FHC, o Fazendeiro – Jonas Barcellos tem império agropecuário e conexão com grandes empresas

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Dono da Brasif, citado por Mirian Dutra no caso do apartamento de FHC em Paris, possui usina em SP em parceria com Grendene; um de seus sócios é conselheiro da Marfrig

Por Alceu Luís Castilho

“Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar”

Foi assim, com a “Disparada” de Geraldo Vandré, que começou um dos leilões de gado da Fazenda Mata Velha, em Uberaba (MG), uma das capitais brasileiras da pecuária, conforme a narrativa de Natacha Simei Leal, em tese de doutorado – “Zebus e zebuzeiros em uma pecuária brasileira de elite” – defendida em 2014 no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) da Universidade de São Paulo.

O nome por trás da fazenda é o do mineiro Jonas Barcellos Corrêa Filho, um dos pecuaristas brasileiros com trânsito mais efetivo na política – assim como o paulista Jovelino Mineiro Filho, amigo próximo de Fernando Henrique Cardoso, bem mais presente nesta série de reportagens: “FHC, o Fazendeiro”. O sucesso dos leilões de Jonas compete com um histórico de acusações e investigações que ultrapassa o território brasileiro.

Citado por delatores da Lava-Jato – e por Mirian Dutra, mãe do filho caçula de FHC – como um dos operadores que enviam dinheiro a políticos no exterior, Jonas Barcellos não é tão próximo do ex-presidente como Jovelino Mineiro. De José Serra, sim. Mas seu império agropecuário é bem maior que o do colega. Dono de usina, ele está mais conectado com grandes empresas do agronegócio. E com políticos de outros partidos.

Confira aqui a outra reportagem específica da série que trata de Barcellos, dono da Brasil e da Duty Free Brasil, com as histórias de remessas de dinheiro: “FHC, o Fazendeiro – Jonas Barcellos, o pecuarista que Mirian Dutra diz ter pago sua mesada em Paris”.

USINA GANHOU VICINAL DURANTE GOVERNO SERRA

A empresa agropecuária mais valiosa dele é a Usina da Mata, em Valparaíso (SP), com um capital social de R$ 220 milhões. A previsão de plantio para 2018 era de 12 mil hectares. Como qualquer grande empresa do agronegócio, a usina tem apoios. Somente em 2014 ela obteve R$ 40 milhões da linha Prorenova, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para a renovação de canaviais.

Usina da Mata ganhou vicinal durante governo Serra. (Diário Oficial/ Reprodução)

Em março de 2009, o governo paulista de José Serra (PSDB) aprovou convênio do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) com municípios para a pavimentação de 25 quilômetros de uma vicinal para a Usina da Mata. O mesmo decreto da Casa Civil (então comandada pelo atual senador tucano Aloysio Nunes) liberou também a pavimentação de uma via de acesso da Rodovia Euclides Figueiredo, a SP-563, à Usina Conquista do Pontal – do grupo Odebrecht. Mais a construção de duas rotatórias.

A Usina da Mata S/A – Açúcar e Álcool tem como uma das principais acionistas a AGP Negócios e Participações S/A, controlada pela família Grendene, dona da maior exportadora de calçados do Brasil. O gaúcho Alexandre Grendene (maior acionista da Grendene) é também um dos sócios da Usina da Mata, ao lado de Jonas Barcellos. A AGP, por sua vez, possui várias fazendas em Mato Grosso.

A lista de sócios da usina é completada por Renato Diniz Barcellos Corrêa, filho de Jonas, muito atuante nas associações de criadores de gado; por Santos de Araújo Fernandes, sócio da Brasif; e por Ian David Hill, que também representa a Grendene.

Hill é um dos principais executivos da Marfrig Global Foods, um dos maiores frigoríficos do  mundo. (O dono da Marfrig, Marcos Molina, disse em agosto de 2017 que obteve R$ 350 milhões da Caixa Econômica Federal após pagar uma propina de R$ 617 mil ao operador Lúcio Funaro. A liberação dependia do ex-ministro Geddel Vieira Lima, do MDB, preso em Salvador no mesmo âmbito das Operações Sépsis e Cui Bono.)

