBS que isentava a empresa de impostos. Em plena campanha eleitoral, em setembro, ele e seu filho Rodrigo Souza e Silva foram alvo de busca e apreensão nos seus escritórios.

Entre os doadores de 2014, a grande maioria sumiu das prestações de contas de Azambuja em 2018. O maior suspeito entre os doadores daquele é o próprio filho Rodrigo. Preso em setembro, ele doou R$ 100 mil para a campanha do pai.

Foto em destaque: Governo do Estado do Mato Grosso do Sul