Três ruralistas de Santa Catarina têm terras na Amazônia; um deles despejou camponeses no Paraguai

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Com propriedades no Pará, irmãos Maldaner querem que Congresso decida sobre Unidades de Conservação; Valdir Colatto, fazendeiro em Rondônia, sugere o abate de animais silvestres

Por Igor Carvalho

Onze deputados federais e um senador de Santa Catarina integram a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Dois são candidatos ao Senado. Um deles, João Paulo Kleinubing (DEM), a vice-governador, na chapa de Gelso Merísio (PSD). Oito deputados vão tentar a reeleição. Entre eles, Valdir Colatto (MDB), de 59 anos, que busca seu sétimo mandato. Ele possui propriedades rurais na Amazônia – inclusive em terras públicas.

Colatto causou polêmica na política nacional quando propôs, em 2016, o PL 6268, que permite a caça de animais silvestres no Brasil. O catarinense, que também integra a bancada da bala, conseguiu unir os dois principais interesses de sua atuação parlamentar. O argumento do projeto é que algumas espécies são consideradas invasoras e que oferecem perigo ao agronegócio; assim, ao liberar o abate dos animais, garantiria a preservação das lavouras.

Valdir Colatto quer liberar a caça de animais silvestres. (Foto: Facebook)

O deputado possui propriedades rurais fora do estado de Santa Catarina, seu território político. Em sua relação de bens entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o deputado declara possuir uma área em Formoso do Araguaia (TO) e três no município de Vilhena (RO).

Justamente em Vilhena, em junho de 2013, cidade polo do agronegócio em Rondônia, com 97 mil habitantes, Colatto foi responsável pelo despejo de pelo menos 120 famílias do Acampamento Nova Vida, que requeriam a posse da terra. O parlamentar catarinense possuía um título provisório da área, através de Contrato de Alienação de Terras Públicas (CATP) e havia feito um acordo com os ocupantes garantindo que não haveria reintegração forçada enquanto a justiça não decidisse sobre a titularidade do terreno.

O parlamentar possui mais quatro terrenos em Santa Catarina. Ele ainda mantém ativa uma corretora de imóveis, em sociedade com sua esposa, Eloa Winckler. Sozinha, a cônjuge ainda administra a empresa Agros Planejamento Agropecuário e Consultoria, ambas em Xanxerê, onde Colatto foi presidente do sindicato rural da região.

Ex-presidente da FPA, o deputado tem entre os doadores de sua campanha o empresário paulista Rubens Ometto Silveira Mello, presidente do Conselho de Administração da Cosan, a gigante sucroalcooleira que, em parceria com a anglo-holandesa Shell, compõe a Raízen, a maior exportadora brasileira de açúcar.

MALDANER QUER CONGRESSO DECIDINDO SOBRE RESERVAS

Típica família sulista, com raízes na Europa e os pés na agricultura, os Maldaner deram dois filhos à política nacional: João Casildo Maldaner (PSDB) e Celso Maldaner (MDB). Eles são herdeiros de Érica Braun e Andréias Maldaner, que tiveram outros quatro filhos. Embora tenham a vida estabelecida no Sul, mais precisamente em Santa Catarina, os irmãos expandiram seus territórios para a Amazônia e até fora do país. O TSE informa que eles têm propriedades rurais no Pará, na Bahia e no Paraguai.

Gaúcho de Carazinho, Celso Maldaner defendeu que o Congresso Nacional seja o responsável pela demarcação das terras indígenas, com a PEC 215. E foi além, ao incluir na proposta que a criação de Unidades de Conservação também fique nas mãos de um parlamento de maioria ruralista.

Casildo Maldaner tem terras na Amazônia. (Foto: Facebook)

Aos 76 anos, Casildo Maldaner chegou a anunciar sua aposentadoria da política em 2014. Decidiu participar do pleito eleitoral em 2018 como primeiro suplente do senador tucano Paulo Bauer, um dos 27 integrantes da FPA, em tentativa de reeleição. Em 2006, concorreu como primeiro suplente ao Senado. À época, candidato pelo PMDB, declarou possuir R$ 1,6 milhão em bens. Seu patrimônio quase quintuplicou em doze anos: passou para R$ 7,7 milhões.

Casildo Maldaner teve seu primeiro mandato com apenas 20 anos, em 1962, pela UDN, como vereador de Modelo (SC), onde também administrava empresas da família na área de transporte de alimentos agrícolas. Já ocupou cadeiras na Assembleia Legislativa, Câmara e Senado. Após a morte de Pedro Ivo Campos, em 1990, assumiu o palácio de governo e a Casa D’Agronômica, a residência oficial dos governadores.

