Vídeo mostra os 40 artistas que receberam R$ 3 bilhões em shows com dinheiro público

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Wesley Safadão, Xand Avião e Ana Castela estão no top 40; série em nosso canal repercute o relatório Farras, que mapeou mais de 20 mil contratos de shows públicos, pagos por prefeituras e governos estaduais; líder do levantamento ultrapassa R$ 158 milhões em cachês

Por Bruno Stankevicius Bassi

Clique na imagem e baixe o relatório completo

Apenas quarenta bandas receberam R$ 3,08 bilhões desde 1º de janeiro de 2024 em shows públicos, pagos por prefeituras e governos estaduais. Somente um artista recebeu R$ 158 milhões. A maior parte desse dinheiro – R$ 1,78 bilhão dos R$ 3,08 bilhões – foi para um grupo seleto de vinte artistas ligados a apenas cinco produtoras. Duas delas pertencem a Wesley Safadão e Xand Avião – empresários e artistas, eles mesmos na lista dos mais contratados.

Esses dados estão presentes no relatório  “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, publicado nesta quarta-feira, 1º de julho. Durante seis meses, a equipe de pesquisa do De Olho nos Ruralistas mergulhou em um universo de mais de 20 mil contratos, quase 40% deles ausentes na principal referência para jornalistas e pesquisadores, o Plano Nacional de Contratações Públicas (PNCP). Os números dizem respeito aos eventos firmados pelo poder público até 31 de março de 2026, critério para que pudéssemos finalizar a pesquisa.

A soma recebida em pouco mais de dois anos pelo grupo de 40 bandas mais contratadas, R$ 3,08 bilhões, é muito próximo do orçamento de todo o Ministério da Cultura em 2026, fixado em R$ 3,26 bilhões. Um gasto que não se refere somente à música, portanto. Mas toda a cultura, em todo o território brasileiro.

Quem são esses escolhidos? O que diferencia esses 40 nomes em um mar de mais de 150 mil profissionais da música no Brasil?

Esse é o tema do vídeo mais recente da série Farras, disponível em nosso canal no YouTube. Assista abaixo:

CONHEÇA OS ARTISTAS MAIS CONTRATADOS PELO PODER PÚBLICO

Desde que a gastança das prefeituras ganhou espaço na mídia, é comum atribuir a liderança desse nicho ao sertanejo. Afinal, o gênero domina o mercado fonográfico desde a década de 2010, com amplo domínio em rádios e plataformas de streaming.

Este observatório analisou mais de 20 mil contratos, firmados desde 1º de janeiro de 2024, pelo grupo dos artistas mais contratados do país. Entre cem bandas com contratos acima de R$ 25 milhões cada com o poder público desde 2024, o sertanejo gênero lidera, com cerca de 35% dos mais de R$ 5 bilhões obtidos por essas bandas.

Na lista das 40 bandas com mais contratos, porém, os sertanejos aparecem catorze vezes. Entre os dez artistas que mais receberam cachês pagos por prefeituras e governos estaduais, apenas uma vez, com Maiara e Maraisa.

Os músicos no topo da lista de contratos com prefeituras e governos estaduais são os forrozeiros, piseiros e representantes de outros ritmos consagrados a partir do Nordeste, como o brega e o arrocha. Sete entre os dez artistas que mais receberam dinheiro público pertencem a esses gêneros. A exceção fica com Léo Santana, o único cantor de pagodão baiano na lista.

Confira quem são os artistas que mais receberam cachês de prefeituras e governos estaduais desde 2024. (De Olho nos Ruralistas)

 

SOMA DOS CONTRATOS DE 40 ARTISTAS SE APROXIMA DE RECORDE DA LEI ROUANET

Em 22º lugar no ranking do relatório Farras está o cantor mineiro Eduardo Costa.  Em 21º lugar, outros sertanejos, a dupla Zé Neto & Cristiano. Tanto Zé Neto como Eduardo Costa já fizeram declarações contra a Lei Rouanet, aquela que autoriza artistas a captar dinheiro de impostos devidos por empresas para projetos aprovados pelo Ministério da Cultura.

Crítico da Rouanet, Eduardo Costa recebeu R$ 430 mil por show público no Verão Maior, em Matinhos (PR). (Geraldo Bubniak/AEN)

As críticas do paulista Zé Neto ocorreram durante um show em uma das capitais do agronegócio e do agrogolpismo no Brasil, Sorriso (MT), em maio de 2022 — em um show pago com dinheiro público. O mineiro Eduardo Costa afirmou, em vídeo, que os artistas que captavam recursos através da lei eram “safados” e “mamavam nas tetas do Estado”. Meses depois, aprovou um projeto de R$ 996,5 mil, por meio da Rouanet.

Mas não estamos falando de recursos recebidos por meio da Lei Rouanet. Estamos falando de dinheiro pago diretamente por prefeituras e governos estaduais – em alguns casos com repasses do governo federal, como o Ministério do Turismo — para um grupo seleto de artistas — em contratos feitos por inexigibilidade, ou seja, sem concorrência. Pela notoriedade dos artistas.

No vídeo, questionamos: mas por que especificamente essas 40 bandas? As demais não são notórias?

A soma de R$ 3,08 bilhões recebida por esses 40 artistas desde janeiro de 2024 se aproxima do recorde de captação pela Lei Rouanet, de R$ 3,41 bilhões em 2025. Com duas diferenças: 1) apenas a quantia do top 40 sai diretamente dos cofres públicos; 2) a Lei Rouanet se refere a diversas expressões artísticas, não somente a música.

RELATÓRIO E VÍDEO MARCAM INÍCIO DA EDITORIA ‘DE OLHO NO DINHEIRO’

A investigação do relatório Farras não termina com a publicação do documento. De Olho nos Ruralistas reuniu dados sobre mais de 20 mil contratos de shows com dinheiro público, de mais de 250 artistas que se apresentaram em todo o território nacional.

Esse conteúdo não caberia em um relatório de 87 páginas. Por isso, desenvolveremos os temas em uma série de reportagens publicadas tanto em nosso site quando no canal do YouTube. Falaremos não apenas do top 40, isto é, daquelas bandas com mais de R$ 50 milhões contratados desde 2024. Após a data-limite de 31 de março de 2026, corte necessário para a finalização desta pesquisa, pelo menos dois cantores já ultrapassaram a faixa dos R$ 50 milhões: Vítor Fernandes e Padre Fábio de Melo. Quantos mais irão passar até o fim do ano?

A série marca ainda o início de uma editoria nova em nosso canal: De Olho no Dinheiro. Aqui, iremos fiscalizar o desperdício de dinheiro público e os caminhos obscuros que o dinheiro privado costuma tomar para influenciar as decisões políticas. A editoria também caminhará em dobradinha com uma das editorias mais antigas do observatório: De Olho no Agronegócio.

Precisamos de você para contar mais histórias e monitorar a gastança com shows públicos no Brasil. Ajude-nos a ficar De Olho no Dinheiro!

O primeiro vídeo da série, antecipando alguns dados geográficos do relatório Farras, já está disponível em nosso canal do YouTube. Você já assistiu?

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