Flávio Bolsonaro repete em vigília trio elétrico dos atos golpistas
Imagens mostram carro da empresa atrás do senador, durante ato no sábado em apoio ao pai; Trio Coyote foi investigado na CPI dos Atos Antidemocráticos, em 2023, na Câmara Legislativa do DF; permanência no QG do Exército foi financiada por um major da PM e empresários do agronegócio
Por Tonsk Fialho
As imagens da vigília promovida no sábado (22) pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em Brasília, mostram um boneco do ex-presidente Jair Bolsonaro e, atrás deles e dos apoiadores, o carro de um trio elétrico. De Olho nos Ruralistas identificou que a empresa Trios Coyote e Aquarela Produções foi investigada em 2023 pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Atos Antidemocráticos, na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
Flávio Bolsonaro aparece em frente do trio elétrico Coyotinho, em Brasília. (Foto: Reprodução)
O trio elétrico foi contratado por apoiadores de Bolsonaro em pelo menos três ocasiões. Duas delas durante atos antidemocráticos, o que motivou a convocação dos sócios pela CPI. O veículo também foi utilizado durante a campanha para as eleições de 2022, quando Damares Alves (Republicanos-DF) contratou os serviços da empresa e foi eleita senadora.
Três anos depois, Flávio Bolsonaro convocou apoiadores de seu pai para a vigília de orações da seguinte forma: “Você vai lutar pelo seu país ou assistir tudo do celular aí no sofá da sua casa?”. O ato estava marcado para acontecer na sexta-feira, em frente do condomínio Solar de Brasília, na Asa Sul, onde o ex-presidente ainda se encontrava em prisão domiciliar.
Naquela mesma noite, Jair Bolsonaro tentou violar sua tornozeleira com um ferro de solda. O equipamento emitiu um alerta às autoridades, levando à prisão preventiva do ex-presidente na manhã do sábado. No pedido de prisão, o ministro Alexandre de Moraes entendeu que os danos à tornozeleira e a convocatória dos vigilantes eram parte de um plano para possibilitar a fuga de Bolsonaro, possivelmente para uma das embaixadas próximas do condomínio.
O ex-presidente disse inicialmente que tinha sido movido por curiosidade. Depois, afirmou ter tido um episódio de paranoia. Após sua prisão, a vigília foi mantida.
Ao lado de um totem de papelão com a imagem do pai, Flávio Bolsonaro foi às lágrimas ao som de um hino gospel, cercado por políticos aliados como Bia Kicis (PL-DF), Rogério Marinho (PL-RN) e General Girão (PL-RN). Ao fundo, o trio elétrico dava suporte ao evento.
SÓCIOS CONTARAM EM CPI QUEM FINANCIOU O TRIO: UM MAJOR DA PM E O AGRONEGÓCIO
Apelidado de Coyotinho, o trio elétrico usado durante a vigília de Flávio Bolsonaro não é um estreante em manifestações ligadas ao clã. O veículo foi utilizado pelo próprio Jair Bolsonaro no dia 24 de outubro de 2022, dias antes do segundo turno, durante um ato de campanha em assentamento rural próximo de Santo Antônio do Descoberto (GO).
Com a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva, em 31 de outubro, as atenções de Bolsonaro e de seus filhos se voltaram para os acampamentos golpistas montados em frente de unidades das Forças Armadas. Foi justamente em um desses acampamentos, no Quartel-General do Exército Brasília, que o Coyotinho voltou a aparecer, integrando a estrutura fixa usada pelos manifestantes.
Jair Bolsonaro discursa em cima do trio Coyotinho, em Santo Antônio do Descoberto (GO). (Foto: Divulgação)
A presença de veículos da Trios Coyote e Aquarela Produções em atos antidemocráticos levou à convocação dos sócios para depor na CPI dos Atos Antidemocráticos. Entre eles, Rubens Wermem Dornelas de Freitas, o Rubinho. Ele se apresenta nas redes sociais como dono dos trios Coyote e Aquarela, além de presidente do Moto Clube Coyote, em Brasília.
O empresário era frequentador de motociatas pró-Bolsonaro e foi contratado pela ex-ministra Damares Alves em três oportunidades durante a campanha de 2022. Ao todo, essas contratações da antiga titular da pasta da da pasta da Mulher, Família e Direitos Humano, somam R$ 22.750,00, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Segundo o depoimento de Rubinho na Câmara Legislativa do Distrito Federal, a manutenção do Coyotinho no QG do Exército foi bancada por fazendeiros de Goiás e Mato Grosso, além de um major da Polícia Militar do Distrito Federal. Ao lado de dois outros sócios, o empresário teve seu sigilo bancário quebrado no curso das investigações.
Os fazendeiros mato-grossenses não foram identificados no relatório final. De acordo com Rubinho, eles depositaram R$ 20 mil entre 10 e 11 de dezembro de 2022. Os pecuaristas goianos, por outro lado, chegaram a ser presos. São eles: Adauto Lúcio de Mesquita e Joveci Xavier de Andrade, donos da rede Melhor Atacadista e proprietários de 21 fazendas em Goiás. Eles foram detidos em fevereiro de 2024 durante a Operação Lesa Pátria, da Polícia Federal (PF), por fornecerem alimentos, água e banheiros químicos aos acampados.
De acordo com o relatório da senadora Eliziane Gama (PSB-MA) na CPMI do 8 de janeiro, Adauto de Mesquita compareceu à Praça dos Três Poderes em momento posterior ao da invasão, quando pôde conferir o resultado das cenas de vandalismo promovidas pelos acampados. Adauto e Joveci foram citados no relatório “Agrogolpistas“, publicado em junho pelo De Olho nos Ruralistas, como parte da lista de 142 fazendeiros identificados pelo observatório como financiadores dos atos antidemocráticos. O estudo tem também um resumo em vídeo, em nosso canal no YouTube.
O major Cláudio Mendes dos Santos, da Polícia Militar do Distrito Federal, também financiou a presença da empresa de trios elétricos no acampamento. Segundo Rubinho, o major foi responsável por um pagamento de R$ 22 mil para manter um trio no QG. Apontado como um dos articuladores da estrutura montada diante do Exército, ele foi preso na Operação Lesa Pátria e condenado a 17 anos e seis meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por participação na tentativa de golpe de Estado. Segundo a PF, Cláudio seria responsável por ensinar táticas de guerrilha aos golpistas acampados no QG do Exército.
EMPRESA FOI CONTRATADA POR MOVIMENTO LIGADO À APROSOJA
Bolsonaro discursa em trio contratado por movimento ligado à Aprosoja. (Foto: Divulgação)
Em 2021, a Trios Coyote e Aquarela Produções foi contratada pelo Movimento Brasil Verde e Amarelo (MBVA) para os atos de 7 de setembro, em Brasília. Milhares de fazendeiros ligados à associação levaram caminhões e tratores à Esplanada dos Ministérios. Nas faixas, ameaças diretas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e, em particular, ao ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito das fake news.
Capitaneado pelo ex-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Antônio Galvan, o MBVA foi identificado por um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) como principal articulador do financiamento do agronegócio aos bloqueios de rodovias e acampamentos golpistas em 2022.
Galvan já havia sido indiciado no ano anterior pelos crimes de incitação à prática de delito e associação criminosa. No dia de seu depoimento, o líder ruralista debochou das autoridades ao chegar à sede da Polícia Federal em Sinop em um cortejo de tratores, empunhando uma bandeira do Brasil.
Embora Rubens Dornelas se apresente nas redes sociais como dono da empresa, a Trios Coyote e Aquarela Produções está registrada atualmente apenas em nome de Wilmondes Rodrigues Rosa. Em conversa com o De Olho nos Ruralistas, Wilmondes afirmou que foi “apenas motorista” da firma por 23 anos e que vendeu sua parte a Rubens há cerca de dez anos, mas nunca teve o nome retirado do registro.
Ele diz não ter qualquer participação atual na operação do trio. Em 2023, trabalhava como funcionário de um posto de combustíveis, ganhando R$ 2.300,00, e hoje atua como caminhoneiro de carga seca. A reportagem tentou contatar Rubens Dornelas, mas ele não respondeu.
FLÁVIO PROMOVEU, EM VIGÍLIA, MARCA LIGADA À FAMÍLIA BOLSONARO
Durante a vigília realizada no último sábado, aos prantos, Flávio Bolsonaro aproveitou para divulgar uma camiseta da marca Parabello, que tem Jair Bolsonaro e seu filho mais novo, Jair Renan, como sorridentes garotos-propaganda. O modelo exibido pelo senador no sábado, descrito como Camisa Oficial da Direita, no modelo preto-azulado, é um lançamento da marca para a Copa do Mundo de 2026.
Clã Bolsonaro promove venda de itens da marca Parabello. (Imagem: Reprodução)
A camisa chegou a ser anunciada por R$ 280 no site da marca. Atualmente o preço da peça é informado apenas mediante consulta. Não tivemos retorno do atendimento da Parabello antes do fechamento da reportagem.
No site da empresa, a Camisa Oficial da Direita é descrita como “a escolha perfeita para quem deseja expressar sua paixão pelo Brasil com um design sofisticado e cheio de personalidade”. A Parabello afirma ter nascido “para vestir o Brasil de direita, carregando em cada peça o orgulho, a fé e a coragem de um povo que não se dobra”.
Também estão a venda modelos que promovem o lema dos partidários do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: “Make America Great Again”.
A Parabello foi fundada em dezembro de 2024 com capital social de R$ 480 mil. Está registrada em nome do curitibano Marcus Vinicius Varela Ibrahime e possui sede em um endereço de escritório digital na Avenida Paulista, em São Paulo.
Foto principal (Reprodução): Flávio Bolsonaro discursa em frente a trio elétrico Coyotinho
| Tonsk Fialho é pesquisador e repórter do De Olho nos Ruralistas. |
COP30: restauração do Cerrado anunciada pelo BTG Pactual inclui 130 mil hectares de eucalipto
Responsável pelo desmatamento de 1,2 mil hectares, por meio da controlada BRPec, banco de André Esteves assinou parcerias com bigtechs para restauração com espécies exóticas, como eucalipto e pinus; ecologistas alertam para riscos ao solo e bacias hidrográficas
Por Bruno Stankevicius Bassi
O lobby corporativo possui várias facetas. Em eventos como a COP30, ele pode tomar a forma de patrocínios oficiais, organização de eventos paralelos ou alianças com entes públicos e organismos de cooperação internacional. No caso do BTG Pactual, o maior banco de investimentos da América Latina, a estratégia de ação climática acompanha o estilo de seu fundador André Esteves: muita articulação nos bastidores e grandes anúncios para o mercado.
Relatório detalha a captura corporativa da agenda climática
A empresa compõe um dos estudos de caso do relatório “A COP dos Lobbies“, produzido pelo De Olho nos Ruralistas em parceria com a Fase – Solidariedade e Educação. O estudo mapeia a influência crescente de grandes corporações brasileiras e de multinacionais nas negociações e nos espaços de deliberação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Belém.
A lista de empresas analisadas inclui as mineradoras Vale e Hydro, o frigorífico MBRF (Marfrig e BRF), a sucroalcooleira Cosan, a gigante do papel e celulose Suzano e os bancos Itaú e BTG Pactual.
A estratégia do banco de André Esteves para a COP30 começou ainda em 2024, com a assinatura de acordos de remoção de carbono com a Microsoft e a Meta. Funciona assim: para cumprir com os compromissos internacionais de zerar as emissões líquidas de gás carbônico (net zero), as bigtechs precisam “compensar” quaisquer valores excedentes que tenham gerado — ou que venham a gerar — em suas operações. E é aí que entra o BTG, por meio de sua divisão de gestão florestal, a Timberland Investment Group (TIG).
O banco oferece a opção de compra de créditos em áreas que ainda serão reflorestadas — geralmente em zonas degradadas pela atividade agropecuária. O que importa, nesse modelo, é que a empresa que comercializa os créditos tenha a posse das terras. E o BTG tem: desde 2022, o banco adquiriu, por meio da subsidiária TIG, 46 mil hectares no Mato Grosso do Sul, em região de Cerrado.
A Meta, de Mark Zuckerberg, adquiriu junto ao BTG 1,3 milhão de créditos de remoção de carbono, com opção para um adicional de 2,6 milhões de créditos até 2038. A Microsoft, por sua vez, efetuou a maior transação do gênero jamais registrada: contratou 8 milhões de créditos até 2043. Em termos territoriais, o BTG tem a obrigação de restaurar e proteger cerca de 260 mil hectares de Cerrado, em áreas de pastagens degradadas.
Mas há um pulo do gato: o anúncio da negociação com a gigante da tecnologia fundada por Bill Gates diz que apenas 135 mil hectares precisam ser recuperados com espécies nativas. O restante pode receber monoculturas de pinus ou eucalipto, desde que seja em terras desmatadas e degradadas. Ou seja, metade desse estoque de carbono pode ser convertido para uso comercial.
PESQUISADORES ALERTAM PARA RISCOS DA RESTAURAÇÃO COM EUCALIPTO
Os contratos do BTG são supervisionados pela ONG estadunidense Conservação Internacional (CI). Um artigo publicado no site da iniciativa de restauração Nova Mata, cita um depoimento do conselheiro de impacto da CI, Will Turner, que justifica o uso de espécies exóticas no Cerrado por seu potencial de ajudar o crescimento de espécies nativas.
Monocultura de eucalipto no Cerrado mineiro. (Foto: Reprodução)
“É fácil fazer um julgamento rápido sobre o plantio de espécies exóticas em qualquer lugar fora de sua área de distribuição, como o eucalipto da Austrália”, afirma Turner. “Mas não é por meio de um julgamento precipitado que resolveremos as mudanças climáticas e salvaremos a biodiversidade. Precisamos testar o que realmente funciona. Esse é um compromisso muito sério para melhorar a maneira como gerenciamos a natureza em propriedades privadas”.
O uso de eucalipto e pinus para restauração florestal tem se proliferado no Brasil, especialmente a partir da regulamentação do mercado de créditos de carbono. A justificativa é que essas espécies crescem mais rápido que a vegetação nativa, fornecendo sombra e nutrientes para que as plantas nativas vençam a barreira da braquiária, capim africano que se popularizou na pecuária.
Ecologistas especializados em Cerrado contrariam essa visão. A pesquisadora Giselda Durigan, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), alerta, em entrevista para o MIT Technology Review, sobre os riscos do uso de árvores exóticas no bioma, cujo solo não suporta um volume tão grande de biomassa. O risco hídrico também é uma preocupação, devido ao alto consumo de água dessas espécies — em particular, do eucalipto — ameaçando as bacias hidrográficas da região.
“Eles estão usando o discurso do carbono como mais um argumento para dizer que os negócios estão ótimos”, disse Durigan. “Eles estão felizes em ser vistos como os mocinhos”.
Independente das críticas, o BTG continua anunciando parcerias de restauração com base em espécies exóticas. Em 6 de novembro, às vésperas da COP30, o banco anunciou um projeto com o grupo sueco Ikea para restaurar 4 mil hectares de pastagens degradadas de Mata Atlântica através do manejo de pinus. Meses antes, em maio, o BTG assinou uma parceria com a Apple para implementar projetos de restauração com eucalipto no Cerrado.
BANCO FOCA EM PARCERIA COM BIGTECHS E “COP DOS INVESTIMENTOS”
Em agosto de 2025, a três meses do início da COP30, o BTG Pactual anunciou uma parceria com a Corporação Financeira Internacional (IFC, na sigla em inglês), braço de investimentos do Banco Mundial, para a alocação de US$ 1 bilhão em investimentos conjuntos e de terceiros para impulsionar iniciativas de sustentabilidade e desenvolvimento no Brasil e América Latina, até 2028.
Banco de André Esteves focou em grandes anúncios antes da COP30. (Remy Steinegger/WEF)
Em setembro, mais um anúncio. A Coalizão Financeira para Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRB Finance Coalition), fundada um ano antes pelo BTG e outras 11 empresas e organizações do terceiro setor — incluindo a própria Conservação Internacional —, declararam ter garantido US$ 4,5 bilhões para projetos de restauração florestal e bioeconomia. O valor representa 45% da meta de US$ 10 bilhões estabelecida até 2030.
Segundo o site da coalizão, seus membros possuem, juntos, 3,65 milhões de hectares de áreas restauradas ou em processo de restauração — uma área superior ao território da Bélgica. Além do BTG, fazem parte da iniciativa a Suzano, o Fundo Vale, o Instituto Itaúsa e o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebeds).
O banco de André Esteves é patrocinador da World Climate Summit, um evento paralelo às conferências da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, em inglês). Iniciado em 2010, durante a COP16, na Cidade do México, o encontro ficou conhecido como “COP dos Investimentos”. No Brasil, ele será organizado pela World Climate Foundation em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (ICs) — que, por sua vez, atua junto ao BTG no BRB Finance Coalition.
A principal porta-voz do BTG para o evento climático tem sido a sócia-diretora Mariana Oiticica, responsável pela área de ESG e Investimentos de Impacto do banco. Foi ela quem representou Esteves na conferência global pré-COP, nos dias 7 e 8 de novembro, no Rio de Janeiro.
SUBSIDIÁRIA DESMATOU 1,2 MIL HECTARES DE MATA ATLÂNTICA
Do outro lado dos mecanismos de finanças verdes e créditos de carbono, o BTG Pactual possui uma atuação muito menos conhecida. O banco de André Esteves é dono de pelo menos uma dezena de empresas agropecuárias. Parte delas, no entanto, está registrada não em nome do BTG, mas de membros do conselho e executivos sênior da empresa.
É o caso da BRPec Agropecuária Ltda, que tem como sócios Antonio Carlos Canto Porto Filho, vice-presidente sênior do BTG; Fernanda Stallone Palmeiro, secretária executiva; Luciane Ribeiro Monteiro, head de parcerias; Gustavo dos Santos Vaz, conselheiro da PPLA Participations, veículo de investimentos internacionais do grupo; e Cleber Gonçalves e Silva, o único com dedicação exclusiva como gerente de contabilidade da própria BRPec.
Controlada do BTG Pactual assinou TAC por desmatamento ilegal de 1,2 mil hectares. (Nugeo/MPMS)
Em 2020, o De Olho nos Ruralistas mostrou que a agropecuária ligada a André Esteves foi autuada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em R$ 54,5 milhões por “destruir 9.909,07 hectares de fragmentos de vegetação nativa do bioma Mata Atlântica, considerada objeto de especial preservação, sem licença da autoridade ambiental competente”. A infração foi apurada em 5 de dezembro de 2018, na Fazenda Cristo Redentor, localizada entre os municípios de Miranda e Corumbá (MS). Apesar da categorização como Mata Atlântica, a área autuada é tão grande que engloba zonas de transição com o Pantanal. O Ibama emitiu ainda uma segunda multa, no valor de R$ 3,5 milhões, pela supressão de outros 500,16 hectares de vegetação nativa. Trata-se da maior infração por desmatamento registrada naquele ano e uma dos maiores já lavradas pelo Ibama.
Logo na sequência, o Ministério Público do Mato Grosso do Sul (MPMS) instaurou um inquérito civil contra a BRPec para apurar as informações. Um novo laudo foi emitido pelo Núcleo de Geotecnologias do MPMS, constatando que o desmatamento ilegal se restringiu a uma área de 1.151,28 hectares. As multas aplicadas pelo Ibama foram canceladas e a empresa assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), onde se comprometia a reflorestar a vegetação de Mata Atlântica que havia sido destruída e a pagar de uma indenização de R$ 100 mil — menos de 0,2% do valor inicialmente lavrado pelo Ibama. O procedimento foi arquivado após o cumprimento do acordo, em 30 de setembro de 2021.
Apesar de enorme, a área suprimida pela BRPec corresponde a uma pequena fração da propriedade: ao todo, a Fazenda Cristo Redentor possui 132.660,89 hectares. Um verdadeiro latifúndio: cinco vezes maior que a área urbana da capital Campo Grande e quase do tamanho de São Paulo, o maior município da América Latina. O imóvel chegou às mãos da BTG em 2012, comprada do pecuarista José Carlos Bumlai como forma de abater suas dívidas com o banco. Um ano e meio depois, a empresa repassou a Cristo Redentor para a BRPec.
Bumlai e Esteves foram presos em 2015, durante as investigações da Operação Lava Jato, com apenas algumas horas de diferença entre um e outro. Bumlai ficou conhecido nacionalmente durante o governo Lula, em razão de suspeitas de que teria sido favorecido economicamente por ser próximo do presidente. O pecuarista acumula R$ 1,7 milhão em multas por destruição da flora em Corumbá, além de ter protagonizado um conflito contra os Guarani Kaiowá do Tekohá Apyka’i, em Dourados (MS). Bumlai foi condenado em primeira instância, pelo então juiz federal Sérgio Moro, a 9 anos e 10 meses de prisão, acusado de intermediar vantagens indevidas do Grupo Schahin em negociações com a Petrobras.
O banqueiro André Esteves foi investigado com base nas delações do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, por supostos atos de corrupção envolvendo a Petrobras. Em um dos casos, o Ministério Público Federal resolveu não denunciá-lo por falta de provas. Em outro, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou os mandados de busca e apreensão contra ele por considerá-los constrangimento ilegal. Os processos da Lava Jato contra os dois empresários foram anulados em 2021.
BANCO DE ANDRÉ ESTEVES MANTÉM CONTRATOS COM AGROGOLPISTAS
Além da BRPec, a BTG é dona de outra empresa agropecuária: a trader de grãos Engelhart CTP Brasil, conhecida como BTG Pactual Commodities, com sede em Londres. De Olho nos Ruralistas revelou, em junho de 2025, que a comercializadora possui contratos de compra de soja— a vencer em 2034 — com dez fazendeiros implicados nas investigações sobre os atos antidemocráticos realizados pela extrema direita entre outubro de 2022 e o fatídico 8 de janeiro de 2023, quando milhares de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro saquearam a Praça dos Três Poderes, em Brasília, tentando provocar um golpe de Estado pelas Forças Armadas.
