Flávio Bolsonaro prometeu “Brasil para Jesus” ao lado de Victório Galli, em abril, em evento do agronegócio

“Vou consagrar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, afirmou durante abertura da feira agropecuária Norte Show, em Sinop (MT); ele estava acompanhado do autor do projeto que tentou tirar de Nossa Senhora o status de Padroeira do Brasil; evento ocorreu em 22 de abril, quatro meses antes do candidato do PL declarar em vídeo que emitiria um decreto sobre Jesus

Por Bruno Stankevicius Bassi

Autor de projeto contra Nossa Senhora recebeu Flávio na Norte Show, em Sinop (MT). (Foto: Facebook/Victório Galli)

— Essa é uma eleição que nós vamos resgatar almas. Nós vamos honrar o nome de Deus aqui nesse país. E eu peço todo dia sabedoria para Deus, coragem, tudo que eu já falei aqui. Porque eu tenho um sonho de lá na hora de fazer o discurso de posse, eu vou fazer uma oração para consagrar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.

A frase acima foi dita por Flávio Bolsonaro em 22 de abril de 2026, durante a abertura da feira agropecuária Norte Show, em Sinop (MT). Foi a primeira vez que o candidato do PL à presidência utilizou a frase em um discurso público. Quatro meses depois, em agosto, ele publicaria um vídeo dobrando a aposta. Além da oração, ele prometeu emitir um decreto presidencial: “Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

O vídeo ganhou repercussão nas redes sociais após a censura promovida pela Rede Globo contra a jornalista Maria Cristina Fernandes. Na última quinta (24/09), ela informou, em participação no canal GloboNews, que bispos católicos estão preocupados com o posicionamento de figuras do entorno de Flávio Bolsonaro. E que havia mobilização para aprovar um projeto de lei para a retirada de Nossa Senhora Aparecida do status de Padroeira do Brasil .

Horas depois, em nota, a GloboNews desmentiu Maria Cristina e pediu desculpas aos telespectadores. A emissora citou especificamente o Projeto de Lei nº 2.623/2007, de autoria do ex-deputado Victório Galli (PP-MT), arquivado em 2008. Não mencionado diretamente pela jornalista. Confira a nota da emissora:

— Na edição de ontem do Em Pauta, a jornalista Maria Cristina Fernandes comentou a disputa envolvendo religião e política e mencionou uma suposta mobilização de evangélicos para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A formulação levou o público a entender que existia uma articulação legislativa recente para alterar esse título e que ela estaria associada ao candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. Não há projeto atual de Flávio Bolsonaro com esse objetivo. Essa proposta foi apresentada em dezembro de 2007, mas arquivada pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados em agosto de 2008. Nós pedimos desculpas pelo erro.

A jornalista também não tinha falado em “projeto atual de Flávio Bolsonaro”. A reação à fala e ao desmentido foi imediata: Maria Cristina se tornou alvo de uma campanha de intimidação e sua informação de bastidores começou a ser desqualificada com o uso da palavra “boato”.

De Olho nos Ruralistas demonstrou ontem, durante live em seu canal no YouTube, a partir de inúmeros fatos, que a mobilização existe e que não houve “boato”. O jornalista Gilberto Nascimento, especializado em temas religiosos, confirmou também a preocupação de bispos católicos a respeito. Uma das informações mais contundentes na transmissão foi a da relação entre Flávio Bolsonaro e Victorio Galli.

GOLPISMO E AGRONEGÓCIO: O QUE A IMPRENSA NÃO CONTOU SOBRE VICTÓRIO GALLI

O pastor evangélico Victório Galli não apenas integra o círculo próximo de Flávio, como ciceroneou o candidato durante a Norte Show, em abril de 2026. Os registros são públicos e foram postados pela página oficial do político mato-grossense. “Foi uma alegria estar na @norteshow, em Sinop, ao lado do meu amigo e senador @flaviobolsonaro”, diz a legenda.

O episódio não passou completamente despercebido pela imprensa. Isso porque, durante o evento, Flávio prometeu congelar a demarcação de terras indígenas. O que ficou oculto foi justamente a promessa de consagração do país a Jesus. A mesma que sua assessoria agora nega, tratando como ato “simbólico“.

Victório Galli ajudou a articular apoio ruralista a Jair Bolsonaro em 2022. (Foto: Divulgação/FPA)

A fala de Flávio na Norte Show foi revelada com exclusividade por este observatório durante a live “Em Nome de Jesus?“, transmitida ontem (30/09). Além da equipe do observatório, o debate contou com Gilberto Nascimento, especializado em política, religião e direitos humanos e autor do livro “O reino · A história de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal” (Companhia das Letras, 2019).

Até o dia 24 de setembro, quando teve início a polêmica em torno de Nossa Senhora Aparecida, Victório Galli era uma figura relativamente desconhecida da política mato-grossense. Próximo do clã Bolsonaro, ele não conseguiu se eleger nos últimos dois pleitos, perdendo a primeira suplência para o Senado, em 2018, e a tentativa de voltar para a Câmara, em 2022.

