Ernildo Júnior foi autuado em 2025 e 2026 pelo Ibama por destruição de vegetação nativa em sítio e fazendas em Serra Branca (PB); alvo da Polícia Federal, empresário opera pedreira sem licença ambiental no município; o caso é tema do segundo episódio da série Brasil Profundo, disponível no YouTube do observatório
Por Carolina Bataier
Dono da casa de apostas Pixbet, Ernildo Júnior de Farias Santos acumula multas ambientais que somam R$ 11,4 milhões, aplicadas pelo Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) entre 2025 e 2026. Ele é investigado pela Polícia Federal na Operação Arena, sobre lavagem de dinheiro.

Desmatamento, uso do fogo para impedir a regeneração da mata e serviços de terraplanagem sem licença ambiental estão na lista das infrações registradas em Serra Branca (PB), município onde Júnior instalou, no início de 2025, a sede da empresa de apostas investigada pela PF.
A devastação na Caatinga é notável, segundo moradores da região. “Você vê aquele aquele campo grande desmatado e, por trás, a Serra do Jatobá”, conta uma professora, que pede para não ser identificada.
A Serra do Jatobá é o ponto turístico do município, com mirante e espaço para acampamento. Ali perto, Júnior devastou o bioma para instalar uma empresa de produção de leite de cabra em pó.
O empresário chegou a fixar na área uma placa anunciando a criação de uma barragem. Depois da intervenção do Ibama, o aviso foi removido.
O caso de Ernildo Júnior e da Pixbet é tema do segundo episódio da série Brasil Profundo. A cobertura traz reportagens em vídeo, texto e conteúdos de redes sociais com esse perfil ao mesmo tempo investigativo — observem o logo com o mapa do Brasil — e territorial. O pano de fundo? Um país formado por 500 anos de violências políticas, econômicas e agrárias.
Assista abaixo ao vídeo em nosso canal do YouTube:
Parte da cobertura eleitoral do observatório durante a corrida de 2026 será publicada exatamente nessa série. Confira aqui a primeira reportagem, sobre o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro: “De Olho nos Ruralistas inaugura série investigativa chamada Brasil Profundo“.
EMPRESÁRIO DEVASTOU ÁREAS DUAS VEZES COM USO DE FOGO, DIZ IBAMA
O município de Serra Branca fica na região do Cariri paraibano, no sul do estado, em área de clima semiárido com longos períodos de estiagem. Em junho de 2025, a Defesa Civil reconheceu a situação de emergência em dez municípios paraibanos afetados pela seca extrema — entre eles, a nova sede da Pixbet. Segundo o Ibama, a ameaça de desertificação é agravada pela destruição florestal contínua da Caatinga.
Em setembro de 2025, Ernildo Júnior foi autuado por desmatar 69 hectares de vegetação nativa da Caatinga no sítio Capitão Mor de Cima. Na Fazenda Liberdade, ele devastou outros 18,8 hectares, com uso do fogo — o que aumenta o valor da sanção.
Em outra área na mesma região, o crime se repete, com desmatamento numa área de 152 hectares. Além disso, o dono da Pixbet é apontado como o responsável por impedir a regeneração da mata nesse espaço, que já havia sido embargado anteriormente pelo desmatamento. Para barrar a restauração, outra vez ele ateou fogo à vegetação. Todas as propriedades ficam próximas à rodovia BR-412, no município de Serra Branca.

Em junho de 2026, o empresário foi autuado novamente por desmatamento, desta vez de 4,7 hectares na Fazenda Liberdade. Na mesma propriedade, ele foi responsabilizado por usar fogo para impedir a regeneração da vegetação.
De acordo com o Ibama, os embargos permanecem vigentes. As multas somadas chegam ao valor de R$ 8,055 milhões em nome de Ernildo Júnior. “Também foi constatada supressão de vegetação em área de aproximadamente 87 hectares, localizada no bioma Caatinga, nas proximidades do município de Serra Branca. O desmatamento foi identificado por meio de imagens de satélite, e a área suprimida já apresentava intervenções de terraplenagem”, informa o Ibama.
A Caatinga é um dos biomas mais vulneráveis aos impactos da crise climática, com cerca de 13% de sua área sob risco de desertificação, segundo levantamento do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite da Universidade Federal de Alagoas.
É também,um bioma bastante devastado. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de 2024, indicam que pelo menos 42% da vegetação nativa da Caatinga foi desmatada, dando lugar a pastagens e, mais recentemente, aos empreendimentos de energia renovável, como os parques eólicos.
MULTA EM PEDREIRA ENVOLVE OUTRO SÓCIO NA PIXBET
O Ibama sancionou o dono da Pixbet por realizar obras e serviços de terraplanagem e construção de edificações sem licença ambiental na área onde funcionaria a pedreira Boi Preto Ltda, empresa registrada no nome de Ernildo Júnior e que já teve como sócio Diomar Tadeu Dantas de Farias, parceiro na Pixbet. A multa, aplicada no nome da empresa, tem valor de R$ 3 milhões.

