Almirante Flávio Rocha foi secretário de Assuntos Estratégicos no governo do amigo Jair, onde atuou em políticas de mineração e energia; por R$ 50 mil ao mês, entrou em abril no conselho da Atlas Lithium, que prospecta lítio em Minas e urânio – de forma disfarçada – em seis estados
Por Tonsk Fialho
De Olho nos Ruralistas constatou que a empresa afirmou a investidores dos Estados Unidos, em agosto, possuir 39 direitos minerários associados a urânio em uma área de 143,7 mil hectares, distribuídos em seis estados. Só que a Agência Nacional de Mineração (ANM) não reconhece direitos para prospectar urânio. Para as autoridades brasileiras, os direitos minerários “identificam cobre, grafite, fosfato e/ou terras raras como minerais de pesquisa”.
Em aliança com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, o próprio Donald Trump prometeu ajuda financeira a um dos projetos da Atlas Lithium no Brasil, o Neves, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Um dos principais conselheiros da empresa, Roger Noriega, foi um dos ideólogos das incursões mais recentes dos EUA na América Latina, sob o espantalho do “narcoterrorismo”. E um dos responsáveis por indicar a Trump parceria com Bolsonaro.
Flávio Augusto Viana Rocha, Almirante de Esquadra da Marinha, assumiu em março de 2021 a secretaria de Assuntos Estratégicos, onde teve atuação transversal em diversas iniciativas do governo de Jair Bolsonaro. Rochinha intermediou viagens internacionais e contatos com líderes estrangeiros, como Vladimir Putin, e capitaneou projetos como o Plano Nacional de Fertilizantes.
Fluente em seis idiomas, ficou conhecido como “sombra”, pela presença constante em reuniões privadas do então presidente. Flávio Rocha articulou diálogos entre o bolsonarismo e Michel Temer e protagonizou um princípio de crise diplomática em Brasília, por fazer mais viagens internacionais que o ministro de Relações Exteriores, Carlos França.
Para o Itamaraty, o almirante desempenhava uma espécie de diplomacia paralela em suas missões, por vezes acompanhado de Eduardo Bolsonaro, mais um chanceler informal do bolsonarismo. Durante a reunião de Jair com embaixadores em 2022, Rochinha estava sentado ao lado do general Braga Netto, ouvindo atentamente os ataques do presidente ao processo eleitoral. Segundo O Globo, ele ajudou na elaboração do discurso golpista.
Pelo episódio, Bolsonaro foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder, tornando-se inelegível. Na esfera criminal, Braga Netto, a exemplo do ex-presidente, foi condenado a 26 anos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por organização criminosa armada, golpe de estado, dano qualificado entre outros crimes.
Ambos planejaram um enredo antidemocrático que envolvia até assassinatos de autoridades, a começar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na época presidente eleito, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Tudo para não deixarem o poder após a derrota nas urnas. Em outro estilo, o almirante Flávio Rocha, atuava em paralelo a isso tudo. Pelas sombras.
Em relatório anual apresentado à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) em agosto de 2026, a Atlas Lithium declarou possuir 39 direitos minerários associados a urânio, distribuídos por Bahia, Ceará, Goiás, Pará, Piauí e Tocantins, abrangendo uma área total de 143,7 mil hectares.
A afirmação soa estranha: a Agência Nacional de Mineração (ANM) não reconhece direitos para prospectar urânio, elemento químico radioativo cuja exploração permanece sob monopólio da União. No mesmo documento, a Atlas explica que a empresa declara interesse em outros minerais, contornando a legislação brasileira.
Em seu portfólio a empresa apresenta jazidas de urânio, afirmando que os 39 direitos minerários “identificam cobre, grafite, fosfato e/ou terras raras como minerais de pesquisa, uma vez que a legislação brasileira vigente não permite que o urânio seja formalmente reconhecido como um mineral de pesquisa.”
Três dos direitos minerários do grupo Atlas Lithium no Ceará estão localizados em Santa Quitéria, maior município do estado em extensão territorial, a 200 km de Fortaleza, onde a mineradora afirma fazer estudos para a exploração de fosfato, mineral voltado principalmente para fabricação de fertilizantes agrícolas.
