Primeiro episódio retrata conexões políticas e econômicas do advogado Willer Tomaz, da amizade com Flávio Bolsonaro às relações com parlamentares e com o agronegócio; próximo episódio terá como tema a face agrária da família Dallagnol
Por Alceu Luís Castilho e Tonsk Fialho
Que Brasil está por trás de personagens como Willer Tomaz? O advogado amigo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), agora acusado de financiar imóveis da família do senador Weverton Rocha (PDT-MA).

Essa história ilustra o quanto as elites políticas e econômicas do país possuem digitais territoriais. Das mansões em Brasília à disputa pela posse de uma terra da União com o jogador Richarlison, em Angra dos Reis (RJ). Passando pela defesa de um fazendeiro que ocupa área pública em Rondônia e tenta despejar os assentados, além de ter sido condenado por tentativa de assassinato de três camponeses.
As conexões que chegam ao noticiário são a ponta do iceberg de um sistema. De um lado temos o Congresso, os parlamentares e os lobistas. Do outro, impactos sociais e ambientais. Em um território profundo e invisibilizado.
Esse é o eixo central da nova série do De Olho nos Ruralistas, intitulada Brasil Profundo. Serão reportagens em vídeo, texto e conteúdos de redes sociais com esse perfil ao mesmo tempo investigativo — observem o logo com o mapa do Brasil — e territorial. O pano de fundo? Um país formado por 500 anos de violências políticas, econômicas e agrárias.
Parte da cobertura eleitoral do observatório durante a corrida de 2026 será publicada exatamente nessa série.
No primeiro episódio, exploramos as teias de relações que cercam Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro. Assista abaixo:
O próximo episódio da série Brasil Profundo falará da face agrária — e territorial — da família Dallagnol. Da candidatura de Deltan no Paraná às fazendas do clã no Mato Grosso. Inscreva-se em nosso canal e fique ligado!
MULTIPLICAÇÃO DE BENS DO SENADOR WEVERTON PASSA PELOS BENS RURAIS
A Polícia Federal (PF) deflagrou no dia 4 de agosto uma nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga o esquema bilionário de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O caso foi descoberto em 2025 e ficou conhecido como “máfia do INSS“.
Segundo a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou o início da operação, a esposa do senador Weverton Rocha (PDT-MA) recebeu mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz, amigo pessoal do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL).

O documento diz que Samya Lorene de Oliveira Bernardes Rocha adquiriu imóveis em Brasília e no Maranhão para ocultar a origem ilegal do dinheiro. Entre as propriedades listadas, há uma mansão avaliada em R$ 6 milhões no Lago Sul, região nobre de Brasília. O senador possui também uma mansão em Barreirinhas (MA), na beira do Rio Preguiças.
O enriquecimento do senador maranhense, vice-líder do governo no Senado, passa pelos bens rurais. O portal Metrópoles teve acesso à escritura de uma fazenda comprada em 2024 em Matões do Norte (MA), quarto município mais pobre do país. Uma área de 837 hectares, adquirida por R$ 7 milhões pela empresa DJ Agropecuária. Em 2022, Weverton declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um patrimônio de R$ 4 milhões.
Muito bem relacionado em Brasília, o advogado Willer Tomaz tem um amigo ainda mais notório no Senado: o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em Angra dos Reis (RJ), Willer disputou e ganhou a posse de uma mansão com o jogador Richarlison de Andrade, do Tottenham e da seleção brasileira, o Pombo. O senador foi arrolado no processo como testemunha.
Richarlison teria comprado o imóvel de um posseiro condenado por estelionato. Diante da perspectiva territorial, o vídeo da série Brasil Profundo destaca que a mansão com onze suítes, cachoeira e praia definida na imprensa como “privativa”, em região paradisíaca, pertence à União.
DOS CONVESCOTES AO AGRONEGÓCIO: O PODER POLÍTICO DE WILLER TOMAZ
Em sua mansão em Brasília, Willer Tomaz costuma receber políticos no que os jornalistas na capital costumam chamar de “convescotes”. Em agosto de 2021, ele comemorou o aniversário na mansão com show de Bruno & Marrone. Estavam lá os então presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Quem estava também naquele aniversário era Flávio Bolsonaro. Como todos os convidados, sem máscara.
Durante a CPI da Covid, o relator Renan Calheiros (MDB-AL) apurou um suposto envolvimento de Willer Thomaz, Flávio Bolsonaro e do advogado Frederick Wassef, próximo da família Bolsonaro, em esquema de compra ilegal de uma vacina, a Covaxin.

