Dirce Lipu Pereira: a pajé Kaingang que voltou a cantar
Kujan da aldeia Vanuíre, em Arco-Íris (SP), ela conta que era proibida pela mãe de entoar melodias em seu idioma, por medo de que os brancos a matassem, como fez a marcha do café com outros integrantes da etnia
Por Julia Dolce
Pajé de etnia Kaingang da Terra Indígena Vanuíre, localizada em Arco-Íris (SP), Dirce Jorge Lipu Pereira ouviu da mãe, durante toda a infância, que não podia cantar. Jandira Umbelino, de quem herdou a pajelança, tinha medo que os brancos ouvissem suas filhas e filhos cantarem na língua indígena e os matassem, como fizeram, décadas atrás, com tantos outros Kaingang. No caso de Dirce, os avisos soavam como castigo. Ela insistia em ouvir as melodias na voz da mãe e, depois de prometer que não cantaria em público, somava sua voz às letras no idioma originário.
“Minha mãe foi um livro para mim”, conta Dirce, única dos irmãos que seguiu o legado da mãe, mesmo não podendo aprender todo o idioma. “Enquanto ela viveu, fiquei ao lado dela aprendendo tudo o que sabia, do canto à culinária. A gente já nasce Kujan (versão feminina do Pajé), somos escolhidas. Nascemos com uma força e ninguém segura, então quando criança eu já sabia que queria fazer tudo o que minha mãe fez e mais”.
Jandira passou décadas escondendo sua cultura, com medo dos não-indígenas. Ela enrolava seus artesanatos, vestimentas, colares e cocares dentro de vários panos e os guardava. Em 2016, conta Dirce, a mãe se tornou encantada, deixando o mundo dos vivos. Desde então, ela assumiu a pajelança.
Exposição foi inaugurada na sexta-feira (15), no MAE da USP (Foto: Julia Dolce)
Na exposição estiveram presentes 14 indígenas da aldeia Vanuíre e mais um ônibus com indígenas Kaingang da Aldeia Icatu, localizada em Braúna (SP). Montada ao longo dos últimos dois anos com a participação direta das lideranças indígenas na curadoria, a mostra tem como objetivo atender reivindicações desses grupos.
Entre as demandas está justamente o direito de falarem por si, além da busca por um retorno sobre as coletas antropológicas que, por décadas, levaram os pertences de seus ancestrais. Por fim, os indígenas pretendem, com a mostra, falar sobre quem são na atualidade.
O movimento de resgate da cultura Kaingang no interior paulista já vinha acontecendo há duas décadas, como explica Susilene Elias de Mello, filha mais nova de Dirce. “Estamos há 22 anos com um trabalho de resgate de uma cultura que ficou adormecida por décadas”, relata. “Ensinamos nossa cultura no dia-a-dia, aos poucos. Os mais antigos da aldeia eram muito reprimidos e tinham medo de preservar a cultura e ser mortos”.
ALDEIAS ERAM ALVO DE CHACINAS
Ela considera a exposição um presente para seus antepassados. Com o tempo, permaneceram apenas a tradição de plantação de mandioca e milho roxo e a da confecção de artesanato. No início do século 20, a população Kaingang do interior paulista foi duramente reprimida, como consequência cruel da marcha do café para o oeste do estado. Na época, havia chacinas constantes de aldeias inteiras, e a etnia Kaingang foi difamada na mídia, retratada como selvagem e violenta.
A época imortalizou a indígena Vanuíre, que hoje nomeia a aldeia de Susilene e Dirce. Escravizada, a indígena paranaense foi levada à região para mostrar a localização das aldeias Kaingang. Utilizada com intérprete, diz a lenda que Vanuíre subia em um jequitibá de dez metros de altura, da onde entoava cânticos nos quais pedia para os Kaingang não resistirem mais, porque não conseguiriam sobreviver às armas de fogo. A líder, cuja história também inspirou a criação de um museu em Icatu, ficou conhecida como “pacificadora”. A imagem, no entanto, é rejeitada por Dirce: “Foi uma grande guerreira escravizada, conquistou a demarcação de nossa reserva”.
Fotografia da guerreira indígena Vanuíre, falecida em 1918. (Foto: Reprodução)
Vanuíre faleceu em 1918, data que marca o processo de demarcação das TIs Kaingang no interior do estado. Após cem anos completados desde o processo, e com a abertura da exposição na USP, a kujan de 57 anos conta que sente um misto de alegria e tristeza:
– O débito com nós, indígenas, é muito grande, e só aumenta. Abrimos o jornal e vemos notícias que mostram a mortalidade dos nossos parentes indígenas de outros estados. Um desrespeito muito grande com a natureza. Povos sofrendo para conquistar a demarcação. Nunca deixaram de nos perseguir e esse governo nos dá mais medo.
Com 290 alqueires demarcados para uma população de 280 indígenas, a TI Vanuíre não tem sofrido ameaças territoriais. A aldeia fica a 11 quilômetros da cidade mais próxima, mas por conta do processo de arrendamento de terras permitido antigamente pela Fundação Nacional do Índio ela só possui hoje 40 alqueires (em São Paulo, 96 hectares) de mata preservada, e um córrego.
RELIGIOSA VÊ EVANGÉLICOS COMO AMEAÇA
Para Susilene, porém, a maior ameaça à sua aldeia está no campo cultural, representada pela igreja evangélica Congregação Cristã no Brasil:
– Se antes nos matavam com tiro, hoje nos matam com a bíblia debaixo do braço. Os evangélicos estão dentro de nossas aldeias e de todas as outras no país, acabando com nossos costumes. Não deixam os indígenas andarem com colares, com cocar, não deixam a kujan fumar suas ervas. Eles entram com cestas básicas, roupas, pagando a energia elétrica. É uma suposta caridade, mas com o objetivo de acabar com a nossa cultura. Não nos deixam respirar.
Ela destaca que o movimento evangelizador teve início simultâneo ao movimento de resgate da cultura protagonizado por sua família.
Entre as cenas mais revoltantes que já presenciou está o batizado de indígenas idosos. “Enfiam uma idosa de 90 anos na água e dizem: ‘agora você está salva'”, relata. “Para mim, isso sim é um pecado”.
Dirce lembra que os missionários evangélicos chegaram a atirar pedras na casa de sua mãe. “Antes ela era muito respeitada, mas nós, kujans, somos mais reprimidas, ela sofreu muito e acabou me protegendo bastante, tinha medo de me revelar e mostrar minha força”.
Mesmo sofrendo com olhares tortos dos indígenas evangelizados, Dirce continua seu trabalho de defesa da tradição Kaingang. “A cultura tem que ser completa, e não pela metade”.
MUSEU DO SOL NASCENTE PRESERVA CULTURA
a Kujan, Dirce, e sua filha, Susilene (Foto: Julia Dolce)
Com a mãe Jandira, a atual kujan da TI Vanuíre aprendeu a realizar partos, a curar crianças e a fazer rituais. Hoje Dirce protagoniza, nas noites de lua cheia, as chamadas “noites culturais”, onde canta, dança e conta histórias antigas, buscando transmitir para as crianças da aldeia os conhecimentos ancestrais. No entanto, com o processo de evangelização, apenas seis crianças são acompanhadas atualmente pela kujan. “É gratificante cuidar da saúde das crianças, eu mesma faço os remédios, com o que pegamos da natureza, e nem preciso ocupar o postinho de saúde da aldeia”.
Uma das estratégias encontradas pelas mulheres da família de Dirce para preservar a cultura Kaingang foi a criação do museu Wowkrig (sol nascente), dentro da reserva indígena. O museu foi fundado para guardar os pertences de Jandira, após seu falecimento. “É a nossa fortaleza e foi nossa entrada para chegar ao caminho dos museus”, completa Dirce, destacando que a liderança feminina sempre foi marcante entre os Kaingang. “Nós tomamos à frente, porque se fôssemos esperar os índios Kaingang, nossa cultura ainda estaria adormecida”.
Dirce conta ainda que, quando jovem, já alertava a mãe para a necessidade de preservação da cultura. “Dizia que as coisas já haviam mudado, não eram mais como antes, agora existem pessoas não-índias a favor dos indígenas”. O legado e a pajelança da kujan já estão garantidos por Susilene e sua irmã mais velha: com a abertura da exposição na Cidade Universitária, Dirce cantou, desta vez junto das próprias filhas, sem medo de ser interrompida.
Serviço: A visitação da exposição “Resistência Já! Fortalecimento e união das culturas indígenas” ficará aberta ao público às segundas, quartas, quintas e sextas, das 9h às 17h e aos sábados, das 10h às 16h. Entrada franca.
Museu de Arqueologia e Etnologia da USP Avenida Professor Almeida Prado, 1466 Cidade Universitária – Butantã São Paulo / SP Telefone: (11) 3091-4905 Fonte: Museu de Arqueologia e Etnologia
Metodologia defasada permitiu que área do tamanho do Panamá fosse desmatada entre a Amazônia e o Cerrado
Com distorções que chegam a 245%, “linha divisória” adotada pelo IBGE fez o Cerradão, região de florestas, ser enquadrado com grau de proteção inferior ao correto; estudo propõe reposicionar os territórios para proteger a biodiversidade
Por Bruno Stankevicius Bassi
Como definir a separação entre dois biomas? As implicações deste questionamento vão muito além da cartografia e da biologia e afetam diretamente os índices de desmatamento na zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado, no norte do Mato Grosso, um dos principais focos de biodiversidade do mundo. Essa é a conclusão de um estudo assinado por um grupo de pesquisadores brasileiros e publicado na última edição da revista Biodiversity and Conservation.
