Ele é o mais rico entre os deputados estaduais do Mato Grosso do Sul. Incansável defensor do agronegócio, Zé Teixeira (DEM) trabalha sistematicamente contra as demarcações de terras indígenas. Sua fortuna declarada ao Tribunal Superior Eleitoral, em 2014, era de R$ 14,44 milhões, três vezes mais que o segundo mais rico, o deputado Onevan José Matos (PSDB), com R$ 4,97 milhões. Zé Teixeira possui 6.183 hectares de propriedades rurais, somando R$ 10,93 milhões em fazendas. Para esta eleição, o fazendeiro declarou ter somado R$ 1,46 milhão ao seu patrimônio, passando para R$ 15,9 milhões.

O deputado estadual Zé Teixeira com a futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina. (Foto: Divulgação)

Ele tem razões particulares para tal empenho. Entre as suas propriedades está a Fazenda Santa Claudina, de 4,4 mil hectares, em 2013 ocupada por 40 famílias Guarani Kaiowá, quatro anos após parte da área ter sido declarada Terra Indígena Guyraroká. Muito antes da retomada, em 2000, quando os indígenas ainda acampavam na beira da estrada, um bebê foi morto por disparos vindos de dentro da propriedade de Zé Teixeira, segundo o Ministério Público Federal (MPF).

A fazenda do deputado, baiano de Guanambi, vende cana-de-açúcar para a Raízen, desde a época em que a Cosan não estava aliada, nessa empresa, à multinacional Shell. Uma das famílias proprietárias da Cosan, os Rezende Barbosa, possui uma fazenda em Caarapó, a Campanário, que incide sobre outra reserva, a Amambaipeguá 1, em cujo entorno ocorreu o Massacre de Caarapó, em 2016.

Reeleito para o sétimo mandato na Assembleia, Zé Teixeira faz questão de defender outros acusados de violência contra os indígenas. Em sua biografia oficial, o fazendeiro homenageia Jacintho Honório da Silva Filho, a quem ele chama de “Jaci”, acusado de mandar matar o cacique Marcos Veron. O líder Guarani Kaiowá perdeu a vida em Juti, em 2003, vendo seus companheiros serem torturados. O deputado apoiou Jair Bolsonaro (PSL), defensor da tortura e contrário à demarcação de terras indígenas, para a Presidência da República.

Em 2017, Zé Teixeira subiu à tribuna da Assembleia para atacar o Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a prisão de cinco fazendeiros da região de Caarapó, acusados de ferir seis indígenas e matar o agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, em 14 de junho de 2016, na Fazenda Yvu. O deputado doou cabeças de gado durante o Leilão da Resistência, em 2013, quando políticos e fazendeiros do MS arrecadaram fundos para trabalhar contra a causa indígena.

“Muitas vezes eu ia na reserva e contratava 20, 30, 40 índios para ir derrubar mato para gente”, contou Teixeira à Pública, em 2016. “Muitas matas de fazendas que eu abri aqui foi com os índios, que derrubavam a machado, que não tinha motosserra”.

O deputado não declarou nenhuma cabeça de gado nas eleições deste ano. Em seu escritório político, na Avenida Weimar Torres, em Dourados, pode-se ver, com o seu nome como chamariz, uma placa de compra e venda de bovinos.

Deputado mais rico da Assembleia do MS tem fazendas em Caarapó, Dourados e Dois Irmãos do Buriti.

ACUSADO DE EMITIR NOTAS FRIAS

Em 2014, a JBS apareceu na lista como a maior empresa doadora de campanha de Zé Teixeira, com R$ 16 mil. Na delação premiada dos irmãos Joesley e Wesley Batista, proprietários do grupo, o deputado é mencionado como um dos pecuaristas que emitiram notas frias para a empresa como forma de “esquentar” propinas para sua campanha. O esquema no Mato Grosso do Sul era articulado por Ivanildo da Cunha Miranda, segundo a delação. Miranda não doou oficialmente para Zé Teixeira, mas foi um dos maiores contribuintes da campanha de Reinaldo Azambuja. Na época deputado, o governador reeleito pelo PSDB repassou o dinheiro da JBS para Teixeira.

Dono de um estilo truculento, Zé Teixeira ameaçou veículos da imprensa local que noticiassem a delação no estado. Seu filho Nilson Roberto Teixeira, outro na lista da JBS, ligou pessoalmente para a Folha de Dourados dizendo que ia processar o jornal.

A empresa de Nilson, a Teixeira Comércio de Cereais Ltda, doou R$ 100 mil para a campanha do pai, em 2014, e está sendo investigada pelo Ministério Público Estadual, desde 2016, por lesão ao erário público. O maior doador de Zé Teixeira para as eleições de outubro foi o comitê da futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM) com R$ 350 mil. Em seguida vem o próprio deputado, com R$ 200 mil.

Teixeira em evento da JBS. Ambos são investigados por notas frias. (Foto: Assecom/MS)

A história de Zé Teixeira como parlamentar sempre esteve pautada em ajudar o agronegócio, mesmo que isso onere o estado. Entre os projetos aprovados e sancionados está a lei nº 3.639, de fevereiro de 2009, que garante a emissão de certidão para imóveis do antigo estado do Mato Grosso. Ela atesta propriedades que ficam em áreas reivindicadas por populações indígenas.

Em várias outras ocasiões, Teixeira trabalhou para garantir benefícios financeiros e outras facilidades para os fazendeiros. Em 2005, ele conseguiu desconto de 50% no valor das multas aplicadas pela Secretaria de Estado de Receita e Controle. Em 2007, dois feitos: conseguiu que espécies exóticas pudessem ser exploradas economicamente em reservas florestais sem licenciamento ambiental; e acabar com a taxação Fundersul (que garante investimentos em rodovias) sobre o bezerro nascido. Finalmente, em 2016, obteve a dispensa do Selo Fiscal em notas eletrônicas para reduzir os custos de exportação.

Mais de um terço do patrimônio do deputado refere-se ao preço da Fazenda Paraíso, em Dourados, adquirida em 2011. Localizada no distrito de Itahum, próxima de acampamentos indígenas, ela tem 1.173 hectares e foi declarada por R$ 6,38 milhões.

Foto em destaque: Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul