Sindicalistas da Bahia, Minas e São Paulo comentam impacto dos dados do relatório e desafios observados pela categoria; observatório realiza live nesta quarta com presidente do Sindimus-MG e cantora que teve nome artístico copiado por “incubada” da produtora Vybbe
Por Carolina Bataier
Cinco bilhões de reais. Essa é a soma dos cachês pagos por prefeituras e governos estaduais a cem artistas desde janeiro de 2024, revelada pelo dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, publicado em julho pelo De Olho nos Ruralistas. Essa é só a ponta do iceberg. Dentro desse bolo, há uma fatia ainda mais exclusiva: a dos 40 artistas cuja soma de cachês entre 2024 e 2026 ultrapassa a faixa dos R$ 50 milhões. Total de contratos? R$ 3,08 bilhões.

O que diferencia esses 40 nomes em um mar de mais de 150 mil profissionais da música no Brasil? Para Sidney Zapata, presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado da Bahia (SindiMúsicos-BA), o debate passa pelo poder político e econômico das mega produtoras. “Isso quebra o setor de eventos, além de concentrar renda na mão de poucos”, avalia Zapata. “E, no caso, é uma concentração de renda com dinheiro público, o que é pior”.
O dirigente sindical destaca que os dados gerados pelo observatório podem ajudar a barrar shows com cachês elevados:
— Esse material vai servir para subsidiar futuras ações penais. Está rodando nos grupos dos sindicatos de músicos do Brasil todo.
Dos R$ 5 bilhões destinados às cem bandas mais contratadas do país, R$ 2,42 bilhões abasteceram apenas cinco empresas. Três delas pertencem a artistas que figuram na lista dos mais bem pagos com dinheiro público: a Camarote Shows, de Wesley Safadão; a Vybbe, de Xand Avião; e a M&P, de Pablo do Arrocha. A Tapajós Eventos e a Full fecham o quinteto.
Segundo Adelmo Ribeiro, presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de São Paulo (Sindmus-SP), essa concentração nos pagamentos de prefeituras e governos estaduais é um obstáculo para a valorização da categoria.
— A pesquisa nos deixa preocupados. O sindicato luta por valorização dos cachês para os músicos trabalhadores. Neste caso, os cachês vão para os artistas [mais bem pagos] e para os empresários dos mesmos. E o músico trabalhador fica à deriva.
ALTOS CACHÊS SÃO “BOMBAS” EM ECOSSISTEMAS ARTÍSTICOS LOCAIS
Durante a pesquisa para o dossiê Farras, a equipe do De Olho nos Ruralistas ouviu representantes de sindicatos estaduais para avaliar o impacto do sistema de concentração de cachês em relação aos artistas locais.

“Cada show desse é como você jogasse uma bomba em um ecossistema”, alerta Gilberto Mauro, diretor de comunicação do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de Minas Gerais (Sindimus-MG). “São vários salários de músicos que são perdidos. Cada show desse são mais músicos que vão para a pobreza”.
Ele fez o dossiê Farras circular pelas redes de músicos do estado. “Muita gente comentou, muito músico comentando. Foi ótimo”. Para Mauro, o oligopólio na produção musical se estende ainda à distribuição:
— Era muito importante continuar a pesquisa, porque é muito mais predatório do que parece. Milhares de rádios no Brasil são mantidas ou pertencem a estas produtoras, em parceria com o agronegócio.
A participação crescente do agronegócio na indústria cultural vem sendo sentida na Bahia, estado líder em contratações de artistas do top 40 desde 2024. Segundo Sidney Zapata, do SindiMúsicos-BA, a quantidade de festejos populares diminuiu devido à expansão dos megaeventos e à cooptação pelo poder econômico. “Tinha o forró do Bosque, o forró do Lago”, destaa. “Durante o dia, tinha as festas nos ranchos no período junino. [Hoje] muitas dessas festas acabaram. Outras, passam por um processo de descaracterização para poder atender o agronejo, o sertanejo”.
O levantamento do dossiê Farras aponta que o circuito do agronegócio — rodeios, festas de peão, vaquejadas e cavalgadas — consumiu R$ 150 milhões em cachês pagos com dinheiro público desde 2024. Isso sem incluir as exposições agropecuárias, organizadas por prefeituras e governos estaduais em articulação com sindicatos rurais. O valor é 56 vezes maior que a soma destinada a eventos da agricultura familiar.
LIVE DISCUTE IMPACTO DE DOSSIÊ ENTRE MÚSICOS PROFISSIONAIS
A investigação do relatório Farras não termina com a publicação do documento. De Olho nos Ruralistas reuniu dados sobre mais de 20 mil contratos de shows com dinheiro público, de mais de 250 artistas que se apresentaram em todo o território nacional.

Esse conteúdo não caberia em um relatório de 86 páginas. Por isso, desenvolveremos os temas em uma série de reportagens, vídeos e infográficos publicados tanto em nosso site quando no canal do YouTube. A cobertura incluirá ainda a realização de lives, entrevistando personagens da série.
A primeira live será realizada nesta quarta-feira (19), às 19h, em nosso canal do YouTube. O diretor do observatório Alceu Luís Castilho entrevistará, ao lado da apresentadora Gaia Lourenço, o presidente do Sindimus-MG, Gilberto Mauro, e a cantora goiana Talita Mel.
Com vinte anos de carreira, ela teve o nome artístico copiado por outra intérprete, vinculada à produtora Vybbe, de Xand Avião. Enquanto a Talita Mel “original” recebe um cachê de R$ 4,5 mil, a Talita Mel da Vybbe começou a carreira cobrando R$ 150 mil por show.
Clique aqui para acessar o link da live.
Imagem principal (De Olho nos Ruralistas): live reunirá representantes da categoria de músicos profissionais para discutir dados do relatório
| Carolina Bataier é repórter do De Olho nos Ruralistas. |
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