{"id":438,"date":"2017-11-10T20:21:35","date_gmt":"2017-11-10T22:21:35","guid":{"rendered":"http:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/?p=438"},"modified":"2018-11-29T17:54:42","modified_gmt":"2018-11-29T19:54:42","slug":"ditadura-de-stroessner-marcou-ofensiva-brasileira-por-terras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/2017\/11\/10\/ditadura-de-stroessner-marcou-ofensiva-brasileira-por-terras\/","title":{"rendered":"Ditadura de Stroessner marcou ofensiva brasileira por terras"},"content":{"rendered":"<p>Entre 1970 e 1985, estima-se que mais de 400 mil brasileiros tenham se estabelecido no pa\u00eds vizinho. Esse movimento fez, aos poucos, o enclave sojeiro ao leste do Paraguai formar um territ\u00f3rio similar, em tamanho, \u00e0quele cedido ao Brasil ap\u00f3s a Guerra da Tr\u00edplice Alian\u00e7a. V\u00e1rios fatores convergiram para esse cen\u00e1rio, mas se um deles puder ser escolhido ele atende pelo nome de Alfredo Stroeesner &#8211; e a ditadura que ele chefiou.<\/p>\n<p>Ao seleto clube dos amigos do ditador foram outorgados mais de 6 milh\u00f5es de hectares. Uma m\u00e9dia de 4.600 hectares por pessoa. Muitos deles eram militares e dirigentes do Partido Colorado, que venderam suas propriedades a colonos e latifundi\u00e1rios brasileiros, fazendo fortuna com terras com as quais n\u00e3o tiveram praticamente nenhum gasto.<\/p>\n<p>Nesse momento nasceram muitos dos atuais conflitos entre brasileiros e camponeses paraguaios, uma vez que essas terras seriam originalmente destinadas \u00e0 reforma agr\u00e1ria. Como se deu esse processo? E o que teria levado milhares de brasileiros a cruzar a fronteira para se estabelecerem no Paraguai?<\/p>\n<div class=\"col-right quote\"><img decoding=\"async\" style=\"margin-top: 30px; margin-bottom: 15px\" src=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-content\/themes\/olhonoparaguai\/img\/aspas.png\" alt=\"aspas\" \/><\/p>\n<p>64,1% das terras privadas no Paraguai apresentam irregularidades em seu hist\u00f3rico dominial. Isto representa 19,3% do territ\u00f3rio paraguaio. Uma \u00e1rea equivalente a um Panam\u00e1 em terras griladas.<\/p>\n<p><\/div>\n<h3>UMA DITADURA NADA ENVERGONHADA<\/h3>\n<p>Em 1954, um golpe de Estado orquestrado pelo Ex\u00e9rcito paraguaio &#8211; com o apoio do tradicional Partido Colorado &#8211; levou ao poder o General Alfredo Stroessner. Durante os 35 anos em que exerceu a Presid\u00eancia, utilizou a <a href=\"http:\/\/www.abc.com.py\/especiales\/25-aniversario-del-golpe-de-1989\/la-herencia-de-la-dictadura-1204521.html\">concess\u00e3o de terras<\/a> como recurso para manter o sil\u00eancio e a lealdade de seus aliados pol\u00edticos. Os n\u00fameros s\u00e3o superlativos.<\/p>\n<p>A <em>Comisi\u00f3n de Verdad y Justicia<\/em>, criada em 2005 com o prop\u00f3sito de investigar as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos cometidas durante a ditadura, examinou mais de 200 mil t\u00edtulos de propriedade rural outorgados entre 1954 e 2003. Em seu <a href=\"http:\/\/www.derechoshumanos.net\/lesahumanidad\/informes\/paraguay\/Informe_Comision_Verdad_y_Justicia_Paraguay_Conclusiones_y_Recomendaciones.pdf\">relat\u00f3rio final<\/a>, constatou que 4.241 propriedades, correspondentes a 7.851.295 hectares, apresentavam graves irregularidades &#8211; que tornariam esses t\u00edtulos nulos.<\/p>\n<p>A comiss\u00e3o apurou que 86% das irregularidades ocorreram durante a ditadura de Stroessner. Foram 6.744.005 hectares entregues por meio do <em>Instituto de Bienestar Rural<\/em>, sob o pretexto de promover a reforma agr\u00e1ria. A aus\u00eancia de cadastro fundi\u00e1rio no Paraguai levou a um processo de t\u00edtulos-beliche, onde um \u00fanico lote chega a ter <a href=\"http:\/\/diplomatique.org.br\/paraguai-e-devorado-pela-soja\/\">tr\u00eas ou quatro t\u00edtulos de propriedade diferentes<\/a>. Somados, esses t\u00edtulos de terra excedem em 124 mil km\u00b2 o territ\u00f3rio paraguaio.<\/p>\n<div class=\"col-right\"><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_723\" aria-describedby=\"caption-attachment-723\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-723\" src=\"http:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/10\/Tranquilo-Favero-Veja-Divulga\u00e7\u00e3o-Grupo-Favero.