Segundo o artigo, a metodologia tradicionalmente utilizada para definir a separação entre os biomas, baseada em uma simples linha divisória, gerou distorções que alcançam 245,5% de erro em alguns pontos da região estudada. Como resultado, 75.700 km² de florestas estacionais localizadas além dos “limites” do bioma amazônico foram mapeados erroneamente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como vegetação de savana (ou cerrado denso).
Maior transição floresta-savana do planeta, fronteira entre Amazônia e Cerrado sofre com desmatamento. (Foto: Gabriel Rezende Faria/Embrapa)
Isso fez essa formação florestal, conhecida como Cerradão, ser enquadrada pelo Código Florestal de 2012 com um grau de proteção inferior ao estabelecido pela legislação. Isso porque na Amazônia Legal – que engloba também as áreas de transição para o bioma Cerrado – o tamanho da reserva legal a ser preservada dentro das propriedades rurais varia em função do tipo de vegetação: 80% para florestas e 35% para savana.
Mesmo sendo floresta, o Cerradão não foi considerado como tal, sendo desmatado até sua quase extinção. Utilizando imagens de satélite cedidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os pesquisadores identificaram que num período de 30 anos, entre 1984 e 2014, essa formação florestal perdeu 5,2 milhões de hectares, cerca de 41,2% da cobertura inicial dentro da área abrangida pelo estudo.
Mas não para por aí. Enquanto a atividade agropecuária ganhou espaço, passando de apenas 9,4% do uso do solo em 1984 para 46% em 2014, as regiões de savana perderam, no mesmo período, 7,8 milhões de hectares. Com as florestas densas não foi diferente: 9,3 milhões de hectares extirpados. Somando as três classes de vegetação analisadas no estudo (o Cerradão, a floresta densa e úmida e o Cerrado stricto senso), o desmatamento na zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado – epicentro do Arco do Desmatamento – levou embora, em apenas três décadas, uma área equivalente ao estado de Roraima.
Em vermelho, áreas convertidas em pastagem e/ou monocultura nos últimos 30 anos. A linha preta marca a divisa traçada pelo IBGE.
ESTUDO PROPÕE NOVA ABORDAGEM
A linha demarcatória mais aceita na literatura científica, que corta o estado de Mato Grosso e sobe pela divisa do Tocantins em direção ao Maranhão, foi elaborada em 1981 a partir do Projeto RadamBrasil – uma iniciativa do Ministério de Minas e Energia que visava o mapeamento de recursos naturais, depois incorporada ao IBGE.
Mapa indica fragmentos de Cerrado no bioma Amazônia, e vice-versa.
Essa abordagem, no entanto, desconsidera a heterogeneidade e a complexidade dos mosaicos de vegetação que marcam a transição entre a Amazônia e o Cerrado. Liderado por Ben Hur Marimon Junior, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), o grupo de pesquisadores identificou, nos mapas de 1984, 719 fragmentos de floresta densa em meio ao bioma Cerrado e 151 fragmentos de cerrado stricto sensu em meio ao bioma amazônico, considerando apenas os trechos superiores a 5 km². Com isso, o estudo comprovou que a Amazônia é maior e está mais ao Sul do que os mapas estabeleciam.
Como resposta às distorções geradas pela metodologia antiga – cartográficas e de políticas públicas – os pesquisadores propõem uma nova abordagem para classificar as fronteiras entre Amazônia e Cerrado: em vez da linha divisória, a consolidação ecológica e jurídica de uma “faixa de transição”, visando proteger a frágil biodiversidade daquela que é a maior transição floresta-savana do planeta.
Veja como Marielle Franco esteve presente nas mobilizações de camponesas pelo país
Imagem da vereadora carioca foi lembrada em atos realizados por camponesas em pelo menos cinco estados; homenagens foram feitas em protesto contra a Vale, em Minas, e na ocupação de fazenda de João de Deus, em Goiás
Mulheres camponesas, indígenas e quilombolas homenagearam a vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) nos atos e mobilizações feministas em todo o País, entre a sexta-feira (8), o Dia Internacional da Mulher, e a quinta-feira (14), data do aniversário da morte da líder e atividade carioca. Ela foi assassinada há um ano, no dia 14 de janeiro, junto com o seu motorista, Anderson Gomes.
“Marielle vive” foi o grito mais ouvido em todas as manifestações. As líderes rurais denunciaram que os trabalhadores do campo estão entre os grupos mais atingidos pelas medidas adotadas pelo governo Bolsonaro em seus dois primeiros meses de mandato. Leia mais aqui sobre os atos: “Confira as mobilizações das indígenas e camponesas neste 8 de março“.
(Foto: Thainá Regina/MST)
Na quarta (13), mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST e do Movimento Camponês Popular (MCP) ocuparam a Fazenda Agropastoril Dom Inácio, no município de Anápolis (GO), uma das propriedades do médium João de Deus, acusado de abusar sexualmente de mais de 500 mulheres. O acampamento recebeu o nome de Marielle Franco. Um ato político, no dia seguinte, encerrou a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem-Terra na região. Leia mais sobre a ocupação.
(Foto: MST)
Em Valinhos (SP), militantes do MST homenagearam a vereadora no acampamento Marielle Vive, na Estrada dos Jequitibás, na quinta-feira (14). onde vivem 1.100 famílias. As mulheres organizaram um “Amanhecer por Marielle”. Vivem no acampamento 1.100 famílias.
(Foto: Reprodução)
Em Sarzedo, município vizinho de Brumadinho, em Minas Gerais, manifestantes do MST bloquearam a passagem de um trem da Vale, na quinta (14), em protesto contra o crime da Vale, o tsunami que matou 2oo pessoas. Marielle foi lembrada em uma pichação.
(Foto: CPT)
Também na quinta, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), durante o seu Encontro Nacional de Comunicadores e Comunicadoras, homenageou a vereadora. Os participantes do evento perguntaram: “Quem mandou matar Marielle?”
(Imagem: MAB)
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB ), que celebrou na quinta-feira o Dia Internacional de Luta Contra as Barragens, em Defesa dos Rios e da Vida, lembrou Marielle Franco e outras camponesas assassinadas: a hondurenha Berta Cáceres e a líderança do próprio movimento Nilce de Souza Magalhães, conhecida como Nicinha (morta em 2016, em Porto Velho).
(Foto: Reprodução)
No Dia Internacional da Mulher, militantes do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) se somaram às companheiras do MAB e do MST em uma grande marcha pelas ruas de Florianópolis (SC) em homenagem à vereadora carioca.
Contra o racismo e pela agroecologia: confira como foi a marcha das mulheres camponesas na Paraíba
Em sua décima edição, Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia reuniu 6 mil pessoas e celebrou legado de Marielle Franco; camponesas do Polo da Borborema debatem racismo e violência
Por Helena Dias e Inês Campelo, em Remígio (PB)
Em parceria com a Marco Zero Conteúdo
“Quem mandou matar Marielle Franco?”. Estampada em cartazes e gritada em uníssono por cerca de 6 mil mulheres – muitas delas negras, como a vereadora carioca cujo assassinato completou um ano nesta quinta-feira (14) -, a pergunta foi a tônica da décima Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, realizada em Remígio, no Polo da Borborema, Agreste da Paraíba.
Cruzes representam as mulheres mortas na luta contra o machismo e o racismo. (Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo)
Realizada anualmente no dia 8 de março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, o ato teve sua data alterada para homenagear Marielle e reforçar o tema deste ano: o combate ao racismo. Segundo Adriana Galvão, coordenadora da Marcha e assessora técnica da AS-PTA, associação que atua no fortalecimento da agricultura camponesa, o dia 14 foi escolhido por ser uma data simbólica:
– Na marcha passada, fizemos o tema da diversidade e já sabíamos que era importante trabalhar com o tema da identidade racial e do racismo. Eu acho que toda a simbologia que Marielle traz de uma mulher negra, periférica, bissexual que ocupa um espaço de poder com grande destaque, isso, por si só, já era uma inspiração para as mulheres locais e de todo o Brasil. Mas, ao calar essa voz, o tema se fortalece muito mais dentro da marcha, que vem para homenagear todas as mulheres que foram caladas ao ocupar esses espaços.
Além de Marielle Franco, também foi homenageada a sindicalista, agricultora e defensora dos direitos humanos Margarida Maria Alves, assassinada há 50 anos em Alagoa Grande (PB) e que segue inspirando a luta das mulheres camponesas no Polo da Borborema. Em parceria com a Marco Zero Conteúdo, De Olho nos Ruralistas contou algumas dessas histórias: “Margaridas e Marielles: quatro histórias de luta camponesa na Paraíba“.
MARCHA MOBILIZA CIDADE DE REMÍGIO
A mobilização se concentrou durante cerca de três horas no Alto da Colina e cruzou a cidade até o Parque da Lagoa, onde o Grupo de Teatro do Polo da Borborema encenou uma peça sobre racismo e machismo. No palco montado pela organização, as participantes assistiram ao show da cantora Lia de Itamaracá e seguiram para a feira agroecológica Sementes e Sabores.