Agrogolpistas: relatório consolida 142 nomes de empresários do agronegócio que apoiaram tentativa de golpe
A informação consta em um documento do próprio BTG que, em 2024, emitiu R$ 8,5 bilhões em Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCA) junto a fornecedores. Um dos fornecedores é Argino Bedin, chamado de “pai da soja” em Sorriso (MT) e um dos personagens centrais do dossiê “Agrogolpistas”, que mapeou 142 empresários do agronegócio que atuaram no suporte logístico ou financeiro a atos golpistas. Segundo um relatório da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), membros da família Bedin eram proprietários de quinze caminhões fichados no Quartel-General do Exército em Brasília — de onde saiu a passeata que culminou no quebra-quebra de 8 de janeiro.
A relação do BTG com o agronegócio também se dá por meio de investimentos diretos. Com um valor de mercado estimado em R$ 181,7 bilhões, é o maior banco de investimentos da América Latina e a segunda maior instituição financeira do Brasil, atrás apenas do Itaú.
Em 2021, o banco de Esteves e a XP Investimentos se juntaram para estruturar a venda de R$ 670 milhões em ações da BrasilAgro. O que não fosse comprado por terceiros, seria absorvido pelas duas instituições como participação societária. Maior imobiliária agrícola do país, a BrasilAgro atua na aquisição, exploração e comercialização de propriedades rurais, com 273,5 mil hectares em fazendas próprias no Brasil — em seis estados do Cerrado —, além de Bolívia e Paraguai. A empresa é frequentemente associada a casos de desmatamento no Matopiba, uma região de fronteira agrícola que atravessa partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
No mesmo ano, uma investigação da Agência Pública mostrou, a partir de documentos oficiais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que a BrasilAgro agia como intermediária de investidores argentinos e estadunidenses para driblar, de forma ilegal, as restrições à compra de terras por estrangeiros. O BTG Pactual não respondeu à reportagem.
Foto principal (Divulgação/BTG): banco de André Esteves financia restauração do Cerrado com eucalipto
| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de pesquisas do De Olho nosRuralistas. |
COP30: denunciada na OCDE, Bayer organiza debate sobre “melhores práticas” em direitos humanos
Relatório “A COP dos Lobbies” mostra como empresas usam a conferência climática em Belém para lavar imagem ambiental; gigante alemã dos agrotóxicos foi denunciada em 2024 por violar direitos de comunidades rurais na Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai
Por Bruno Stankevicius Bassi
A fabricante de agrotóxicos e sementes transgênicas Bayer organizará, durante a COP30, um debate com o tema “Multiplicando as melhores práticas em direitos humanos na agropecuária”. Realizado em parceria com a rede empresarial Pacto Global, o evento ocorrerá no dia 14 de novembro, às 10h, no auditório 1 da AgriZone — espaço patrocinado pela gigante alemã.
Relatório detalha a captura corporativa da agenda climática
Em 2024, uma coalizão formada por seis organizações — entre elas, a brasileira Terra de Direitos — elaborou uma denúncia pública contra a fabricante do glifosato por violações contínuas cometidas contra comunidades tradicionais na Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai. O documento apresentado à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que a Bayer e suas filiais violam suas diretrizes de conduta responsável ao contribuir para a expansão de cultivos transgênicos e o uso irresponsável de agrotóxicos.
A empresa enfrenta uma onda de ações judiciais em tribunais nos Estados Unidos. Segundo a agência Reuters, a Bayer já empenhou cerca de US$ 10 bilhões em disputas judiciais por contaminação envolvendo produtos à base de glifosato. O valor já corresponde a 16% do total gasto na aquisição da Monsanto, concluída em 2018, por US$ 63 bilhões.
Essa disparidade entre as narrativas e as práticas do setor privado em relação à sustentabilidade são o tema central do relatório “A COP dos Lobbies“, lançado na segunda-feira (10). Produzido pelo De Olho nos Ruralistas em parceria com a Fase – Solidariedade e Educação, o estudo mapeia a influência crescente de grandes corporações brasileiras e de multinacionais nas negociações e nos espaços de deliberação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Belém.
Além da Bayer, a lista de empresas analisadas inclui as mineradoras Vale e Hydro, o frigorífico MBRF (Marfrig e BRF), a sucroalcooleira Cosan, a gigante do papel e celulose Suzano e os bancos Itaú e BTG Pactual.
LOBBY DOS AGROTÓXICOS TEM ESPAÇO GARANTIDO NA COP
A estratégia da Bayer para a COP30 passa por múltiplas frentes. Segundo a Repórter Brasil, a fabricante do glifosato desembolsou R$ 1 milhão para patrocinar a AgriZone, um espaço paralelo idealizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para ser a sede do agronegócio durante a cúpula. Montada na unidade Amazônia Oriental, a 1,8 km dos pavilhões oficiais da Blue Zone e Green Zone, a AgriZone abriga auditórios e salas de reunião, além de servir de sede provisória para o Ministério da Agricultura.
Além da Bayer, também patrocinam a AgriZone a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), as duas organizações que comandam desde 2021 o Instituto Pensar Agro — think tank responsável por escrever as proposições antiambientais defendidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Entre os grupos que financiaram o espaço estão a suíça Nestlé, a sucroalcooleira francesa Tereos e a Fundação Bill & Melinda Gates.
Casa Bayer: espaço paralelo receberá palestras e workshops durante a COP30. (Divulgação/Bayer)
A AgriZone não é a única casa da Bayer em Belém. A empresa anunciou em junho que reformaria um casarão centenário na Avenida Nazaré, a poucos metros de onde acontece o Círio, para sediar suas atividades durante a cúpula climática. Inaugurado em 1925 pelo Barão de Guajará, o casarão é um marco do estilo eclético e abriga uma casa de cultura, com cursos e atendimento psicossocial para pessoas em situação de vulnerabilidade. Durante os dias da COP30, ela recebe o lobby dos agrotóxicos.
A empresa também atua por meio da CropLife, associação formada por 52 fabricantes de agrotóxicos, sementes transgênicas e bioinsumos. Assim como a CNA e a OCB, patrocinadoras da AgriZone, a CropLife é uma das organizações mantenedoras do Instituto Pensar Agro — e, portanto, da bancada ruralista.
Para a COP30, a associação vem organizando uma série de workshops em parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), órgão vinculado à Organização dos Estados Americanos (OEA). Os encontros são apoiados pela Embrapa e pelo “enviado especial” de Agricultura para a COP30, o ex-ministro Roberto Rodrigues.
Nomeado pelo presidente da COP, o diplomata André Corrêa do Lago, Rodrigues foi o principal responsável por introduzir no Brasil o conceito de “agronegócio”, importado do agribusiness estadunidense. Ele é reconhecido como um dos principais ideólogos do setor — senão “o” principal. Foi ministro da Agricultura durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006) e ajudou a fundar a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), mais uma integrante do Pensar Agro e mantenedora da FPA.
Para a COP30, Roberto Rodrigues quer emplacar o conceito de “agricultura tropical sustentável”, uma versão 2.0 da Revolução Verde. Segundo ele, o Brasil deve aproveitar a cúpula para ofertar um novo pacote tecnológico aos países do sul global, integrando noções corporativas de sustentabilidade, agricultura de precisão, inteligência artificial, fomento a bioinsumos e defesa da propriedade intelectual em sementes. As bases dessa estratégia foram consolidadas em um documento intitulado “Agricultura Tropical Sustentável: Cultivando Soluções para Alimentos, Energia e Clima”, apresentado por Rodrigues à diretoria da FPA em 28 de outubro.
O discurso vem sendo reproduzido pela CropLife, que tratará do tema em quatro palestras realizadas na AgriZone, durante o período da COP, e pela Bayer, que anunciou em agosto uma parceria com o IICA para avançar em ações vinculadas com “carbono em milho e soja” e a promoção da “agricultura sustentável” nas Américas.
Integrantes do MST protestam em frente à Agrizone. (Priscila Ramos/MST)
POR TRÁS DO LOBBY, COMUNIDADES CONTAMINADAS
A denúncia apresentada à OCDE pelo Centro Europeu de Direitos Humanos e Constitucionais (ECCHR, na sigla em inglês) documenta uma série de violações cometidas contra comunidades tradicionais no Cone Sul.
No Brasil, a coalizão cita o caso de três comunidades do povo Avá Guarani — Pohã Renda, Y’Hovy e Tekoha Ocoy, todas no oeste do Paraná —, cercadas por monoculturas de soja que utilizam herbicidas à base de glifosato fabricados pela Bayer, com a marca Roundup. Os indígenas relatam graves impactos à saúde, contaminação de nascentes, perda de acesso às terras tradicionais e o uso de agrotóxicos como instrumento de guerra química para expulsar as comunidades através da pulverização aérea sobre as aldeias.
Comunidades Avá Guarani no Paraná sofrem contaminação por glifosato. (Cimi Sul)
Cruzando a tríplice fronteira rumo à Argentina, a denúncia cita a comunidade de Villa Alicia, na zona periurbana de Buenos Aires. Moradores do bairro foram contaminados por agrotóxicos, resíduos de glifosato e ácido aminometilfosfônico (Ampa) foram detectados em amostras de solo, água e sedimentos. O caso levou à abertura de ação criminal contra sojicultores da região, que adquiriam sementes Intacta RR2 e herbicidas da Bayer.
No Paraguai, as colônias agrícolas de Yeruti e Yvypè, localizadas entre os departamentos (estados) de Caaguazú, San Pedro e Canindeyú, veem-se cercadas pela soja e relatam casos recorrentes de intoxicação, contaminação d’água e de roças familiares, além de conflitos fundiários com os fazendeiros. Em 2011, a morte do agricultor Rubén Portillo Cáceres, por exposição a pesticidas, gerou ampla repercussão nacional e internacional.
A denúncia cita ainda casos de contaminação no departamento de Santa Cruz, na Bolívia, uma região de forte expansão agrícola, onde o cultivo de soja transgênica tolerante ao glifosato tem causado desmatamento, degradação do solo e degradação dos recursos hídricos locais. Esse processo resultou em deslocamento de populações camponesas e indígenas e na perda de modos de vida tradicionais.
Em resposta ao relatório submetido à OCDE, a Bayer afirma que os reclamantes não substanciam a afirmação de que a empresa causou diretamente as violações de direitos humanos e ambientais listadas. Afirma ainda que não trabalha mais com a comercialização de sementes transgênicas nesses mercados e que não violou as diretrizes da OCDE. O processo encontra-se em tramitação.