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/10\/Tranquilo-Favero-Veja-Divulga\u00e7\u00e3o-Grupo-Favero.jpeg 620w, https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/10\/Tranquilo-Favero-Veja-Divulga\u00e7\u00e3o-Grupo-Favero-300x169.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-723\" class=\"wp-caption-text\">Tranquilo Favero, maior produtor invidual de soja do Paraguai (Foto: Veja\/Divulga\u00e7\u00e3o Grupo Favero)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<h3>BRASIGUAIOS OU BRASILEIROS?<\/h3>\n<p>Um dos pilares da pol\u00edtica econ\u00f4mica de Stroessner estava na moderniza\u00e7\u00e3o conservadora da agricultura. Seu objetivo era converter o Paraguai: de na\u00e7\u00e3o camponesa para exportador de g\u00eaneros agr\u00edcolas de alto consumo. A \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d foi aproveitar os brasileiros, que possu\u00edam experi\u00eancia na monocultura mecanizada de soja na regi\u00e3o Sul. Al\u00e9m disso, a estrutura de concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria que se expandia no Paran\u00e1 a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Verde gerou uma enorme massa de camponeses sem-terra, que marcharam para Oeste buscando novas terras produtivas.<\/p>\n<p>Ao vender uma pequena propriedade de 20 hectares no Brasil, um colono podia comprar o <a href=\"http:\/\/www.radioagencianp.com.br\/10673-brasileiro-tem-4-milhoes-de-hectares-no-paraguai-e-nao-planta-uma-semente\">dobro ou o triplo<\/a> no Paraguai. Junto a isso, Stroessner ofereceu cr\u00e9ditos subsidiados pelo <em>Banco Nacional de Fomento del Paraguay<\/em>, incentivos agr\u00edcolas do <em>Plan del Trigo<\/em> e revogou em 1967 a lei que impedia a venda de terra para estrangeiros na regi\u00e3o de fronteira.<\/p>\n<p>O Brasil protelava sua reforma agr\u00e1ria ao terceirizar o problema para o pa\u00eds vizinho. Conforme minguavam os cr\u00e9ditos, por\u00e9m, durante a \u201cd\u00e9cada perdida\u201d de 1980, centenas de brasileiros \u2013 muitos dos quais tiveram filhos nascidos no Paraguai \u2013 tentaram voltar ao Brasil pela fronteira em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es. Por n\u00e3o residirem no Brasil, tiveram sua cidadania negada. Tampouco eram reconhecidos no Paraguai como paraguaios. Tornaram-se ap\u00e1tridas. Da\u00ed surge o termo \u201cbrasiguaio\u201d.<\/p>\n<div class=\"col-right quote\"><img decoding=\"async\" style=\"margin-top: 30px; margin-bottom: 15px\" src=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-content\/themes\/olhonoparaguai\/img\/aspas.png\" alt=\"aspas\" \/><\/p>\n<p>Tranquilo Favero teria recebido 110 mil hectares de terras por favores do ex-ditador Alfredo Stroessner, segundo den\u00fancia do l\u00edder campon\u00eas Rosalino Casco.<\/p>\n<p><\/div>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o s\u00e3o os brasiguaios o principal fator de conflito no campo paraguaio. Junto aos colonos sulistas apareceram grandes latifundi\u00e1rios que, estimulados pela facilidade com que Stroessner presenteava as terras paraguaias, compraram a pre\u00e7os irris\u00f3rios enormes extens\u00f5es de terra na zona de fronteira. Entre eles o maior produtor individual de soja do Paraguai, o brasileiro Tranquilo Favero.<\/p>\n<p>Dono das terras mais caras do pa\u00eds, o \u201cRei da Soja\u201d sente falta dos tempos de Stroessner. Em <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/mundo\/24140-brasileiro-faz-fortuna-e-ma-fama-no-paraguai.shtml\">entrevista<\/a> concedida \u00e0 Folha em 2012, afirmou: &#8220;Naquela \u00e9poca voc\u00ea podia dormir com a janela aberta e ningu\u00e9m te roubava. S\u00f3 estamos piorando desde ent\u00e3o&#8221;. Para ele, a ditadura paraguaia sabia como resolver o problema dos sem-terra: &#8220;Como mulher de malandro, que s\u00f3 obedece na base do pau&#8221;.<\/p>\n<h3>COM ITAIPU, UMA NOVA OFENSIVA<\/h3>\n<p>N\u00e3o era apenas Favero que pensava assim. A exporta\u00e7\u00e3o de colonos e latifundi\u00e1rios brasileiros para o Paraguai foi apenas uma das iniciativas de aproxima\u00e7\u00e3o entre os governos brasileiro e paraguaio.