Greenpeace fala em Mês do Fogo; Comissão Pastoral da Terra acompanha denúncias de pelo menos quatro municípios no leste do estado; em Itacoatiara, fogo já devastou mais de 2 mil hectares de vegetação; populações relatam ameaças, que se intensificaram com acirramento da disputa eleitoral
Por Carolina Bataier

Indígenas e ribeirinhos de pelo menos quatro municípios do Amazonas relatam incêndios criminosos em seus territórios. As denúncias são colhidas por agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em pelo menos dez áreas espalhadas pelos nos municípios de Autazes, Borba, Itacoatiara e Nova Olinda do Norte — todos no entorno de Manaus.
“Já havia alguns focos de incêndio”, relata o educador popular Jorge Barros, integrante da coordenação da CPT no Amazonas. “Mas os incêndios que a gente tem visto com mais frequência, com mais intensidade e da maneira como é denunciado pelas próprias comunidades, ocorreram após o primeiro turno”.
De 4 a 14 de outubro, imagens de satélite permitiram identificar 5.598 focos de incêndio na região metropolitana de Manaus e em municípios do entorno, número 37 vezes maior que o observado no mesmo intervalo de 2025, quando houve 149 registros.
Na região do lago do Canaçari, em Itacoatiara, o fogo destruiu o entorno de quase todas as nascentes e devastou mais de 2 mil hectares de floresta. “Tá queimando tudo aqui”, lamenta um ribeirinho, em um vídeo enviado à reportagem. Na filmagem, ele mostra as chamas se alastrando entre as árvores, em uma área de colheita de castanha.
“A gente tem acompanhado essa essa situação com preocupação e ao mesmo tempo com um certo cuidado para que as denúncias dos povos não sejam instrumento para deixar que eles virem alvos de ameaças”, ressalta Jorge, que pede sigilo sobre a identidade do ribeirinho.
GREENPEACE COMPARA INCÊNDIOS CRIMINOSOS AO DIA DO FOGO, EM AGOSTO DE 2019
De acordo com levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o total supera os 4.385 pontos de calor detectados no intervalo equivalente de 2023, ano em que a Amazônia atravessou uma seca extrema.
Informações divulgadas pelo Greenpeace alertam para o risco de a Amazônia estar enfrentando um Mês do Fogo, uma referência ao Dia do Fogo, quando o Pará passou por uma série de incêndios criminosos em agosto de 2019. Naquela ocasião, fazendeiros e empresários realizaram queimadas criminosas em Novo Progresso, no sul do Pará.
“Existe uma semelhança entre o que assistimos agora, em outubro, com os incêndios no Amazonas e no Pará, e o que vimos em 2019”, afirma a coordenadora de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, Cristiane Mazzetti.
Em 2019, o fogo foi usado como forma de demonstrar apoio ao então presidente Jair Bolsonaro (PL), pai do atual candidato à Presidência da República. Agora, a ação pode ter sido coordenada “para queimar a imagem do governo federal com a intenção de aumentar o apoio a Flávio Bolsonaro”, avalia Mazzetti.

“QUERO VER SE VÃO CONTINUAR NO TERRITÓRIO VIVENDO DE BOLSA FAMÍLIA”
A Amazônia passa por um período de seca em consequência do fenômeno El Niño, o que facilita a propagação das chamas. “Mas é importante lembrar que a seca não inicia o fogo, mas sim as pessoas”, alerta Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam.
Os relatos dos moradores reforçam essa afirmação. “Eles dizem que as queimadas têm viés político e que são incêndios criminosos, que precisa apurar pelo Governo Federal, pelo Estado”, afirma Jorge Barros. Entre os relatos colhidos pelo educador, há menções explícitas às eleições. Como esta:
— Vocês já sabem qual foi o resultado do primeiro turno? Quero ver se vocês vão continuar se mantendo no território, vocês que não produzem. Quero ver se vocês vão continuar aí, sem sem caça, sem esses recursos aí da floresta e vão continuar vivendo de Bolsa Família.
Os relatos serão encaminhados ao Ministério Público Federal. “Para apurar esses casos e punir”, diz Barros.
Em coletiva de imprensa realizada em 14 de outubro, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, reforçou a necessidade de uma investigação sobre os incêndios na Amazônia, “com objetivo de identificar e levar à justiça os responsáveis pelos incêndios criminosos, que são evidentes e que estão ocorrendo em grande quantidade”. As denúncias serão encaminhadas ao Ministério Público Federal.
— A gente tem acompanhado a preocupação dos comunitários em denunciar essas queimadas, esses aumentos de queimadas, pós primeiro turno, com o interesse político de tornar um caos essas regiões e tirar proveitos. De outro lado, o que querem com isso esses políticos, empresários? Querem tornar ali aquele aquele território sem condições de sobrevivência e expulsar aquela população do local.
NO CERRADO, COMUNIDADES INDÍGENAS ENFRENTAM DESRESPEITO E AMEAÇAS
Em Bertópolis (MG), um incêndio que teve início no dia 11 de outubro devasatou a Terra Indígena Maxakali, onde vivem cerca de 2,5 mil pessoas. Enquanto os moradores da área lutavam dia e noite para conter as chamas, um áudio circulava pela internet zombando da situação.

“Fogo queima aldeia, não é um momento raro”, diz a voz de um homem não identificado, em um trecho da mensagem. “Daqui 14 dias é Flávio Bolsonaro. O fogo tá queimando e não apaga, não. E Lula daqui um tempo vai pra prisão. O áudio circulou por grupos de Whatsapp de Bertópolis.O incêndio começou no dia 11 de outubro, durou uma semana e destruiu a área de reflorestamento dos Maxakali.
“Tudo acabou”, lamenta Marilton Maxakali, coordenador da brigada voluntária Kõnãg Hi Água Viva. “A nossa mata nativa, e o que nós estamos plantando também… Nosso quintal e nossa roça, né? Tudo acabou”.
Em Tocantínia (TO), o Whatsapp também serviu para circular uma mensagem ofensiva contra os indígenas. Em uma imagem, feita por inteligência artificial, uma representação de Flávio Bolsonaro aparece pilotando um rolo compressor, que passa por cima de indígenas e petistas.
A imagem de terror foi enviada em um grupo com mais de 600 pessoas. Os indígenas Xerente, que habitam a região, publicaram uma nota repudinado “a circulação de imagens agressivas e violentas de apoiadores de Flávio Bolsonaro, que utilizam imagens estereotipadas, desrespeitosas e ofensivas aos povos indígenas”.
“Não somos massa de manobra, instrumentos de campanhas eleitorais ou peresonagens de disputas partidárias”, diz o texto.
Enquanto os indígenas viam a devastação de suas matas, o áudio celebrava o candidato cujo plano de governo não cita demarcação de terras para esses povos.“Isso é uma um ataque direto à vida, com interesse totalmente tornar aquele ambiente num caos, para servir a quem tem o interesse político de ganhar alguma coisa com isso”.
| Carolina Bataier é repórter e coordenadora socioambiental do De Olho nos Ruralistas. |
Imagem principal (Foto cedida por Adriano Teixeira/Amazônia Real): fogo florestal no bairro indígena Parque das Tribos, em Manaus
