Memórias da Pandemia — Feliciano Lana, o artista indígena do Alto Rio Negro

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Com exposições na França, Áustria e Alemanha, o “filho dos desenhos dos sonhos” faleceu aos 83 anos por parada cardiorrespiratória, após contágio por Covid-19; morte do Desana foi comunicada por um operador de radiofonia

Por Yago Sales

Artista utilizava papel e guache. (Imagem: Reprodução)

Da etnia Desana, o indígena Sibé, de 83 anos, ou Feliciano Pimentel Lana, o nome dado pelos padres, morreu nesta terça-feira (12), em decorrência da Covid-19, em São Gabriel da Cachoeira (AM). Considerado um dos principais artistas plásticos indígenas do Brasil, Lana não resistiu à parada cardiorrespiratória às 4 horas em sua casa, na comunidade São Francisco. A informação foi repassada por um operador de radiofonia de Tabocal, no Alto Rio Negro, ao ser avisado por uma enfermeira que atende os indígenas.

Com tinta guache sobre papel, Feliciano Lana se tornou grande referência artística, do noroeste do Amazonas para o mundo, ao retratar a cultura de seu povo. Por exemplo, indígenas engolidos por peixes ou carregados em redes por aves. Ele fez o mundo ver os troncos cortados com serra elétrica às margens do rio. O desmatamento cada vez mais próximo de sua comunidade.

Em cada tela, Lana ilustrou sua etnia não apenas como cenário, mas como história. Pintava todo o simbolismo que imaginava sobre Deus, conforme a denominação cristã, mas também tudo que se relacionasse aos mitos indígenas. Em particular, conforme pesquisa realizada em 2005 na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) em São Paulo, o mito de origem do universo.

O tema foi um dos aspectos estudados em dissertação de mestrado defendida no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP pela pesquisadora Larissa Lacerda Menendez, hoje professora de Artes Visuais na Universidade Federal do Maranhão. Para analisar as obras de Feliciano e de Luis Lana, seu primo, ela adotou uma perspectiva interdisciplinar entre antropologia e arte. O trabalho se tornou um livro, “Iconografias do Invisível — a arte de Feliciano e Luis Lana”, editado em 2009 pela Annablume.

ARTISTA FOI AGRICULTOR E SERINGUEIRO

Manejo Pesqueiro no Médio Rio Içana (Ilustração para o Projeto Kophé Koyaanale)

Além do pincel, instrumento pelo qual traçava sua narrativa, Feliciano Lana gostava de contar histórias aos brancos que apareciam em seu ateliê. Foi assim que o filósofo catarinense Pedro Vieira conheceu a obra de Feliciano:

— Fui à região para conhecer mesmo. Eu o vi uma vez durante um almoço. Ele foi alguém que de maneira muito criativa conseguia abarcar vários elementos, por exemplo o mundo cristão, dentro do próprio pensamento, sem que fosse interpretado como aculturação, mas como resistência cultural indígena.

Vieira se lamenta de algo: “Pena que não tenho nenhum de seus quadros”.

Na década de 80, a obra de Feliciano Lana viajou pela França, Áustria e Alemanha. Por exemplo, em uma mostra no Museu de Etnologia de Frankfurt. Em 2016, ganhou mostra no Museu do Amazonas.

Neste século, o Tesana se tornou também escritor. Ele é o autor e o ilustrador do livro “A origem da noite & Como as mulheres roubaram as flautas sagradas”, publicado em 2009 pela Editora da Universidade Federal do Amazonas (Edua). O livro é bilíngue, editado em português e no idioma desana.

Várias obras de Lana foram levadas como lembrança por viajantes que passaram por sua aldeia. Ou, como no caso do antropólogo Paulo Maya, três das telas “compradas em reconhecimento a excelência do trabalho”. Durante expedições que fez à região entre 2004 e 2009, Maya conheceu o artista e a obra. “Eu o encontrava diversas vezes em São Gabriel da Cachoeira e no bairro onde morava”, recorda-se. “Até mesmo na sede do Instituto Socioambiental, onde me hospedava. Tenho três desenhos lindos dele”.

Maya diz que Lana era um artista fora do comum. “Ele nos deu a visibilidade da cosmopolítica do Rio Negro. Foi um gênio com seus desenhos-mitos”.

“Conversas sobre os desenhos, na realidade, não eram sobre os desenhos”, escreveu em seu Facebook o antropólogo Renato Amram Athias, da Universidade Federal de Pernambuco, que está organizando uma publicação com dez trabalhos do artista. “Era sobre um conhecimento profundo sobre a vida”.

‘ELE FOI O FILHO DOS DESENHOS DOS SONHOS’

Filho de Manuel Lana e de Paulina Pimentel, o artista nasceu na aldeia São João Batista, no Rio Tiquié, em 1937. Quando não pintava, na juventude, trabalhou como mecânico, agricultor, vigilante noturno, oleiro, pedreiro e seringueiro. Na Colômbia, como tratorista e assistente de telegrafista. “Fez um pouco de tudo na vida até o momento em que começou a desenhar os sonhos”, descreveu o antropólogo José Ribamar Bessa Freire.

Uma das pinturas de Lana expostas no Museu da Amazônia, em Manaus, em 2016. (Imagem: Reprodução)

Em uma crônica escrita em 2007, José Bessa analisou o trabalho e a trajetória de Feliciano Lana. Ele contou que a transfiguração de Sibé — filho de uma Tukano e de um Desana — em Feliciano foi um processo carregado de conflitos e tensões, após sair da comunidade Desana em São João Batista para um internato salesiano no município de Japurá:

— O internato queria que Feliciano matasse Sibé , que ele deixasse de falar línguas indígenas, que esquecesse as cerimônias sagradas, os adornos, as festas, o dabacuri, que apagasse da memória as imagens e as narrativas míticas ouvidas da boca de seus avós, que deixasse de escutar os sons das flautas sagradas, através das quais se apropriava dos segredos da paxiúba. Mas cada vez que afogavam Sibé, ele boiava na superfície e ficava de bubuia na mente e no coração de Feliciano. Foi aí, então, que nasceu Feliciano Sibé Pimentel Lana, Kenhiporã, filho dos desenhos dos sonhos.

(Colaborou Alceu Luís Castilho)

Foto principal: Tatiana Cardeal

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