Governo federal distribuiu 100 mil unidades de cloroquina para indígenas

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Informação consta de powerpoint divulgado em coletiva do ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, mas passou despercebida em meio à propaganda do medicamento ineficaz; aldeias receberam ainda 205.540 comprimidos de oseltavimir, rejeitado por infectologistas

Por Bruno Stankevicius Bassi Leonardo Fuhrmann

O governo federal distribuiu 100.500 comprimidos de cloroquina para indígenas. A informação consta de um powerpoint divulgado nesta sexta-feira (24) pelo ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, durante entrevista coletiva. A informação não foi destacada pelos textos oficiais nem pela imprensa. Mas está lá, na página 39 da apresentação.

Os dados sobre combate à Covid-19 entre os povos indígenas foram apresentados por Elcio Franco, secretário-executivo, o número 2 do Ministério da Saúde, e por Robson Santos da Silva, o chefe da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Confira a página sobre distribuição de medicamentos aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs):

Página 39 do powerpoint apresentado por Eduardo Pazuello durante coletiva no Ministério da Saúde. (Imagem: Reprodução)

A pasta reuniu a imprensa para apresentar o que considerava um pacote de boas notícias: habilitação de novos leitos de UTI e entrega de respiradores, por exemplo. No meio do que seria uma agenda positiva, Pazuello confirmou a obsessão do governo pela cloroquina. O medicamento, de eficiência não comprovada e com alto risco para a saúde, foi distribuído em escala no país: foram 4,8 milhões de comprimidos.

Quase metade do material apresentado durante a entrevista tratava de saúde indígena. O tema ocupou 28 das 63 páginas do powerpoint, inclusive com dados desmentidos por organizações indígenas. No material, mais uma informação sobre a distribuição de remédios destinados às aldeias: foram 100.500 comprimidos de cloroquina e outros 205.540 de oseltavimir.

RISCO DO MEDICAMENTO É MAIOR EM COMUNIDADES DISTANTES

Conhecido pelo nome comercial tamiflu, o oseltavimir foi outro medicamento que ganhou destaque nominal na apresentação. No total, foram entregues no país 11,1 milhões de unidades da substância. A distribuição dos dois medicamentos não está em nenhum dos textos divulgados no site do ministério a respeito da entrevista.

Ministério da Defesa comandou distribuição de cloroquina em Roraima. (Foto: Agência Saúde)

As DSEIs receberam também 205.540 comprimidos do antiviral oseltamivir, conhecido pelo nome comercial Tamiflu, para a distribuição entre os povos originários. Segundo a Sociedade Brasileira de Infectologia, esse medicamento tem uma eficiência menor ainda e um risco maior ainda no caso da Covid-19, embora recomende — sem ênfase — para o combate à gripe.

Sem qualquer indicação de eficiência no tratamento da Covid-19 e com sérias ameaças à saúde no seu uso, a cloroquina teve sua indicação de uso suspensa, em junho, para pacientes da doença nos Estados Unidos. No Brasil, contrariando todas as evidências científicas, o medicamento continuou no imaginário do presidente Jair Bolsonaro e de seus seguidores. E uma das medidas tomadas foi a distribuição dos comprimidos de cloroquina para os DSEIs.

Desde de maio, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) não recomenda o uso da substância para o tratamento, especialmente em casos ambulatoriais. Pesquisas divulgadas desde maio mostram que, além de não ter eficiência comprovada para o tratamento, o uso ambulatorial da cloroquina representa um risco à saúde. Um estudo publicado naquele mês pelo jornal científico The Lancet apontou um aumento da mortalidade entre os pacientes que receberam a substância, ligado principalmente a arritmias cardíacas.

Em comunidades que muitas vezes estão distantes de hospitais de alta complexidade e sem um acompanhamento médico específico, como é o caso das aldeias indígenas, o risco da utilização do medicamento pode ser ainda maior.

