Dossiê Farras mostra que 40 artistas receberam R$ 3,08 bilhões em contratos com prefeituras e governos estaduais desde janeiro de 2024; ícone do arrocha e da sofrência, Pablo recebeu R$ 99,38 milhões em shows públicos; assessoria do cantor diz que valores são definidos com base em “critérios técnicos”
Por Tonsk Fialho

O cantor Pablo recebeu R$ 99,38 milhões em cachês de prefeituras e governos estaduais desde 1º de janeiro de 2024. O número coloca o ícone do arrocha em 9º lugar entre os artistas mais contratados com dinheiro público no país.
Os dados fazem parte do relatório “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, publicado pelo observatório De Olho nos Ruralistas, que mapeou mais de 20 mil contratos de shows pagos por prefeituras e governos estaduais entre o ano de 2024 e o primeiro trimestre de 2026. O levantamento revelou que cinco produtoras nordestinas concentraram R$ 2,42 bilhões em contratos públicos — entre elas a M&P, fundada pelo cantor baiano.
O “Rei da Sofrência”, como é conhecido, se destaca ainda pela inflação dos cachês: o preço de seu show mais que triplicou no período. É dele também a segunda contratação mais cara entre mais de 250 artistas mapeados por este observatório: R$ 2,2 milhões por uma apresentação de 1h30 no réveillon de Coari, no interior do Amazonas. Os dados do evento, pago pela prefeitura, não aparecem no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP). Quase 40% dos contratos analisados para o dossiê estão ausentes no sistema federal, principal referência para jornalistas e pesquisadores
Dono da produtora M&P e patrocinado pela casa de apostas BETesporte, Pablo foi o único entre os 40 artistas que lideram o levantamento de shows com dinheiro público a responder à reportagem até o lançamento do relatório.
Através de sua assessoria, confirmou a parceria “estritamente comercial e institucional” com a casa de apostas e negou que a relação influencie nas contratações. Sobre o preço dos cachês, disse que os valores são definidos “com base em critérios técnicos e mercadológicos amplamente praticados no setor de entretenimento”. Confira a íntegra da resposta no final da reportagem.
VÍDEO REVELA OS 40 ARTISTAS MAIS CONTRATADOS COM DINHEIRO PÚBLICO
A investigação do relatório Farras não termina com a publicação do documento. A série marca ainda o início de uma editoria nova em nosso canal: De Olho no Dinheiro. Aqui, iremos fiscalizar o desperdício de dinheiro público e os caminhos obscuros que o dinheiro privado costuma tomar para influenciar as decisões políticas. A editoria também caminhará em dobradinha com uma das editorias mais antigas do observatório: De Olho no Agronegócio.
No segundo vídeo da série, mostramos, nome a nome, quais são as quarenta bandas que receberam R$ 3,08 bilhões desde 1º de janeiro de 2024 em shows públicos, pagos por prefeituras e governos estaduais. Somente um artista recebeu R$ 158 milhões. A soma se aproxima do orçamento de todo o Ministério da Cultura em 2026, fixado em R$ 3,26 bilhões. Um gasto que não se refere somente à música, portanto. Mas toda a cultura, em todo o território brasileiro.
Quem são esses escolhidos? O que diferencia esses 40 nomes em um mar de mais de 150 mil profissionais da música no Brasil? Confira no vídeo disponível em nosso canal no YouTube:
CACHÊS DE PABLO SUBIRAM 202% IMPULSIONADOS POR CONTRATOS NO NORTE
Desde 2024, Pablo se apresentou 238 vezes em eventos pagos por prefeituras e governos estaduais. Mais do que o volume, impressiona a velocidade com que seus shows encareceram: Pablo é o segundo artista que mais inflacionou seus cachês no período.
Em 2024, uma apresentação do Rei da Sofrência custava, em média, R$ 238 mil. Em março de 2026, o valor saltou para R$ 721 mil, uma valorização de 202,9%. No quinto lugar da mesma lista aparece outro nome de sua produtora, a banda baiana Toque Dez, com alta de 110%.
Boa parte desse aumento veio da agenda de shows na região Norte. As seis maiores contratações de Pablo no período foram fechadas com prefeituras e governos da região, todas em 2025: em Coari, duas vezes, seguida por Tefé, Itacoatiara e São Sebastião do Uatumã, no Amazonas, e Boa Vista, capital de Roraima. Juntos, esses seis contratos somaram R$ 6,6 milhões — uma média de R$ 1,1 milhão por show.

Em Coari, a 360 quilômetros de Manaus, os 93 anos da cidade foram comemorados no dia 2 de agosto. Às margens do Rio Solimões, o evento incluiu um show de drones que tomavam a forma dos principais pontos turísticos da cidade, enquanto um elaborado espetáculo pirotécnico encerrava a festa.

