Em meio a apagão, líder quilombola morre eletrocutado em Macapá

Presidente da Associação dos Quilombos de São Francisco do Matapí, Sérgio Clei Almeida, de 50 anos, tentava restabelecer o fornecimento de energia na comunidade de Torrão do Matapí, em Macapá, quando recebeu uma descarga elétrica

Por Márcia Maria Cruz

Em meio ao apagão que atinge o Amapá há dezoito dias, o presidente da Associação dos Quilombos de São Francisco de Matapí, Sérgio Clei de Almeida, de 50 anos, morreu eletrocutado nesta quarta-feira (18), quando tentava restabelecer o fornecimento de energia elétrica para a comunidade de Torrão do Matapí, em Macapá.

Sérgio era professor. Segundo a educadora popular Núbia Quilombola, ele tentava consertar um transformador na sua comunidade, quando o fornecimento de energia voltou de forma inesperada e ele foi atingindo pela descarga elétrica.

Núbia destaca que as comunidades locais, já abaladas pelos transtornos do blecaute, receberam com consternação a morte de um importante líder. Boa parte das comunidades de São Francisco do Matapí foi reconhecida como remanescente de quilombo pela Fundação Palmares em 2016, no fim do governo de Dilma Rousseff.

MAIS DE 250 QUILOMBOS SOFREM COM A FALTA DE ENERGIA ELÉTRICA

Assim como em 80% das localidades do estado, a falta de energia afetou o abastecimento de água, compra e armazenamento de alimentos, serviços de telefonia e os serviços de saúde nas comunidades quilombolas. O apagão teve início no dia 03, depois da explosão seguida de incêndio de três subestações que ficam em Macapá.

Sergio Clei de Almeida. (Foto: Facebook)

Na capital amapaense, são 258 comunidades quilombolas que sofrem com a falta de eletricidade. De acordo com Núbia Souza, a situação é dramática em 120 delas, onde as pessoas não têm o que comer e também falta água. “A alimentação começou a faltar, apodreceu tudo”, relata. “Não deu para salgar e reaproveitar a comida”.

As comunidades sofrem ainda com a falta d’água. Os quilombos contam com poços artesianos e, sem energia elétrica, as bombas não funcionam. “As bombas queimaram”, informa Núbia.

Ela lembra que a população nas áreas rurais, de difícil acesso, sente mais os efeitos do apagão: “Muitos habitantes estão sem comer ou alimentando-se apenas de mandioca”. Diante da situação de calamidade, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (Conaq) pediu ajuda à Anistia Internacional para conseguir água e alimentos para as comunidades.

Desde a explosão dos transformadores, as comunidades quilombolas sofrem com o fornecimento intermitente. De acordo com o quilombola Willy Miranda Silva, que atua na área cultural, o sistema de energia das comunidades é bem antigo. O  fornecimento é regulado por sistema de chaves instaladas nos postes. “A cada ‘posteamento’ tem uma chave, quando dá essas porradas nas redes, elas disparam e alguém tem que baixar a chave ou trocar, caso tenha perdido o circuito”. Willy acredita que Sérgio Clei, certamente, estava resolvendo algum problema com a chave quando foi atingido pela descarga elétrica.

— Sérgio Clei era muito ligado às festas tradicionais das comunidades. Era uma pessoas que estava incluída no processo, sempre se doava. Era muito conhecido nas comunidades circunvizinhas por conta disso. Sempre envolvido na manutenção das tradições.

MORADORES TIVERAM DE FAZER CONSERTOS POR CONTA PRÓPRIA

O sistema de chaves torna a situação de falta de energia ainda mais dramático para as comunidade. Willys relata que, após a comunidade Conceição de Macacoari, uma das mais distantes do centro de Macapá, ficar oito dias sem energia, os moradores resolveram comprar as chaves por conta própria e substituir as que estavam com defeito. Sem essas chaves, a comunidade sequer poderia participar do racionamento que previa o fornecimento de energia de seis em seis horas.

Um grupo tem levado ajuda às comunidades que sofrem com o efeito da falta de energia. Eles levam, sobretudo, água e alimentos. Para as crianças, leite. Como não há tratamento de água em algumas regiões, levam hipoclorito e filtros para que os moradores possam tratar água captada da chuva: “Tinha comunidade que estava dependendo da água da chuva. Chegamos em comunidade que a pessoa tinha cinco ovos e água da chuva, o que tinha para comer”.

A queda da energia ocorre em momento de pandemia, quando é necessário redobrar as medidas sanitárias para evitar o avanço do novo coronavírus. De acordo com o monitoramento feito pela Conaq, foram registradas 24 mortes no Amapá em decorrência da Covid-19. No entanto, os líderes não têm escolha, precisam visitar as comunidades para prestar ajuda neste momento em que as pessoas não têm o que beber e o que comer.

“A nossa escolha é ou ajudamos ou vamos ficar em casa com medo da pandemia, quando a gente sabe que tem gente passando fome”, afirma Willys. Nesse contexto, eles redobram os cuidados com o uso de álcool em gel e orientação para que as pessoas higienizem os alimentos e outras doações que recebem.

Márcia Maria Cruz é jornalista. |

Foto principal (Dayane Oliveira/BdeF): moradores de Macapá protestam contra lentidão de autoridades em resolver pane elétrica

|| A cobertura do De Olho nos Ruralistas sobre o impacto da pandemia nas comunidades quilombolas tem o apoio da Fundo de Auxílio Emergencial ao Jornalismo da Google News Initiative ||

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