Disputa em Lucas do Rio Verde, “capital da agroindústria”, mobiliza nomes de peso da política mato-grossense

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Flori Binotti tem apoio do sojeiro Blairo Maggi, ministro da Agricultura durante o governo Temer, e de Neri Geller, coordenador político da Frente Parlamentar da Agropecuária; Miguel Ribeiro tem como cabo eleitoral o vice-governador Otaviano Pivetta, da Vanguarda Agro

Por Bruno Stankevicius Bassi

Por todo país a soja vai às urnas. Em Lucas do Rio Verde (MT), no entanto, ela vai em dobro. Considerada a “capital da agroindústria” do Mato Grosso, o município assiste a uma disputa intrincada entre dois empresários do setor apoiados, cada um, pelas principais forças ruralistas do estado.

Sem máscaras, Carlos Fávaro (ao centro) e Neri Geller (dir.) participam de caminhada pró-Binotti. (Foto: Reprodução)

De um lado, o atual prefeito Flori Luiz Binotti (PSD) lidera uma coligação de oito partidos, tendo como principal cabo eleitoral o colega de partido e senador interino Carlos Fávaro. Em meio à subida do número de casos de Covid-19 no país, os dois convocaram na última quinta-feira (12) uma “caminhada da vitória” com cerca de 5 mil apoiadores, segundo estimativas dos assessores da campanha. Nas fotos, como a que ilustra a reportagem, a maioria dos participantes aparece sem máscaras.

Ex-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Fávaro foi vice-governador do estado durante a gestão de Pedro Taques (Solidariedade), com quem disputa agora a vaga no Senado deixada pela cassação da juíza Selma Arruda (PSL), em dezembro de 2019.

Binotti também é apoiado pelo deputado Neri Geller (PP-MT), atual coordenador político da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e ministro da Agricultura durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff (PT). É dele o projeto de lei que busca ampliar o título da cidade da esfera estadual para a nacional, transformando Lucas do Rio Verde em Capital Nacional da Agroindústria. Além dele, o ex-ministro e ex-governador do estado, Blairo Maggi, manifestou apoio ao prefeito.

Do lado oposto e à frente nas pesquisas de intenção de voto, o empresário Miguel Vaz Ribeiro (Cidadania) é endossado pelo atual vice-governador Otaviano Pivetta (PDT), fundador da Vanguarda Agro (hoje Terra Santa Agro), presença constante na lista das cem maiores empresas do agronegócio brasileiro. Em 2012, Ribeiro foi vice de Pivetta na campanha vitoriosa pela prefeitura do município mato-grossense, sucedendo o amigo e sócio Marino José Franz (PPS).

CANDIDATO TEM PATRIMÔNIO DE R$ 131 MILHÕES

Prefeito de Lucas do Rio Verde entre 2005 e 2012, o catarinense Marino Franz fundou, junto com Ribeiro, o grupo Fiagril. Inicialmente uma distribuidora de fertilizantes e agrotóxicos — vendida em 2016 à chinesa Dakang —, a empresa expandiu as atividades para o mercado de etanol de milho e soja por meio da Tapajós Participações.

Maggi e Temer em inauguração de usina em Lucas do Rio Verde. (Foto: Mapa/Divulgação)

Em 2014, o grupo iniciou uma joint venture com a estadunidense Summit Brazil Renewables LLC, propriedade de um ex-conselheiro agrícola do presidente Donald Trump. A primeira usina do grupo foi inaugurada em 2017, com direito à presença do então presidente Michel Temer e Blairo Maggi: “Temer inaugura, no MT, usina de etanol que pertence a conselheiro de Trump“.

Ocupando a presidência da Fiagril na época, Ribeiro irava além: mais precisamente, no Amapá, onde o político passou a investir em terras agrícolas. Por meio da Agropecuária Cerrado Verde, Ribeiro é dono da Fazenda São Manoel, em Tartarugalzinho. Ao todo, o patrimônio declarado pelo empresário ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ultrapassa os R$ 131 milhões, o que o coloca como um dos candidatos mais ricos do estado.

Segundo levantamento do De Olho nos Ruralistas, que consolidou o total de imóveis rurais declarados por candidatos às prefeituras na Amazônia Legal, Ribeiro é o sétimo maior proprietário de terras na região, com 7.490 hectares distribuídos em cinco fazendas, em Tabaporã, São José do Rio Claro e Cuiabá.

PREFEITO RETIRA FAZENDAS DA DECLARAÇÃO DE BENS

A disputa em Lucas do Rio Verde é acirrada no aspecto territorial. Em sua primeira declaração de bens ao TSE, Luiz Binotti afirmou ter 10.161 hectares em fazendas, espalhadas pelos estados de Mato Grosso e Goiás. O número o colocava na quinta colocação dos maiores donos de terras das eleições de 2020. As sucessivas correções no patrimônio, no entanto, rebaixaram os bens do prefeito.

De um total de R$ 39 milhões, o patrimônio de Binotti caiu para R$ 311 mil. A redução foi movida, em grande parte, pela retirada de mais de 9 mil hectares da lista de bens, que agora considera apenas 995 hectares. Ainda aparecem na declaração a participação na comercializadora de soja Binotti Armazéns Gerais e na distribuidora de agrotóxicos e fertilizantes KSB Agribusiness.

Para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no entanto, o número é maior. Segundo o Sistema Nacional de Cadastro Rural, o prefeito possui 5.559 hectares em Lucas do Rio Verde, incluindo áreas vinculadas à Binotti Armazéns Gerais.

| Bruno Stankevicius Bassi é repórter e coordenador de projetos do De Olho nos Ruralistas. |

Foto principal (Reprodução): “caminhada da vitória” de Luiz Binotti contou com presença de líderes ruralistas

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