No início do mês, a Amazônia Real mostrou que uma missão chefiada por militares levou 66 mil comprimidos de cloroquina para as terras indígenas Yanomami e Raposa Serra do Sol, em Roraima. A chegada dos medicamentos ao estado ilustra a foto principal desta reportagem.

PAZUELLO ADERIU ÀS COLETIVAS EM NOME DE AGENDA POSITIVA

Mandetta gostava de coletivas; Teich, menos; Pazuello, nem um pouco. (Imagem: Reprodução)

Presença incomum nas apresentações aos jornalistas ao longo da pandemia, Eduardo Pazuello comandou a coletiva, acompanhado de representantes do segundo escalão da pasta. Em junho, o ministro chegou a ser questionado no Congresso, pela deputada Eliziane Gama (Cidadania), diante da ausência de coletivas. Na ocasião, ele respondeu que ir às entrevistas era “tirar o pessoal da produção, do trabalho”.

O militar comanda interinamente o Ministério da Saúde desde maio, embora não tenha qualquer formação na área médica. Quem tinha essa formação abandonou o ministério, em boa parte pela obsessão de Bolsonaro pela criação de protocolos para utilização da cloroquina e um de seus derivados, a hidroxicloroquina.

Foram dois médicos que abandonaram o barco em menos de um mês: o ex-deputado Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), em 16 de abril, e Nelson Teich, em 15 de maio. Ambos se recusaram a incorporar o uso massivo da cloroquina e da hidroxicloroquina no protocolo de tratamento para casos leves e moderados da doença.

Desde que testou positivo para Covid-19, Bolsonaro intensificou a propaganda do remédio em lives e aparições públicas, chegando ao ponto de erguê-lo frente a uma multidão que saudava o falso remédio milagroso e até mesmo mostrá-lo para uma ema que passeava no gramado do Palácio da Alvorada.

PAÍS TEM ESTOQUE INÚTIL DE 4 MILHÕES DE COMPRIMIDOS 

A obsessão de Bolsonaro pelo medicamento, geralmente usado no tratamento da malária, causou um problema para o país. Segundo reportagem da Folha, o Brasil possui um estoque parado de 4 milhões de comprimidos de cloroquina, dos quais 2 milhões foram despejados em solo brasileiro por Donald Trump, semanas antes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos suspenderem o uso do medicamento para casos de Covid-19.

O rombo é ainda maior. O presidente também liberou R$ 1,5 milhão para o Laboratório de Química e Farmácia passar a produzir o medicamento, com insumos adquiridos da Índia. O gasto não havia sido aprovado pelo Ministério da Saúde.

O Ministério da Saúde também apresentou dados sobre a incidência da Covid-19 entre os povos originários muito menores do que os levantados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. A Apib registrou 18.260 casos confirmados e o ministério fala em 13.096. A distorção entre o número de mortes é ainda maior. São 570 indicados pela Apib e menos da metade, 247, conforme o ministério.

O problema não é isolado nem recente. O descaso do governo federal com a saúde indígena chegou ao Supremo Tribunal Federal no início do mês. Em liminar concedida em uma ação proposta pela Apib e pelos partidos PSB, PSOL, PCdoB, Rede, PT, PDT, o ministro Roberto Barroso determinou que o governo Bolsonaro teria de tomar cinco medidas para proteção dos povos indígenas.

Por conta da decisão, um comitê foi organizado para tratar do tema. Nesta semana, Barroso precisou voltar ao tema: nomeou um funcionário de seu gabinete e outro do Conselho Nacional de Justiça para acompanhar as reuniões entre os indígenas e o governo. O motivo foi que os indígenas informaram ao ministro terem sido humilhados na primeira reunião.

| Bruno Stankevicius Bassi é repórter e coordenador de projetos do De Olho nos Ruralistas |

Leonardo Fuhrmann é repórter do observatório |

Foto principal (Agência Saúde): chegada de medicamentos a terra indígena em Roraima 

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