Durante toda a caminhada, moradores e comerciantes saíram de suas casas e estabelecimentos para ver as mulheres passarem. A aposentada Francisca Miguel de Souza acompanha a mobilização das agricultoras todos os anos: “A marcha está maravilhosa e muito bonita”. Filha de trabalhadores rurais, ela viveu da roça quando era adolescente e hoje completa a aposentadoria vendendo fiteiro. “Moro nesta rua há 40 anos mas não é sempre que vemos algo assim. Por isso, há dez anos eu vi a primeira marcha passar e faço o mesmo hoje”.
Agricultora aposentada, Maria da Paz foi à Marcha celebrar a memória de Marielle Franco. (Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo)
A origem camponesa é comum em Remígio. Maria da Paz foi agricultora durante quarenta anos. Hoje aposentada, aos 67 anos, atua no grupo de mulheres do Centro de Referência de Assistência Social do município de Lagoa da Roça. Ela lembra que estava no Rio de Janeiro quando a vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes foram assassinados a tiros: “Recebi a notícia como um choque, uma tristeza. Até então, eu não conhecia Marielle, mas me reconheço como mulher negra e estou aqui por todas nós, para combater o racismo e lembrar de dizer não à reforma da previdência de Bolsonaro”.
Há também quem saiu de longe para apreciar a marcha e se juntar à luta das mulheres do campo. Professora de artes do Instituto Nacional de Educação de Surdos, no Rio de Janeiro, Maria Lúcia Vinholi, de 53 anos, conheceu a marcha há cinco anos quando produziu estandartes para a mobilização, a pedido da AS-PTA. Diz que se encantou com a luta das agricultoras e, principalmente, com a força delas: “Aqui é muito verdadeiro. Há muito envolvimento dos jovens. Eles participam e sabem falar da agroecologia de maneira muito linda, comovente e envolvente. A gente se encanta e tem vontade de compartilhar essa realidade com os jovens de lá [do Rio]”.
APOSTA NA AGROECOLOGIA, CONTRA MONOCULTURA
Enquanto a marcha seguia pelas ruas de Remígio, a agricultora Josefa Miranda dos Santos, de 58 anos, montava sua barraca de frutas agroecológicas no Parque da Lagoa, onde começava a feira Sementes e Sabores, reunindo produtores da região. Ao mesmo tempo que vendia seus produtos, Josefa respondia à reportagem: “Me aposentei há quatro anos, mas continuo como agricultora. Participo da marcha desde a primeira, mas só nesta fiquei na feira”.
Formado por quinze municípios, o Polo da Borborema possui treze sindicatos rurais e cerca de 150 associações comunitárias, além de uma organização regional de agricultores que trabalham sob os princípios da agroecologia. Iniciado há 25 anos, através da capacitação e da assessoria técnica realizadas pela AS-PTA, o processo de transição agroecológica transformou a região em um dos poucos locais no Brasil a conter a entrada da monocultura, que avança no restante da Paraíba, com a cana de açúcar no litoral e a fruticultura irrigada no Sertão.
Feira de produtos agroecológicos reuniu camponeses do Polo da Borborema. (Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo)
Em 2009, uma articulação de movimentos sociais se reuniu sob o Fórum do Território da Borborema para evitar que a Souza Cruz, maior produtora de tabaco do Brasil, expandisse suas plantações de fumo na região. Mas a vitória na queda de braço contra a multinacional não foi a única.
No ano seguinte, em 2010, os camponeses atuaram contra a distribuição de agrotóxicos pelo governo estadual, como medida de combate à chegada da mosca-negra-do-citrus (Aleurocanthus woglumi Ashby), praga que vinha devastando plantações inteiras no Nordeste. Junto a pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba, os agricultores e agricultoras do Polo demonstraram a maior eficácia do controle biológico, um dos princípios da agroecologia, evitando que a praga se propagasse pela região.
Segundo Adriana Galvão, da AS-PTA, os camponeses têm conseguido manter a Borborema como um polo e região agroecológica, mas observam com cautela o recente processo de reconcentração fundiária que vem ocorrendo em alguns municípios, pelas mãos do poder local:
– Com a expulsão do campo, as famílias vão para as periferias das cidades. Em muitos casos, as mulheres vão trabalhar como domésticas e os jovens perdem o vínculo da sucessão com a terra. Sem o direito de opção [de ficar ou sair do campo], são afetados pela violência urbana. É a destruição do tecido social.
COMBATE AO RACISMO FOI TEMA CENTRAL DA MARCHA
Marcha reuniu 6 mil mulheres em Remígio (PB). (Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo)
Além de música e gastronomia, a 10ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia também teve teatro e uma necessária reflexão sobre os impactos do racismo na região. Secretaria do sindicato de trabalhadores rurais de Água Seca (PB), Marcia Araújo dos Santos também integra o Grupo de Teatro do Polo da Borborema. Na peça encenada ontem, ela interpretou a personagem Zefinha, uma jovem negra que sonha em concluir os estudos, mas tem de trabalhar como empregada doméstica para contribuir no sustento da família.
A história evidencia como o racismo e o machismo se manifestam no ambiente doméstico e também na relação entre patrões e funcionárias. “Minha mãe trabalhou em casa de família e essa peça que apresentamos hoje é muito parecida”, conta. “Ela tinha que dormir num quarto separado da casa dos patrões e só podia almoçar depois que eles almoçassem. Muitas mulheres se identificam com essa realidade. Eu me orgulho de ser negra e agricultora”.
Depois de cinco horas de passeata pelas ruas de Remígio, as camponesas encerraram a marcha em uma ciranda comandada por Lia de Itamaracá. São delas as mãos que ilustram a foto principal desta reportagem.
Declaração genérica esconde as propriedades rurais do deputado Aécio Neves
Com R$ 1,7 milhão bloqueado por suspeita de corrupção, tucano entregou à Justiça Eleitoral uma lista na qual seu patrimônio não fica tão evidente; bens do ex-governador mineiro totalizam R$ 6 milhões
Por Leonardo Fuhrmann
O deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG) teve o bloqueio de bens de R$ 1,7 milhão determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na terça-feira (12). Foram bloqueados os bens também de sua irmã, Andréa Neves, no mesmo valor. Ambos são sócios em uma empresa agropecuária que tem fazendas no norte de Minas – uma delas, de 950 hectares, obtida em um processo de usucapião.
Polícia esteve na fazenda do deputado em Cláudio. (Imagem: Reprodução/TV Globo)
O STF atendeu pedido da Procuradoria Geral da República para garantir o pagamento de multa e indenização, caso Aécio seja condenado em investigação em que é acusado de receber R$ 2 milhões em propina do empresário Joesley Batista, da J&F.
Segundo colocado nas eleições presidenciais de 2014, o deputado federal Aécio Neves entregou no ano passado à Justiça Eleitoral uma declaração de bens mais genérica do que a da eleição anterior. Com isso, as propriedades rurais da família do político, apesar de declaradas, não ficam tão evidentes.
PATRIMÔNIO DO POLÍTICO SALTOU PARA R$ 6 MILHÕES
A mudança na forma de declarar, no entanto. não omitiu um crescimento expressivo no patrimônio do tucano, que passou de R$ 2,5 milhões, em 2014, para R$ 6,15 milhões, em 2018. Quase o triplo do valor.
A identificação das propriedades só é possível pelo preço descrito na declaração do ano passado, na comparação com as declarações anteriores. Isso acontece porque os bens podem ser declarados pelo preço de compra, na época da aquisição, e não pelo atual de mercado.
A principal novidade capaz de justificar este aumento está identificada como “quotas ou quinhões de capital” e responde por um valor superior ao crescimento do patrimônio. São R$ 3,75 milhões nesta rubrica.
Essa soma não inclui a participação dele na Perfil Agropecuária e Florestal, boa parte dela herdada do pai, o ex-deputado Aécio Ferreira da Cunha, morto em outubro de 2010. Esta participação também está identificada como “quotas ou quinhões de capital”, mas em um campo separado. A participação só é identificada por ter o mesmo valor da declaração anterior, R$ 666.660,00.
Além da Perfil Agropecuária, Aécio declarou em 2014 quotas e quinhões de capital em quatro empresas: Rádio Arco-Íris, Rio Participações, IM Participações e NC Participações. Na época, a soma do percentual dele nas quatro empresas não chegava a R$ 814 mil, segundo o documento registrado na Justiça Eleitoral.
Parte dos bens declarados pelo deputado Aécio Neves em 2018. (Imagem: Políticos do Brasil/De Olho nos Ruralistas)
ELE CONSTRUIU AEROPORTO NA FAZENDA DO TIO
Aécio Neves também mudou a forma de declarar a sua propriedade rural no município mineiro de Cláudio, no Centro-Oeste mineiro. Ele declarava ser dono, em 2014, de 50% do imóvel rural, participação estimada na ocasião em R$ 87 mil. No ano passado, com o mesmo preço, a propriedade foi declarada apenas como um terreno, sem especificar a localidade.
O município de Cláudio foi foco de denúncias contra o deputado – e ex-senador – naquele ano. O motivo foi o governo de Minas ter construído, durante a gestão de Aécio, um aeroporto na fazenda de um de seus tios. Além de ter recebido pela desapropriação, a família do político foi beneficiada pelo uso do aeródromo.