Antes, no dia 18 de maio de 2017, Willer Thomaz foi preso preventivamente em São Luís, durante as investigações da Operação Patmos. O advogado era acusado de intermediar o pagamento de vantagens ao procurador Ângelo Villela para favorecer interesses da J&F nas investigações da Operação Greenfield.
Após 75 dias, o Supremo Tribunal Federal (STF) revogou a prisão e enviou o caso ao TRF-1. Em 17 de junho de 2021, por 8 votos a 7, a Corte Especial do TRF-1 rejeitou a denúncia contra Willer e os demais acusados. Ela entendeu que as delações de Joesley Batista e Francisco de Assis não estavam suficientemente confirmadas por provas independentes.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve essa rejeição e que houve trânsito em julgado. Portanto, nessa investigação, Willer Thomaz sequer chegou à condição de réu.
A empresa da J&F que Willer Tomaz representava era a Eldorado Celulose, antes Florestal. Ela era ou não da JBS? A defesa sustentava que as empresas não tinham relação. No entanto, as reuniões eram realizadas na sede da JBS, na Marginal Tietê, em São Paulo. Em 2025, a J&F assumiu o controle total da empresa com operação em Três Lagoas (MS).
O próximo texto da série Brasil Profundo detalhará outra conexão importante de Tomaz, envolvendo a defesa de um fazendeiro condenado por três tentativas de assassinato de camponeses em Rondônia. E a disputa por terras da União.
O BRASIL PROFUNDO E AS ‘FARRAS’ COM DINHEIRO PÚBLICO
Willer Tomaz advoga também para o cantor e empresário Wesley Safadão, terceiro músico mais contratado por prefeituras e governos estaduais desde 2024, por inexigibilidade de licitação.

De Olho nos Ruralistas revelou, no início de julho, no relatório “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, que o cantor-empresário fechou contrato de R$ 6,6 milhões por mês com uma bet, para que a casa de apostas use a imagem dele com exclusividade.
Trata-se da Playbet, casa de apostas que faz parte do grupo Monte Carlo’s, uma banca do bicho com sede em Pernambuco. Só que a casa acusou o cantor de aparecer em campanhas ligadas a concorrentes — BetVip e ZeroUm.bet — e pediu a rescisão do acordo e a devolução de valores.
Em 24 de julho de 2026, Willer Tomaz apresentou a defesa de Safadão. Ele nega a quebra de exclusividade e diz que o cantor pagou R$ 9 milhões para adquirir 20% da Playbet. A defesa diz que o cantor quer agora formalizar a participação societária, com direito a lucros e dividendos. Safadão cobra R$ 13,2 milhões em parcelas atrasadas e multa pela rescisão.
O dossiê Farras é a maior investigação jornalística já feita sobre os shows com dinheiro público no Brasil. Em nosso canal no YouTube, publicamos diversos vídeos mostrando diferentes ângulos dessa história relacionada a desperdício de dinheiro público e concentração de contratos nas mãos de cinco produtoras – entre elas a Camarote Shows, de Wesley Safadão.
A relação dos artistas com as bets ainda será detalhada em vídeo e reportagens. Os artistas que mais fizeram shows pagos por prefeituras e governos estaduais entre 2024 e 2026 são, em sua maioria, divulgadores ostensivos de bets, aqueles garotos-propaganda definidos pelas casas de apostas como “embaixadores”.
Confira abaixo o primeiro episódio da série, que lista os 40 artistas que mais receberam contratos de prefeituras e governos estaduais:
Imagem em destaque (De Olho nos Ruralistas): observatório inaugura série investigativa sobre as digitais territoriais do poder político e econômico no Brasil
| Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas. |
|| Tonsk Fialho é pesquisador e repórter do observatório. ||