Fotografias retratam resistência de povos tradicionais na luta por território

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Comissão Pastoral da Terra lança em Minas exposição itinerante com 150 retratos da vida de indígenas, quilombolas e camponeses captados entre 2012 e 2018; na USP, Museu de Arqueologia reúne imagens de três etnias

As comunidades tradicionais do Brasil – indígenas, quilombolas e camponeses – têm o cotidiano permeado pela resistência. A luta para conquistar e defender seus territórios e, por consequência as suas tradições, faz parte da rotina dessas minorias. Ao longo das últimas décadas, a vida desses povos foi documentados por meio da fotografia. Tal acervo, produzido por antropólogos, fotógrafos e membros dos próprios grupos, contribui para fomentar a justiça e a dignidade em meio às lutas. 

A importância das imagens é contemplada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), que lança nesta quarta-feira (05) a exposição fotográfica itinerante “Raiz e Resistência: comunidades tradicionais e territórios de vida”. São 150 imagens captadas entre os anos de 2012 e 2018 que mostram o cotidiano de centenas dessas pessoas, que carregam a palavra resistência de maneira intrínseca à existência.

“Raiz a Resistência”: mostra reflete cotidiano de luta. (Foto: Edivaldo Ferreira)

O lançamento da exposição acontece em Diamantina (MG) como parte da 7ª Semana da Integração Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Depois do dia 8 de junho, essas imagens – que retratam momentos de enfrentamentos e violências decorrentes de conflitos agrários​, cenas cotidianas e a relação com a natureza – irão circular por comunidades camponesas acompanhadas pela CPT na Bahia, em Minas e Pernambuco.

A foto principal desta reportagem é de João Zinclar, um profissional que ficou conhecido pelos retratos do universo camponês. A mostra traz, ainda, fotos do acervo da pastoral e depoimentos de membros das comunidades.

ETNIAS EXPÕEM IMAGENS EM MUSEU DE ARQUEOLOGIA

Além de serem retratados, os povos das florestas também produziram – em menor quantidade –  imagens próprias. Assim, eles têm a chance de mostrar para o mundo como se veem. Essa percepção pode ser conferida na exposição “Resistência Já! Fortalecimento e União das Culturas Indígenas – Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena“, que fica em cartaz até o dia 18 de julho no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da Universidade de São Paulo (USP).

Museu de Arqueologia expõe objetos indígenas. (Foto: Cecília Bastos/USP Imagens)

Trata-se de uma mostra colaborativa, na qual os próprios grupos fizeram a curadoria dos objetos expostos mesclando fotografias próprias, de pesquisadores e objetos do acervo do MAE. A exposição conta, ainda, com uma participação ainda mais direta dos indígenas. No dia 14 de junho, o grupo Terena estará na USP das 14 às 18 horas fazendo apresentação de suas danças, artesanato e pintura corporal.

Coordenada pela professora Marília Xavier Cury, a mostra tem o objetivo de atender a três reivindicações dos indígenas: falar por si, buscar retorno sobre o que foi feito com os objetos coletados de seus ancestrais e mostrar quem eles são hoje, uma vez que suas histórias costumam ser contadas levando em conta apenas o passado.

Ao mesmo tempo em que narrativas sobre os indígenas podem ter viés de preconceito, algumas iniciativas históricas ajudaram povos a terem as suas lutas retratadas, o que refletiu na melhora de suas condições. Um exemplo é o trabalho da fotógrafa suíça Claudia Andujar com os Yanomami, que se tornou forte instrumento de conscientização sobre a importância da garantia do território dessa etnia na Amazônia.

FOTOS DENUNCIARAM ATAQUES AOS YANOMAMI

Claudia registrou a comunidade pela primeira em 1971 para a extinta revista Realidade. A partir de então, construiu uma relação de afeto com os indígenas, que se tornaram a sua nova família, substituindo os parentes mortos na Segunda Guerra. Suas fotos denunciaram as condições de vida dos Yanomami após o contato com garimpeiros e com trabalhadores de empreiteiras, em meio ao plano de “desenvolvimento da Amazônia” durante o governo militar.

Aldeia dos Yanomami retratada por filme infravermelho. (Foto: Claudia Andujar)

As séries de fotografias que ela produziu nessa época foram reunidas pela Comissão de Criação do Parque Yanomani (Comissão Pró-Índio) e se transformaram na instalação “Genocídio Yanomami: Morte no Brasil” (1989). O título não é um exagero: a interferência do homem branco nas comunidades introduziu um rastro de doenças, violência e poluição. Centenas de indígenas morreram.

Uma seleção de fotos de Claudia Andujar resultou em uma segunda versão, apresentada entre dezembro de 2018 a abril de 2019 no Instituto Moreira Salles de São Paulo (IMS Paulista). O manifesto audiovisual em 16 telas segue agora para o Rio de Janeiro, onde estreia em julho no IMS Rio.

Além de caráter de denúncia, a técnica de captura de imagens de Claudia, que muitas vezes utilizava filmes vencidos, revelou o universo mítico dos Yanomami. Um dos conjuntos mais impactantes dessa face de sua obra foi o registro das festas reahu, complexas cerimônias funerárias e de aliança intercomunitária, marcadas por ritos específicos e pela fartura de comida.

Para traduzir a relação entre o que ela via e a dimensão mística dos rituais, Claudia Andujar desenvolveu experimentos fotográficos, com flashes, lamparinas e filmes infravermelhos. As imagens evidenciaram de maneira única o universo espiritual dos indígenas, dando forma concreta a um mundo abstrato. (Priscilla Arroyo)

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