Concluído em 2010, o aeroporto só foi homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil para receber voos da aviação geral e executiva em 2016. O tio do político ficava com a chave do aeroporto.
A propriedade mais polêmica, no entanto, está em nome da Perfil. É uma fazenda de 950 hectares em Montezuma, no norte de Minas. Em 2000, a empresa entrou com um processo por usucapião da área, considerada devoluta e pertencente ao governo mineiro. O território equivale a vinte vezes a área da Cidade do Vaticano.
Fazenda de 950 hectares foi obtida por usucapião; Justiça decidiu a favor do político. (Reprodução: Procuradoria-Geral do Estado/De Olho nos Ruralistas)
No ano seguinte, a Justiça aceitou o registro da terra em nome da Perfil. O estado sofreu sucessivas derrotas até 2013, no STF, na tentativa de reaver a propriedade. No último recurso negado, o ministro Marco Aurélio Mello entendeu que o governo estadual só tentou oficializar a área como devoluta após o pedido de usucapião ter sido registrado.
A fazenda é apenas uma das terras da Perfil na região. Ao menos outras duas estão registradas em nome da empresa no cartório do município. Em Montezuma, a atuação de Aécio como governador envolve mais uma vez um aeroporto. Durante a sua gestão, ele autorizou a pavimentação, sinalização e manutenção do aeródromo local. A pista original, de cascalho, havia sido construída pelo governo de Newton Cardoso (MDB), também dono de negócios na região.
A relação do governo Aécio Neves com a Perfil, na época comandada por seu pai, também gerou uma investigação do Ministério Público mineiro. A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) assinou um contrato com a Perfil em 2010, no valor de R$ 150 mil, para a aquisição de 2.637 sacas de sementes.
Margaridas e Marielles: quatro histórias de luta camponesa na Paraíba
Em seu décimo ano, Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, no Polo da Borborema, homenageia vereadora carioca, no primeiro aniversário de sua morte; expectativa é reunir 5 mil pessoas
Por Helena Dias e Inês Campelo, em Remígio (PB)
Em parceria com a Marco Zero Conteúdo
Quem chega em Remígio (PB) logo percebe que as chuvas das últimas semanas vestiram de esperança a vegetação da cidade, como se fosse para contrastar com o lilás da 10ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia. Desde segunda, a Marco Zero Conteúdo, em parceria com o De Olho nos Ruralistas, está no município do agreste paraibano para sentir o clima da mobilização e conhecer algumas das líderes que compõem o movimento camponês do Polo da Borborema – rede de 13 sindicatos de trabalhadoras e trabalhadores rurais.
A reportagem ficará na cidade para acompanhar a marcha que acontecerá nesta quinta-feira (14). É o décimo ano da manifestação organizada pelas agricultoras e agricultores do Polo com o apoio da associação AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia. Cerca de 5 mil mulheres são esperadas para a marcha que tem como tema o combate ao racismo e a homenagem à vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), assassinada em 14 de março de 2018.
TEREZINHA: EM NOME DE MARGARIDA ALVES
Nas paredes da casa de Terezinha da Silva, de 65 anos, há santos e terços a perder de vista. O ambiente contrasta com o rosto de Margarida Maria Alves, sindicalista e defensora do povo camponês assassinada há 36 anos, estampado na camisa da Marcha das Margaridas vestida por Terezinha. Para ela, a fé religiosa e a luta andam juntas há quarenta anos, desde que começou a participar das mobilizações organizadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Foi na luta por direito a aposentadoria para as trabalhadoras e os trabalhadores rurais que Terezinha se descobriu sujeita política. “Fui vendo que o dia a dia do cristão batizado não é só ficar em casa”, afirma. “Tirar um tempo para batalhar por condições melhores é muito importante. Quem é dona de casa precisa saber que criar os filhos e cuidar do roçado junto ao esposo é bom, mas a luta também”.
Ao começar a militar junto à CPT, ela conta que enfrentou resistência por parte do pai e do marido, mas mesmo assim não desistiu e partiu “não só para a oração, mas para a ação”. Sempre acompanhada das duas filhas mais velhas, ia às reuniões coordenadas pela Diocese de Guarabira (PB) e aos outros eventos da pastoral.
Terezinha começou a atuar na CPT. (Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo)
Quando a primeira luta longe de casa surgiu, teve de deixar as filhas sozinhas. As duas adolescentes assumiram os cuidados da mais nova, com apenas 5 meses, e Terezinha seguiu rumo a Belo Horizonte (MG) para participar das mobilizações que resultaram na conquista da aposentadoria rural para os trabalhadores do campo, garantida pela Constituição. Diz que ficou com saudade de casa, mas sabia que não podia recuar.
“Saímos em seis ônibus de João Pessoa, treze dias mobilizadas no Mineirão”, lembra Terezinha. “Só Deus, eu e minhas companheiras sabemos o que tivemos que passar no caminho para chegar lá. Mas estávamos muito bem orientadas e foi a chance que tivemos de lutar pela nossa aposentadoria”.
Terezinha também participou da luta pela inauguração da primeira sede do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste construída na Paraíba. Foi diretora do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Solânea e, atualmente, dá continuidade à sua atuação política com o engajamento das filhas, que seguem o rumo da mãe.
Com uma vida dedicada às lutas pelos direitos do campesinato, ela teme que a reforma da previdência do governo Bolsonaro seja aprovada e retire os direitos conquistados.
MARIA DO CÉU: ‘TIVE DE ESCOLHER ENTRE MARIDO E TRABALHO’
Atual diretora do Sindicato de Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais do município de Solânea (PB), Maria do Céu Silva Batista de Santana, 40 anos, dá continuidade à luta de Terezinha, principalmente no que diz respeito às reivindicações das mulheres do campo. Esteve com a mãe em várias mobilizações desde muito pequena e só se distanciou dos movimentos em 2001, quando foi morar em São Paulo.
Céu conseguiu conciliar o roçado com os estudos e concluiu o ensino médio. Nesta época, já esperava o primeiro filho, Matheus, e logo depois veio Thiago. Casou-se aos 19 anos. O marido não gostava de trabalhar na roça. Com poucos anos de casamento, mudou-se para São Paulo em busca de trabalho. Céu continuou em Solânea. Mais tarde, seguiu os caminhos de Thiago, mas não conseguiu se adaptar à vida na cidade grande. “É muita gente e nós tínhamos que morar em um quartinho muito pequeno”, lembra.
Maria do Céu: o casamento ou o trabalho. (Fotos: Inês Campelo/ MZ Conteúdo)
– Eu levava meus filhos para a creche e ia para o trabalho em uma casa de família. Foi uma experiência boa e ao mesmo tempo ruim, porque eu me perguntava o que estava fazendo em São Paulo, já que em Solânea eu tinha minha família perto, participava da igreja e dos movimentos sociais e trabalhava na terra que é o que eu gosto.
O motivo que levou Céu a sair da Paraíba não fazia mais sentido, já que sua rotina de trabalho não conciliava com a do marido e o cuidado com os filhos só ficava a cargo dela. Foi quando decidiu voltar para o campo com os dois filhos e tentar construir a própria casa. Pouco tempo depois, veio a separação. Seu esposo levava em média de um a dois anos para ir a Solânea e impôs uma condição à esposa: não aceitava sua luta nos movimentos sociais. “Chegou uma hora que ele me mandou escolher: casamento ou trabalho”, conta. “Eu escolhi o trabalho, que é onde eu sou mais feliz”.
Céu mora hoje no Sítio Videl, próxima da mãe e de outros familiares. Ela divide a rotina entre a agricultura e o trabalho no sindicato. Afirma que uma das maiores bandeiras das organizações sindicais do Polo Borborema é a divisão justa de trabalho entre homens e mulheres. A camponesa enxerga o tema como um grande desafio na zona rural.
Ela conta com a bagagem e o apoio de Terezinha, assim como suas vivências pessoais para continuar no combate ao machismo no campo. Acredita que o mais difícil “é mudar o machismo que acontece dentro de casa”, mas não vê outra forma de transformar a realidade, a não ser a partir do ambiente doméstico.
– A situação evoluiu. Há companheiras que vivem melhor hoje dentro de casa. Fazemos reuniões com as mulheres e também com os homens sobre os temas da violência contra a mulher, homofobia e racismo.
O filho Matheus Silva de Santana, hoje com 19 anos, se reconhece feminista igual à mãe porque divide as tarefas de casa com ela e o irmão mais novo. “Minha mãe mostrou para a gente o que é ser feminista, não dizendo ‘isso é feminismo’, mas fazendo e colocando em prática”, relata. “O que tiver que fazer, eu faço”.
Matheus se formou no curso técnico de Agropecuária na UEPB, no fim de 2018, e pretende cursar topografia na mesma instituição federal. Quer continuar trabalhando no campo como sua família, mas não necessariamente como agricultor. O irmão Thiago apoia a sua escolha de continuar na roça, mas prefere trabalhar na cidade como garçom.
