Pará, Rio, Maranhão e Amapá concentram 77% das mortes por Covid-19 em quilombos

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Conaq e ISA monitoram expansão da pandemia nas comunidades e apontam curva ascendente de casos; pelo menos 133 pessoas morreram pelo novo coronavírus em territórios quilombolas, 95% delas nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste

Por Márcia Maria Cruz

O novo coronavírus avança em comunidades quilombolas de todo o Brasil, conforme o Observatório da Covid-19 nos Quilombos (Quilombo Sem Covid-19). O levantamento  demostra que foram confirmadas 133 mortes, desde o início do acompanhamento, em 11 de abril, até 14 de julho. A região Norte responde por 56 mortes (43%), Sudeste por  39 (30%), Nordeste por 29 (22,3%) e Centro-oeste por seis (4,62%). Não há registro de mortes na Região Sul.

As regiões Norte e Sudeste, portanto, compõem 73% do total de mortes pela pandemia no Brasil. Somando a região Nordeste, a porcentagem chega a 95,3%.

O Pará é o Estado em que mais pessoas morreram nesses territórios (36), seguido do Rio de Janeiro (35), Amapá (18) e Maranhão (13). Há uma diferença entre o total de mortes e as mortes por estado em função de alguns registros que não indicam a localidade.

Foram confirmados 3.465 casos da Covid-19 nos territórios quilombolas e outros 797 estão em acompanhamento. As estatísticas, no entanto, escondem uma provável subnotificação.

As regiões Norte e Sudeste, portanto, compõem 73% do total de mortes pela pandemia no Brasil. Somando a região Nordeste, a porcentagem chega a 95,3%.

DEZESSEIS ESTADOS REGISTRAM MORTES EM QUILOMBOS

Confira, por região, as mortes por Covid-19 nos quilombos no Brasil:

Cartaz no Quilombo Pitimandeua, em Inhangapi (PA). (Foto: Malungu/Divulgação)

Norte
Amapá – 18
Pará – 36
Rondônia – 1
Amazonas – 1
Total – 56

Sudeste
Espírito Santo – 4
Rio de Janeiro – 35
Total – 39

Nordeste
Ceará – 1
Maranhão – 13
Pernambuco – 7
Bahia – 5
Paraíba – 1
Alagoas – 1
Rio Grande do Norte – 1
Total – 29

Centro-Oeste
Mato Grosso – 3
Goiás – 2
Tocantins – 1
Total – 6

Os dados são do Observatório da Covid-19 nos Quilombos, conforme a contagem realizada até esta terça-feira (14).

MEIOS DE COMUNICAÇÃO NÃO DÃO ATENÇÃO, DIZ CONAQ

O monitoramento é uma iniciativa da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e do Instituto Socioambiental (ISA), a partir de dos dados das secretarias municipais repassados ao Ministério da Saúde. No entanto, muitas secretarias não notificam se as mortes foram de quilombolas.

A Conaq pontua que a “invisibilidade da doença em territórios quilombolas revela uma situação dramática, que não tem recebido a atenção devida das autoridades públicas e dos meios de comunicação dominantes”.

A subnotificação reflete a ausência de dados epidemiológicos de populações quilombolas. Líderes quilombolas dizem que, além dos casos que não são registrados, ainda há dificuldade de acesso e até a negação de exames a pessoas que apresentam sintomas.

A Coordenação das Associações das Comunidades Quilombolas do estado do Pará aponta o aumento dos casos. No último balanço, divulgado na quinta-feira (09), foram confirmados 307 casos nas onze comunidades de um só território quilombola.

“Embora isso não signifique que todos os casos foram identificados hoje, os dados mostram a importância dos testes”, informa a organização. “Quando os testes são feitos, vemos melhor a situação que enfrentamos, com um número de doentes muito maior do que podemos imaginar”.

A aplicação de teste de maneira mais ampla, nas comunidades, é uma das reivindicações.

‘POLÍTICA EFETIVA NÃO HOUVE E NÃO HÁ’, DIZ INFECTADO

Mestre em sustentabilidade e membro da comunidade quilombola África, em Moju (PA), Magno Nascimento, de 42 anos, infectou-se e ficou 26 dias acamado, em casa. “Precisei sair da comunidade e, infelizmente, naquele momento eu tive acesso ao município de Ananindeua e no Estado do Amapá, onde já tinha casos”, conta ele. “Na volta, preferi não retornar a comunidade. Fiquei por Belém e acabei contraindo a doença”.

Para tentar barrar o avanço do novo coronavírus nas comunidades quilombolas de Moju, foram feitas barreiras sanitárias nas estradas. Na região onde Magno vive são sete comunidades, que estabeleceram regime de revezamento para escalar os responsáveis pelo controle.

“É uma barreira orientativa, onde tem álcool em gel e máscara e pessoas para orientar e, de repente, pedir para a pessoa que tenta acessar o território para que possa retornar num outro momento, descreve. “Só é permitida a entrada dos que realmente necessitam. Os comunitários, quando precisam resolver a situação na cidade, são orientados a usar máscara, álcool em gel e tomar cuidados”.

Magno pontua que a atenção do governo do Pará e da prefeitura de Moju é para a área urbana e  que não há uma política de saúde pública para as comunidades quilombolas. E, diante da ausência do Estado, as comunidades fazem uso de conhecimentos tradicionais para amenizar os efeitos da doença.

— As comunidades precisam recorrer e, por sorte, ter o conhecimento tradicional das plantas para poder fazer medicamentos para amenizar os sintomas e fortalecer o organismo para enfrentar a doença. Mas política específica para o atendimento dos quilombolas afetados pela Covid não houve e não há até o momento.

| Márcia Maria Cruz é jornalista. |

Foto principal (Divulgação): projeto de monitoramento da Covid-19 da Mineração Rio do Norte em Oriximiná, no Pará

|| A cobertura do De Olho nos Ruralistas sobre o impacto da pandemia nas comunidades quilombolas tem o apoio da Fundo de Auxílio Emergencial ao Jornalismo da Google News Initiative ||

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