Casa de reza de líder Kaiowá é incendiada no Mato Grosso do Sul

In De Olho nos Conflitos, Em destaque, Povos Indígenas, Principal, Últimas
A casa de reza de xxxx totalmente destruída durante a noite. (Foto - RAJ)

Cassiano Romero, de 92 anos, vinha sendo alvo de ameaças e já chegou a ser espancado; pesquisadores indígenas relacionam casos de violência ao avanço das igrejas evangélicas e à conexão delas com os interesses do agronegócio

Por Leonardo Fuhrmann

O rezador Guarani Kaiowá Cassiano Romero, de 92 anos, teve sua casa de reza incendiada na Aldeia Rancho Jacaré, em Laguna Carapã (MS), na manhã desta quinta-feira (19). No momento do fogo Romero estava no grande encontro de rezadores Kaiowá para a inauguração de outra casa de reza na região.

Rosicleide Oliveira, da Retomada Aty Jovem (RAJ), com Cassiano e sua casa ao fundo destruída. (Foto: RAJ)

Um dos líderes do movimento de cultura e religião tradicionais de seu povo, ele perdeu para as chamas objetos de devoção religiosa, documentos, eletrodomésticos, roupas, uma bicicleta e outros pertences. A casa de reza era sua moradia. Ele ficou apenas com a roupa do corpo. Ninguém saiu ferido e ainda não há informações sobre suspeitos.

Os indígenas relacionam o caso à intolerância religiosa. Contam que o rezador é alvo de diversas ameaças e que ele chegou a ser espancado quase até a morte, recentemente, por pessoas não identificadas. Eles relacionam os episódios de violência com o crescimento de igrejas evangélicas dentro das comunidades indígenas. “Com o avanço deles se formou uma resistência contra nossa religião tradicional”, explica o antropólogo indígena Tonico Benites, também um Guarani Kaiowá.

“Hoje mostra-se mais uma vez o quanto os rezadores são perseguidos”, denuncia Rosicleide Oliveira, da Retomada Aty Jovem (RAJ). “São lutas que estamos enfrentando diante de tantos desafios. Hoje, como indígenas, somos atacados em vários momentos e de várias formas”.

Incêndio se alastrou enquanto o rezador visitava outros religiosos. (Foto: RAJ)

Demarcada nos anos 80, a Terra Indígena Rancho Jacaré tem 774 hectares. Atualmente, moram em seu território pouco mais de 400 indígenas.

INTOLERÂNCIA DE GRUPOS EVANGÉLICOS É TEMA DE DOCUMENTÁRIOS

Filme mostra a ação dos evangélicos nas aldeias. (Imagem: Divulgação)

Os episódios de violência relacionados à entrada de igrejas evangélicas nas terras dos Guarani Kaiowá foram tema do filme Monocultura da Fé, lançado em 2018.  Dirigida pelas documentaristas Joana Moncau e Gabriela Moncau, a obra é baseada nas pesquisas do professor indígena Izaque João e do antropólogo Spensy Pimentel.

A preocupação com a perseguição religiosa contra os rituais tradicionais dos indígenas é crescente e tem ganhado as telas. Outro exemplo é o filme Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi, também de 2018, que relata a situação na comunidade Paiter Suruí, cujo território fica na divisa entre Mato Grosso e Rondônia.

Líderes e pesquisadores indígenas relacionam diretamente o avanço de algumas religiões evangélicas, em especial aquelas mais intolerantes, com o cerco do agronegócio contra os povos originários.

“Ao atacar o modo de vida tradicional, eles enfraquecem também a cultura e a identidade”, afirma Benites. Assim, para ele, as comunidades ficam mais vulneráveis aos ataques dos ruralistas e o avanço sobre seus territórios.

Leonardo Fuhrmann é repórter do De Olho nos Ruralistas. |

Foto principal (RAJ): casa do rezador Cassiano Romero, de 92 anos, foi totalmente destruída

LEIA MAIS:
Vincent Carelli: “Ruralistas assinam o massacre de Guarani Kaiowá no MS”
Terras em 297 áreas indígenas estão cadastradas em nome de milhares de fazendeiros
Conheça 20 incêndios provocados para expulsar camponeses e indígenas de suas terras

You may also read!

Conheça o terreno em Parelheiros onde Nunes tentou construir condomínio empresarial

Imobiliária do prefeito, a Topsul Empreendimentos, iniciou processo em imóvel na Estrada Ecoturística de Parelheiros; mata e casa cotada

Read More...

Imobiliária de Ricardo Nunes mostra conexão empresarial com parceiros da zona sul

Dono da Topsul Empreendimentos, prefeito e amigos maçons montaram empresa em nome de parentes; todos tinham conexão com Associação

Read More...

Green Village: o condomínio em Interlagos onde Ricardo Nunes e amigos fazem seu “banco imobiliário”

Maçons e empresários do ramo de imóveis, grupo do prefeito tem apartamentos no local e tentáculos na prefeitura, em

Read More...

Leave a reply:

Your email address will not be published.

Mobile Sliding Menu