ANILDA: ‘NÃO ÉRAMOS CONSIDERADOS PESSOAS DE BEM’
A luta por um pedaço de chão para o cultivo começou cedo na vida da viúva Anilda Batista Pereira dos Santos, filha de grande família de agricultores em Esperança, no Agreste da Paraíba. Mãe de três filhos, ela viu a possibilidade de ter a terra própria há 19 anos, quando o mais novo ainda não passava dos 30 dias de vida. Foi em um acampamento organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) que esperança deixou de ser só a sua cidade e passou a ser um sentimento.
Por conta do resguardo, Anilda precisou esperar cerca de dois meses, mas o pai, marido e cunhado seguiram na frente e ocuparam as terras improdutivas do fazendeiro Antônio Diniz. “Quando eu vim conhecer o terreno, eu não gostei”, afirma. “Era muito seco. A região onde eu morava era melhor, mas não tinha espaço para todos plantarem. Com o tempo tudo se ajeitou”.
Com pouco mais de um ano, a documentação do assentamento Oziel Pereira tinha caminhado na Justiça. Cinquenta famílias foram assentadas, mas os barracos de lona levaram mais três anos até se transformarem na casa espaçosa e de tijolo onde Anilda mora hoje, na agrovila.
Anilda lutou contra o preconceito. (Fotos: Inês Campelo/ MZ Conteúdo)
Atualmente, ela mantém um roçado de feijão, fava, milho, macaxeira e hortaliças diversas, no terreno de um hectare, distante cerca de três quilômetros de sua casa. Percorre esse trecho em sua moto. A plantação gera o sustento da família. O excedente ela vende na feira agroecológica de Remígio e uma pequena parte é absorvida pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Com a aproximação ao MST, Anilda conheceu a luta sindical, com a qual se identificou. Segue atuante até hoje. É coordenadora da Associação dos Agricultores e Agricultoras Agroecológicas do Polo da Borborema – conhecida como Ecoborborema -, e cuida das 12 feiras agroecológicas dos municípios que abrangem o Polo.
Os preconceitos enfrentados foram muitos:
– Éramos chamados de invasores a ladrões de terras. As mulheres eram ainda mais esculhambadas. Os moradores de Remígio não nos viam com bons olhos. Tivemos de resistir e enfrentar tudo isso. Lembro bem a cara com que nos olhavam, quando fui matricular minha filha na escola. Negras, pobres, assentadas. Não éramos consideradas pessoas de bem.
No sindicato, também existia preconceito. O machismo imperava nos tempos em que trabalho da mulher era só cuidar da casa. Os homens não lidavam bem com a independência e o empoderamento femininos. “Começamos criando comissões de mulheres tanto no sindicato como na coordenação do Polo e fomos para o campo”, conta Anilda.
Elas faziam visitas de intercâmbio, oficinas de beneficiamentos de frutas, de uso de plantas medicinais, e avançamos pouco a pouco. “Até que o Lula foi eleito presidente e a história mudou de conversa”, conta. “Antes, a realidade era muito diferente. Vieram as cisternas e os fundos rotativos solidários. Continuamos participando e crescendo”.
Até a chegada das cisternas, os períodos de seca massacravam o campo. Após a implementação do Programa de Cisternas, camponeses e camponesas puderam armazenar água para consumo humano, animal e plantio, e organizaram suas vidas. “Implementamos também o banco de sementes comunitário para poder continuar plantando”, conta Anilda. “Com sementes de boa qualidade, garantimos uma melhor qualidade de vida”.
O sentimento de esperança que alimentou o coração de Anilda se multiplicou. “Eu sou uma mulher feliz”, comemora. “Eu planto, colho, alimento meus filhos e netos com qualidade. Aqui, a gente não sabe o que é ir ao médico, só fui pra meus filhos nascerem. Eu tenho qualidade de vida com a agroecologia.
SIDINÉIA: JOVEM CAMPONESA PENSA EM SER VEREADORA
Aos 23 anos, Sidinéia Camilo Bezerra integra a Comissão da Juventude Camponesa do Polo da Borborema, estuda Agroecologia na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e atua como animadora de comunidade na igreja católica da qual faz parte. Este ano ela será candidata a uma vaga no Conselho Tutelar. Deseja ainda se candidatar a vereadora nas próximas eleições municipais, em Remígio (PB).
Nascida no Sítio Caiana, a 30 minutos da cidade, Sidinéia aprendeu a preparar a terra e a plantar nos roçados da família desde pequena. É a quinta dos nove filhos de Josefa e Geraldo e teve a oportunidade de estudar, diferentemente da mãe e do pai, que não concluíram os estudos. Seu “batismo” nos movimentos sociais aconteceu em 2001, quando teve contato com as mobilizações das agriculturas e dos agricultores locais, na Campanha da Infância e da Juventude daquele ano, realizada pela AS-PTA.
Sidinéia se identifica como mulher negra e feminista. (Fotos: Inês Campelo/ MZ Conteúdo)
Hoje ela se identifica como “mulher negra, agricultora e feminista”. Ressalta que sua atuação é fruto de muitas desconstruções sociais e pessoais. “Fui criada ouvindo que trabalho de mulher é dentro de casa, enquanto meus irmãos só ficavam na roça”, diz. À medida que começou a participar ativamente da comissão e a debater sobre gênero, passou a questionar a divisão de tarefas no ambiente familiar e a conscientizar os irmãos para ajudarem no trabalho doméstico.
Os debates e transformações não pararam por aí. E não devem cessar tão cedo. As condições de vida e trabalho no campo, assim como o racismo, a homofobia e o feminismo são também os principais temas de discussão entre a juventude local que se engaja socialmente.
Depois de sete anos utilizando produtos químicos para alisar os cabelos, Sidinéia decidiu abandoná-los e assumir os seus cachos. A atitude, encarada apenas como uma opção estética, significou a reafirmação da sua negritude. Ela lembra, com orgulho, ser frequentemente associada à vereadora Marielle Franco.
Marielle é inspiração para Sidinéia. Ela ainda estuda em qual partido se filiará. Diz que escuta muito dos amigos que quer abraçar o mundo. “Eu não quero me candidatar para preencher a cota de mulheres, não”, avisa. “Eu quero atuar, estar nas casas e nas comunidades. Quero trabalhar para o povo”.
Fazenda de João de Deus ocupada por camponesas em GO é parte mais visível de seu império agropecuário
Médium declarou em dezembro possuir seis fazendas em Goiás, mas sua fortuna permanece desconhecida; MST e MCP protestam contra propriedades oriundas da exploração de mulheres
Por Julia Dolce
A quantidade total de terras que fazem parte da fortuna de João Teixeira de Farias, o João de Deus, ainda é obscura. Mundialmente conhecido como médium, tendo atuado por anos no município de Abadiânia (GO), o fazendeiro está preso preventivamente desde 16 de dezembro, após centenas de acusações de estupros durante supostos atendimentos espirituais.
Na manhã desta quarta-feira (13), 800 camponesas integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Movimento Camponês Popular (MCP) ocuparam uma das terras em nome do médium: a fazenda Agropastoril Dom Inácio, localizada em Anápolis (GO).
De acordo com a assessoria de imprensa do MST, a propriedade foi ocupada por causa das múltiplas acusações de violações de mulheres. A ocupação faz parte da Jornada de Lutas do Dia Internacional da Mulher, que teve início no próprio 8 de março e segue até amanhã (14), primeiro aniversário do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL).
“Entendemos que essa propriedade foi adquirida com base em um processo de violência contra mulheres, então questionamos a própria posse da terra”, diz a porta-voz do movimento. “Ela precisa ser judicializada, retirada do proprietário, para passar pelo processo de reforma agrária, retornando à sociedade com alguma função social. Ele acumula milhões em patrimônio e muito dessa fortuna foi feita a partir de mulheres que buscavam auxílio e acabaram sendo violentadas”.
Campesinas ocupam fazenda de João de Deus em em Anápolis (GO). (Foto: Comunicação MCP)
MST DIZ QUE NÃO HÁ PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA VISÍVEL
O MST destaca que pretende manter um acampamento permanente na fazenda do médium, mesmo após a Jornada de Lutas, em um “processo contínuo de luta por essa terra”. O movimento não tem informações sobre outros processos e conflitos relacionados à propriedade nos cartórios da região. O processo sobre abusos sexuais corre sob segredo de justiça.
Questionada sobre a produtividade da terra, a assessoria de imprensa do movimento informou que precisaria de um laudo técnico para afirmar formalmente, mas que não visualizou nenhuma atividade agropecuária ou plantação na área ocupada.
A Fazenda Agropastoril Dom Inácio leva o mesmo nome da Casa espiritual Dom Inácio de Loyola onde, segundo as denúncias, João de Deus abordava e abusava das mulheres. Ela fica próxima da rodovia GO-433 e tem em torno de 700 hectares. A área, bem como as demais propriedades no nome do médium, está sub judice desde a abertura do processo pelo Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO).
A prisão preventiva de João de Deus foi decretada após a descoberta de que, logo após as primeiras denúncias, ele movimentou R$ 35 milhões que estavam em contas e aplicações financeiras.
ELE TEM OUTRAS SEIS FAZENDAS EM GOIÁS
As propriedades de João de Deus incluem um garimpo de ouro em Nova Era (MG) e diversos endereços no próprio município de Abadiânia, entre eles a instituição filantrópica Casa da Sopa. Em buscas policiais nos endereços, foram encontrados mais de R$ 1 milhão em dinheiro e pedras preciosas, além de seis armas e munições.
