Mulheres pobres trabalham cinco vezes mais que homens em zonas rurais

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Elas dedicam 14 horas por dia aos cuidados não remunerados, como buscar água, lenha e cuidar de crianças, aponta relatório da Oxfam para o Fórum Econômico Mundial; dados são globais, mas refletem situação no Brasil, onde os homens são donos de 87,32% das propriedades rurais 

Por Priscilla Arroyo

Buscar água do poço ou da nascente, colher lenha, cozinhar, fazer pequenos consertos, cuidar de crianças e idosos. Esses são alguns exemplos de trabalho de cuidado não remunerado, atividade essencial para manter o fluxo de comunidades e até da economia de um país. Trata-se de uma ocupação invisível, desproporcionalmente assumida por mulheres e meninas em situação de pobreza. 

Em zonas rurais pobres, elas dedicam catorze horas por dia para esses afazeres, cinco vezes mais tempo que os homens, de acordo com dados do relatório “Tempo de Cuidar“, produzido pela Oxfam para ser apresentado no Fórum Econômico Mundial, que acontece entre os dias 21 e 24 em Davos, na Suíça.

Katia Maia, da Oxfam Brasil. “No quesito desigualdade, temos uma preocupação grande com o que vem pela frente no Brasil”. (Foto: Divulgação)

“Embora os dados sejam globais, se olharmos para o mundo rural brasileiro, essas estatísticas seguramente se repetem”, diz Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil. Ela destaca que os homens são donos de 87,32% das propriedades rurais no País. “Na prática, elas cuidam dos afazeres domésticos e também participam do trabalho na roça”.

Tal cenário contribui para a perpetuação das desigualdades de gênero e econômica, uma vez que prejudica a saúde e o bem-estar das trabalhadores de cuidado, além de impedir a prosperidade econômica e social. É pouco complicado chegar a essa conclusão: uma das principais consequências para meninas em idade escolar que dedicam esse esforço às suas comunidades é a diminuição da taxa de frequência nas salas de aula. 

De acordo com o relatório, as mulheres mais afetadas são as que pertencem a grupos que sofrem outros tipos de discriminação além do gênero, como preconceito racial, de nacionalidade, sexualidade e casta. “Na Bolívia, por exemplo, 42% das mulheres afirmam que o trabalho de cuidado constitui o maior obstáculo à sua participação na política”, aponta o texto.   

TRABALHO ‘INVISÍVEL’ AGREGA TRILHÕES À ECONOMIA

Enquanto as mulheres padecem de falta de perspectiva pessoal, a dedicação ao trabalho de cuidado agrega ao menos US$ 10,8 trilhões por ano em valor à economia, três vezes mais que o desempenho do setor de tecnologia em todo o mundo. Embora elas sejam responsáveis por mais de três quartos dessa função, o esforço é invisível para os governos, que consideram gastos com esse tipo de atividade como custo, e não investimento. Como consequência, o esforço não aparece em indicadores de progresso econômico e nas agendas de políticas públicas.

As perspectivas são pouco positivas, uma vez que a posição austera adotada por muitos governos agrava mais ainda o quadro. “Em vez de ampliar programas sociais e gastos para investir na prestação de cuidado e combater a desigualdade, os países estão aumentando a tributação de pessoas em situação de pobreza, reduzindo gastos públicos e privatizando a educação e a saúde”, aponta o texto.

No Brasil, onde a administração de Jair Bolsonaro faz o ajuste fiscal a partir de cortes em políticas sociais, as pessoas mais necessitadas são as mais afetadas. “Temos uma preocupação grande com o que vem pela frente”, diz Katia, ao se referir às discussões em relação à reforma tributária. “Deveríamos priorizar a tributação de grandes fortunas, dos dividendos. Mas não estamos vendo isso”. 

ESCASSEZ DE ÁGUA AGRAVA SITUAÇÃO DAS MULHERES

Mulher busca água em campo para refugiados em Garadag, na Somália. (Foto: Petterik Wiggers/Oxfam )

A destruição gradual da natureza acelera o processo de colapso climático, o que tende a piorar ainda mais a situação das mulheres que prestam trabalhos de cuidado. De acordo com estimativa da Oxfam, 2,4 bilhões de pessoas viverão em áreas de escassez de água até 2025. Isso significa que elas terão de caminhar distâncias maiores para prover essa necessidade básica às suas famílias. 

Outra consequência apontada pelo relatório é a redução na quantidade de alimentos produzidos, o que tende a aumentar a incidência de doenças e, portanto, a dedicação das meninas e mulheres aos enfermos. 

O aumento da quantidade de idosos e crianças é mais um fator que tende a refletir na piora da condição de vida. Estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que, até 2030, haverá um número adicional de 100 milhões de idosos e de 100 milhões de crianças entre 6 e 14 anos que precisarão de cuidados. Diante de sistemas públicos despreparados para atender a essa necessidade adicional, cairá sobre as mulheres mais essa demanda. 

Foto principal: mulher coleta água com a sua filha em Eastern Samar, nas Filipinas. (Foto: Aurelie Marrier d’Unienville/Oxfam)

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