A empresa também respondeu, de forma sucinta, aos dados do relatório “A COP dos Lobbies“:
— O combate às mudanças climáticas requer esforços coletivos de toda a cadeia. A Bayer historicamente tem sustentabilidade como um dos seus principais pilares estratégicos e contribui globalmente com soluções inovadoras e iniciativas ligadas à agricultura, saúde, transição energética e sistemas alimentares sustentáveis. Na COP, estaremos, portanto, envolvidos nas discussões sobre soluções embasadas em ciência na luta contra as mudanças climáticas.
De Olho nos Ruralistas e Fase lançam estudo sobre lobbies na COP30
Relatório “A COP dos Lobbies” analisa a atuação de oito empresas brasileiras e multinacionais, identificando casos de greenwashing e de uso da conferência do clima em Belém como balcão de negócios “verdes”
Por Alceu Luís Castilho e Bruno Stankevicius Bassi
Relatório detalha a captura corporativa da agenda climática.
O observatório De Olho nos Ruralistas e a Fase – Solidariedade e Educação lançam nesta segunda-feira (10) o relatório “A COP dos Lobbies”. O estudo mapeia a influência crescente de grandes corporações brasileiras e de multinacionais nas negociações e nos espaços de deliberação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que começa hoje em Belém (PA).
A lista de empresas analisadas inclui as mineradoras Vale e Hydro, o frigorífico MBRF (Marfrig e BRF), a sucroalcooleira Cosan, a gigante do papel e celulose Suzano, a fabricante de agrotóxicos e sementes transgênicas Bayer e os bancos Itaú e BTG Pactual.
Ao longo de 94 páginas, “A COP dos Lobbies” detalha como corporações com extensos passivos ambientais instrumentalizam o discurso da sustentabilidade corporativa e da transição verde. Essa instrumentalização se dá por meio de ações de marketing, patrocínio a veículos de imprensa e financiamento de espaços paralelos na COP — muitas vezes em parceria com ministérios, estatais e o governo do Pará, os mesmos órgãos responsáveis por fiscalizar a atuação dessas empresas.
O trabalho será divulgado durante a COP30, em um ciclo de debates na Cúpula dos Povos, evento internacional organizado por movimentos sociais, povos indígenas e organizações ambientais, que ocorre paralelamente à agenda oficial da Blue Zone e Green Zone.
Paralelamente, De Olho nos Ruralistas produziu um vídeo de 24 minutos com os principais destaques do relatório, disponível em no canal do observatório no YouTube. Confira abaixo:
EMPRESAS FINANCIAM “COP PARALELA” EM ESPAÇOS PRIVADOS
A pesquisa se baseia em análise documental e discursiva de materiais institucionais, campanhas e relatórios empresariais; monitoramento de investimentos, patrocínios e participação em eventos preparatórios para a COP30; e levantamento de dados públicos (tribunais de justiça, Ibama, Comissão de Valores Mobiliários, Tribunal Superior Eleitoral, relatórios de organizações internacionais, artigos científicos e reportagens publicadas na imprensa).
Desde seu surgimento, em 1995, na esteira da Rio-92, as COPs se mantiveram no fio da navalha entre o lobby corporativo e a pressão de cientistas e ambientalistas por compromissos imediatos para restringir as emissões de gases do efeito estufa e conter as mudanças climáticas.
Mais de trinta anos se passaram até o retorno ao Brasil, onde tudo começou. Agora, o agronegócio e a mineração não só disputam espaço nas agendas oficiais, como também conduzem os debates com espaços próprios e estrutura milionária. Será da AgriZone, financiada pela Bayer, que sairão as metas brasileiras para a redução das emissões de CO₂? Ou da Estação do Desenvolvimento, patrocinada pelas mesmas empresas que lideraram o lobby pela implosão do licenciamento ambiental no Brasil?
As corporações que hoje apresentam planos ousados de reflorestamento e descarbonização serão cobradas por seus passivos ambientais? E pela violação de direitos de indígenas, quilombolas, ribeirinhos e camponeses — os verdadeiros defensores da natureza?
O relatório conclui reforçando a urgência de fortalecer mecanismos de transparência, controle social e regulação do lobby empresarial nos fóruns ambientais globais. A captura empresarial da pauta climática não pode passar despercebida pelo público.
De Olho nos Ruralistas e Fase consideram que as comunidades tradicionais acabam sendo relegadas a espaços secundários e são obrigadas a fazer pressão para serem lembradas e ouvidas. Quando deveriam estar no centro do debate, ao lado de cientistas comprometidos com a ecologia, em vez do capital.
Patrocinada pela Bayer, Agrizone será uma das “casas” do agronegócio durante a COP30.
PATROCÍNIO DE MÍDIAS, COALIZÕES EMPRESARIAIS E MUITO MAIS
Em outubro de 2022, De Olho nos Ruralistas e Fase publicaram um dossiê chamado “O agro não é verde: como o agronegócio se articula para parecer sustentável”. O estudo mapeou as narrativas sobre mudanças climáticas adotadas por 12 organizações associadas ao Instituto Pensar Agro (IPA) — centro de lobby responsável por fornecer apoio logístico e legislativo à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a face institucional da bancada ruralista no Congresso.
Patrocínio à cobertura midiática da COP30 é uma das estratégias identificadas no relatório.
Pensado como uma continuação a esse trabalho, o relatório “A COP dos Lobbies” foca em oito grupos econômicos — Bayer, BTG Pactual, Cosan, Itaú Unibanco, MBRF Global Foods (Marfrig e BRF), Norsk Hydro, Suzano e Vale —, selecionados por sua participação em iniciativas e coalizões climáticas, patrocínio a eventos preparatórios da COP30 e por sua representatividade no setor de atuação. As corporações analisadas no relatório financiam campanhas institucionais e educativas, séries audiovisuais e reportagens patrocinadas para se apresentar como protagonistas da “transição verde”.
O estudo mostra que articulações como a Sustainable Business COP30 (SBCOP) — liderada por ex-executivos da Raízen/Cosan —, a Climate Action Solutions & Engagement (C.A.S.E.) e o Brazil Restoration and Bioeconomy (BRB) Finance Coalition exemplificam a institucionalização do lobby empresarial dentro das negociações climáticas. Entre seus patrocinadores estão Itaú e Vale — presentes nas três articulações —, BTG Pactual, Marfrig/MBRF, Hydro e Suzano.
Outro destaque do relatório é o patrocínio à imprensa. Cinco das oito corporações analisadas financiaram as coberturas jornalísticas de veículos de mídia para a COP30. Cinco grandes grupos de comunicação do Brasil — Globo, Folha, Estadão, CNN e Liberal — foram contemplados com patrocínios de empresas com passivos ambientais amplamente conhecidos, levantando questionamentos sobre isenção e ética jornalística. Além do apoio direto, Itaú e Norsk Hydro financiaram treinamentos para profissionais de imprensa que irão cobrir a COP30, incluindo o patrocínio de press trips e delegações visitando projetos ambientais apoiados pelas duas empresas.
Votos que livraram Eduardo Bolsonaro de cassação saíram da bancada ruralista
Dos onze votos contrários à cassação do filho do ex-presidente, onze foram de integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária, entre eles o diretor Domingos Sávio (PL-MG); membro da FPA, Eduardo não comparece a uma sessão da Câmara desde 13 de março
Por Bruno Stankevicius Bassi
O Conselho de Ética da Câmara se reuniu nesta quarta-feira (22) para votar o pedido de cassação contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o filho 03 do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por crimes contra a democracia. Dominado por integrantes do Centrão e da extrema direita, o conselho arquivou o pedido por 11 votos a 7.
Filho de Bolsonaro está nos Estados Unidos desde março. (Foto: Instagram)
Desde que fugiu para os Estados Unidos, alegando perseguição política, Eduardo está há 224 dias sem comparecer à Câmara. Sua última presença em plenário ocorreu em 13 de março. Ao todo, o parlamentar acumula 36 ausências não justificadas em sessões deliberativas, quase duas vezes além do limite de um terço exigido para abertura de cassação.
Todos os votos favoráveis a Eduardo Bolsonaro saíram de deputados filiados à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a face institucional do lobby ruralista no Congresso. Entre os aliados de Eduardo Bolsonaro, há ruralistas da velha guarda, como Domingos Sávio (PL-MG), coordenador de Defesa Agropecuária e ex-vice-presidente da frente.
A lista inclui outros nomes relevantes da FPA, como Delegado Fabio Costa (PP-AL) e Gustavo Gayer (PL-GO), integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 2023; Cabo Gilberto Silva (PL-PB), ligado ao lobby do setor sucroenergético; e o delegado Paulo Bilynskyj (PL-SP), que vem atuando pela revisão de menções negativas ao agronegócio em livros escolares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
A relação de ruralistas que votaram pelo arquivamento do pedido de cassação inclui ainda Albuquerque (Republicanos-RR), Delegado Marcelo (União-MG), Fausto Jr. (União-AM), Gilson Marques (Novo-SC), Gutemberg Reis (MDB-RJ) e Julio Arcoverde (PP-PI).
EDUARDO BOLSONARO TEM RELAÇÃO INSTÁVEL COM LÍDERES RURALISTAS
Membro da Frente Parlamentar da Agropecuária desde 2019, Eduardo Bolsonaro possui um histórico conturbado com a cúpula da bancada. Em março de 2020, diante da detecção dos primeiros casos de Covid-19 ao Brasil, ele acusou publicamente a China de fabricar o vírus, gerando uma crise diplomática com o principal mercado para as exportações do agronegócio. O deputado Alceu Moreira (MDB-RS), então presidente da FPA, saiu em defesa do parceiro asiático, dizendo que “declarações isoladas” de integrantes não representavam as opiniões da frente ruralista.
Nos anos seguintes, o filho 03 de Bolsonaro se dedicou a consertar a relação. Em 2022, ele atuou junto à presidência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para livrar fazendeiros investigados por grilagem no Projeto de Assentamento (PA) Tapurah/Itanhangá, no norte de Mato Grosso. Entre os acusados, figurava o então vice-presidente da FPA, Neri Geller (PP-MT). Em março de 2025, semanas antes de fugir para os Estados Unidos, Eduardo foi nomeado pelo PL para a Comissão de Relações Exteriores da Câmara, sob a promessa de pautar temas agrários.
Eduardo Bolsonaro atacou Tereza Cristina após a senadora descartar sua candidatura à presidência em 2026. (Foto: Agência Câmara)
A relação voltou a azedar em julho, após o presidente estadunidense Donald Trump decretar uma sobretaxa de 40% às importações de produtos brasileiros, elevando a tarifa total para 50% — a mais alta do mundo, ao lado da Índia. O deputado chamou para si a responsabilidade do tarifaço, justificado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos em virtude da “perseguição” do ministro Alexandre de Moraes contra Jair Bolsonaro. O país também aplicou a Lei Magnitsky, originalmente pensada como sanção a violadores de direitos humanos, contra Moraes e outros ministros do Supremo Tribunal Federal.