FAZENDA MATA VELHA REÚNE POLÍTICOS

O trânsito político de Jonas Barcellos é amplo. Em 2010, tanto o tucano José Serra como a petista Dilma Rousseff bateram cartão na Fazenda Mata Velha, em Uberaba (MG); Os dois eram candidatos à Presidência. Três anos depois, uma feijoada na mesma fazenda reuniu a presidente Dilma, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aquele que seria o candidato tucano no ano seguinte, Aécio Neves (PSDB).

Em 2004, a revista Exame descreveu desta forma o leilão realizado nessa fazenda: “O Elo da Raça está para o setor como a Fashion Week está para o mundo da moda. Neste ano, o evento recebeu 3.000 convidados. O espetáculo inclui gelo seco, jogo de luzes, champanhe e uísque. Na saída dos leilões, as senhoras foram presenteadas com 800 vidros do perfume Attraction, da marca francesa Lancôme”.

Homenageado com Grande Colar do Mérito. (Foto: TCU)

Em dezembro de 2015, o Tribunal de Contas da União (TCU) agraciou Jonas Barcellos com o Grande-Colar do Mérito, com direito a ser chamado de “doutor”. Ele foi comparado – mineiro que é – à geração de Carlos Drummond de Andrade e Otto Lara Rezende. Com menção especial aos negócios rurais e ao gado nelore da Fazenda Mata Velha. Entre os outros homenageados estavam Eduardo Campos (in memoriam) e os senadores Pedro Simon e José Sarney (MDB). O autor de “Marimbondos de Fogo” falou em nome dos homenageados.

Barcellos deixa um legado. O filho Renato Diniz Barcellos Corrêa é um dos diretores da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), que já foi presidida por Felipe Picciani – irmão do deputado Leonardo Picciani (MDB-RJ), filho de um ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (MDB-RJ) – ele e o pai presos sob a acusação de corrupção. Felipe, de lavar dinheiro com gado. O atual vice-presidente da associação é Maurício Odebrecht.

DEPUTADO ARTICULOU G-8 DO IMPEACHMENT

Um dos amigos de Barcellos é o ex-deputado Heráclito Fortes (PSB-PI), por sua vez um dos políticos com mais trânsito no Planalto. Em novembro de 2011, Heráclito esteve no lançamento – assim como o ex-ministro tucano Pimenta da Veiga – no lançamento da grife de roupas íntimas Loungerie, de Jonas e Paula Barcellos. No mesmo ano, o pecuarista prestigiou o casamento da filha do político. Estavam lá José Sarney, Fernando Collor (PTB-AL) e José Serra (PSDB-SP), entre outros.

Heráclito, artífice do G-8 pelo impeachment. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Foi no gabinete de Heráclito Fortes que trabalhou a bióloga Luciana Cardoso, filha de FHC. Heráclito foi um dos que receberam doações de campanha da Brasif em 2010, R$ 100 mil, assim como Fernando Pimentel (PT), R$ 250 mil, e Paulo Skaf (MDB), com R$ 150 mil. Em 2010 foi a vez de Dilma Rousseff receber R$ 900 mil para sua campanha. Réu no mensalão tucano,  Pimenta da Veiga – notem que ele fez doações para políticos de vários partidos – levou apenas R$ 20 mil.

Heráclito foi o anfitrião, entre abril de 2015 e abril de 2016, de uma série de jantares – pelo menos dois por mês – com parlamentares de oposição. Eles tramavam o impeachment de Dilma. Como oito deles eram assíduos, o grupo ficou conhecido como G-8. A sreuniões no Lago Sul foram reveladas por Luiz Maklouf Carvalho no Estadão. Entre os que apareceram eventualmente nos jantares estiveram Armínio Fraga, presidente do Banco Central durante o governo Fernando Henrique Cardoso, e o senador José Serra.

TERRA COMPRADA PELO INCRA

Uma das fazendas de Jonas Barcellos no nordeste de Mato Grosso, em Santa Terezinha, chama-se Peixe Bravo. Outra, em Vila Rica, a Fazenda Ipê, foi declarada de interesse social pelo Incra, em agosto de 1998, para fins de reforma agrária, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Não era pequena, com seus 13 mil hectares. Mas improdutiva. O Incra calculou tudo em R$ 5 milhões. Jonas recorreu, pediu R$ 50 milhões. Ficou com R$ 20 milhões.

LEIA A SÉRIE COMPLETA:
“FHC, o Fazendeiro – tudo sobre as terras da família, os amigos pecuaristas e a Odebrecht”.

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