Homologada em 1992, a Terra Indígena Cerrito ocupa menos de 2% do território do município de Eldorado, base política de Mara Caseiro (PSDB), onde ela foi duas vezes prefeita. A deputada estadual – não reeleita – é uma das vozes mais atuantes contra os povos indígenas na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul. A disputa pelas terras indígenas no sul do estado, com relato de expulsão e desmatamento pela Funai – passa pelas fazendas de sua família.

Terra Indígena surgiu a partir de conflitos. (Imagem: Reprodução)

Uma das propriedades rurais que aparecem na declaração de bens entregue em 2014 pela deputada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Fazenda Santa Cecília, com 231 hectares, é herança do sogro Zeca Caseiro, seu padrinho político, na região desde 1963. As terras são vizinhas da área homologada onde hoje estão os Guarani Ñandeva e Guarani Kaiowá, mas eles já viveram no local onde está a fazenda de Mara.

No laudo antropológico usado para homologar a Cerrito há uma menção à família Caseiro. O relator conta que, segundo o gerente da Fazenda Cerrito, Paulo Bubniak, os indígenas viviam na fazenda adjacente, Santa Cecília, “pertencente aos Irmãos Caseiro”, “até serem expulsos mais tarde, tendo sido recebidos em Cerrito como gesto humanitário”.

Bubniak trabalhava para a Sverdi, uma organização católica do Paraná, que contestou a homologação pelo menos três vezes na Justiça, sem êxito. O relator do parecer da Funai, escrito em 1991, deu continuidade à história relatada pelo gerente:

– Mais tarde, porém, com o levantamento procedido pelo GT da Portaria PP nº 165/86, ficou esclarecido que, na verdade, em ambas as fazendas habitavam imemorialmente famílias indígenas e as que haviam sido expu1sas da Fazenda Santa Cecília foram, então, somar-se às de Cerrito, após verem seu patrimônio florestal arrasado e cemitérios locais profanados.

Foi nos 2 mil hectares da Terra Indígena Cerrito que a população de Guarani Ñandeva e Guarani Kaiowá triplicou, desde sua criação: segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), ela passou de 180 pessoas, em 1993, para 586, em 2014.

A pressão econômica, porém, continua. Uma pesquisa da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro mostra que a pressão no entorno sobre a Terra Indígena Cerrito se divide entre a agricultura e a pecuária, que ocupam 60% da fronteira da reserva.

Em 2017, a Usina Rio Paraná levou uma multa de R$ 22,5 milhões por poluir o córrego Dinarte-Kuê, que passa pela área. O site da própria Mara Caseiro conta que foi ela quem levou a usina para o Mato Grosso do Sul, em 2008.

ELA FOI ATIVA NA CPI DO CIMI

Em defesa dos indígenas? Não exatamente. (Foto: Reprodução)

Uma das principais atuações de Mara Caseiro como parlamentar foi a participação ativa na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), na Assembleia. O objetivo dos ruralistas era criminalizar a instituição que, entre outras atividades, trabalha para denunciar a violência sofrida por grupos indígenas pelo país.

Proprietária de 682 hectares de terra, a deputada chegou a convocar um falso cacique para testemunhar contra a organização humanitária. Ela também insiste na tese de que os indígenas são apenas manipulados, não tendo voz própria para decidir e lutar por seus direitos. O relatório acabou sendo arquivado pela Justiça.

Mara Caseiro também não reluta em defender os fazendeiros acusados de matar indígenas, como quando subiu na tribuna da Assembleia para pedir Justiça para os proprietários, e não para os acusados de matar o agente de saúde Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, em 2016, durante o conflito que ficou conhecido como Massacre de Caarapó.

Outra fazenda de Mara Caseiro é a Ouro Verde, também em Eldorado, dividida entre os filhos de Zeca Caseiro em um processo de usucapião – relativo a cerca de 400 hectares – encerrado apenas em 2009.

EM DEFESA DA DOADORA, A JBS

Tucana é aliada do governador Azambuja. (Foto: Facebook)

Outra CPI que Mara Caseiro fez questão de participar foi a da JBS. A comissão deveria investigar a acusação a partir da delação dos donos do frigorífico de emissão de notas frias pelo governo estadual, principalmente na gestão Reinaldo Azambuja. A CPI terminou sem nenhum indiciamento.

Em 2014, a deputada recebeu para sua campanha R$ 52 mil da JBS, por meio dos comitês de Nelson Trad Junior, o Nelsinho Trad, eleito em outubro senador pelo PTB, e da senadora Simone Tebet (MDB-MS).

Ao todo, foram R$ 329 mil recebidos diretamente do agronegócio, de um total de R$ 600 mil gastos na campanha de 2014. A maior fatia veio da Iaco Agrícola (R$ 121 mil), por meio da campanha da deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), anunciada por Jair Bolsonaro como futura ministra da Agricultura.

As doações próprias e de seu marido chegam a R$ 134 mil. Entre as pessoas físicas, ela recebeu R$ 3 mil de João Roberto Baird, um dos investigados por desvios de recursos apurados na Operação Lama Asfáltica, que também envolve o governador Azambuja.

Embora a maioria dos políticos tenha reduzido drasticamente o valor de suas campanhas nas últimas eleições, Mara recebeu em 2018 um valor cerca de 15% maior: R$ 703 mil. Desse total, R$ 451 mil vieram do fundo partidário do PSDB. A maior doadora para a campanha da deputada foi Tereza Cristina, com R$ 61 mil.

Durante uma sessão da Assembleia, Mara Caseiro ficou exaltada quando manifestantes cantaram a música “Boi da Cara Preta“, numa referência às doações recebidas pela JBS. Mas as principais denúncias de corrupção contra a deputada são da época em que ela era prefeita.

Em 2017, a Justiça Federal condenou a parlamentar a ressarcir os cofres públicos pelos desvios na contratação de uma ambulância, conforme as investigações da Operação Máfia das Ambulâncias. Mara também foi acusada de nepotismo, em 2011, quando conseguiu uma vaga de assessor para seu marido, Manuel.

A deputada Mara Caseiro declarou terras em Eldorado, no sul do estado, próximo do Paraguai.