O juiz aposentado Odilon de Oliveira, candidato derrotado ao governo do Mato Grosso do Sul pelo PDT, evitou durante sua campanha detalhar suas posições em relação à causa indígena. Ainda como pré-candidato, o juiz desviou do assunto ao ser perguntado sobre o tema. “Estou filiado a um partido, mas na verdade estou filiado ao povo, não sou de direita ou de esquerda nem de nada, eu sou uma pessoa de conciliação e reconciliação em favor do povo”, desconversou.

Odilon ficou famoso pelo combate ao tráfico e por ter uma escolta de proteção. (Foto: Divulgação)

Durante a campanha, ele sugeriu a criação de uma superintendência para assuntos indígenas, mas evitou falar de suas posições anteriores como juiz. Em 2004, Odilon decidiu pela reintegração de posse para cinco fazendeiros, incidentes na Terra Indígena Buriti, em Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a decisão pela diminuição da área. Ao longo desses anos, os conflitos na região aumentaram. Em 2013, o líder Oziel Gabriel, da etnia Terena, foi morto a pauladas por fazendeiros que reclamam a posse de terras na área, em Dois Irmãos do Buriti.

Em outra decisão pela reintegração de posse, na mesma época, Odilon foi duro nas críticas aos povos indígenas. Ao falar sobre a ocupação pela demarcação da Terra Indígena Porto Lindo, em Japorã, o juiz escreveu que ela tem “caráter evidentemente provocativo e típico de esbulho possessório, dada a consciência e vontade dos réus em apoderar-se de imóvel alheio contra a vontade dos proprietários e legítimos possuidores, utilizando-se, para tanto, da imposição coercitiva de sua presença manifestada através da súbita invasão, insuflados por atos despropositados”.

Odilon teve posições contraditórias em relação às demarcações. No auge de sua fama como juiz inimigo das drogas, apoiava que as terras confiscadas no combate ao tráfico de drogas deveriam ser desapropriadas para reforma agrária e demarcações. Ao mesmo tempo, ele concorda com a indenização pelas terras aos produtores incidentes em terras indígenas, o que não é previsto na Constituição. Essa medida tem apoio de parlamentares ruralistas como a senadora Simone Tebet (MDB-MS).

ACUSADO EM PLENA CAMPANHA

O combate à corrupção foi o principal mote de primeira campanha do juiz Odilon, que perdeu a eleição no ano passado ao receber 31,62% no segundo turno contra 44,61% do governador reeleito Reinaldo Azambuja (PSDB), acusado de facilitar a emissão de notas falsas para grandes empresas do agronegócios, entre elas, a JBS.

Odilon teve apoio dos evangélicos durante sua campanha ao governo. (Foto: Facebook)

Parte do discurso de Odilon foi ofuscada pelas denúncias do seu ex-assessor Jedeão de Oliveira, que acusa o magistrado de conceder à Polícia Federal autorizações genéricas de interceptações telefônicas, além de inflar dados divulgados à imprensa sobre apreensão de bens e abrir inquéritos com base em cartas anônimas para legalizar gravações. Odilon nega as acusações.

Em junho de 2016, Jedeão foi exonerado, sob a acusação de transferir indevidamente R$ 53 mil – um dinheiro apreendido pela Polícia Federal – para um réu que tinha direito à devolução do mesmo valor. Chefe de gabinete de Odilon durante 21 anos, o assessor tentou um acordo de delação premiada, mas não conseguiu e foi condenado a 41 anos de prisão.

Durante a campanha também houve notícias do envolvimento do juiz com o jogo do bicho, o que o então candidato negou. “Eu tenho uma relação distante com pessoas que são acusadas de serem jogadoras ou donos do jogo do bicho”, disse, em entrevista. “Quer dizer, talvez você se refira a uma fotografia minha que circula na internet. Como eu tirei fotografia com Delcídio do Amaral, com André Puccinelli, com Olarte e outras pessoas que depois vieram a ser acusadas disso ou daquilo”.

Perto do seu adversário, Reinaldo Azambuja, que gastou R$ 3,5 milhões, a campanha de Odilon foi modesta: R$ 2,2 milhões, quase 90% do fundo partidário.

Odilon lançou campanha com o candidato de seu partido à Presidência, Ciro Gomes. (Foto: Facebook)

Situação semelhante ocorreu na campanha de seu filho a deputado federal em 2018. De acordo com a declaração ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Odilon de Oliveira Júnior (PDT) gastou R$ 121.045,00, sendo 86% do fundo partidário. Júnior não foi eleito, mas obteve a suplência.

O filho foi o artífice do apoio do MDB local a Odilon no segundo turno, tendo visitado na cadeia o ex-governador André Puccinelli (MDB), preso por desvio de dinheiro no âmbito das investigações da Operação Lama Asfáltica.

Em 2016, quando se elegeu vereador de Campo Grande, Oliveira Júnior gastou mais dinheiro: R$ 125.199,99. Na época, seus maiores doadores foram dois empresários do agronegócio: Dirceu Roveda Deboni, proprietário de doze empresas, entre elas uma casa de câmbio e a Agropecuária Angelita, de Amamabaí, doou R$ 20 mil; Fernando Veríssimo Baruta, dono da Agropecuária Rainha da Paz, R$ 15 mil.

Quando ainda não estava envolvido com a política eleitoral, o candidato a governador costumava dar entrevistas ligando o agronegócio à lavagem de dinheiro.

Hoje seu discurso é mais ameno. Em uma de suas entrevistas, em setembro de 2018, Odilon defendeu mais incentivos ao setor. Suas convicções políticas também têm mudado. Do mesmo PDT do ex-presidenciável Ciro Gomes, Odilon contrariou seu partido e fez questão de apoiar no segundo turno o presidente Jair Bolsonaro.

Nessa linha, Odilon acompanhou o discurso de vários candidatos, em defesa da ditadura.  “Segundo a minha conceituação, nós não tivemos ditadura”, afirmou. “Nós tivemos um governo militar. E um governo militar que fez muito pelo Brasil”.