A reação da FPA foi dúbia. Em entrevista ao Poder 360, o presidente da frente, Pedro Lupion (PP-PR), buscou se desvincular de Eduardo Bolsonaro, afirmando que ele “age individualmente”. Ao mesmo tempo, o deputado paranaense classificou a fuga do colega como “exílio” e disse que ele estaria “cumprindo seu papel”. As críticas foram reservadas ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Tentando viabilizar seu nome como pré-candidato para a disputa presidencial em 2026, Eduardo lançou ataques contra a vice-presidente da FPA, Tereza Cristina (PP-MS). O motivo? Uma declaração dada pela ex-ministra de Jair Bolsonaro descartando a viabilidade de uma candidatura do filho 03. Contexto: a líder ruralista é a favorita para vice na chapa que vem sendo construída pelo Centrão, seja com Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) ou com Ratinho Júnior (PSD-PR).
Imagem em destaque (WikiCommons): Eduardo Bolsonaro em discurso na conferência CPAC, nos Estados Unidos
| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de pesquisa do De Olho nos Ruralistas. |
Observatório inicia investigação inédita sobre os parlamentares e seus lobbies
Um ano antes do primeiro turno, De Olho nos Ruralistas inicia cobertura eleitoral esmiuçando as conexões entre poderes público e privado no Congresso; primeiras reportagens tratam do presidente da Câmara, Hugo Motta
Por Bruno Stankevicius Bassi
Série irá explorar conexões entre os setores público e privado.
Qual a relação entre os parlamentares e as empresas? Como os megaempresários influenciam o Congresso? E o que eles ganham em troca?
De Olho nos Ruralistas inaugura, um ano antes das eleições, uma cobertura especial chamada De Olho nos Lobbies. Durante 12 meses, o observatório investigará as relações entre empresas e parlamentares. Serão dezenas de vídeos, reportagens e relatórios, revelando as conexões pouco republicanas que ocorrem entre os setores público e privado.
O primeiro vídeo da série, publicado hoje (16) em nosso canal no YouTube, trata das relações entre o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), com a indústria farmacêutica. Sua esposa, Luana Medeiros Motta, foi sócia do principal lobista da Blau Farmacêutica, empresa beneficiada em contratos superfaturados de remédios que o deputado paraibano ajudou a blindar, como relator, em 2017.
Assinados pelo ex-ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP-PR) — hoje deputado e aliado de Motta — esses contratos se referiam à compra emergencial de medicamentos utilizado no tratamento de pacientes com câncer, insuficiência renal e hepatite C.
Confira o vídeo para saber mais:
AGRONEGÓCIO, MINERAÇÃO, FARMACÊUTICAS, BETS E MUITO MAIS
Ao longo de nove anos, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) foi e continua sendo um dos principais temas deste observatório. A equipe do De Olho nos Ruralistas monitora diariamente as ações da bancada ruralista. Tanto de sua face institucional — a FPA, seus deputados e senadores — quanto de sua face oculta, o Instituto Pensar Agro (IPA), responsável pela interação com o setor privado.
Série investigará múltiplos setores, mostrando como eles atuam para garantir seus interesses no Congresso.
Um concerto de lobbies que vai do eucalipto ao biodiesel. Do café aos agrotóxicos. Passando pela poderosa Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja). Essa que, nos últimos anos, tornou-se alvo do Supremo Tribunal Federal (STF) pela participação de seus executivos na organização e financiamento de atos antidemocráticos, conforme relatamos no dossiê “Agrogolpistas“, publicado em junho deste ano.
Já falamos de alguns dos parlamentares que compõem a FPA e de suas relações com o empresariado na editoria De Olho no Congresso, disponível em nosso canal no YouTube desde agosto de 2021. Entre eles, o capixaba Evair de Melo (PP-ES), que defende não apenas um, mas cinco setores do agronegócio — incluindo a empresa Caliman Agrícola, uma das maiores exportadoras de mamão do Brasil, pertencente à família de sua esposa. Ou ainda Nikolas Ferreira (PL-MG), cuja lista de doadores de campanha inclui donos de madeireiras e mineradoras em conflito com comunidades indígenas e quilombolas.
Desta vez iremos além. De Olho nos Lobbies falará de mineração, de farmacêuticas, de bancos, de bets e muito mais. Esses setores não estão isolados do território. Eles geram impactos nos rios, no ar, no solo e nas comunidades tradicionais — essas que raramente se veem representadas no Congresso. E costumam estar intimamente ligados ao agronegócio, seja quando os donos dessas empresas investem em fazendas ou empresas agropecuárias, ou pela articulação junto à bancada ruralista para flexibilização de regras ambientais, como no PL da Devastação.
INTERATIVIDADE COM O PÚBLICO SERÁ DIFERENCIAL DA SÉRIE
Pela primeira vez no observatório, De Olho nos Lobbies será uma campanha interativa e aberta à participação do público. Nossos leitores e espectadores poderão enviar informações sobre os deputados e senadores de sua região para os nossos contatos ou pedir temas específicos. As sugestões podem ser enviadas para o email contato@deolhonosruralistas.com.br ou através de nossas redes sociais.
A proposta tem como objetivo acumular o máximo de informações para que, em outubro de 2026, cheguemos com um volume substancial de dados sobre um dos grandes nós da democracia brasileira.
Confira abaixo o vídeo da campanha De Olho nos Lobbies:
Imagem em destaque (De Olho nos Ruralistas): campanha mostrará os bastidores das relações entre o setor público e o privado
| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de pesquisa do observatório. |
Prefeito amigo de Tarcísio emprega irmã de Maribel Golin, a pecuarista investigada por relação com PCC
Assim como o governador, Jeferson Brun pertence ao Republicanos e tem origem militar; Maristela Schmitz entrou na prefeitura em cargo de comissão e ocupa a suplência de dois conselhos municipais; Tarcísio diz que não conhece Maribel
Por Alceu Luís Castilho e Tonsk Fialho
Maristela Schmitz ocupa, desde 2020, um cargo comissionado na Secretaria de Agricultura e Fomento ao Agronegócio de Itapetininga. Ela é irmã de Maribel Schmittz Golin, a pecuarista que financiou com R$ 500 mil a campanha do governador Tarcísio de Freitas, em 2022, e é investigada por conexão com o PCC. O prefeito de Itapetininga pertence ao mesmo partido de Tarcísio, o Republicanos, e o define como amigo. O ex-ministro de Bolsonaro apoiou a campanha de reeleição de Jeferson Brun, um político que lidera frentes de prefeitos.
Maristela Schmitz oferece ao prefeito Jeferson Brun uma obra com o brasão do município. (Foto: Reprodução/Facebook)
O município no interior paulista tornou-se uma das principais bases dos Golin, uma família originária do Rio Grande do Sul que se espalhou por quatro regiões do país, acumulando pelo menos 250 mil hectares em fazendas voltadas para a criação de bovinos e produção de soja.
O líder Joselito Golin, marido de Maribel, se apresenta também como Paulo Golin e é um dos investigados pela Polícia Federal na trama que conecta o Primeiro Comando da Capital com a mais poderosa máfia italiana, a ‘Ndrangheta.
Maribel Golin foi citada em fevereiro em um relatório da Polícia Federal como suspeita de lavar dinheiro para o PCC por meio de suas empresas. Durante as eleições de 2022, a pecuarista foi a sexta maior financiadora da campanha de Tarcísio de Freitas, como revelou a Folha. Saiba mais sobre as atividades do clã em uma de nossas reportagens: “Quem é Maribel Golin, a financiadora de Tarcísio investigada por lavagem de dinheiro do PCC?”
O município da região metropolitana de Sorocaba abriga a Fazenda Realeza, uma das principais vitrines da Fazendas Reunidas Boi Gordo. Peça central de um dos maiores escândalos de pirâmide financeira do país, a empresa entrou em falência nos anos 90 e foi comprada em 2003 por Joselito Golin. No mesmo endereço desse imóvel, no km 173 da Rodovia Raposo Tavares, estão outras empresas da família.
Durante o período em que a irmã de Maribel assumiu o cargo comissionado em Itapetininga, o município esteve sob a gestão do mesmo grupo político: o prefeito Jeferson Brun assumiu o cargo em 2022, após a saída da prefeita Simone Marquetto para concorrer à Câmara dos Deputados. O político do Republicanos se identifica como amigo do governador e é um de seus principais aliados no interior paulista.
As conexões da família Golin são tema de uma reportagem especial do De Olho nos Ruralistas, disponível em nosso canal no YouTube:
Além da trajetória da família Golin, o episódio reúne informações sobre outros financiadores da campanha de Tarcísio de Freitas: casos de desmatamento, trabalho escravo, fraudes milionárias e desvios de dinheiro público, que continuarão a ser detalhados em reportagens no site nos próximos dias.
IRMÃ DE MARIBEL REPRESENTA SECRETARIA EM CONSELHOS MUNICIPAIS
Maristela Schmitz (centro) em evento na posse de Brun, em 2022. (Foto: Reproduçao/Instagram)
Em junho de 2024, Maristela Schuster Schmitz Silveira publicou em suas redes sociais uma foto ao lado do prefeito Jeferson Brun. Na imagem datada do último dia 19 de junho, ela entrega uma obra de artesanato de sua autoria: um brasão de madeira emoldurado com o símbolo da cidade. Dois anos antes, em 2022, Maristela registrava em suas redes sociais a presença na cerimônia de posse de Brun. Ele assumiu a prefeitura como vice de Simone Marquetto (MDB), que renunciou ao cargo para disputar vaga na Câmara dos Deputados.
A proximidade com o prefeito abriu espaço para a irmã de Maribel dentro da administração municipal. Ela ocupa, desde setembro de 2020, um cargo comissionado na Secretaria de Agricultura e Fomento ao Agronegócio e foi indicada para representar a pasta em diferentes conselhos locais. Nos últimos dois anos, Maristela assumiu como suplente no Conselho Municipal de Turismo (Comtur) e no Conselho Municipal do Trabalho, Emprego e Renda (CMTER).
A cortesia entregue ao prefeito dialoga com a atividade de Maristela como artesã. Ela é dona de uma empresa de artesanato registrada junto à Receita Federal no km 173 da Rodovia Raposo Tavares, mesmo endereço das antigas Fazendas Reunidas Boi Gordo que concentra parte dos negócios da família Golin.
Acesso da Fazenda Realeza foi bloqueado por bolsonaristas em 2022. (Foto: Reprodução/Instagram)
Ali estão as sedes da Transportadora Oeste e da Agro Globo Cereais, ambas pertencentes a Maribel Schmittz Golin. O sobrenome das duas irmãs varia: Maristela assina Schmitz, com apenas uma letra “t”. As filhas de Maribel também têm empresas nesse endereço, que já foi vitrine da Boi Gordo.
Fica hoje ali a sede da Eldorado Agroindustrial, que tem como sócias Judiliane e Ana Paula Golin. A empresa possui quatro fazendas no Tocantins, nos municípios de Mateiros e Ponte Alta. Judiliane já foi sócia da tia Maristela em uma empresa de confeitaria registrada em Curitiba, que consta como inapta junto à Receita Federal desde 2018.
