Relatório da ONU sobre água critica subsídios à agricultura convencional

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Documento lançado no Fórum Mundial da Água defende captação pela chuva, utilizada pelos camponeses, e critica sistemas intensivos e de alto rendimento, típicos do agronegócio

Por Alceu Luís Castilho

Lançado nesta segunda-feira em Brasília, durante o Fórum Mundial da Água, o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018 faz críticas diretas ao modelo agrícola convencional adotado no mundo – no Brasil conhecido como agronegócio. Em meio a previsões catastróficas sobre disponibilidade e qualidade da água nas próximas décadas, o documento aponta responsabilidade direta da agropecuária na degradação do solo e aponta a captação pela chuva – utilizada pela agricultura familiar – como método recomendado para aumentar a produção e até reduzir a pobreza.

A ONU defende como solução para a crise de recursos hídricos a utilização das SbN, ou Soluções Baseadas na Natureza. Elas preveem a conservação e reabilitação de ecossistemas naturais em paralelo à criação de processos naturais em ecossistemas modificados ou artificiais. É uma crítica aos sistemas agrícolas intensivos e de alto rendimento, consagrados (ainda que o texto não fale disso) durante a Revolução Verde, que consagrou a mecanização no campo.

Confira alguns trechos do relatório, conforme tradução feita pela Unesco e seleção feita pelo observatório:

IMPACTO DA DEGRADAÇÃO DO SOLO

“A degradação dos ecossistemas é uma das principais causas dos crescentes desafios relativos à gestão da água. Embora cerca de 30% das terras em todo o mundo permaneçam com cobertura florestal, pelo menos dois terços dessa área se encontram em estado de degradação. A maioria dos recursos do solo em todo o mundo, especialmente em terras destinadas à produção agrícola, encontra-se apenas em condições razoáveis, precárias ou muito precárias, e a perspectiva atual é de que essa situação piore, com graves impactos negativos no ciclo da água, devido ao aumento das taxas de evaporação, à redução da capacidade de armazenamento de águas subterrâneas e ao aumento do escoamento superficial, acompanhado pelo aumento da erosão. Estima-se que, desde 1900, entre 64% e 71% das zonas úmidas de todo o mundo foram perdidas devido às atividades humanas. Todas essas mudanças têm gerado impactos negativos na hidrologia, desde a escala local até a escala regional e mundial”.

 AGRICULTURA FAMILIAR COMO SOLUÇÃO

“A agricultura deverá suprir os aumentos projetados da demanda por alimentos, aperfeiçoando sua eficiência no uso dos recursos e, ao mesmo tempo, reduzindo seu impacto (external footprint), e a água é essencial para isso. Um dos fundamentos das soluções reconhecidas é a “intensificação ecológica sustentável” para a produção de alimentos, que melhora os serviços ecossistêmicos em terras agrícolas, por exemplo, por meio de uma melhor gestão do solo e da vegetação. A “agricultura de conservação”, que incorpora práticas destinadas a minimizar os impactos no solo, manter a cobertura vegetal e regularizar a rotação de colheitas, é um exemplo emblemático da abordagem da intensificação da produção sustentável. Sistemas agrícolas que reabilitam e conservam os serviços ecossistêmicos podem ser tão produtivos quanto sistemas agrícolas intensivos e de alto rendimento, mas com as externalidades reduzidas de forma significativa. Embora as SbN ofereçam importantes ganhos na irrigação, as principais oportunidades para aumentar a produtividade se encontram em sistemas alimentados pela chuva, que respondem pela maior parte da produção atual da agricultura familiar – e, com isso, produzindo benefícios com relação aos meios de subsistência e à redução da pobreza. Os ganhos que, em teoria, poderiam ser atingidos em escala mundial são maiores do que o aumento previsto da demanda mundial por água, o que potencialmente reduziria os conflitos entre usos concorrentes”.

MAIS ECOLOGIA, MENOS FERTILIZANTES

“A poluição causada por fontes não pontuais (difusas) da agricultura, em particular pelos nutrientes, permanece um problema crítico em todo o mundo, inclusive nos países desenvolvidos. Esse também é um dos problemas mais controláveis por meio das SbN, pois estas são capazes de reabilitar os serviços ecossistêmicos que permitem aos solos de melhorar a gestão dos nutrientes, o que, portanto, diminui a demanda por fertilizantes e reduz o escoamento de nutrientes e/ou a infiltração nas águas subterrâneas”.

MENOS RISCOS DE DESASTRES

“As SbN podem melhorar a segurança hídrica geral, aumentando a disponibilidade e a qualidade da água e, ao mesmo tempo, reduzindo os riscos de desastres relacionados à água e gerando cobenefícios sociais, econômicos e ambientais. Elas permitem a identificação de resultados positivos para todos os setores. Por exemplo, as SbN na agricultura estão sendo cada vez mais usadas porque aumentam a produtividade e lucratividade agrícola de maneira sustentável, mas também porque ampliam os benefícios sistêmicos finais, tais como uma melhor disponibilidade hídrica e menos poluição a jusante”.

Irrigação com água de chuva. ( Foto: Divulgação ICMC/USP)

CONTROLE DE INUNDAÇÕES E EROSÕES

“Esquemas de pagamento de serviços ambientais fornecem incentivos monetários e não monetários voltados para comunidades, fazendeiros e proprietários rurais privados localizados a montante, para que protejam, restaurem e conservem os ecossistemas naturais e adotem práticas sustentáveis, na agricultura e nos outros usos da terra. Essas ações geram benefícios para os usuários de água a jusante, na forma de regulação hídrica, controle de inundações, controle de erosão e de sedimentos, entre outros, assegurando assim um fornecimento de água constante e de alta qualidade, e ajudando a reduzir os custos de manutenção dos equipamentos e do tratamento da água”.

SUBSÍDIOS AUMENTAM INSEGURANÇA HÍDRICA

“Transformar as políticas agrícolas representa um caminho importante para financiar a adoção mais ampla de SbN. Para isso, é necessário que se supere o fato de que a grande maioria dos subsídios agrícolas, e provavelmente a maioria dos financiamentos públicos e de quase todo o investimento do setor privado em pesquisa e desenvolvimento agrícola ainda apoiem a intensificação da agricultura convencional, aumentando a insegurança hídrica. Popularizar o conceito de “intensificação ecológica sustentável” da produção agrícola, que envolve essencialmente a implementação de SbN (p. ex. melhores técnicas de gestão do solo e da paisagem), não é somente um caminho reconhecido a se seguir para alcançar a segurança alimentar, mas também um grande avanço no financiamento de SbN para os recursos hídricos”.

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