Aliado de Caiado lidera invasões e destruição no maior quilombo do país

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Luiz Henrique Moreira, cuja campanha a prefeito foi financiada por parentes do governador de Goiás, já destruiu roçado e queimou produção de arroz dos Kalunga, que passaram fome; com apoio da polícia e simpatia de Bolsonaro, fazendeiros voltam a ameaçar moradores

Por Mariana Franco Ramos (texto) e Halanna Aguiar (imagens), em Cavalcante (GO)

Luiz Henrique recebeu R$ 21 mil de primo do governador. (Imagem: Reprodução)

“Era a comida que eu tinha para dois anos”, resume o Kalunga Jorge Moreira de Oliveira, sobre os 45 sacos de arroz que perdeu em 2015. “Minha família chegou a passar fome”, lembra, emocionado. O roçado na localidade conhecida como Fundão, próxima do povoado Engenho II, em Cavalcante (GO), que ele cultivava ao lado de mais cinco irmãos, foi inteiramente destruído. Não pela seca, comum na região da Chapada dos Veadeiros, e sim por fazendeiros ligados ao governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União-GO), candidato à reeleição e líder nas pesquisas de intenção de votos.

Os nomes que a reportagem do De Olho nos Ruralistas mais ouviu ao visitar o sítio histórico, maior quilombo do país em extensão, com 262 mil hectares, foram os de Osvaldo Antônio da Silva e Luiz Henrique da Silva Moreira, respectivamente pai e filho. Luiz foi candidato a prefeito do município em 2020 pelo DEM, já ocupou cargo comissionado na administração estadual e, segundo moradores, voltou a circular pelo local, mesmo sem nunca ter plantado nada por lá.

Ele reivindica um suposto direito hereditário sobre parte das terras. Ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), contudo, declarou apenas R$ 2.000 em espécie e nenhuma propriedade, rural ou urbana. Seu principal financiador de campanha foi Breno Boss Cachapuz Caiado, primo do governador doou R$ 21 mil, dos R$ 50 mil arrecadados.

Jorge enfrentou fome após perder 45 sacos de arroz. (Foto: Halanna Aguiar/De Olho nos Ruralistas)

O advogado é irmão de Emival Ramos Caiado Filho, presidente da Rialma S/A, uma empresa do agronegócio especializada na construção de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e que tem interesse nos rios da região, habitada por descendentes de escravos há pelo menos 300 anos.

Em 2010, o Ministério Público do Trabalho (MPT) flagrou 26 trabalhadores em condições análogas à escravidão na Fazenda Santa Mônica, em Natividade (TO), pertencente a Emival, como mostrou a Repórter Brasil. Na semana passada, a agência contou que o senador Fernando Bezerra (MDB-PE), ex-líder do governo no Senado, tentou tirar o ruralista da “lista suja”. Um mês depois, Emival fez doações para os filhos do parlamentar.

Curiosamente, a PCH que o empresário pretendia construir no Vão de Almas, dentro do território Kalunga, também se chamaria Santa Mônica.

Assista ao vídeo sobre os ataques dos latifundiários aos Kalunga, parte da série Terror Agrário:

“ELES ESTÃO VOLTANDO E NOS PERSEGUINDO”, CONTA MATRIARCA

“Invadiram nossa colheita, derrubaram o rancho, de motosserra, e derrubaram a cerca”, relata Getúlia Moreira da Silva, irmã de Jorge e, assim como ele, seus pais e seus avós, nascida e criada no quilombo. “Depois roubaram arroz, puseram fogo, botaram cavalo dentro da roça para comer nossa cana e a mandioca”.

O difícil trajeto do povoado até a roça. (Foto: Halanna Aguiar/De Olho nos Ruralistas)

Os agricultores camponeses só trabalham com enxada, não utilizam agrotóxicos e, após um período de cinco anos, deixam a terra “descansando” por outros dez, como forma de preservá-la. Não lutam por direitos meramente individuais. Fazem o uso coletivo do espaço, que consideram sagrado, e sempre em conexão com a natureza.

