Band, CNN e Valor recebem “prêmios de imprensa” da bancada ruralista

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Evento da Frente Parlamentar da Agropecuária em Brasília comemorou dez anos do Código Florestal; Paulo Saad agradeceu “parceria” e disse que veículos do grupo Bandeirantes estão ao lado do agronegócio “desde sempre”

Por Mariana Franco Ramos

Em uma noite de troca de afagos e elogios, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), braço institucional da bancada ruralista, homenageou veículos de imprensa e jornalistas “parceiros”. A entrega dos prêmios aconteceu no Clube Náutico de Brasília, durante jantar em comemoração aos dez anos do Código Florestal.

O comentarista Iuri Pitta, da CNN, ganhou a premiação na categoria imprensa política; Rafael Fritsch Walendorff, do Valor Econômico, foi o “destaque FPA na mídia”; enquanto Paulo Saad, vice-presidente do Grupo Bandeirantes, subiu ao palco para receber, das mãos do deputado Alceu Moreira (MDB-RS), o prêmio da categoria veículo.

Premiação da FPA foi destaque no Jornal da Band. (Foto: Reprodução)

“O agronegócio é o exemplo perfeito do que o Brasil poderia ser”, discursou Saad, acrescentando estar “cheio de orgulho” pelo reconhecimento. “Se a indústria e o comércio tivessem a eficiência e a pujança do agro, nosso país seria muito melhor”, opinou, sob aplausos. Como esperado, a premiação ganhou destaque no Jornal da Band.

O executivo lembrou que nenhum outro grupo de comunicação possui raízes tão profundas no setor. Dona dos canais AgroMais e Terraviva, ambos dedicados ao agronegócio e financiados por ele, através de anúncios, a Bandeirantes leva o nome dos homens que escravizaram indígenas e combateram quilombos no século 17. E, até hoje, não esconde seu lado nos conflitos que colocam frente a frente latifundiários e povos do campo.

Segundo Saad, a defesa das pautas do agronegócio é mesmo um “compromisso” desde a origem da empresa, há 85 anos. Entre os assuntos de convergência, ele citou a propriedade privada, o acesso ao crédito e a “garantia de segurança”. Em setembro de 2021, por exemplo, o Intercept detalhou o terrorismo que a emissora fez por outra pauta de interesse da FPA: o Marco Temporal. A reportagem lembrou que a mídia encampou a tese dos ruralistas, ignorando o que dizem os indígenas.

“Mobilizamos nossas câmeras e microfones”, admitiu o empresário, antes de afirmar que o grupo ajudou a levantar bandeiras, como a da aprovação do Código Florestal, e de agradecer outros “parceiros”: a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a Embrapa e Confederação Nacional da Indústria (CNI). “Todos os veículos do Grupo Band estarão ao lado de vocês. Podem contar conosco sempre”.

Ex-ministra Tereza Cristina, rodeada de membros da FPA, durante evento de celebração do Código Florestal. (Foto: Divulgação)

JOHNNY SAAD É FAZENDEIRO, CRIADOR DE GADO E AMIGO DE FHC

O próprio presidente do grupo, João Carlos Saad, mais conhecido como Johnny Saad, é criador de gado na Fazenda Ponte Nova, em São Luís do Paraitinga (SP) — onde ele registra uma de suas empresas, a Omahaus Produções. A propriedade é vizinha de um dos imóveis rurais da Suzano Papel e Celulose.

Johnny é filho do fundador do conglomerado, João Jorge Saad, neto do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros e comanda a empresa desde a morte do pai, em 1999. Paulo Saad Jafet é primo e sócio do atual proprietário. A família Jafet é uma das fundadoras do Hospital Sírio Libanês.

De Olho nos Ruralistas já contou, na série “FHC, o Fazendeiro”, que o Terraviva teve como sócios o pecuarista Jovelino Mineiro, eminência agrária do ex-presidente tucano, e os portugueses do grupo Espírito Santo – agora falido: “FHC, o Fazendeiro – Imprensa: Jovelino Mineiro foi um dos fundadores do canal Terra Viva, da Band“. A série de reportagens sobre o ex-presidente resultou no livro “O Protegido: por que o País Ignora as Terras de FHC”, de Alceu Luís Castilho, diretor de redação do observatório.

