Belo recebeu R$ 7 milhões em cachês durante governo do amigo Cláudio Castro

Governo do Rio bancou 17 apresentações do pagodeiro entre julho de 2024 e janeiro de 2026; político e artista são filiados ao PL; em 2022, Belo fez show da campanha à reeleição e outro de aniversário do ex-governador, hoje investigado pela Polícia Federal

Por Alceu Luís Castilho e Carolina Bataier

Clique na imagem e baixe o relatório completo.

Amigo pessoal do ex-governador Cláudio Castro (PL), Belo recebeu R$ 6,9 milhões em cachês pagos pelo governo fluminense desde 2024. Dos 30 shows realizados pelo cantor no estado, 17 ocorreram na gestão Castro, no período de janeiro de 2024 e março de 2026. Os dados integram o dossiê Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, publicado em julho pelo De Olho nos Ruralistas. Castro renunciou ao cargo em março de 2026 e é investigado pela Polícia Federal na Operação Sem Refino.

O cachê mais baixo pago a Belo custou R$ 250 mil, para uma apresentação no município de Cordeiro, na região serrana do Rio, em julho de 2025. Em Rio Bonito, Duque de Caxias, Armação dos Búzios, Nilópolis e no Aterro do Flamengo, na capital, o valor foi de R$ 350 mil por show. Essas apresentações foram feitas entre julho de 2024 e o novembro de 2025.

Do combo de shows pagos pelo governo Castro, os mais caros ocorreram em Cabo Frio, Cardoso Moreira, Mangaratiba, Paraíba do Sul, Valença, Resende, Natividade, Guapimirim, Nilópolis, Barra do Piraí e outra vez na capital. Cada apresentação custou R$ 450 mil e foram realizadas entre o segundo semestre de 2025 e o início de 2026.

As contratações, feitas pela Fundação Anita Matuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro (Funarj), fazem parte do programa Giro Cultural, que leva apresentações gratuitas — ou a preços acessíveis — para a população. Os moradores de Natividade puderam prestigiar, além de Belo, o cantor Xande de Pilares, contratado a R$ 180 mil. O roqueiro Lobão também integrou a programação, com cachê em torno de R$ 80 mil por apresentação.

A relação de Belo com o ex-governador fluminense foi tema do último vídeo da série De Olho no Dinheiro e está disponível em nosso canal do YouTube. Confira abaixo:

RELAÇÃO SE ESTENDE A PREFEITOS ALIADOS DE CASTRO

Além do Giro Cultural, Belo circulou pelo estado à convite dos gestores municipais. Somando os cachês pagos por prefeituras, o valor pago ao cantor chega a R$ 12,3 milhões apenas no Rio de Janeiro.

Em alguns desses municípios, os prefeitos são aliados políticos de Castro. É o caso de Itaboraí, onde Belo se apresentou em maio de 2025 por R$ 500 mil. Em fevereiro de 2026, o prefeito Marcelo Deralori (PL) chegou a ser cotado por Castro para uma vaga no conselho do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Em Angra dos Reis, o prefeito Cláudio Ferreti (MDB) foi eleito em 2024 com apoio do ex-governador.

Cláudio Castro está na mira da segunda fase da Operação Sem Refino, que investiga gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, evasão de divisas, manipulação de mercado, além de crimes contra a ordem econômica envolvendo a comercialização de combustíveis. Nesta etapa, a PF apura fraude na concessão de licenças ambientais para a refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro, a Refit.

O ex-governador está inelegível por oito anos, até 2030, por abuso de poder político e econômico na campanha à reeleição em 2022.

Cantor fez show gratuito na festa de aniversário de Cláudio Castro, em 2022. (Foto: Reprodução/Globo)

BELO CANTOU NA FESTA DE ANIVERSÁRIO DO EX-GOVERNADOR

O cantor e ator Belo e o ex-governador Cláudio Castro têm uma história de parcerias. Em março de 2022, Belo foi uma das atrações da comemoração de aniversário de 43 anos de Castro, ao lado de Alcione, Mumuzinho e da bateria da escola de samba Grande Rio. A celebração, realizada no Jockey Club, teve cerca de 2 mil convidados.

Meses depois, em outubro, o cantor se apresentou na festa de reeleição do ex-governador do RJ, em uma casa de shows na zona oeste do Rio.

Em 2024, cantor e político estiveram juntos no aniversário do senador Romário, então no PL. O ex-jogador, que também integra o círculo de amizades de Belo, deixou o partido de Bolsonaro e migrou para o PSD.

Em 2022, Belo se filiou ao PL, mas não disputa – ao menos por enquanto – um cargo político. O empresário do cantor, Alfredo Santana, estreia, em 2026, na corrida eleitoral pelo Republicanos. Ele busca uma vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília. Seu nome de campanha? Alfredo do Belo. A imagem pagodeiro aparece ostensivamente nos materiais de campanha.

CANTOR É O 66º ARTISTA MAIS CONTRATADO PELO PODER PÚBLICO DESDE 2024

A soma dos cachês de Belo foi de R$ 33,6 milhões, colocando o pagodeiro na 66ª posição entre os artistas que mas recebem dinheiro de prefeituras e governos estaduais. Embora o Rio de Janeiro seja o estado onde ele mais se apresentou, Belo esteve em outras festas pelo país. Em alguns desses lugares, por valores bem mais altos.

Belo estreou como ator na novela Três Graças. (Foto: Divulgação/Globo).

Em Murici, por exemplo, Belo foi uma das atrações do 19º Festival da Natureza, em dezembro de 2025, pelo cachê de R$ 800 mil. Esse valor se repete em outros municípios, como São Paulo (SP) e Recife (PE), sendo o mais alto entre os contratos de Belo identificados pelo levantamento do De Olho.

A festa em Murici teve presença de outros artistas ranqueados no levantamento do De Olho nos ruralistas, como Xand Avião, Pablo e Henry Freitas e custou, somente em cachês, R$ 4 milhões.

Os dados desta reportagem estão no dossiê Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio, publicado em julho de 2026 pelo observatório De Olho nos Ruralistas.

O dossiê é resultado da análise de mais de 20 mil contratos públicos firmados entre janeiro de 2024 e março de 2026. Os 100 artistas que mais receberam pagamentos de prefeituras e governos estaduais no período somam um valor de cachês de R$ 5 bilhões.

Imagem principal (De Olho nos Ruralistas): live reunirá representantes da categoria de músicos profissionais para discutir dados do relatório

| Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas. |

|| Carolina Bataier é repórter e coordenadora da área socioambiental do observatório. ||

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