Em fevereiro de 2019, logo após a primeira derrota, ele foi designado por Jair Bolsonaro como assessor especial da Presidência da República. A nomeação era uma retribuição pela articulação de Galli junto à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) — a face institucional da bancada ruralista no Congresso — para que apoiasse o ex-capitão no 2º turno contra Fernando Haddad (PT).

Durante sua primeira passagem pela Câmara, de 2007 a 2018, o mato-grossense se tornou uma das vozes mais atuantes da FPA, sendo considerado pela frente o “deputado que mais votou ao lado da Agricultura brasileira” em sua última legislatura. Este observatório não localizou propriedades rurais em seu nome.

O pastor da Assembleia de Deus se manteve fiel ao amigo Jair. Em abril de 2022, durante a campanha de reeleição, ajudou a organizar a ida do ex-presidente a primeira edição da Marcha pra Jesus de Várzea Grande, município da região metropolitana de Cuiabá.

PASTOR E POLÍTICO, ELE COMPARTILHOU NOTÍCIAS FALSAS SOBRE GOLPE CONTRA LULA

Agrogolpistas: relatório consolida 142 nomes de empresários do agronegócio que apoiaram tentativa de golpe

Após a derrota de Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Galli embarcou de cabeça no golpismo. Em sua conta no Facebook, compartilhou dezenas de notícias falsas sobre movimentações das Forças Armadas para impedir a posse de Lula. “Fechado com Bolsonaro para o que der e vier”, escreveu em uma postagem compartilhada sobre um suposto “aval” de militares ao candidato derrotado.

Segundo a Folha de S. Paulo, seu filho, Elias Galli, atuou diretamente junto ao Movimento Brasil Verde e Amarelo (MBVA), grupo antidemocrático fundado por Antônio Galvan, então presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja). De acordo com a reportagem, Elias foi responsável por negociar a contratação de outdoors em Brasília, convocando a população para os atos de 7 de setembro de 2022.

O Movimento Brasil Verde e Amarelo foi apontado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) como um dos articuladores dos atos terroristas de 8 de janeiro de 2023, conforme destacado por este observatório no dossiê “Agrogolpistas“. O dossiê divulgado em junho de 2025 identificou identifica 142 empresários do agronegócio envolvidos em tentativa de golpe — 74 delees em Mato Grosso.

As incursões do filho não são a única ligação de Victório Galli com as manifestações golpistas de 8 de janeiro. O maior financiador de sua campanha em 2022, o empresário Odilio Balbinotti Filho, foi identificado pelo portal MidiaJur entre os fazendeiros mato-grossenses presentes no 8 de janeiro. Balbinotti negou. Nas redes sociais, é possível encontrar uma foto sua na passeata de 7 de setembro — aquela organizada pelo MBVA. Ao todo, ele doou R$ 100 mil para Galli nas últimas eleições.

Hoje, Balbinotti é candidato a 1º suplente na chapa do PL ao Senado, encabeçada pelo bolsonarista José Medeiros. Ele acumula essa função com a de coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro em Mato Grosso.

LIVE DISCUTIU ESTADO LAICO, SHOWS PÚBLICOS E ELEIÇÕES

Uma das justificativas dadas por Victório Galli para a apresentação do Projeto de Lei (PL) nº 2.623/2007, que muda o status de Padroeira do Brasil para “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, foi a necessidade de proteger a laicidade do Estado. “A alteração tira o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, que diga-se de passagem, não deve ter este ou aquele padroeiro por ser um Estado laico”, diz o texto.

Live revelou novos dados sobre gastos públicos com shows de bandas gospel. (Imagem: De Olho nos Ruralistas)

Será que o pastor mato-grossense manteve esse espírito durante sua vida parlamentar? Durante a live “Em Nome de Jesus?“, De Olho nos Ruralistas enumerou alguns dos projetos de lei defendidos por Galli que mostram um descompasso entre a defesa do Estado laico e os interesses das igrejas evangélicas.

Um exemplo disso é o PL nº 1.463/2015, que institui a data de 18 de junho como Dia Nacional da Igreja Assembleia de Deus. Justificativa? “Este projeto muito honrará as Assembleias de Deus em nosso País, pois é um projeto de Deus visando à expansão da sua obra à nível nacional. Tudo para honra e glória do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”.

Outro projeto, o PL nº 8.150/2017, tipifica o crime de “cristofobia” e dá, como motivação, o patrocínio do “governo do PT à parada LGBT, que trouxe um transexual seminu, no papel de Jesus Cristo na cruz”. No campo econômico, Galli apresentou o PL nº 468/2015, que isenta templos religiosos da cobrança de impostos sobre as contas de água, luz, telefone e combustíveis.

Em campanha para se eleger deputado, Victório Galli usa novamente a religião como plataforma. Em suas redes, compartilha visitas a igrejas da Assembleia de Deus em diversos municípios mato-grossenses. E em vídeo publicado em setembro, diz que André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico” nomeado por Jair Bolsonaro, é um “instrumento de Deus para limpar o STF”.

Confira a íntegra da live em nosso canal:

| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de pesquisas do De Olho nos Ruralistas. ||

Imagem principal (Facebook/Victório Galli): Flávio Bolsonaro posa em cima de trator durante Norte Show, em Sinop (MT)

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