Bolsonaro pega o microfone na inauguração do AgroMais. (Foto: Reprodução)

FPA TAMBÉM HOMENAGEOU A SI MESMA

A engenheira agrônoma Mariângela Hungria, da Embrapa Soja, foi agraciada na categoria Acadêmica. Houve ainda algumas “auto-homenagens”. Ex-ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) de Jair Bolsonaro, ex-presidente da FPA e pré-candidata ao Senado, Tereza Cristina (PP-MS) recebeu o título de “personalidade do ano”.

Até o atual presidente da frente, Sergio Souza (MDB-PR), foi lembrado, com a alcunha de “parlamentar destaque”. “E aí, comida tá boa?”, perguntou, antes de discursar. “Alguém produziu em algum lugar desse país”, brincou. “O agro não para até nas nossas festas”. Quem fez a entrega foi o ex-deputado Nilson Leitão, que chefia o Instituto Pensar Agro (IPA), motor logístico da bancada.

Há pouco mais de cinco anos, diretores dessas mesmas organizações expulsaram  a equipe de reportagem do observatório da mansão onde a FPA se reúne na capital federal todas as terças-feiras. A equipe do De Olho nos Ruralistas estava apenas fazendo jornalismo: “Almoço da bancada ruralista tem ira de deputados e expulsão de repórteres“.

Ministro da Defesa entre 2015 e 2016, ex-presidente da Câmara e relator da primeira versão do Código Florestal, Aldo Rebelo (PDT-SP)  não compareceu, mas foi representado pelo filho Pedro. Ele ressaltou  o que chamou de  grandiosidade da legislação ambiental: “Como meu pai me disse, hoje temos a lei mais respeitada do mundo, que deu paz e segurança jurídica aos agricultores”.

Bolsonaro, que em 2020 participou da inauguração do AgroMais, havia confirmado participação no evento, mas cancelou devido a um “problema de agenda”. Na verdade, como já se tornou rotina nessa pré-campanha eleitoral, ele optou por marcar presença em mais uma feira agropecuária, a “Bahia Farm Show”, em Luís Eduardo Magalhães (BA).

DE UM LADO, A FOME; DO OUTRO, A PUJANÇA

Coube ao ministro da Agricultura, Marcos Montes, representar o governo Bolsonaro no evento e, claro, elogiar os ruralistas. “A bancada é a responsável pelas principais vitórias do país”, disse. “Sem ela, não seria possível chegar ao Brasil que temos hoje”.

Conforme pesquisa recente da FGV Social, a insegurança alimentar passou a atingir 36% da população em 2021, resultado recorde desde 2006, quando a série histórica começou. Isso significa que mais de um terço dos brasileiros não têm dinheiro para comer.

Enquanto a fome cresce, o agronegócio bate recorde. Dados da Secretaria de Comércio de Relações Internacionais do Mapa mostram que as exportações do setor atingiram US$ 14,53 bilhões em março. O valor é 29,4% superior ao registrado no mesmo mês do ano passado.

Passeata contra a fome em São Paulo. (Foto: Elineudo Meira/Fotos Públicas)

APESAR DOS ELOGIOS, RURALISTAS QUEREM ALTERAR DE NOVO A LEGISLAÇÃO

Mais uma vez, legisladores ligados ao agronegócio buscam modificar o Código Florestal, em benefício próprio. De Olho nos Ruralistas mostrou, há duas semanas, que a FPA destacou dois expoentes da bancada para articular a aprovação de um combo de projetos que enfraquecem a legislação e anistiam desmatadores.

O PL 2.374/2020, do campeão de desmatamento Irajá Abreu (PSD-TO), e o PL 1.282/2019, de Luis Carlos Heinze (PP/RS), o arrozeiro negacionista, estão na Comissão de Reforma Agrária e Agricultura (CRA). Ambos são considerados preocupantes por movimentos sociais e ambientais, que fazem pressão para que as matérias sejam analisadas por outras comissões, além da CRA, e debatidas em audiências públicas, sem atropelo.

| Mariana Franco Ramos é jornalista. |

Foto principal (Reprodução): Grupo Bandeirantes criou canal inteiramente dedicado ao “parceiro” agronegócio

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