<\/p>\n<p>Desde o fim da Guerra da Tr\u00edplice Alian\u00e7a, havia uma disputa jur\u00eddica sobre o Salto de Sete Quedas, chamado no Paraguai de Salto del Guair\u00e1. O aproveitamento hidrel\u00e9trico da regi\u00e3o era de import\u00e2ncia estrat\u00e9gica para o Estado brasileiro. Frente ao impasse, o presidente Jo\u00e3o Goulart assumiu em 1963 o compromisso de n\u00e3o avan\u00e7ar a fronteira brasileira sem um acordo m\u00fatuo entre as partes.<\/p>\n<div class=\"col-right\"><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_722\" aria-describedby=\"caption-attachment-722\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-722\" src=\"http:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/10\/Explos\u00e3o-de-rochas-nas-margens-do-Rio-Paran\u00e1-Reprodu\u00e7\u00e3o-Gazeta-do-Povo.jpg\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"633\" srcset=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/10\/Explos\u00e3o-de-rochas-nas-margens-do-Rio-Paran\u00e1-Reprodu\u00e7\u00e3o-Gazeta-do-Povo.jpg 660w, https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/10\/Explos\u00e3o-de-rochas-nas-margens-do-Rio-Paran\u00e1-Reprodu\u00e7\u00e3o-Gazeta-do-Povo-300x288.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-722\" class=\"wp-caption-text\">Explos\u00e3o de rochas nas margens do Rio Paran\u00e1 (Foto: Gazeta do Povo)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>Com o golpe militar, o Ex\u00e9rcito brasileiro tomou a ofensiva ao enviar em junho de 1965 <a href=\"http:\/\/www.abc.com.py\/edicion-impresa\/suplementos\/economico\/la-historia-poco-conocida-de-itaipu-176284.html\">quatro batalh\u00f5es de ocupa\u00e7\u00e3o<\/a> que tomaram o Salto del Guair\u00e1 e p\u00f4s em xeque a \u201cdiplomacia pendular\u201d de Stroessner. Desde o in\u00edcio de seu governo, o ditador buscava reduzir sua depend\u00eancia frente \u00e0 Argentina ao ensaiar concess\u00f5es ao Estado brasileiro, como a constru\u00e7\u00e3o, em 1962, da Ponte da Amizade.<\/p>\n<p>A postura agressiva da ditadura brasileira levou \u00e0 assinatura do Tratado de Itaipu (1973) e do Tratado da Amizade e da Coopera\u00e7\u00e3o (1975), j\u00e1 no governo de Ernesto Geisel. Muitos dos trabalhadores brasileiros que participaram na constru\u00e7\u00e3o da usina tornaram-se tamb\u00e9m fazendeiros no Paraguai.<\/p>\n<p>O desaparecimento das cataratas do Salto del Guair\u00e1, engolidas pelo represamento do Rio Paran\u00e1, constitu\u00edram uma perda irrepar\u00e1vel aos ind\u00edgenas que habitavam os 600 km\u00b2 de terras f\u00e9rteis sacrificadas durante a constru\u00e7\u00e3o da represa. Essa hist\u00f3ria est\u00e1 contada no document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/youtu.be\/wao1PpOoHG4\">\u201cHenda&#8217;\u0177va: Los que no tienen lugar\u201d<\/a> (Miguel Armoa, 2013).<\/p>\n<p>Al\u00e9m da perda socioambiental, a entidade binacional criada pelo tratado se apresentou em termos extremamente desfavor\u00e1veis para os paraguaios. O pa\u00eds foi obrigado a vender sua energia excedente para o Brasil em troca de uma compensa\u00e7\u00e3o 15 vezes inferior ao custo de produ\u00e7\u00e3o. Desde a queda de Stroessner, sucessivos governos paraguaios v\u00eam tentando, sem sucesso, renegociar as condi\u00e7\u00f5es do acordo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais de 400 mil brasileiros estabeleceram-se no Paraguai entre 1970 e 1985; ditador doou 6 milh\u00f5es de hectares para aliados, que venderam suas propriedades a colonos e latifundi\u00e1rios brasileiros<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":724,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-438","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-subimperio","post_format-post-format-image"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/438","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=438"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/438\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1561,"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/438\/revisions\/1561"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/media\/724"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/deolhonoparaguai\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}