Governo de Ratinho Júnior, no Paraná, continua a recomendar cloroquina

Sites da Agência Estadual de Notícias e da Secretaria de Saúde mantêm indicação de medicamento que, além de ineficaz no combate à Covid-19, é prejudicial à saúde; filho do apresentador do SBT, governador é um dos aliados mais fiéis de Bolsonaro

Por Mariana Franco Ramos

Enquanto a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado apura, em Brasília, responsabilidades do governo federal na péssima condução da pandemia, a gestão de um dos aliados mais fiéis do governo Jair Bolsonaro continua a contrariar as recomendações médicas e científicas. O site do governo paranaense mantém, desde abril de 2020, a “nota orientativa” número 17, recomendando o uso da cloroquina no “tratamento” de formas graves da Covid-19.

O documento foi publicado nas páginas da Agência Estadual de Notícias (AEN), órgão oficial de comunicação, e da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), e não saiu do ar, apesar de sucessivos alertas. Ele é baseado em uma orientação antiga do Ministério da Saúde, que apresenta o medicamento, comprovadamente ineficaz no combate ao coronavírus — além de prejudicial à saúde —, como “terapia adjuvante” para pacientes hospitalizados.

Secretaria de Saúde do Paraná mantém até hoje recomendações para uso da cloroquina. (Imagem: Reprodução)
Há um ano, a Sesa fechou um convênio para receber 154 mil doses de hidroxicloroquina genérica do grupo farmacêutico Novartis/Sandoz, que tem uma planta em Cambé, no norte do Paraná. O acordo foi firmado entre representantes da empresa e o governador. Na época, Ratinho Júnior (PSD) já admitia a ausência de evidências científicas suficientes. No entanto, citava supostos estudos que demonstrariam o benefício do uso. “Segundo os relatos dos médicos, é um medicamento que apresenta resultados positivos, em especial nos casos mais graves”, afirmou.

Ratinho Júnior é filho do apresentador de televisão Carlos Massa, o Ratinho. Embora mais comedido que o pai, sempre apoiou publicamente o presidente e suas ações. Ele foi o único governador presente na comitiva do governo federal que esteve nos Estados Unidos em março de 2020. Ao menos 23 pessoas que participaram daquela viagem testaram positivo para o novo coronavírus assim que retornaram ao Brasil.

Presidente e governador se cumprimentam em uma das muitas agendas conjuntas no Paraná. (Foto: Rodrigo Félix Leal/ANPr)

Membro da bancada de oposição a Ratinho na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), o deputado estadual Requião Filho (MDB) criticou a postura do chefe do Executivo e cobrou providências. De acordo com o emedebista, manter a recomendação no site, quando o uso do medicamento é refutado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pela ciência e até mesmo pelo seu maior garoto-propaganda, o governo federal, só pode ser “incompetência, negligência, imperícia, imprudência ou incapacidade”.

Ele se refere ao fato de o próprio Ministério da Saúde, diante do avanço da CPI, ter recuado e retirado de sua página a recomendação ao uso do remédio. Durante depoimento à comissão, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, foi questionado onze vezes pelo relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), se ele concorda ou não com o “kit Covid”, medida sempre defendida pelo governo Bolsonaro. Queiroga se esquivou e não respondeu a nenhuma das perguntas.

ÓRGÃO LIGADO AO GOVERNO TEM CENTRO DE “TRATAMENTO IMEDIATO”

A cloroquina foi transformada em um bastião ideológico e político do governo federal, sendo indicada e — pior — distribuída sem qualquer recomendação médica. A farsa do “tratamento precoce” é tema do oitavo vídeo da série “De Olho no Genocídio“. O observatório mostra como seguidores desta seita repetem mentiras e são protagonistas diretos do massacre de centenas de milhares de brasileiros. Ainda que, depois do estrago, voltem atrás. Assista:

Em março deste ano, o Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar) começou a oferecer em Curitiba o que chamou de atendimento diferenciado e gratuito à população, por meio do “Programa Sociedade Contra o Covid”. O Provopar é uma associação civil, com personalidade jurídica de direito privado, mas com ligação direta com o governo do estado. Questionado por um seguidor nas redes sociais, o órgão confirmou — ainda que de maneira genérica — a possibilidade de indicação de remédios não autorizados.

Requião Filho protocolou, via Alep, pedidos de informações ao Provopar e ao chefe da Casa Civil, Guto Silva. Em resposta, a associação argumentou que não oferece “tratamento precoce”, e sim “consulta médica gratuita para casos de Covid”, definindo a política como um “gesto solidário pela sobrevivência da população de baixa renda durante a pandemia”. Conforme a nota, porém, os vinte médicos voluntários que se revezam nos atendimentos têm autonomia para receitar “o que quiserem”.

Alguns deles seriam integrantes da “Associação Médicos Pela Vida”, um grupo de mais de 2 mil profissionais do país que, em fevereiro, lançou um manifesto defendendo o uso da cloroquina e da ivermectina. No fim de março, o movimento espalhou outdoors em Curitiba fazendo apologia dos remédios. A publicidade foi retirada após solicitação do Ministério Público do Paraná (MP-PR) e da prefeitura da cidade, como mostrou reportagem do Plural.

Os pedidos de informação sobre a iniciativa do Provopar também foram encaminhados ao MP-PR, que deve investigar o caso. De acordo com o deputado, a Casa Civil ainda não encaminhou resposta ao gabinete.

Mariana Franco Ramos é repórter do De Olho nos Ruralistas. |

Foto principal (Rodrigo Félix Leal/ANPr): Ratinho Júnior sempre apoiou publicamente o presidente e suas ações

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