“Empreendimentos de grande porte como esse precisam obrigatoriamente de licenciamento ambiental, instrumento essencial para garantir a saúde da população e a preservação do meio ambiente”, informa o Ibama, por meio de assessoria de imprensa, em nota enviada do De Olho nos Ruralistas.
De acordo com o Ibama, no momento da chegada da fiscalização havia pessoas trabalhando no local. “Na ocasião, estavam em andamento obras para a instalação da pedreira e de edificações”, informa o órgão por meio de nota enviada pela assessoria de imprensa.
A Pedreira Boi Preto é uma das 19 empresas registradas em nome de Júnior. Um dos maiores empresários do ramo de apostas on-line do país, ele é sócio da Betvip e da Flabet. A Pixbet, marca de destaque nesse império, já esteve estampada nas camisas do Corinthians e do Flamengo. Agora, a empresa ganha o centro da investigação da Polícia Federal.
Deflagrada na última quinta-feira (13), a Operação Arena investiga, por lavagem de dinheiro, empresários ligados à marca de apostas.
“São cumpridos 17 mandados de busca e apreensão, expedidos pela 4ª Vara Federal da Paraíba, além de medidas de quebra de sigilo telemático e bancário e sequestro de até R$ 1,1 bilhão, nos estados da Paraíba, de São Paulo, de Sergipe, do Rio de Janeiro e do Paraná”, informa a PF, em nota publicada no site oficial.
A reportagem procurou Ernildo Júnior através de suas empresas, mas não obteve retorno até o fechamento.
PREFEITO DE SERRA BRANCA ERA FUNCIONÁRIO DA CASA DE APOSTAS
Uma das maiores casas de apostas online do Brasil, a Pixbet teve a sede transferida de Campina Grande para o pequeno município no Cariri paraibano em 2025. Com pouco mais de 14 mil habitantes, Serra Branca é mais que o endereço da empresa e cidade natal de Ernildo Júnior.

“A Pixbet aqui é um partido político”, declarou um morador de Serra Branca, que pede para não ser identificado. Eleito em 2024 sem experiência prévia na política, o prefeito Alexandre Pereira foi funcionário da empresa e, em 2022, assumiu a função de presidente do time Serra Branca Esporte Clube. Em 2024, ele deixou o cargo para se dedicar à campanha pelo posto no executivo.
Para o pleito, Pereira contou com uma doação de R$ 10 mil repassados por Enzo Stephani Rodrigues Ribeiro, sócio de Júnior em duas empresas, a Cfi Negocios e Investimentos e a Cfi 369 Jogos e Apostas. Em 2025, Ribeiro foi investigado pela Polícia Federal por envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro. A investigação já mencionava Júnior.
Informações do inquérito policial apontam a prática de estelionato, “uma vez que Enzo Stephani Rodrigues Ribeiro conjuntamente com Ernildo Júnior de Farias Santos, estabeleceu sites de apostas esportivas para captar recursos das vítimas, apenas para tirá-los do ar e apropriar-se dos valores enviados”, segundo o documento.
Em vídeo publicado em 4 de julho de 2026, o secretário de Desenvolvimento Econômico de Serra Branca, Diego Ramos, faz um tour pelas instalações da Pixbet no município. “Mesmo com a estrutura ainda em fase de conclusão, a empresa já conta com cerca de 80 colaboradores, gerando emprego, renda e novas oportunidades para os serrabranquenses”, comemora ele na publicação.
No vídeo, publicado no Instagram do secretário, ele veste uma camisa azul com o nome da Pixbet estampado no peito e nas costas. Trata-se da camisa do time da cidade, a mesma usada pelo cantor Wesley Safadão em março de 2024 em visita ao município.
MP INVESTIGA PREFEITURA POR USO DE CAMINHÃO EM EVENTO DA BET