Um levantamento realizado pela Folha em dezembro contabilizou, a partir de buscas em cartórios do município goiano, 27 registros de imóveis em nome de João de Deus. Entre eles, quatro na zona rural. Em 2008, a revista Galileu já apontava quatro fazendas em nome do médium, com produção de gado e soja.
Em depoimento formal à polícia em dezembro, o acusado afirmou ter seis fazendas no estado de Goiás, nos municípios de Crixás, Itapaci, São Miguel do Araguaia, Pirenópolis, Abadiânia e Anápolis.
Uma apuração realizada pela TV Record nos cartórios de Abadiânia e Anápolis ncontrou 86 imóveis registrados no nome de João de Deus e de sua atual esposa, Ana Keyla Teixeira Lourenço. A emissora enumera as fazendas Lages e Mocó, Capivary, Capivary dos Araújos e Soares, além de loteamentos urbanos.
TERRA NO ARAGUAIA INCIDE EM ÁREA PÚBLICA
De Olho nos Ruralistas teve acesso ao documento de compra da propriedade do médium em São Miguel do Araguaia, na fronteira com o Mato Grosso: a Fazenda Vista Alegre. A reportagem mostras que 38,79% da propriedade fica em área pública: “João de Deus desmata Cerrado em Fazenda na Floresta Estadual do Araguaia“.
A fazenda de 2.893 hectares tem 1.122 hectaress incidentes na Floresta Estadual do Araguaia, uma área pública, conforme dados registrados em 16 de novembro de 2016 no Cadastro Ambiental Rural (CAR).
João de Deus tem quase 3 mil hectares perto do Rio Araguaia. (Imagem: Reprodução)
No documento, João de Deus apresenta-se como fazendeiro. Alguns meses antes do registro da fazenda em São Miguel do Araguaia, o médium havia entrado com um processo solicitando, sem estudo de impacto ambiental, uma Licença de Exploração Florestal para o desmatamento de uma área de 4,84 hectares, em região classificadapela Secima como Cerrado Aberto Baixo (CAB).
A área seria transformada em pastagem. Antes do resultado do processo, João deu início ao desmatamento da área, e a Fazenda Vista Alegre sofreu dois embargos em áreas de Reserva Legal, também do Cerrado, que juntas somavam cerca de três campos de futebol.
MÉDIUM TROCOU GARIMPO POR FAZENDA
O observatório mostrou em dezembro que o braço direito de João de Deus, o piloto de avião, garimpeiro e fazendeiro João Américo França Vieira, aterrorizava garimpeiros no Pará. Ele é apontado como responsável pelo transporte aéreo de João de Deus para atendimentos. O médium possui um bimotor da Embraer, EMB-810C, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Acusado de cinco homicídios e absolvido por falta de provas, Vieira se apresenta como amigo de João de Deus há mais de 30 anos. O piloto é sócio de Márcio Martins da Costa, conhecido como o Rambo do Pará, morto pela Policia Militar do estado em 1992. Como explicou a reportagem “Braço direito de João de Deus fez parte de grupo que aterrorizou garimpos“, ele andava com diversas armas e usava uma fita na cabeça, como o personagem interpretado por Sylvester Stalone.
Rambo chegou a Castelo dos Sonhos, um distrito de Altamira (PA) e tentou tomar os garimpos do distrito, mas acabou expulso pela família do primeiro ocupante das terras. A informação consta do livro “Dono é quem desmata – conexões entre grilagem e desmatamento no sudoeste do Pará”, dos pesquisadores Maurício Torres, Juan Doblas e Daniela Fernandes Alarcon. Eles afirmam que Rambo voltou meses depois para tomar o garimpo da família e assassinou cinco pessoas.
Mesmo após o término da aventura em Castelo dos Sonhos, Vieira continuou sócio de integrantes do grupo de Rambo na MM Aviação, Comércio e Serviços. Segundo a Folha, Vieira se tornou dono de um garimpo de ouro em Crixás, de propriedade João de Deus. Ele trocou o garimpo, numa terra de 30 alqueires goianos, pela fazenda Fazenda Vista Alegre em São Miguel do Araguaia.
A atividade como garimpeiro também já tornou o médium réu em um processo. Em 1985, ele foi preso em flagrante com 300 quilos de autunita, minério com alto teor de urânio.
Além das acusações por estupro e posse de armas, João de Deus responde por coação e corrupção de testemunhas. Nesta terça-feira (12), o Tribunal de Justiça de Goiás concedeu um habeas corpus ao médium e a seu filho, Sandro Teixeira, no que se refere a essas últimas acusações. Sandro deve deixar a cadeia. O religioso permanecerá preso pelas outras acusações.
Primeira pajé mulher dos Kamayurá afirma protagonismo feminino no Xingu
Ganhadora do Prêmio Direitos Humanos 2018, Mapulu Kamayurá articula projetos para levar centros de informática às aldeias e incentivar venda pela internet de artesanato de jovens indígenas no Alto Xingu
Por Clarissa Beretz, do Alto Xingu
Foto principal: Renato Stockler
Mapulu está em transe. Ela fuma um charuto de folha de tabaco, fecha os olhos e “desmaia” por uns minutos. Ao acordar, começa a caminhar até uma árvore, na aldeia Ipavu, da etnia Kamayurá, no Alto Xingu, em Mato Grosso. Ela então se abaixa, começa a escavar a terra com as mãos e tira dali um pequeno emaranhado de pedacinhos de pau com fios, arames e elásticos. Mapulu acaba de encontrar um feitiço.
Segundo o povo do Xingu, é assim que se materializa uma intenção de “feiticeiros” de amaldiçoar alguém. Um “trabalho feito”, na linguagem dos não-indígenas. Só um pajé – ou uma – consegue descobrir e destruir um feitiço. Quando desmaia, Mapulu sonha com a resposta para resolver o caso. Os sonhos ocupam lugar de destaque no mundo dos xinguanos. É por meio deles que os pajés conversam com seu mama’e, o espírito-guia que faz a comunicação entre o sagrado e o terreno.
Mapulu segue a cura desfazendo a amarração com as mãos, baforando fumaça nos pedaços e no rosto do “enfeitiçado”, que, doente, agoniza na rede dentro de sua oca. A xamã reza e profere palavras que nem ela mesma decodifica. O pai de Mapulu, o cacique e também pajé Takumã Kamayurá, foi quem lhe passou os conhecimentos, quando tinha 15 anos.”Não foi fácil, passei sete anos aprendendo”, conta. “Cheguei a ficar cinco dias sem comer, ver e escutar, fumando para sonhar e encontrar meu mama’e. É ele que faz a conexão entre aqui e lá”.
DESTAQUE FEMININO É FENÔMENO RECENTE
Até onde a memória dos mais velhos alcança, Mapulu é a primeira mulher pajé da sociedade Kamayurá. “É um fenômeno recente o protagonismo feminino dentro do seleto universo mágico-sagrado, antes exclusivo aos homens”, atesta Maria Luiza Silveira, em sua tese de doutorado “Mapulu, a mulher pajé – A experiência Kamayurá e os rumos do feminismo indígena no Brasil”, da pós-graduação em Antropologia da PUC de São Paulo. Maria Luiza foi orientada pela antropóloga Carmen Junqueira que há mais de cinco décadas acompanha os Kamayurá e seus ritos sagrados.
Mapulu é chamada nas aldeias vizinhas quando alguém adoece e os remédios tradicionais não curam. Nem sempre é feitiço. O papel dos pajés é também o de sanar doenças comuns ou complexas. Há algumas décadas, entretanto, o trabalho desta figura sagrada vem sendo preterido pela própria comunidade indígena, cada vez com mais acesso à medicina alopática, seja pelas visitas dos agentes de saúde nas aldeias ou pela frequência aos hospitais das cidades próximas ao Parque Indígena.
Mapulu recebeu o Prêmio Direitos Humanos em Brasília, em 2018. (Foto: MDH)
Ela explica sua visão de mundo e de saúde:
– Tem doença que não precisa de médico. Pajé cura. A gente precisa trabalhar junto. Parteira, enfermeira, médico… do lado do pajé. Médico vai entender trabalho do pajé e pajé vai entender o trabalho do médico.
Em novembro, a atuação de Mapulu foi reconhecida pelo Ministério dos Direitos Humanos, quando recebeu, na capital federal, um dos prêmios Direitos Humanos 2018. “Ela é o símbolo da mulher indígena forte e atuante, que precisa ser mais visto”, definiu Andreza Colatto, então Secretária Nacional de Políticas para Mulheres, que indicou Mapulu ao prêmio. “Tenho uma enorme admiração por seu trabalho, no cuidado com as crianças e no fortalecimento das mulheres”.
ENCONTRO DE PAJÉS INTEGRARÁ CONHECIMENTOS
Mapulu e seu irmão, o cacique Kotok, integram a Associação Indígena Hiulaya, que realizará em abril um encontro dos pajés, rezadores, raizeiros e parteiras do Alto Xingu, na própria aldeia Kamayurá. A intenção é convocar agentes de saúde e mostrar a eles a importância da integração desses conhecimentos. “Queremos fortalecer o papel social, político e cultural dos pajés”, diz o documento convocatório. “O projeto é essencial para dar continuidade à saúde e ao equilíbrio das comunidades e dos povos do Xingu”.