Seu irmão mais novo, Celso Maldaner, 65 anos, natural de Chapecó (SC), cresceu trabalhando no transporte de produtos agrícolas e suínos no município de Maravilha (SC), onde foi prefeito por três mandatos, o primeiro com apenas 28 anos. Em 2006, tornou-se deputado federal em mandatos consecutivos. Hoje, sua esposa, Rosimar Maldaner (MDB), está no segundo mandato como prefeita de Maravilha.

A exemplo de Casildo, Celso Maldaner também viu seu patrimônio crescer durante a vida política. Em 2010, o deputado catarinense declarou R$ 2,8 milhões em bens. Em 2018, houve um salto para R$ 10,3 milhões nas posses do parlamentar, um aumento de 260,63% em apenas oito anos.

NO PARAGUAI, PLANTAÇÃO DE SOJA E DESPEJO

Os Maldaner cultivam o hábito de acumular propriedades fora de Santa Catarina. Casildo declarou, em 2006, um terreno em Maravilha (SC) e outro no munícipio de São Félix do Xingu (PA), onde, segundo o responsável pelo cartório local, 90% das terras são públicas. Doze anos depois, em 2018, o fazendeiro declarou quatro propriedades rurais em seu estado de origem e outras sete fora dos limites catarinenses: em Tapurah (MT), Prainha (PA), novamente São Félix do Xingu e três em Barreiras (BA).

Celso Maldaner. (Foto: Facebook)

O parlamentar é dono de 80% das cotas da empresa Agro Integración, que possui terras para plantação de soja no Paraguai. Em 2012, 120 camponeses foram obrigados pela polícia paraguaia a sair de terras reivindicadas pela empresa da família. O despejo ocorreu numa fazenda de 400 hectares localizada a 70 quilômetros de Ciudad del Este, na Tríplice Fronteira. A imprensa local veiculou o nome de Ernani Maldaner – irmão de Celso e Casildo.

Celso Maldaner declarou uma área de 1,4 mil hectares em Santarém e outra de 1,3 mil hectares em Aveiro, no oeste e sudoeste do Pará. Em 2006, o deputado federal possuía terrenos em São Félix do Xingu, Tapurah e quatro em Barreiras (BA).

Os valores declarados pelos irmãos são dissonantes com o que prega o mercado imobiliário. As duas áreas que possui em terras paraenses somam 2,7 mil hectares e custam R$ 66 mil, de acordo com sua declaração ao TSE. Uma rápida busca em imóveis na região de Santarém mostra que um terreno simples, com três hectares, custa R$ 50 mil, valor aproximado ao declarado pelo tucano para um terreno quase mil vezes maior.

Casildo Maldaner declarou possuir dois terrenos de 750 metros quadrados em Florianópolis, na região da Praia Brava, em Santa Catarina, no valor de R$ 5,7 mil. Outra busca em imobiliárias da região, mostra que terrenos com dimensões similares podem custar R$ 1,5 milhão.

MUNICÍPIO NO PARÁ É MARCADO PELO DESMATAMENTO

São Félix do Xingu é um dos municípios em que Celso e Casildo mantêm propriedades. Depois de terem saído da lista dos municípios com maior desmatamento, Altamira e São Félix do Xingu – o maior e outro dos maiores municípios do Brasil – estão novamente no topo da lista, somando 7,8 mil hectares de floresta derrubada em agosto. De acordo com o boletim divulgado pelo Instituto Socioambiental (ISA), esses números indicam invasão e grilagem de terras em áreas protegidas.

De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o município destruiu  15,9 mil hectares de floresta entre agosto de 2009 e agosto de 2010 e foi responsável por 30,9% dos focos de incêndio no Pará.

Entre os bens de Casildo Maldaner não aparecem terras que o candidato tucano recebeu de presente em 2001 do então governador de Tocantins, Siqueira Campos, por meio do Projeto Agrícola de Campos Lindos, no nordeste do estado. A ideia desenvolvida pelo governante foi de ceder 105 mil hectares “de terras improdutivas para empresários com experiência rural”.

Escolhido entre os 47 beneficiários da área, Casildo teve a companhia da senadora Kátia Abreu (PDT-TO), que era presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Tocantins, administradora do projeto. Para a efetivação do projetol, centenas de famílias foram desalojadas da região.

Veja quais outros membros da Frente Parlamentar da Agropecuária disputam as eleições.

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