Anunciada como o maior parque de vaquejada do Brasil, a Arena Pixbet figura entre os bens do patrimônio milionário de Ernildo Júnior. Fica em Gurinhém, a cerca de 170 quilômetros de Serra Branca, na fazenda Severino Boi. Foi lá que, em 2025, um caminhão-pipa da prefeitura de Serra Branca foi flagrado em uso para serviços privados.
“O caminhão-pipa foi flagrado prestando serviços particulares em obra de terraplenagem na propriedade denominada Fazenda Severino Boi / Arena PixBet, pertencente a terceiros”, informa a representação do Ministério Público da Paraíba (MPPB), que abriu investigação sobre o caso.
O documento destaca que, diante dos “fortes indícios de ato de improbidade administrativa causador de lesão ao erário e atentatório aos princípios da administração pública”, as partes iniciaram tratativas “visando à solução consensual da controvérsia”.
Em maio de 2026, o MPPB e o prefeito Michel Alexandre Pereira Marques (UB) firmaram um acordo para resarcimento do dano. O valor estabelecido foi de R$ 10 mil. (Dez mil reais mesmo, não milhões.)
WESLEY SAFADÃO PRATICA VAQUEJADA EM ARENA DA EMPRESA
“O maior cantor de forró do Brasil”, anuncia o locutor segundos antes de Wesley Safadão entrar na Arena Pixbet montado num cavalo branco. O cantor encurrala um novilho e puxa o rabo do animal, que tomba sobre a areia com as patas para cima. A cena está registrada em vídeo publicado no canal do YouTube Vaquejada Show, em 2024. Frequentador do parque de vaquejada de Ernildo Júnior, Safadão já fez shows no local.

Em abril de 2026, o cantor retornou à região para um show em Coxixola, munícipio vizinho de Serra Branca — e ex-distrito da atual sede da Pixbet. A apresentação ganhou destaque no noticiário regional e foi parar no Ministério Público de Contas da Paraíba, que recomendou a suspensão do cachê. O contrato do cantor com a prefeitura estabelecia o pagamento de R$ 1,3 milhão — ou R$ 688 para cada um dos cerca de 1,8 mil habitantes da “pequena notável”, slogan grafado no portal de entrada da cidade.
O desejo de levar Safadão a Coxixola foi expresso em 2024, quando o artista esteve em Serra Branca em visita ao centro de treinamento do time que leva o nome da cidade e é patrocinado pela empresa de Ernildo Júnior. “Era um sonho que a gente tinha”, declarou o prefeito Nelsinho Honorato (UB), em vídeo públicado em seu perfil no Instagram, sobre a atração principal da festa de emancipação de Coxixola.
A parceria entre o empresário da Pixbet e o prefeito da “pequena notável” não se limita aos eventos sociais e à admiração por Safadão. Após visitar o 15º Festival do Leite de Cabra de Coxixola, em agosto de 2025, Júnior anunciou que iria investir em uma empresa de leite de cabra em pó na região.
“Nelsinho, essa ideia é sua, viu?”, afirma o empresário, em vídeo publicado no Instagram do portal Notícia Certa Paraíba e replicado no perfil de Honorato. A proposta, segundo Júnior, é comprar o leite dos produtores locais, com pagamento “na hora, em pix”. A empresa já tem até nome. “Ou é cabrapix ou bodepix”, diz, em tom de brincadeira.
O caso de Coxixola foi um dos destaques do relatório “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”. Os dados coletados ao longo de seis meses pela equipe do De Olho nos Ruralistas mostram que Wesley Safadão foi o terceiro artista que mais recebeu cachês de prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e o primeiro trimestre de 2026. Ao todo, foram R$ 113,1 milhões divididos em 110 contratos públicos.
Imagem principal (Divulgação/Ibama): área desmatada dentro da propriedade de Ernildo Júnior em Serra Branca; dono da Pixbet acumula R$ 11 milhões em multas ambientais.
| Carolina Bataier é repórter do De Olho nos Ruralistas. |
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