Foi exatamente em frente da antiga sede da Boi Gordo que apoiadores de Jair Bolsonaro bloquearam o trânsito após o segundo turno de 2022. Pneus em chamas e montes de terra despejados por maquinário pesado formavam barricadas improvisadas na pista, transformando o acesso à fazenda em cenário de protesto contra o resultado das urnas.
MILITAR ALIADO DE TARCÍSIO AMPLIA INFLUÊNCIA NO INTERIOR PAULISTA
— Recebo o apoio do amigo e parceiro Tarcísio de Freitas como a confirmação de que nossa estratégia e atuação estão dando frutos. Governador, tenha certeza de que ter a sua parceria só engrandece a nossa caminhada.
Postagem de Jeferson Brun destaca amizade com Tarcísio. (Imagem: Reprodução/Instagram)
Com essa declaração, em agosto de 2024, o prefeito de Itapetininga, Jeferson Brun, celebrou em seu Instagram o apoio público do governador à sua reeleição. A afinidade entre os dois é reforçada pela origem comum: ambos vieram das Forças Armadas. Hoje na reserva, Brun foi sargento, formado pela Escola de Sargentos das Armas (ESA). Tarcísio formou-se em Engenharia Civil pela Academia Militar das Agulhas Negras (Aman).
A carreira política de Brun começou no MDB, onde se elegeu vice-prefeito em 2020 na chapa de Simone Marquetto. Dois anos depois, assumiu o cargo após a renúncia da prefeita, eleita deputada federal. Antes de assumir o cargo na Câmara, ela integrou a equipe de transição de Tarcísio em 2023.
Jeferson Brun posa ao lado de Tarcísio em evento da Secretaria de Agricultura. (Foto: Divulgação)
A filiação de Jeferson Brun ao Republicanos consolidou sua aproximação com o governador e abriu caminho para sua recondução ao cargo, em 2024, em uma coalizão com mais dez partidos e com apoio declarado do governador. “Estaremos juntos em lutas, como a do Hospital Regional de Itapetininga”, afirmou Tarcísio. “Conta sempre com a gente”.
Nos meses seguintes, o prefeito buscou ampliar sua projeção para além de Itapetininga. Em março de 2025, foi eleito presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Paranapanema, fórum que reúne 34 municípios e define as diretrizes para a gestão da água em uma das regiões mais estratégicas para o agronegócio paulista. A função o colocou no centro de decisões que envolvem recursos hídricos, produção agrícola e desenvolvimento regional.
Pouco depois, Brun foi escolhido para representar 120 prefeitos e vice-prefeitos em um evento organizado pela Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. O motivo? Sua proximidade com Tarcísio de Freitas. A atividade fez parte da campanha “Nosso Agro Tem Força”, lançada pelo governo paulista para estreitar a relação com o agronegócio e anunciar investimentos no setor.
O evento consolidou a posição de Jeferson Brun como interlocutor da região sudoeste junto ao Palácio dos Bandeirantes. Segundo a mídia local, o prefeito de Itapetininga tenta articular sua candidatura para deputado estadual no ano que vem.
ÍNTEGRA DA NOTA DE POSICIONAMENTO DO GRUPO GOLIN
O Grupo Golin tem 35 anos de atuação e relevância nacional, com fazendas em 8 estados, gerando milhares de empregos e fornecendo soja, milho, algodão e gado para as maiores empresas do país. Suas coligadas patrimoniais administram participações societárias e negociam áreas rurais, imóveis próprios e bens móveis. As movimentações financeiras do grupo, portanto, são proporcionais ao seu volume de negócios.
As empresas do Grupo e seus representantes não têm qualquer relação com as pessoas que agora enfrentam acusações criminais no Inquérito Policial. O processo em questão está sob sigilo, mas a Justiça Federal já reconheceu que a negociação foi feita de boa-fé, de forma lícita e regular e que a empresa da qual Maribel Golin é sócia tinha capacidade econômica para a transação. Os autos dos Embargos de Terceiro Criminal n.º 5058194-36.2022.4.04.7000 tramitaram na Justiça Federal de Curitiba com segredo de Justiça e tiveram trânsito em julgado.
O aumento de capital social da empresa JBT Empreendimentos e Participações — devidamente registrado nos órgãos oficiais —; a atuação da Stall Energy, voltada para o meio ambiente; e as parcerias rurais em empreendimentos na Bahia e em Mato Grosso têm todos motivos estratégicos de mercado, em nada relacionados a governos ou política.
O Grupo Golin repudia a prática de grilagem de terras, à qual inclusive teve de resistir com o uso de segurança privada depois que propriedades no Piauí foram alvo de invasões por um grupo de grileiros.
Do mesmo modo, as empresas do Grupo vêm cumprindo as exigências da legislação de preservação ambiental e dos órgãos reguladores. A autuação recebida pela Eldorado Agroindustrial, no Tocantins, foi suspensa pela Justiça e o auto de infração ambiental lavrado no Piauí foi julgado improcedente ainda na esfera administrativa.
Assessoria de Imprensa do Grupo Golin
Imagem em destaque (Reprodução/Instagram): Maristela Schmitz entrega brasão de Itapetininga para o prefeito Jeferson Brun
Tarcísio nega conhecer Maribel Golin, mas participa de feira promovida pela família no interior de SP
Sexta maior doadora de campanha, Maribel é investigada pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro do PCC; governador visitou as duas últimas edições da Feicorte, encontro de pecuaristas com curadoria realizada por cunhado de Judiliane Golin, filha de Maribel
Por Tonsk Fialho
O governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou não conhecer a pecuarista Maribel Schmittz Golin, sexta maior doadora de sua campanha ao Palácio dos Bandeirantes e acusada pela Polícia Federal de lavar dinheiro para Willian Barile Agati, o “Concierge do PCC“. Em nota enviada à Folha, o ex-ministro de Infraestrutura de Jair Bolsonaro informou que sua campanha contou com mais de 600 financiadores e que não possui vínculo com a empresária. Maribel realizou duas doações em 2022, totalizando R$ 500 mil.
Menção a Maribel Schmittz Golin em relatório da Operação Mafiusi. (Imagem: Reprodução/PF)
De Olho nos Ruralistas identificou a participação de Tarcísio em duas edições consecutivas da Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne (Feicorte), cuja curadoria é realizada pelo cunhado de Judiliane Golin Loureiro, uma das filhas da pecuarista.
Em Boituva, a Stall Energy, uma empresa de tratamento de resíduos na qual Maribel é sócia, recebeu a visita oficial do secretário de Desenvolvimento Econômico, Jorge Lima. Ele foi recebido por Joselito Golin, marido de Maribel Golin. Oficialmente, Golin não é sócio da empresa.
Além de Maribel Golin, o vídeo resgata a trajetória de outros financiadores de campanha de Tarcísio de Freitas. São dezenas de casos de desmatamento, trabalho escravo, desvios de dinheiro público e fraudes milionárias, que serão detalhados em reportagens ao longo dos próximos dias.
FEIRA AGROPECUÁRIA APROXIMA TARCÍSIO DE GENRO DE MARIBEL
De chapéu na cabeça, o governador Tarcísio de Freitas distribuiu abraços e apertos de mão enquanto circulava pelos estandes da Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne (Feicorte), em Presidente Prudente, a 567 quilômetros da capital paulista. O evento é considerado a maior feira indoor de gado de corte da América Latina e reúne pecuaristas, empresários e políticos em leilões, exposições e debates sobre o setor.
Um vídeo divulgando a visita foi postado nas redes do governador no ano passado, em 19 de novembro, acompanhado de uma trilha sonora peculiar: a música de abertura da novela O Rei do Gado.
Tarcísio e Bolsonaro discursaram no palco principal da Feicorte, em junho. (Foto: Divulgação)
Em 17 de junho, o governador retornou ao evento. Dessa vez, acompanhado do ex-presidente Jair Bolsonaro, em uma de suas últimas aparições públicas antes da prisão preventiva, em 04 de agosto. No palco principal, Bolsonaro abraçou uma criança vestida de verde e amarelo e ofereceu “aulas particulares” sobre política para o governador. Tarcísio retribuiu, transformando o evento em um ato de desagravo. “Eleição sem Jair Bolsonaro é negação da democracia”, afirmou o presidenciável.
A Feicorte tem a curadoria do pecuarista Diede Loureiro Neto, que também foi um dos palestrantes do evento. Ele é irmão de Alessandro Fonseca Loureiro, marido de Judiliane Golin, filha mais velha de Maribel — a doadora de Tarcísio ligada, pela Polícia Federal, ao PCC.
Os laços de Diede com o clã Golin vão além. O pecuarista é sócio na Inbra Nutrição Animal, uma fabricante de ração bovina sediada em Itapetininga (SP), no mesmo endereço da Fazenda Realeza, no km 173 da Rodovia Raposo Tavares. O imóvel abriga a sede do grupo Golin e, nos anos 1990, serviu de vitrine para a expansão da Fazendas Reunidas Boi Gordo, responsável por um dos maiores escândalos de pirâmide financeira do país. A massa falida da empresa foi adquirida em 2003 por Joselito Golin — pai de Judiliane, marido de Maribel. Na época, a Boi Gordo acumulava R$ 2,5 bilhões em dívidas.
O outro sócio de Diede Loureiro na Inbra é Renato Ruegger Pereira de Freitas, marido de Ana Paula Schmittz Golin. Ao lado da irmã Judiliane, Ana Paula participa ativamente dos negócios da família e é sócia em diversas empresas do grupo. As duas foram apontadas em um relatório encomendado pelo síndico da massa falida da Boi Gordo, sob supervisão do Ministério Público de São Paulo, como beneficiárias de um esquema de transferência de bens da empresa.
Segundo o estudo, Joselito Golin — que se apresenta também como Paulo Golin — desviou R$ 612 milhões que deveriam ser utilizados no abatimento das dívidas. O dinheiro teria sido usado na compra de fazendas no Matopiba, em áreas onde o preço da terra era mais baixo.
A ligação entre os Golin e a Feicorte é ainda mais antiga. Em 2012, a revista Dinheiro Rural divulgou que a feira inaugurava seu primeiro leilão virtual. Entre as empresas que negociavam raças como nelore, angus, simental e guzerá, estava o grupo Golin. Ao todo, foram vendidos cerca de 10 mil animais para cria, recria e engorda.
JOSELITO GOLIN RECEBEU SECRETÁRIO EM VISITA À STALL ENERGY
Fundada em 2021, a Stall Energy atua na recuperação energética de resíduos urbanos, fabricando reatores capazes de transformar lixo em hidrogênio. Em janeiro de 2023, quando Tarcísio assumiu o Palácio dos Bandeirantes, sua doadora Maribel Schmittz Golin, acusada pela PF de lavar dinheiro para o “Concierge do PCC”, se tornou sócia da Stall Energy através da holding Green Investimentos e Participações.
Joselito Golin (de camisa branca) posa ao lado do secretário Jorge Lima, em visita à Stall Energy. (Foto: Divulgação)
A Green havia sido criada dois meses antes, em novembro de 2022, logo após o segundo turno da eleição que levou o governador ao Palácio dos Bandeirantes. Com ela, Maribel abriu caminho para novos negócios na área de energia, expandindo sua atuação para além da pecuária e dos transportes.