A atuação e a representatividade de Mapulu abrem caminhos para novos tempos na atuação das mulheres no território xinguano. A opinião dela é considerada pelos caciques. É a única a fumar com os homens e a ter autorização para entrar na casa das flautas sagradas, local de frequência estritamente masculina.
De sorriso largo, risada fácil e olhos rasgados, está sempre disposta e pronta a atender a todos. Só para para conversar nos momentos em que se banha no rio, prepara o beiju, assa o peixe dentro de sua oca ou senta no chão para fazer colares de miçangas. “Antes eu sentia muita vergonha em ser pajé”, diz, rindo e ajeitando os óculos de grau, enquanto termina um colar ao lado do marido Raul, famoso raizeiro da região. “Depois que curei muita gente, agora eu falo e eles me escutam”.
A líder indígena é também é a maior parteira do Alto Xingu. Ela lamenta o número cada vez maior de meninas e mulheres que preferem dar à luz nas cidades próximas do Parque. É o caso de sua nora, grávida de 9 meses, que decidiu parir em Canarana, aos 18 anos. “É escolha dela, eu não falo nada”, diz a parteira.
Aos 52 anos de idade, Mapulu é mãe de cinco filhos, todos nascidos de parto normal, apesar de ter tido dois deles no hospital, quando ela relembra que “sofreu muito”. Ela também é avó de sete netos. Já perdeu as contas de quantos partos realizou em sua aldeia e de outras etnias do Xingu.
A indígena alerta para o fato de que, na cidade, corre-se mais risco de adquirir infecções, sobretudo pelo aumento do número de cesáreas feitas nos hospitais públicos. Os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), entretanto, não são precisos para atestar o que a parteira diz.
“Cesárea estraga mulher”, diz ela. “Volta e não consegue trabalhar, levantar peso, nunca mais fica igual. Na aldeia, mulher fica em outra posição, toma ervas, limpa, fica em jejum. Barriga fica bonita, no lugar, mulher volta forte. Ela e bebê. Não precisa hospital”.
‘DAMARES MENTE SOBRE CRIANÇA ADOTADA’, DIZ
O papel político e social exercido por Mapulu também é fundamental. Atualmente, ela articula em Brasília um projeto para levar centros de informática para as aldeias. A intenção é também viabilizar a venda de artesanato de jovens produtoras via internet.
Mapulu se posicionou contra o suposto sequestro da menina Kamayurá pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. A denúncia foi publicada no dia 31 de janeiro, pela revista Época. De acordo com depoimentos mostrados na reportagem, Lulu Kamayurá, a “filha adotiva” da ministra, teria sido levada irregularmente da aldeia Ipavu, onde nasceu.
Mapulu é uma das organizadoras de evento com pajés. (Imagem: Reprodução/YouTube)
“Damares cometeu um grande erro”, avalia. “É mentira dizer que Lulu foi resgatada. Se Damares tivesse visto Lulu em um buraco no chão e retirado ela de lá, podia dizer isso”. A pajé nega as acusações de que a garota teria sido vítima de infanticídio, caso não fosse “salva” pela ministra. Em nota publicada no site do ministério, Damares Alves negou as acusações.
No caminho sagrado da grande sacerdotisa, sua filha Mapualu, de 30 anos, e duas outras mulheres Kamayurá foram iniciadas como pajés. Outras três estão sendo preparadas. A missão não é fácil: para carregar o reverenciado posto, deverão se privar de relações sexuais por pelo menos um ano e meio, ficar enclausuradas e adotar uma dieta alimentar bastante rígida.
“É difícil, mas sei da importância de curar, devolver a vida à pessoa com risco de morte”, orgulha-se a jovem Mapualu, filha de Mapulu. “Quero continuidade ao trabalho de minha mãe, valorizar e manter a cultura viva para o povo Kamayurá”.
Líder histórico no Parque do Xingu rejeita “integração” ao agronegócio proposta por Bolsonaro
O mais antigo e respeitado cacique da região, Aritana Yawalapiti, viveu com os irmãos Villas-Bôas e organiza grupo com o filho e outros jovens graduados para defender território
Por Clarissa Beretz, do Alto Xingu
Aritana Yawalapiti chega ao ponto de sua aldeia com conexão à internet para fazer algo inédito em seus 70 anos de vida. Pela primeira vez, o mais antigo e respeitado cacique do Alto Xingu usa o whatsapp para falar com um amigo em São Paulo. “Que bom ter notícias de longe!”, entusiasma-se. O líder da etnia Yawalapiti é a mais velha autoridade atuante na região. Aos 19 anos, aceitou a incumbência de ser cacique.
Passou os cinco anos seguintes em reclusão, recebendo ensinamentos para ocupar o posto. O indígena que hoje usa a internet é um dos últimos remanescentes dos povos que caçavam e pescavam com arco e flecha nascidos antes da criação do Parque Indígena do Xingu (PIX). Ele cresceu ouvindo os irmãos Orlando e Cláudio Villas-Bôas, dois dos mentores da maior reserva indígena do mundo.
“Você é quem vai tomar conta dessa terra”, disse Cláudio ao jovem Aritana. “Quando o branco entrar aqui, ele vai vir com papéis e panos coloridos para convencer vocês. No dia em que você deixar, acabou o Xingu”, relembra.
Esse dia chegou, constata o líder, ao saber das declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre o desejo de “integrar” os indígenas na sociedade capitalista e da proposta de uso de suas terras para lucrarem com o agronegócio: “Não precisamos plantar soja. Temos a nossa roça, mandioca, milho, pesca, caça. O governo tem que respeitar o nosso modo de vida”.
DEMARCAÇÃO ASSEGURA DIREITO PARA 16 ETNIAS
Homologada em 1961, a demarcação de quase 2,8 milhões de hectares para a criação do PIX (divididos entre Alto, Baixo e Médio Xingu) assegurou a 16 etnias o direito de viver em suas terras ancestrais como contrapartida à devastação promovida pela Marcha para o Oeste, programa do governo Getúlio Vargas que pretendia ocupar o Brasil central.
É nesse oásis isolado com florestas e rios, na região nordeste do Mato Grosso, que cerca de 8 mil índios vivem entre seus hábitos milenares e costumes adquiridos com o homem branco. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a área concentra o mais importante mosaico linguístico puro do país. Mas o rico território é ameaçado pela contaminação de seus rios por agrotóxicos e pelo roubo de madeira e minérios, além das barragens previstas no Rio Xingu e seus irreversíveis impactos socioambientais, como a hidrelétrica de Belo Monte.
Aritana diz que sua luta hoje não é mais de borduna. “É de papel, caneta e computador”, afirma. Essa parte ele conta que deixará para os jovens. Entre manter as tradições e enfrentar os desafios do presente, traçou uma estratégia com o filho Tapi, que mora em Brasília e faz mestrado em Linguística na Universidade de Brasília (UNB). E reuniu um time de indígenas graduados para defender o seu povo.
São jovens que concluíram cursos universitários e agora retornam para a aldeia, entre eles um mestre em Antropologia, dois bacharéis de Direito e um em Ciências Políticas. Eles auxiliarão os caciques na elaboração de documentos e tomada de decisões, conta Tapi, que se prepara para suceder o pai como o próximo cacique Yawalapiti.
A DEMARCAÇÃO DO XINGU PODE MUDAR?
Povos do Xingu temem invasão. (Foto: Renato Stockler)
Aritana lembra que o seu território está mais resguardado em relação aos outros povos indígenas do Brasil, já que a demarcação do Xingu, feita há 58 anos, assegura constitucionalmente ao seu povo viver nessas terras de forma vitalícia. Depois que a responsabilidade de demarcação territorial indígena foi transferida para o Ministério da Agricultura, resta saber se o órgão, comandado pela então líder da bancada ruralista no Congresso, Tereza Cristina, ousará mexer no até então intocável território do Alto Xingu para expandir o agronegócio na região.
O coordenador de políticas públicas do Greenpeace, Marcio Astrini, explica que, para isso acontecer, o governo teria de rever a demarcação, anular o processo ou aprovar via Congresso a alteração dos limites da reserva:
– O governo não pode arrendar uma terra indígena para a produção de soja simplesmente porque deseja. O país tem leis, que devem ser respeitadas. Apesar das Terras Indígenas pertencerem ao estado brasileiro, elas têm um destino: o direito de uso dos indígenas. Não pode haver outro destino ao mesmo tempo. Para tanto, seria preciso mudar a legislação atual, mudar a Constituição e desfazer a destinação. Só depois seria dado um novo destino (no caso, ao agronegócio) via licitação, leilão, regularização fundiária, etc. Seria algo absurdo. Mas não podemos duvidar de nada deste governo.
Para o líder do Alto Xingu, o governo tem uma dívida histórica com os indígenas. “Tomaram tudo o que tínhamos, principalmente dos parentes de outras etnias: terra, madeira, riquezas minerais”, afirma. “Então, tem mais é que dar melhorias. E sem contrapartida. Queremos internet, televisão, dentista? Sim, precisamos! Mas que respeitem a nossa forma de vida”, finaliza Aritana, enquanto sai de sua oca, nu, para tomar mais um banho no rio Toatoari.