A prefeitura pretendia investir R$ 900 mil para a participação de Pablo, mas o show foi cancelado dias antes, após a morte de uma integrante da equipe do cantor. Meses depois, a cidade contratou o cantor novamente — dessa vez para o réveillon — por R$ 2,2 milhões, mais que o dobro do valor cobrado quatro meses antes. O contrato firmado pela prefeitura é o segundo mais caro de todo o levantamento, atrás apenas da apresentação do sertanejo Leonardo no réveillon de Boa Vista.
No folder de divulgação do aniversário da cidade, apareciam como apoiadores do evento o deputado federal Adail Filho (Republicanos) e o senador Omar Aziz (PSD). Adail Filho é ex-prefeito de Coari, tendo sido eleito pela primeira vez em 2016, sucedendo o pai, Adail Pinheiro, eleito em 2012.
Há décadas a família tenta empilhar mandatos na prefeitura. A Justiça Eleitoral chegou a intervir, barrando a reeleição de Adail Filho em 2020, mas não adiantou: ele foi sucedido por uma tia e um primo. Em meio ao impasse eleitoral, Coari viveu sua pior tragédia recente. No início de 2021, durante a pandemia de Covid-19, com a sucessão ainda indefinida e uma tia no comando interino, sete pacientes morreram por falta de oxigênio nos hospitais.
Hoje quem governa Coari é novamente o pai do deputado, Adail Pinheiro (Republicanos). De Brasília, Adail Filho enviou R$ 18,4 milhões em emendas Pix para a prefeitura. Uma das emendas, de R$ 5,4 milhões, reservava R$ 500 mil para desporto e lazer, segundo a plataforma TransfereGov. O deputado virou alvo de investigação do Supremo Tribunal Federal (STF) depois que empresários foram presos com R$ 1,2 milhão em uma mala, no aeroporto de Brasília. As empresas ligadas a eles teriam repassado recursos ao parlamentar.
Questionada sobre o valor dos shows, a assessoria de Pablo informou que os contratos seguem a legislação vigente, “observando os princípios da legalidade, da transparência e da regularidade”. A nota diz ainda que o valor de mercado dos shows é “resultado de uma trajetória consolidada ao longo de mais de duas décadas, marcada por projetos de grande sucesso, relevância artística e reconhecimento nacional”.
EMPRESÁRIO E GAROTO-PROPAGANDA DE BET, CANTOR APOSTA NA OSTENTAÇÃO
Agenor Apolinário dos Santos Neto, o Pablo do Arrocha, nasceu em Candeias (BA) e começou a vida vendendo picolé, panelas e verduras para ajudar em casa. Foi na música que virou Pablo, o “Rei da Sofrência”. Entrou aos 15 anos na banda Asas Livres, emplacou no Grupo Arrocha em 2003 e seguiu carreira solo a partir de 2010, com sucessos como “Homem Não Chora”.

Em 2023, Pablo deu um passo além na carreira: virou empresário de artistas. Ao lado de Mário Paim, fundou a M&P, produtora que hoje reúne cinco artistas que obtiveram mais de 10 milhões em contratações públicas, segundo o levantamento realizado pelo De Olho nos Ruralistas para o relatório Farras. Juntos, Pablo, Toque Dez, Tayrone, Netto Brito e Silfarley somam R$ 251 milhões em 926 shows pagos por prefeituras e governos desde 2024.
Fora dos palcos, Pablo não faz questão de esconder o que ganha. Nas ruas de Salvador, já viralizou ao volante de um Porsche amarelo. Na garagem, tem uma Ferrari avaliada em R$ 5 milhões. Para rodar o país, adquiriu um jatinho Cessna Citation Sovereign, estimado em R$ 38 milhões, registrado em nome da AD Produção Musical, empresa pela qual é sócio da M&P.
Romântico inveterado, presenteou a esposa, Adriele, com uma bolsa Hermès de R$ 200 mil no último Dia das Mães. Os dois estão juntos desde os 15 anos do cantor.
Pablo também faz parte da leva de artistas que emprestam a imagem às bets. Em maio de 2025, fechou parceria com a pernambucana BETesporte, em um evento em que o contrato apareceu estampado como “time de sucesso”, ao lado dos nomes de artistas da M&P como Toque Dez, Netto Brito e Silfarley. Como empresário, Pablo levou o casting junto: desde então, os cantores da produtora somam aparições em eventos públicos trajando bonés e camisetas da marca.
A assessoria do artista afirma que a relação com a casa de apostas é “estritamente comercial e institucional” e nega que as bets influenciem a contratação ou a realização de seus shows.
ÍNTEGRA DA RESPOSTA DE PABLO
“O artista mantém, apenas, uma parceria publicitária com a BETesporte, firmada dentro dos parâmetros legais e contratuais. Trata-se de uma relação estritamente comercial e institucional, restrita às ações de comunicação previstas em contrato. Esclarecemos, ainda, que os shows de Pablo não possuem qualquer vínculo com casas de apostas e não são realizados sob demanda dessas empresas.
A agenda de apresentações é definida exclusivamente pela equipe responsável pela gestão de sua carreira, de acordo com critérios artísticos e comerciais próprios. Eventuais campanhas publicitárias não interferem na contratação ou realização de shows.
Com mais de 20 anos de trajetória, Pablo construiu uma carreira sólida, reconhecida nacionalmente pelo público e pela crítica, sempre pautada pelo profissionalismo, pelo respeito aos contratantes e pela transparência em suas relações comerciais.
Em relação aos contratos para apresentações, os cachês são definidos pela empresa responsável pela gestão da carreira do artista com base em critérios técnicos e mercadológicos amplamente praticados no setor de entretenimento, considerando fatores como estrutura de produção, equipe envolvida, logística, deslocamentos, data, duração da apresentação, demanda e características específicas de cada evento.
Todos os contratos celebrados pela empresa seguem rigorosamente a legislação vigente, observando os princípios da legalidade, da transparência e da regularidade. O valor de mercado dos shows é resultado de uma trajetória consolidada ao longo de mais de duas décadas, marcada por projetos de grande sucesso, relevância artística e reconhecimento nacional, sendo compatível com o posicionamento de Pablo como um dos principais nomes da música brasileira”.
Foto principal (Prefeitura de Coari): Pablo se apresenta em réveillon de Coari; contrato custou R$ 2,2 milhões aos cofres municipais.
| Tonsk Fialho é pesquisador e repórter do De Olho nos Ruralistas. |
LEIA MAIS:
Observatório lança dossiê inédito sobre shows com dinheiro público no Brasil
Vídeo mostra os 40 artistas que receberam R$ 3 bilhões em shows com dinheiro público