Em agosto de 2024, a Stall virou vitrine oficial do governo paulista. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Jorge Lima, visitou a fábrica da empresa em Boituva, região metropolitana de Sorocaba, e registrou o encontro em suas redes sociais. O fato foi veiculado pelo jornal Metrópoles na semana seguinte à divulgação da denúncia da PF sobre o envolvimento de empresas de Maribel na lavagem de dinheiro para Willian Barile Agati.
Mas houve um detalhe que passou desperccebido na reportagem. Quem recebeu o secretário durante a visita na Stall não foi Maribel, mas sim o seu marido, Joselito Golin, que não aparece no contrato social da empresa. Nas imagens, ele sorri e faz sinal de “joinha”. Sua esposa, doadora de Tarcísio, não aparece nas imagens.
Na ocasião, o secretário não economizou elogios. Chamou o projeto de “fantástico” e destacou o “investimento pesado no estado de São Paulo”, alinhando a Stall à política energética do governo — que no mesmo período aprovava incentivos fiscais e isenção de IPVA para ônibus e caminhões movidos a hidrogênio e gás natural.
Em fevereiro do ano passado, Tarcísio viajou pela Europa junto de Jorge Lima para apresentar o estado como “o maior mercado de economia verde do Brasil”. Em reuniões com investidores em Madri, Milão e Paris, o governador destacou projetos sustentáveis, com ênfase no hidrogênio como matriz de transporte e mobilidade.
É justamente o mesmo eixo em que atua a Stall Energy, que fabrica reatores para geração de hidrogênio a partir de resíduos. Recentemente, em 10 de junho de 2025, a empresa registrou uma patente relacionada a esse processo junto ao Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (Inpi).
Procurado pela reportagem, o grupo Golin afirma que a atuação da Stall Energy tem “motivos estratégicos de mercado, em nada relacionados a governos ou política”. Confira a íntegra da nota abaixo.
ÍNTEGRA DA NOTA DE POSICIONAMENTO DO GRUPO GOLIN
O Grupo Golin tem 35 anos de atuação e relevância nacional, com fazendas em 8 estados, gerando milhares de empregos e fornecendo soja, milho, algodão e gado para as maiores empresas do país. Suas coligadas patrimoniais administram participações societárias e negociam áreas rurais, imóveis próprios e bens móveis. As movimentações financeiras do grupo, portanto, são proporcionais ao seu volume de negócios.
As empresas do Grupo e seus representantes não têm qualquer relação com as pessoas que agora enfrentam acusações criminais no Inquérito Policial. O processo em questão está sob sigilo, mas a Justiça Federal já reconheceu que a negociação foi feita de boa-fé, de forma lícita e regular e que a empresa da qual Maribel Golin é sócia tinha capacidade econômica para a transação. Os autos dos Embargos de Terceiro Criminal n.º 5058194-36.2022.4.04.7000 tramitaram na Justiça Federal de Curitiba com segredo de Justiça e tiveram trânsito em julgado.
O aumento de capital social da empresa JBT Empreendimentos e Participações — devidamente registrado nos órgãos oficiais —; a atuação da Stall Energy, voltada para o meio ambiente; e as parcerias rurais em empreendimentos na Bahia e em Mato Grosso têm todos motivos estratégicos de mercado, em nada relacionados a governos ou política.
O Grupo Golin repudia a prática de grilagem de terras, à qual inclusive teve de resistir com o uso de segurança privada depois que propriedades no Piauí foram alvo de invasões por um grupo de grileiros.
Do mesmo modo, as empresas do Grupo vêm cumprindo as exigências da legislação de preservação ambiental e dos órgãos reguladores. A autuação recebida pela Eldorado Agroindustrial, no Tocantins, foi suspensa pela Justiça e o auto de infração ambiental lavrado no Piauí foi julgado improcedente ainda na esfera administrativa.
Assessoria de Imprensa do Grupo Golin
Imagem em destaque (Divulgação): Tarcísio discursa em encontro de pecuaristas organizado por Diede Loureiro, parceiro dos Golin.
| Tonsk Fialho é pesquisador e repórter do De Olho nos Ruralistas. |
Quem é Maribel Golin, a financiadora de Tarcísio investigada por lavagem de dinheiro do PCC?
Clã gaúcho administrou massa falida da Boi Gordo e possui 250 mil hectares em quatro regiões do país; fazendas têm histórico de desmatamento, crimes ambientais e incidência em parque; PF investigou relação da pecuarista com Willian Agati, o “Concierge do PCC”
Por Alceu Luís Castilho, Bruno Stankevicius Bassi e Tonsk Fialho
“PF investiga doadora de campanha de Tarcísio por suspeita de lavagem de dinheiro do PCC”. Essa foi a manchete da Folha, em reportagem publicada no dia 29 de julho. Era a primeira vez que a imprensa relacionava a pecuarista Maribel Schmittz Golin a Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ela foi a sexta maior doadora da campanha do ex-ministro de Bolsonaro ao Palácio do Bandeirantes: transferiu R$ 500 mil para o governador paulista, em 2022.
Maribel Schmittz Golin aparece em relatório da Operação Mafiusi. (Imagem: Reprodução/PF)
Os agentes da Polícia Federal identificaram o nome de Maribel em quatro transferências financeiras com Willian Barile Agati, denunciado em fevereiro na 23ª Vara Criminal Federal de Curitiba como operador logístico do Primeiro Comando da Capital. Segundo o Estadão, ele atendia pelo codinome “Concierge” e era o principal elo da facção com a ’Ndrangheta, uma das principais organizações mafiosas da Itália, originária da Calábria.
Segundo o relatório da PF, Maribel mantinha uma “relação próxima” com Agati e ajudou a lavar o dinheiro do tráfico. Uma das transações envolveu a venda de um imóvel em Santo André por R$ 3 milhões — 240% acima de seu valor venal. O “Concierge do PCC” realizou outras três operações financeiras com empresas onde a pecuarista é sócia. Elas somam, ao todo, R$ 3,5 milhões.
De Olho nos Ruralistas se debruçou sobre o tema para falar mais do PCC, de lavagem de dinheiro e de pecuária. De onde vem a fortuna de Maribel Schmittz Golin? Nossa equipe de reportagem constatou que o clã gaúcho Golin se estende por quatro regiões do país, em propriedades que somam pelo menos 250 mil hectares — em boa parte, oriundas do período em que a família geriu o espólio da Fazendas Reunidas Boi Gordo.
Os dados são apresentados em uma reportagem especial, disponível em nosso canal do YouTube. Confira abaixo:
Além de Maribel, o vídeo explora o histórico de outros financiadores de campanha de Tarcísio de Freitas. São dezenas de casos de desmatamento, trabalho escravo, participação em desvios de dinheiro e fraudes históricas, que serão tema de reportagens específicas em nosso site, ao longo dos próximos dias.
CLÃ GOLIN É ACUSADO DE DESVIAR R$ 612 MI DA BOI GORDO
Maribel Schmittz Golin é gaúcha de Ibirapuitã e casada com Joselito Golin, fundador do grupo Golin. Até os anos 1990, o conglomerado atuava no interior de São Paulo e em Mato Grosso do Sul. Em 2003, deu um salto, com a compra da massa falida da Fazendas Reunidas Boi Gordo.
A aquisição por Joselito Golin ocorreu sete anos após a Boi Gordo se tornar o epicentro de um dos maiores escândalos de pirâmide financeira da história brasileira. Na época, a empresa acumulava mais de R$ 2,5 bilhões em dívidas.
Joselito Golin (ou Paulo Golin) comprou massa falida da Boi Gordo em 2003. (Foto: Reprodução/X)
A Boi Gordo arregimentava investidores sob a promessa de lucro rápido através da engorda de gado para abate. O ator Antônio Fagundes divulgava as vendas no horário nobre da Globo, durante os intervalos da novela O Rei do Gado. Tratava-se de um golpe bilionário: mais de 30 mil pessoas foram lesadas, incluindo celebridades como Marisa Orth, Felipão, Vampeta e o próprio Antônio Fagundes.
O clã gaúcho não se contentou em recuperar o patrimônio da Boi Gordo. Um relatório encomendado pelo síndico da massa falida, sob supervisão do Ministério Público de São Paulo, constatou que os Golin desviaram R$ 612 milhões em bens que deveriam ser utilizados no abatimento das dívidas. O valor foi aplicado na compra de fazendas no Matopiba, em áreas onde o preço da terra era mais baixo, conforme revelado em reportagem da Agência Pública.
Boa parte dos imóveis foi registrada por empresas em nome de Maribel Golin e de suas filhas, Judiliane Golin Loureiro e Ana Paula Schmittz Golin de Freitas. Outra parte foi registrada por um indivíduo chamado Paulo Roberto da Rosa que, segundo as investigações, seria uma identidade falsa do próprio Joselito Golin. O motivo da suspeita? O RG apresentado por Paulo da Rosa não está registrado na Justiça Eleitoral ou em nenhuma base de dados públicos. Em entrevistas e nas redes sociais, Joselito frequentemente se intitula como Paulo Golin.
De Olho nos Ruralistas se debruçou sobre o patrimônio dos Golin e identificou 69 propriedades registradas no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Ao todo, elas totalizam 229.223,95 hectares. Elas ficam no Tocantins, Piauí, Bahia, Mato Grosso e São Paulo.
Observatório compilou os dados de 69 propriedades ligadas ao clã Golin. (Elaboração: Felipe Fogaça/De Olho nos Ruralistas)
NO MATOPIBA, GRUPO ACUMULA MULTAS POR DESMATAMENTO
O número de imóveis ligados ao grupo Golin é ainda maior. Pelo menos dez fazendas identificadas pela equipe do De Olho nos Ruralistas continuam registradas em nome da Boi Gordo. Não foi possível atestar se o controle dessas áreas permanece com a família de Maribel ou se foram vendidas. Ou ainda, se continuam em mãos de Antonio Carlos de Andrade, um dos irmãos que organizavam a pirâmide da Boi Gordo.
Essas terras somam 18.013,41 hectares em Mato Grosso. A área total ligada aos Golin? 247.237,36 hectares, duas vezes maior que o município do Rio de Janeiro. O valor pode chegar a 312.456,20 hectares, se incluirmos os imóveis adquiridos por subsidiárias do fundo Vision Brazil Investments — parceiro do grupo Golin no Piauí, segundo a investigação do Ministério Público de São Paulo.
Algumas dessas fazendas possuem histórico de desmatamento. Vejamos a Fazenda Eldorado, por exemplo. Localizado em Mateiros (TO), o imóvel está sobreposto em 165,10 hectares da Área de Proteção Ambiental Serra da Tabatinga, um corredor de preservação do Cerrado no coração do Matopiba. A fazenda está em nome da Eldorado Agroindustrial, que tem como sócias Judiliane e Ana Paula Golin.