Aos 64 anos e “sem marido para ajudar”, Getúlia teve um prejuízo ainda maior. “Às vezes falta palavra para expressar o que foi”, recorda. A gente não só trabalhou, mas gastou. O serviço que não consigo tenho que pagar alguém para fazer”, explica. O trajeto do povoado ao Fundão, que os roceiros fazem a pé, quase diariamente, é longo e de difícil acesso, com serras altas e ladeiras. A reportagem percorreu o caminho em um veículo 4 x 4, da Associação Quilombo Kalunga (AQK). Foram duas horas de viagem, contando ida e volta.

Mãe de dez filhos, um deles falecido, avó e bisavó, dona Getúlia não queria, a princípio, gravar entrevista, para “não renovar sofrimento” e também porque estava concentrada nos preparativos da tradicional Folia, celebração anual em homenagem a Nossa Senhora das Neves. O ensaio de 31 de agosto, que incluiu apresentações culturais, orações e um jantar comunitário, foi o primeiro a acontecer desde o início da pandemia de Covid-19.

“É muito difícil trazer o passado nesse momento”, justificou. “Mas eles estão voltando para lá e nos perseguindo”. As novas ameaças e os rumores sobre uma união entre fazendeiros contra os Kalunga foram a deixa para que ela falasse, segurando as lágrimas: “A gente não tem mais segurança”.

INVASORES CHEGAM ARMADOS E AMPARADOS PELA POLÍCIA

De acordo com Florencio dos Santos Rosa, que cresceu no Fundão, a situação ficou mais complicada de uns anos para cá. “Depois que entrou o novo governo, o presidente, as coisas pioraram tudo”, afirmou, em referência a Jair Bolsonaro.

Zé Pretinho nasceu e criou seus doze filhos na comunidade. (Foto: Halanna Aguiar/De Olho nos Ruralistas)

“Os fazendeiros que tinham saído começaram a retornar, falando que ia acabar o Projeto Kalunga e que eles podiam pegar as terras de volta, porque não teria indenização”, disse. Ele é um dos doze filhos de José dos Santos Rosa, o Zé Pretinho, de 68 anos, que também faz duras críticas a Bolsonaro. “Nos mandatos de Lula a coisa sossegou, mas depois eles voltaram e a perseguição aumentou”.

Luiz Inácio Lula da Silva foi o único presidente a visitar a comunidade. O petista esteve lá em 2004, para instituir o programa Bolsa Família, extinto por Bolsonaro. Foi Lula também que assinou um decreto, em 20 de novembro de 2009, declarando “de interesse social, para fins de desapropriação, os imóveis abrangidos pelo território”. Hoje, fazendeiros alegam que o documento teria “caducado”.

Há ao menos outros dezesseis conflitos em andamento, pertinentes a pessoas não quilombolas, com o objetivo de fixar posse e negociar áreas já desapropriadas pelo Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (Incra). A região sofre, ainda, com o desmatamento, com construções irregulares e com a exploração ilegal de recursos, sobretudo madeira e minérios.

Além de Luiz Henrique, os moradores citaram José Francisco Bandeira Nunes, o Zé Bandeira, interessado na área conhecida como Segredo, e Olinda Aparecida de Abreu, que se diz proprietária de uma terra devoluta de 20 alqueires ao lado da Cachoeira Santa Bárbara, uma das mais visitadas da Chapada. A suspeita é de que, com a conivência dos governos estadual e federal, eles estejam se articulando, numa espécie de retomada às avessas. Para isso, usariam até mesmo alguns Kalunga, seduzidos por promessas de ganhos futuros.

“A gente sempre trabalhou naquele ponto, o Segredo, eu e meu marido, e antes não tinha invasão”, relata Luciana Rodrigues dos Santos, de 31 anos. O local fica próximo do Fundão e é reivindicado pela família de Zé Bandeira. “Querem tomar o espaço e tirar praticamente o mantimento que a gente dá para as nossas crianças”, lamenta.

