Dos 215 candidatos a prefeito em Rondônia, 70 se declaram fazendeiros

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Área total das propriedades declaradas no estado chega próximo do tamanho de Aruba; patrimônio declarado em terra e gado ultrapassa os R$ 67 milhões, dos quais R$ 39 milhões se concentram nas mãos dos dez mais ricos 

Por Sarah Fernandes

Entre os 215 candidatos a prefeito de Rondônia, 70 possuem fazendas declaradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 52 municípios. Ou seja, praticamente um terço dos concorrentes é proprietário de terras. Em relação à pecuária, 26 candidatos se declararam donos de cabeças de gado. Esses números ampliaram o temor de líderes de movimentos sociais do estado quanto ao crescimento da violência no campo, o atraso nas regularizações de assentamentos e a criminalização de ocupações de terras improdutivas.

Fazendas nas mãos de candidatos de Rondônia somam 15.210,84 hectares, pouco menos que o território de Aruba. O tamanho dessas áreas deve ser maior, já que 22 candidatos não declararam o tamanho de suas propriedades. Apenas os sete maiores latifundiários entre os aspirantes a prefeito detêm 10.405,55 hectares de terra.

Juntos, os 70 candidatos somam R$ 54.943.654 em propriedades rurais — R$ 39 milhões concentrados nas mãos dos dez fazendeiros mais ricos da lista. Quinze deles têm pelo menos R$ 1 milhão em terras.

Integrante do Instituto Terras e Territórios, Claudinei dos Santos — que também é membro da Via Campesina e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Rondônia — diz que levar o agronegócio às prefeituras eleva o risco de acirramento dos conflitos:

— A tendência é que haja um reforço do agronegócio nas eleições, com gente apadrinhada por deputados e fazendeiros ligados à grilagem de terra. Isso vai aumentar a reação dos pequenos produtores e a tendência é que as ocupações de terra sejam ainda mais criminalizadas e as regularizações avancem pouco.

A maior parte dos candidatos fazendeiros concorre nos municípios de Urupá, Buritis, Alta Floresta D’Oeste e Corumbiara — este último, conhecido nacionalmente pelo massacre ocorrido em 1995, quando policiais militares atacaram trabalhadores sem-terra, num confronto que deixou o saldo de doze mortos.

CANDIDATO MAIS RICO DECLARA R$ 8,5 MILHÕES EM FAZENDAS

Em São Francisco do Guaporé, um dos dez municípios rondonienses que mais desmataram em 2019, concorre à prefeitura o candidato fazendeiro mais rico do estado: o agricultor Gessi Rocha (Solidariedade). Sozinho, ele acumula um patrimônio de R$ 8.590.000 em propriedades de terra, além de R$ 700 mil em 300 cabeças de gado.

Só uma das propriedades, declarada ao TSE como terra nua de 200 alqueires — ou 544 hectares, usando como parâmetro a medida do alqueire na região Norte — tem valor estimado de R$ 6 milhões. A segunda, também terra nua, desta vez no município de Espigão do Oeste, soma 37 alqueires (100 hectares) e vale R$ 2.590.000.

O patrimônio total declarado de Gessi Rocha é de R$ 9.430.000. Ele declara ter completado o ensino fundamental. Em 2014, candidatou-se sem sucesso a deputado estadual.

“O conflito vai se dar”, declara Claudinei dos Santos. “Temos acampamentos em terras improdutivas há anos com centenas de famílias aguardando a regularização; vai depender muito dos prefeitos e vereadores eleitos para conseguirmos resolver essas questões ou agravarmos os problemas e onde tiver um executivo mais conservador e ligado ao agronegócio o poder da caneta vai frear qualquer possibilidade de regularização de acampamentos”.

PREFEITO DE VILHENA TEM ÁREA DO TAMANHO DE DIADEMA 

O atual prefeito de Vilhena (RO), Eduardo Toshiya Tsuru, o Eduardo Japonês (PV), concorre à reeleição no município e soma a maior área de propriedade de terra entre os candidatos do estado: 2.836,87 hectares, pouco menos que todo o município de Diadema, no ABC Paulista. O patrimônio em terras do candidato soma R$ 533.739,45.

Ao todo são quatro imóveis rurais, três deles chácaras em Vilhena e uma fazenda – a Fazenda Santo André, localizada fora do estado, no município de Santo Afonso (MT). Eduardo Japonês possuí metade da propriedade, que tem 2.378,98 hectares e vale R$ 375.000. Seu patrimônio total soma R$ 1.030.832,11.

A segunda maior propriedade entre os candidatos a prefeito de Rondônia era a do pecuarista Wanderley Araújo Gonçalves, o Wanderley do Corgão (PTB), que concorria a uma vaga em Chupinguaia (RO). Ele declarou ao TSE ser proprietário da Fazenda Berimbau, em Porto Velho, município mais desmatado do estado nos primeiros semestres de 2019 e 2020.

A propriedade, declarada como terra nua, tem 2.180 hectares e está avaliada em R$ 2 milhões. O patrimônio total declarado do candidato é de R$ 2.333.152. Apesar de ter confirmado ao TSE que sua profissão é pecuarista, Wanderley não declarou nenhuma cabeça de gado entre seu patrimônio.

Em 21 de outubro ele teve o registro da sua candidatura indeferida pela Justiça Eleitoral, em razão de quatro condenações do Tribunal de Contas do Estado de Rondônia quando era presidente da Câmara de Chupinguaia. Uma delas diz respeito a um aumento de seus próprios subsídios, entre janeiro e setembro de 2010. Outras pelos pagamentos de diárias de trabalho, serviços de cerimonial e pinturas do prédio da Câmara sem a devida prestação de contas.