A empresa acumula R$ 7.042.000 em multas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), todas no Tocantins. A maior delas, de 2012, foi lavrada após fiscais detectarem o desmate sem autorização de 5.076 hectares de Cerrado. A Eldorado possui ainda 27 hectares embargados em Paranã (TO).
Procurado pela reportagem, o grupo Golin informou que a autuação recebida pela Eldorado Agroindustrial “foi suspensa pela Justiça e o auto de infração ambiental lavrado no Piauí foi julgado improcedente ainda na esfera administrativa”. Confira a nota na íntegra no final desta reportagem.
Outra empresa registrada pelas irmãs, a Bom Jardim Empreendimentos Rurais acumula R$ 223 mil em multas ambientais no Piauí, no município de Bom Jesus. O motivo? Descumprir um embargo de 7.731 hectares lavrado em 2008, na Fazenda Bom Jardim. O Ministério Público do Piauí chegou a abrir um inquérito civil contra os Golin, mas o caso foi arquivado em 2022.
As duas empresas, Eldorado e Bom Jardim, são mencionadas no inquérito da Boi Gordo.
REPASSES DE EMPRESAS ENVOLVERAM ATÉ GUSTTAVO LIMA
Bem longe dos baixões do Matopiba, a JBT Empreendimentos e Participações está localizada em um edifício corporativo no coração da Marginal Pinheiros, em São Paulo. A empresa em que Maribel Schmittz Golin é sócia, desde 2018, tornou-se uma peça central nas investigações da PF sobre a lavagem de dinheiro do tráfico conduzida por Willian Agati, o “Concierge do PCC”.
Gusttavo Lima diz que repasse à JBT se deu pela compra de um jatinho. (Foto: Divulgação)
Segundo reportagem do Estadão, a JBT chegou a receber, em 24 de junho de 2022, um repasse de R$ 57,5 milhões da Balada Eventos, do cantor e fazendeiro Gusttavo Lima. O “Embaixador do Agro”, como é conhecido, disse que a transação foi realizada em função da compra de uma aeronave.
Documentos da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp) acessados pelo observatório mostram que, até 2022, o capital social da JBT era de R$ 72,4 mil. Em 04 de agosto, houve um salto repentino para R$ 27,4 milhões — um aumento de 37.833,48%. Duas semanas depois, em 26 de agosto, Maribel fazia seu primeiro Pix para a campanha de Tarcísio, de R$ 100 mil.
O primeiro turno da campanha ocorreu no dia 2 de outubro. Seis dias antes, em 26 de setembro de 2022, Maribel fundava a Agro Globo Cereais, com sede no km 173 da Rodovia Raposo Tavares, em Itapetininga (SP). Trata-se do mesmo endereço da antiga sede da Fazendas Reunidas Boi Gordo e da Eldorado Agroindustrial. Em 6 de outubro, caiu a segunda parcela de Maribel para Tarcísio: R$ 400 mil.
De Olho nos Ruralistas organizou essas datas em um infográfico:
JBT Empreendimentos teve aumento de 37.833,48% no capital. (Elaboração: Felipe Fogaça/De Olho nos Ruralistas)
O fluxo da relação entre Maribel Golin e Tarcísio de Freitas passa ainda pela Stall Energy, que atua na recuperação energética de resíduos urbanos. Ela foi fundada em 2021, mas Maribel e sua empresa Green Investimentos e Participações passaram a ser sócias em janeiro de 2023, primeiro ano do governo Tarcísio.
Em agosto do ano passado, a fábrica da Stall em Boituva recebeu a visita do secretário de Desenvolvimento Econômico do estado de São Paulo, Jorge Lima. Essa visita será tema de outra reportagem da série.
Questionado sobre a acusação de lavagem de dinheiro para o PCC, o grupo Golin informou que o processo relativo a Willian Agati está sob sigilo, mas que a Justiça Federal reconheceu que a negociação foi feita de boa-fé e que a JBT, na qual Maribel Golin é sócia, tinha capacidade econômica para a transação. Segundo o grupo, o aumento de capital social da JBT Empreendimentos e Participações tem motivos estratégicos de mercado, “em nada relacionados a governos ou política”.
ÍNTEGRA DA NOTA DE POSICIONAMENTO DO GRUPO GOLIN
O Grupo Golin tem 35 anos de atuação e relevância nacional, com fazendas em 8 estados, gerando milhares de empregos e fornecendo soja, milho, algodão e gado para as maiores empresas do país. Suas coligadas patrimoniais administram participações societárias e negociam áreas rurais, imóveis próprios e bens móveis. As movimentações financeiras do grupo, portanto, são proporcionais ao seu volume de negócios.
As empresas do Grupo e seus representantes não têm qualquer relação com as pessoas que agora enfrentam acusações criminais no Inquérito Policial. O processo em questão está sob sigilo, mas a Justiça Federal já reconheceu que a negociação foi feita de boa-fé, de forma lícita e regular e que a empresa da qual Maribel Golin é sócia tinha capacidade econômica para a transação. Os autos dos Embargos de Terceiro Criminal n.º 5058194-36.2022.4.04.7000 tramitaram na Justiça Federal de Curitiba com segredo de Justiça e tiveram trânsito em julgado.
O aumento de capital social da empresa JBT Empreendimentos e Participações — devidamente registrado nos órgãos oficiais —; a atuação da Stall Energy, voltada para o meio ambiente; e as parcerias rurais em empreendimentos na Bahia e em Mato Grosso têm todos motivos estratégicos de mercado, em nada relacionados a governos ou política.
O Grupo Golin repudia a prática de grilagem de terras, à qual inclusive teve de resistir com o uso de segurança privada depois que propriedades no Piauí foram alvo de invasões por um grupo de grileiros.
Do mesmo modo, as empresas do Grupo vêm cumprindo as exigências da legislação de preservação ambiental e dos órgãos reguladores. A autuação recebida pela Eldorado Agroindustrial, no Tocantins, foi suspensa pela Justiça e o auto de infração ambiental lavrado no Piauí foi julgado improcedente ainda na esfera administrativa.
Assessoria de Imprensa do Grupo Golin
Imagem em destaque (De Olho nos Ruralistas): vídeo mostra histórico ambiental e corporativo dos financiadores de Tarcísio de Freitas
Agrogolpistas: desmatador histórico do Pantanal financiou bloqueios golpistas em rodovias
Responsável por desmate químico de 81 mil hectares em Barão de Melgaço (MT), fazendeiro Claudecy Lemes promoveu bloqueio de rodovias em 2022 e teve contas bloqueadas pelo ministro Alexandre de Moraes; dossiê “Agrogolpistas” mostra sua relação com atos antidemocráticos
Por Bruno Stankevicius Bassi e Tonsk Fialho
Até abril de 2024, Claudecy Oliveira Lemes era mais um latifundiário desconhecido do público brasileiro. O que mudou naquele mês? Ele se tornou alvo da Operação Cordilheira, da Polícia Civil, por destruir uma área de 81,2 mil hectares no Pantanal mato-grossense, no município de Barão de Melgaço, a 109 km de Cuiabá.
Agrogolpistas: relatório inédito consolida 142 nomes de empresários do agronegócio que apoiaram tentativa de golpe
O caso ganhou repercussão pelo alcance e pelo método: Claudecy aplicou uma mistura de 25 agrotóxicos, incluindo o 2,4-D, um dos componentes do “agente laranja” usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Segundo os agentes, só a compra dos insumos usados para o desmate químico custou R$ 9,5 milhões. Somando as pulverizações aéreas realizadas entre 2021 e 2023, o fazendeiro gastou R$ 25 milhões.
A investigação levou ao sequestro de bens e à aplicação de multas que, somadas, chegavam a R$ 2,9 bilhões — a maior sanção administrativa já aplicada pela Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema). O caso foi noticiado pelo Fantástico, da TV Globo. A Repórter Brasil revelou que Claudecy fornecia gado para frigoríficos da JBS em Barra do Garças e Pedra Preta (MT).
Mas algo passou despercebido pelos jornais na época: dois anos antes, em novembro de 2022, Claudecy Lemes enviou caminhões para os bloqueios de rodovias que visavam impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e criar massa crítica para um golpe de Estado.
Esse é um dos principais achados do relatório “Agrogolpistas“, lançado na quarta-feira passada (25/06) pelo De Olho nos Ruralistas. Ao longo de quatro meses, o observatório consolidou listas de indiciados na Operação Lesa Pátria, em comissões parlamentares e em investigações de órgãos de segurança estaduais, buscando a relação dos golpistas com o agronegócio. Ao todo, o relatório identificou 142 nomes de fazendeiros e empresários do setor que deram suporte logístico e financeiro aos atos antidemocráticos convocados por Jair Bolsonaro e seus ministros.
Uma das empresas de Claudecy, a Comando Diesel Transporte e Logística Ltda, integrava a lista de 43 pessoas físicas e jurídicas que tiveram as contas bancárias bloqueadas por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida visava impedir o cerco logístico a Brasília pretendido pelos golpistas.
Logo após a denúncia da Polícia Civil, em abril de 2024, o Ministério Público de Mato Grosso pediu a prisão preventiva de Claudecy Oliveira Lemes. Em setembro, ele foi inocentado em outro caso, relacionado ao corte raso de 3,8 mil hectares na mesma região, entre os anos de 2013 e 2018. O juiz juiz Antonio Horácio da Silva Neto entendeu que o crime havia prescrito.
Maior desmatador do Pantanal, Claudecy Lemes enviou caminhões para bloqueios golpistas. (Reprodução/Polícia Civil)
No mês passado, em 20 de junho, a Quarta Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) negou o pedido de prisão. Os desembargadores seguiram por unanimidade o voto do relator Hélio Nishiyama, que também permitiu que Claudecy continue administrando suas fazendas e as 60 mil cabeças de gado criadas na área destruída. Segundo o desembargador, a prisão preventiva seria “desnecessária, excessiva, desproporcional e desprovida de suporte fático”.
O maior desmatador da história do Pantanal não é o único agrogolpista com passivos ambientais. O relatório conta ainda a história de Gilson Osmar Denardin, dono da Transportes Denardin Ltda, empresa que enviou três caminhões para o acampamento bolsonarista em frente do Quartel General do Exército, em Brasília, de onde saíram os terroristas de 8 de janeiro de 2023. A informação consta na planilha de veículos fichados pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF).
Denardin foi citado em um relatório da ONG estadunidense Mighty Earth, que detectou um alerta de desmatamento em 387 hectares da Fazenda Santa Angélica, entre os municípios de Correntina e Formosa do Rio Preto (BA). O documento aponta que o clã Denardin possui 32 mil hectares no oeste baiano e fornece algodão para as multinacionais Glencore e Louis Dreyfus.
O empresário também figura em levantamento da Repórter Brasil entre os devedores de multas ambientais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que receberam financiamento da John Deere, com intermediação do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Em 2009, Marilane Moresco Denardin, da mesma família, foi incluída na “lista suja” do trabalho escravo após o resgate de catorze trabalhadores na Fazenda Santa Angélica — a mesma onde foi apurado o desmatamento.