O Projeto Santa Quitéria para exploração de fosfato é um consórcio da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e da Galvani Fertilizantes, e se encontra atualmente em fase de licenciamento ambiental. O fosfato está depositado no colofanito, rocha que possui o urânio na composição. O potencial radioativo da operação gera temores entre comunidades camponesas e indígenas.
O local não é estranho para o almirante Flávio Rocha, conselheiro da Atlas Lithium e ex-secretário de Assuntos Estratégicos no governo Bolsonaro. O cearense coordenou o Plano Nacional de Fertilizantes em 2021, que incluía o Projeto Santa Quitéria como um dos principais focos de investimento para incentivar a produção interna de fertilizantes.
O almirante também desempenhou um papel relevante nas negociações junto ao governo russo para adquirir submarinos nucleares para a Marinha, que usam o urânio enriquecido como combustível. Chegou a visitar o Kremlin em missão oficial para destravar uma parceria com Putin para o compartilhamento da tecnologia. O plano não saiu do papel.
Em 2023, já durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Rocha foi indicado pela Marinha para assumir a Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade, mas teve sua indicação barrada após pressão do Ministério das Relações Exteriores.
De Olho nos Ruralistas tentou contato com o almirante Flávio Rocha e com a empresa Atlas Lithium mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem. Caso as respostas sejam encaminhadas posteriormente, serão atualizadas no site.
O principal projeto de mineração da Atlas Lithium é focado na exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais. Mas as atividades não param aí. Por meio das controladas Atlas Critical Minerals e Apollo Mineração, as áreas de interesse da empresa incluem terras raras e outros minerais críticos.
O mercado de extração e transformação destes elementos químicos, atualmente liderado pela China, é crucial para a corrida tecnológica, transição energética e desenvolvimento da indústria bélica. Não à toa, o controle destas reservas, sobretudo no Ocidente, se tornou uma obsessão para a administração de Donald Trump.
Segundo o The New York Times, os EUA enviaram em fevereiro uma proposta de acordo bilateral para fornecimento de minerais críticos ao governo brasileiro. Lula não respondeu. Um mês depois, a embaixada dos Estados Unidos realizou em São Paulo o Fórum Brasil-EUA em Minerais Críticos, em parceria com a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham). O evento contou com autoridades do governo estadunidense, que fizeram apelos para os setores público e privado acelerarem a extração de terras raras no país.
O evento contou com a apresentação do Projeto Neves, da Atlas Lithium, voltado para a exploração de lítio em Araçuaí (MG), no Vale do Jequitinhonha. Entre as autoridades destacadas pelos EUA para o evento estava Darren Beattie, assessor sênior para política relacionada ao Brasil no Departamento de Estado de Trump.
Antes de comparecer ao evento, Beattie pretendia fazer uma visita a Jair Bolsonaro, na época preso na Papudinha, em Brasília. A defesa de Bolsonaro pediu para que a visita acontecesse nos dias 16 ou 17 de março, às vésperas do evento sobre terras raras, no dia 18. O assessor teve o visto negado pelo Itamaraty, que afirmou que a visita poderia “configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”.
O evento ocorreu sem Beattie. Dois dias depois, os Estados Unidos fecharam um acordo de investimento com o governo japonês prevendo que as duas nações pretendem investir diretamente nas atividades da Atlas Lithium em Minas Gerais. O acordo foi anunciado durante um encontro na Casa Branca, quando Donald Trump recebeu a primeira-ministra, Sanae Takaichi. A gigante japonesa Mitsui é uma das principais acionistas da Atlas Lithium.
No início de abril, durante discurso em inglês na Conservative Political Action Conference (CPAC), realizado no Texas, o presidenciável Flávio Bolsonaro afirmou em tom de promessa que o Brasil pode se tornar um fornecedor seguro de minerais críticos para os Estados Unidos:
— Brasil e América foram feitos um para o outro. Compartilhamos os mesmos valores judaico-cristãos e temos o que o outro precisa. A América precisa de cadeias de suprimentos seguras para materiais críticos, um parceiro confiável no hemisfério e um mercado enorme para bens e serviços norte-americanos. E o Brasil precisa de três coisas: ajuda para combater os cartéis de drogas transnacionais, investimentos e tecnologia.