O prazo da inelegibilidade vai até 03 de janeiro de 2026. Wanderley foi eleito vereador do município em 2008 e 2012

Seu candidato a vice, Vilson Ramos, também teve o registro da candidatura indeferido quatro horas antes dele, também por condenações no Tribunal de Contas quando era secretário municipal de Obras e Serviços no município, em 2011. Ele declarou três propriedades de terra, uma delas voltada para pastagem, no valor total de R$ 232 mil.

Em 2014, Wanderley e seu irmão, o ex-deputado estadual Valter Araújo, foram condenados em primeira instância pelo Tribunal de Justiça de Rondônia por inserirem uma declaração falsa no contrato social da empresa Reflexo Limpeza e Conservação, da qual são proprietários, para mascarar quem seriam os reais donos do empreendimento.

CANDIDATOS PECUARISTAS TÊM R$ 13 MILHÕES EM GADO

Juntos, os 26 candidatos pecuaristas de Rondônia somam 4.390 cabeças de gado e ao menos R$ 12.966.693,46 declarados ao TSE. A maior parte dos rebanhos está em municípios do Arco do Desmatamento, alguns com mais bois do que habitantes.

A maior parte dos rebanhos está em municípios do Arco do Desmatamento. (Foto: Arquivo/EBC)

O atual vice-prefeito de Ministro Andreazza (RO), Wilson Laurenti, o Wilsão (Podemos), que concorre à prefeitura, tem o maior rebanho declarado entre os prefeituráveis do estado: 1.007 cabeças de gado, avaliadas em R$ 950 mil. O pecuarista, que soma um patrimônio de R$ 1.286.401,71, foi vereador nos mandatos de 2008 e 2012, pelo PTN.

Na sequência vem o candidato a uma vaga no executivo de Cacaulândia (RO) Daniel Marcelino Da Silva, o Danielzinho (DEM), com 954 cabeças de gado, quase um sexto da população total do município, que soma 6.230 habitantes. Ele possui o maior valor em gado entre os candidatos: R$ 2.264.300, integrando o patrimônio total de R$ 8.934.300. O candidato informou possuir quatro propriedades rurais.

A atual prefeita de Seringueiras, Leonilde Alflen Garda (PDT), que concorre à reeleição, também está na lista dos pecuaristas do estado: ela declarou 542 cabeças de gado, que totalizam R$ 1.626.000, integrando seu patrimônio total de R$ R$6.574.020.

Em 2017, a prefeita teve de ser notificada pelo Ministério Público do estado para fiscalizar focos de queimadas no município e punir os responsáveis com medidas legais. Em 2018, ela foi novamente notificada pelo órgão para retomar a construção de uma pré-escola que estava parada.

Em Govenador Teixeira (RO), o atual prefeito e concorrente à reeleição João Alves Siqueira, o João Paciência (Republicanos), fica com a terceira maior fortuna em cabeças de gado entre os prefeituráveis de Rondônia: trata-se de um rebanho de 407 animais, avaliado em R$ 1.187.000, quase metade do seu patrimônio total declarado, de R$2.351.480.

Siqueira chegou a ser preso em 2013, quando era vice-prefeito, por coação de testemunhas e corrupção eleitoral.

A OITO DIAS DA ELEIÇÃO, VEREADOR SOFRE ATENTADO E EX-SENADOR É PRESO 

Vereador tentou registrar BO sobre ameaça, mas sistema da delegacia estava fora do ar. (Foto: Reprodução)

Na madrugada do dia 07 (sábado), o vereador de Alto Paraíso (RO) Anderson Santana Oliveira (PDT) foi sequestrado por quatro homens em uma caminhonete. No boletim de ocorrência, ele contou que havia saído de uma reunião do partido em sua motocicleta para buscar o filho na casa de um amigo. No trajeto, foi fechado por uma caminhonete preta, da qual saíram homens encapuzados que o colocaram a força no veículo.

Os sequestradores exigiram que a vítima abandonasse o apoio à candidatura Marcos Frois (PP) à prefeitura do município. Ao negar, os sequestradores começaram a torturar o refém com chutes, coronhadas de pistola e golpes na cabeça. Anderson foi deixado próximo do cemitério do município e socorrido por pessoas que passavam pelo local. Ele chegou ao hospital com vários ferimentos pelo corpo.

Uma semana antes do crime, o vereador recebeu uma ameaça em um bilhete anônimo com a mensagem: “Você conhece a frase ‘não cutuca o cão com a vara curta?'” Ele tentou registrar um boletim de ocorrência sobre a ameaça, mas não conseguiu, pois o sistema operacional da delegacia não estava funcionando.

Alto Paraíso é um município marcado pelo agronegócio, no Arco do Desmatamento. Um dos candidatos fazendeiros ao executivo municipal é João Pavan (DEM), que declarou três imóveis rurais ao TSE, somando 148,33 hectares e um patrimônio em terras de R$ 103 mil. Das propriedades, dois são lotes de reforma agrária, no Projeto de Assentamento Dirigido (PAD) Marechal Dutra, em Ariquemes.

Os conflitos políticos no estado continuaram ao longo da semana: na terça-feira o ex-senador por Rondônia Valdir Raupp foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a sete anos e seis meses de prisão, por corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo investigações da Operação Lava Jato, o ex-parlamentar recebeu R$ 500 mil, de propina, para sua campanha em 2010.

A defesa do senador afirmou que vai recorrer. A pena será cumprida em regime semiaberto.

Sarah Fernandes é repórter do De Olho nos Ruralistas |

Foto principal (MMA/Arquivo): Juntos, os candidatos a prefeito em Rondônia somam R$ 54.943.654 apenas em propriedades de terra

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