Alvo da Operação Background, da Polícia Federal, conglomerado retransmite a Band em Pernambuco; com dívidas trabalhistas que somam R$ 55 milhões, grupo protagoniza conflitos no campo e teve flagrante de exploração de trabalhadores em fazenda no Maranhão
Por Bruno Stankevicius Bassi
Na manhã desta quinta-feira (05), uma operação conjunta da Polícia Federal (PF), da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e da Receita Federal cumpriu 53 mandatos de busca e apreensão em endereços ligados a empresas e herdeiros do Grupo João Santos. Considerado um dos principais conglomerados industriais de Pernambuco, o grupo possui negócios nas áreas de cimento, cana de açúcar, papel e celulose, transportes e mineração, além de participação majoritária na TV Tribuna, retransmissora da Rede Bandeirantes no estado.
A investigação apura a prática de crimes tributários, financeiros, de fraude à execução e contra a organização do trabalho, além de formação de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Em nota, a PF afirma que os investigados se organizaram “em um sofisticado esquema contábil-financeiro para desviar o patrimônio das empresas do grupo, transferindo-o para os seus sócios e interpostas pessoas (“laranjas”), com a finalidade de elidir tributos e direitos trabalhistas de centenas de empregados”.
O Grupo João Santos possui R$ 8,64 bilhões em débitos tributários — o que equivale a 4,63% do PIB de Pernambuco. Desse total, R$ 55 milhões correspondem a dívidas com funcionários, oriundas de uma condenação pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em 2018. Mas estas não são as únicas infrações trabalhistas que pesam contra o grupo.
Em maio de 2006, uma de suas empresas, a cimenteira Itapicuru Agro Industrial, foi flagrada com 49 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão. O caso ocorrido na Fazenda Terra Nova, em Codó (MA), emplacou o nome do grupo na “lista suja” do trabalho escravo mantida pelo antigo Ministério do Trabalho, hoje uma secretaria vinculada ao Ministério da Economia.
Fundado em 1951 pelo usineiro João Santos, o grupo empresarial que leva seu nome foi, por décadas, uma das principais produtoras de cimento do Brasil. Dono da marca de cimento Nassau e com unidades fabris em dez estados, o conglomerado chegou a manter um faturamento anual de R$ 3 bilhões. Com o falecimento do patriarca em 2009, aos 101 anos, iniciou-se uma disputa intensa entre os herdeiros que, junto à crise no setor cimenteiro, levou o grupo à ruína financeira.
A briga no seio da aristocracia pernambucana levou à produção, em 2018, de um dossiê de 91 páginas encomendado por integrantes da família isolados do comando da empresa. Ele acusava os irmãos Fernando e José Bernardino Santos, presidente e vice-presidente da holding que administra os negócios da família, de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, fraudes à execuções trabalhistas e formação de quadrilha.
Além dos conflitos internos, a saga da família Santos envolve conflitos fundiários. Em Condado (PE), na Zona da Mata, o grupo é dono do Engenho Bonito, uma área canavieira improdutiva de 1.080 hectares que é ocupada desde 1996 pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Diante da morosidade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), as 68 famílias que ocupavam o antigo engenho iniciaram um processo de “auto-assentamento”, passando a sofrer constantes ameaças de despejo pela Companhia Agroindustrial de Goiana, braço sucroenergético do grupo. A iminência do conflito levou integrantes do MST a iniciarem uma greve de fome em 2006, demandando que o imóvel fosse incorporado à reforma agrária.
Durante a gestão de Eduardo Campos (2007-2014), o governo de Pernambuco se comprometeu a comprar a área e destiná-la às famílias camponesas, mas não concluiu o processo, que caducou em 2016 sem que as terras fossem de fato adquiridas. A situação foi regularizada apenas em 2019, com a regularização de 202 hectares que hoje constituem o Assentamento Luiza Ferreira, nome dado em homenagem a Francisca Luiza Ferreira de Souza, coordenadora do MST vítima de feminicídio.
| Bruno Stankevicius Bassi é repórter e coordenador de projetos do De Olho nos Ruralistas. |
Foto principal (Ascom/Câmara de Vereadores de Coelho Neto): protesto de trabalhadores em Coelho Neto (MA), em 2019
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