Sua maior arma é a paciência. Ele acredita que a principal função de um cacique é promover o diálogo e o entendimento. Assim, o menino que tomava arranhadura de dente de piranha na pele para aprender a lidar com a dor prepara-se para os desafios. Nos encontros em Brasília e reuniões com fazendeiros, mantém o tom amigável. Aritana dialoga com figuras das quais discorda, como Blairo Maggi, ex-governador do Mato Grosso e ex-ministro da Agricultura do governo Temer, um dos maiores produtores de soja do mundo.
Maggi conversou com Aritana sobre a construção de uma estrada na região para escoar a produção de soja e milho desde Querência e Canarana (MT), rumo aos portos de Miritituba e Santarém, no Pará. “O Blairo falou que irá trazer melhorias para o nosso povo, porque poderemos levar os nossos doentes mais rápido para o hospital”, comenta. Aritana não quer o suposto benefício. Disse que não quer, pois a estrada facilitará “a chegada do que não presta”.
Confira as mobilizações das indígenas e camponesas neste 8 de março
Manifestações, trancamento de rodovias, atividades de formação e ocupação de mineradora marcaram início de jornada de lutas de movimentos do campo, que se estenderá até o dia 14
Por Julia Dolce
Mulheres camponesas, indígenas e quilombolas participaram ativamente das mobilizações do Dia Internacional da Mulher pelo Brasil. A jornada, que teve início nesta sexta-feira, seguirá até o dia 14, quando se completa um ano do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL). Trabalhadores rurais e movimentos do campo estão entre os grupos mais atingidos pelas medidas já tomadas pelo governo Bolsonaro ao longo dos dois meses de mandato.
Uma das principais bandeiras da atual jornada das mulheres camponesas é a perspectiva de aprovação da reforma da Previdência. Militantes de organizações que formam a internacional Via Campesina, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), além de cooperativas campesinas, denunciam que serão as mais prejudicadas com as mudanças entregues por Bolsonaro ao Congresso.
Campesinas de Teresina se reúnem em audiência com presidente do Tribunal de Justiça. (Foto: Reprodução)
Em Teresina, as mulheres do MPA participaram de uma audiência com o presidente do Tribunal de Justiça, Sebastião Martins, e o juiz auxiliar da Previdência, José Airton Medeiros. Na reunião, o movimento denunciou a visão de que as mulheres do campo não aguentarão, além das jornadas duplas, parte das mudanças apresentadas na proposta do governo, como a equivalência da idade mínima da aposentadoria rural entre homens e mulheres para 60 anos. Elas reivindicaram medidas de combate ao aumento da violência contra a mulher, não apenas no Piauí, mas em todo o país.
As campesinas sergipanas, integrantes principalmente do MST, focaram sua mobilização, realizada nesta tarde, na pauta da Previdência. Elas se juntaram às ribeirinhas e às mulheres da cidade na capital Aracaju e marcharam até a Assembleia Legislativa do estado, de lá seguindo para o Tribunal de Justiça e finalizando o ato na sede regional do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).
LIBERAÇÃO DE AGROTÓXICOS FOI TEMA DE PROTESTOS
Camponesas sergipanas também repudiaram a reforma da Previdência em sua marcha. (Foto: Reprodução)
Os movimentos do campo realizaram grandes manifestações nas capitais e municípios no interior de pelo menos 19 estados ao longo do dia. Além das marchas, as camponesas organizaram feiras de alimentos orgânicos, denunciando o abuso de agrotóxicos utilizados no agronegócio. O governo Bolsonaro aprovou o registro de 86 novos pesticidas segundo levantamento realizado pelo De Olho nos Ruralistas – a ser detalhado na semana que vem.
As feiras foram realizadas em municípios como Quedas do Iguaçu (PR), onde parte dos alimentos foi doada para duas entidades que trabalham com crianças de famílias de baixo poder aquisitivo. A doação de alimentos também foi realizada pelas camponesas do MST em outro município da região Sul, para a Comunidade Católica Mãe de Deus de Bagé (RS). Em Cruz Alta (RS), doações de alimentos orgânicos foram feitas para o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Um Lugar ao Sol.
Feira de alimentos da Reforma Agrária em Natal. (Foto: Reprodução)
Em Natal, agricultoras do MST distribuíram cerca de 15 toneladas de alimentos à população, por meio da Feira da Solidariedade Agroecológica da Reforma Agrária, realizada no Espaço Cultural Ruy Pereira. A comunidade da Lagoa Mundaú, em Maceió, recebeu alimentos de acampamentos e assentamentos potiguares do MST.
Outras atividades marcaram o início da jornada de lutas das campesinas neste 8 de março. Ações de formação aconteceram em diversos assentamentos. Na Escola do Campo Paulo Freire, localizada no assentamento que leva o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Santa Cruz de Cabrália (BA), foi organizado um seminário sobre o Dia Internacional da Mulher e as pautas das mulheres do campo. Na região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, mulheres de diferentes assentamentos se reuniram para iniciar o dia estudando conceitos do feminismo.
Em Porto Alegre, um painel sobre a Soberania Alimentar e a Defesa dos Territórios fechou um dia de palestras sobre a condição da mulher campesina.
INDÍGENAS TRANCAM RODOVIAS CONTRA PERDA DE DIREITOS
Indígenas de diferentes etnias trancam BR-101 entre Sergipe e Alagoas. (Foto: Reprodução)
Mulheres de diferentes etnias se mobilizaram pelo país, seguindo o tom de denúncia inaugurado, após a posse de Bolsonaro, pelos próprios movimentos indígenas. Fortemente afetados por mudanças no processo de demarcação de terras, após a Fundação Nacional do Índio (Funai) perder essa função, transferida para o Ministério da Agricultura, os indígenas realizaram a primeira manifestação massiva contra Bolsonaro no dia 31 de janeiro, finalizando a campanha que chamaram de Janeiro Vermelho.
Em Chapecó (SC), mulheres indígenas ergueram cartazes pedindo “demarcação já!” e denunciaram as políticas anti-indígenas do governo, somando-se aos outros movimentos que participaram da mobilização de hoje, como relatou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
As Kayapó de São Félix do Xingu (PA) somaram-se às manifestações do 8 de março. (Foto: Reprodução)
Mulheres dos povos Xukuru Kariri, Wassu Vocal, Karapoto, Tinguiboto, Kariri Xocó, Katokin Jeripanko, Karuazu Kalanko e Xocó, de Sergipe, participaram de uma grande ocupação em trecho da BR-101, na fronteira com Alagoas. A principal pauta foi a denúncia das propostas de municipalização da saúde indígena, que colocariam em xeque o subsistema de saúde indígena, trazido pela Lei 9.836/1999, normativa estabelecida há vinte anos que estabelece a União como financiadora do sistema.
Trancamento de rodovia foi a mesma forma de protesto utilizada pelas mulheres do povo Tupinambá de Olivença (BA). A ocupação ocorreu na BA-001, entre os municípios de Ilhéus e Una, onde se localiza a aldeia Acuípe de Baixo, em protesto contra a municipalização da saúde indígena e as violências que afetam as mulheres indígenas.
No extremo sul do estado, os Pataxó, liderados pelas mulheres, fecharam outro trecho da BR-101, na altura do Parque de Monte Pascoal, região conhecida por históricos conflitos entre ruralistas e indígenas. Elas reivindicaram acesso à saúde e protestaram contra a MP 870, a que retirou poderes da Funai. Elas pediram agilidade nas demarcações de seus territórios.
Mulheres Pataxó protestam no sul da Bahia. (Foto: Reprodução)
No Pará, o povo Gavião da Terra Indígena Mãe Maria realizou um trancamento da rodovia BR-222, protestando pela saúde indígena e pela demarcação imediata de seus territórios ocupados. Em Santa Inês (MA), as mulheres do povo Guajajara dançaram segurando as mãos umas das outras, em alusão ao lema “ninguém solta a mão de ninguém”, que se tornou mote da resistência ao governo Bolsonaro.
Representantes de comunidades quilombolas participaram de manifestações em municípios como Belém e Patos (PB), onde ocorreu a Caminhada da Mulher. Em Salvador, cidade mais negra fora da África, organizações quilombolas como o Instituto Quilombo, a Revista Quilombo e Coletivo Quilombo participaram da organização da marcha do 8 de março.
ATINGIDAS PELA MINERAÇÃO PROTESTAM CONTRA VALE
As mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) também se mobilizaram pelo país neste Dia Internacional da Mulher. Denunciando principalmente a responsabilidade da Vale nos crimes de Brumadinho e de Mariana, e alertando para o impacto de tragédias do tipo para as mulheres atingidas, elas marcharam em São Paulo, no Espírito Santo e em municípios como Fortaleza, Teresina, Altamira (PA), Indaibira (MG) e Porto Belo (SC).
Camponesas do município baiano de Ipiaú ocupam sede de mineradora. (Foto: Reprodução)
Uma das principais ferramentas de resistência dos movimentos campesinos, a ocupação de terras e de sedes de empresas deixou igualmente sua marca neste Dia Internacional da Mulher. Na madrugada desta sexta-feira, as mulheres do MST e do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) ocuparam uma unidade da mineradora australiana Mirabela Nickel, em Ipiaú (BA), fechando os portões da empresa. O objetivo da ação foi denunciar o descaso e a violência do modelo minerador brasileiro.