— Eu me sinto invadida. Tenho minhas quatro filhas, nunca reclamei de trabalhar ali. É longe, só serra. Não são todos que conseguem. E eu capino, roço, colho, faço de tudo um pouco.

Florencio corta cana no Fundão. (Foto: Halanna Aguiar/De Olho nos Ruralistas)

Florencio conta que os invasores chegam armados e, muitas vezes, acompanhados pela própria polícia, que “dá todo o suporte”. “Levam [as armas] escondido, mas você vê que eles estão com um ‘trem’ na cintura”, explica. “Toda vez na roça você escuta tiros, para intimidação”. Ele não sofreu ameaça diretamente, porém, falou que colegas sofreram e que, há pouco tempo, derrubaram casas e uma cerca de arame.

“Agora mesmo fizemos uma roça e o rapaz disse para a gente não plantar”, relatou. “E a gente tem banana, mandioca, cana… Quando chover vai plantar milho e feijão. Mas ele falou para tirar, que iam tomar conta e que não ia ficar assim”. O envolvido, mais uma vez, seria Luiz Henrique. “Tem duas vezes que ele leva a polícia lá. Nessa última a gente não estava. Eu passei pela viatura na estrada”.

Povoado Engenho II, uma das comunidades do território Kalunga. (Foto: Halanna Aguiar/De Olho nos Ruralistas)

O filho de Zé Pretinho destaca a inoperância dos órgãos públicos: “Quando a gente precisa da Justiça para algum crime que acontece na região, é a maior dificuldade. Nunca a polícia pode te atender. Agora, quando é para prejudicar a gente da comunidade, toda hora estão disponíveis”.

Outro imbróglio, na fazenda Vista Linda, foi resolvido há poucos dias, em 21 de setembro. A Justiça de Formosa (GO) concedeu a reintegração de posse a favor da AQK, contra o esbulho praticado pelo agropecuarista Jovelan de Paula e Sousa. O presidente da associação, Carlos Roberto Pereira da Conceição, comemorou a decisão e disse esperar que ela baseie as demais disputas em curso.

“PARA ONDE EU VOU AGORA?”, PERGUNTA MORADOR

O Território Quilombo Kalunga (TQK) engloba os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. São 262 mil hectares, apenas 34 mil titulados definitivamente. Em 1991, o TQK foi reconhecido pelo Estado de Goiás como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural.

Vinte anos depois, a Organização das Nações Unidas (ONU) concedeu ao local o título de primeiro Território e Área Conservada por Comunidades Indígenas e Locais (Ticca) do Brasil. O Ticca é entregue a regiões que mantêm a conservação da natureza e asseguram o bem-estar de seu povo. A expectativa é de que o reconhecimento auxilie os quilombolas na proteção do território.

Invasores deixaram rastros no local onde quilombolas fazem roça. (Foto: Halanna Aguiar/De Olho nos Ruralistas)
Conforme a AQK, a população do quilombo é formada por 8.500 pessoas, dais quais somente 5% teriam condições de comprar uma casa na cidade ou uma chácara fora, em caso de “falência” do projeto. “O restante nem tem para onde ir”, informa Jorge, que também já presidiu a associação. Ele desconfia que a intenção dos fazendeiros seja adquirir as propriedades e vendê-las para grandes empresas.

— É muito chocante quando a gente percebe essa invasão e percebe essa falta de atenção do governo federal. Para onde eu vou agora? Para onde essas famílias vão? E vão viver de que, se os fazendeiros estão entrando nessas terras que são produtivas, que nossos antepassados criaram? É muito ruim, é muito dolorido.

| Mariana Franco Ramos é jornalista. |

Foto principal (Halanna Aguiar/De Olho nos Ruralistas): líderes quilombolas percorrem roça no “Fundão”, que sofre com ação de fazendeiros

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