Flávio aproveitou para pedir interferência estadunidense nas eleições brasileiras: “Em vez de o governo Biden interferir nas nossas eleições para instalar um socialista que odeia a América, aplicar pressão diplomática por eleições livres e justas baseadas em valores de origem norte-americana. Essa é uma boa mudança de política externa para a região, certo?”.
No plano de governo apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o candidato à presidência pelo PL afirma que pretende explorar os minerais críticos em “parcerias internacionais com todos os países que queiram a cooperação do Brasil, sem preconceitos ou ranços
ideológicos”.
A proposta abre caminho para a exploração de urânio pelo setor privado, rompendo o monopólio estatal estabelecido pela ANM: “O Estado atuará como regulador e coordenador, não como empresário”. Sem dar detalhes, Flávio promete ainda “acelerar o licenciamento e o processo de direitos minerários”.
Durante a viagem de Flávio Bolsonaro, a Atlas Lithium resolveu indicar seu xará, Flávio Rocha, o almirante “sombra” de Jair Bolsonaro, para o Conselho de Administração. Todos os outros conselheiros são remunerados com opção de compra de ações da mineradora, mas o Comitê de Remuneração recomendou que o almirante fosse excepcionalmente pago em dinheiro.
O comitê é presidido por Roger Noriega, ex-secretário para Assuntos do Hemisfério Ocidental de George W. Bush. Rocha passou a integrar um conselho do qual já fazia parte Roger Noriega, que foi embaixador na Organização dos Estados Americanos (OEA) durante o governo Bush. Noriega também preside o Comitê de Remuneração da Atlas, responsável por recomendar o pagamento mensal de R$ 50 mil ao almirante.
A relação de Noriega com o bolsonarismo é anterior à chegada de Rocha à mineradora. Em um texto intitulado “Uma Aliança para Salvar o Hemisfério”, publicado em 2020 para o site RealClear, de orientação trumpista, Noriega afirmava ser urgente que Brasil e Estados Unidos lançassem “uma aliança regional para enfrentar as redes criminosas globais e os regimes que lucram com a desordem”.
Foi quando ela apontou Bolsonaro como o parceiro ideal para Donald Trump nesta missão. Noriega é um importante ideólogo da doutrina que deu origem ao Escudo das Américas, movimento que pretende consolidar a influência dos EUA em todos os continentes americanos, com o pretexto de erradicar o que chamam de “narcoterrorismo”.
O combate ao crime organizado tem servido como principal pretexto para as interferências externas de Donald Trump na América Latina – o que inclui o sequestro internacional e prisão do presidente da Venezuela. Nicolás Maduro e sua esposa Cília Flores estão presos desde janeiro em Nova York, acusados de “narcoterrorismo”.
Na Venezuela, os interesses escancarados são pelo petróleo. No Brasil, Roger Noriega investe em mineração em terras brasileiras pelo menos desde 2013, quando explorava diamantes em Minas Gerais, por meio da Brazil Minerals, antigo nome da Atlas.
Em 2018, segundo o Estadão, Noriega se reuniu com Eduardo Bolsonaro e Marco Rubio a portas fechadas, durante uma visita do ex-deputado federal a Washington. Hoje secretário de Estado de Donald Trump, Rubio tem sido o mais poderoso aliado de Eduardo na articulação de sanções contra o Brasil.
Após o encontro com Rubio e Eduardo, Noriega rasgou elogios para o ex-deputado em entrevista para O Globo: “Ele é um cara excepcional. É muito aberto, muito amigável, é humilde, de um jeito acessível. Eu acho que ele desempenharia um papel muito bom em manter esse contexto informal com as pessoas aqui em Washington”.
Imagem em destaque (Alan Santos/Presidência da República): “sombra” de Jair Bolsonaro, almirante Flávio Rocha entrou em abril no conselho da Atlas Lithium, que prospecta lítio em Minas e urânio – de forma disfarçada – em seis estados.
| Tonsk Fialho é pesquisador e repórter do observatório. |
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