Agronegócio estrutura-se e chega em 2018 com estratégia de “um pé em cada canoa”

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Observatório publica série sobre presidenciáveis; eleição com candidata indígena e duas senadoras ruralistas tem ineditismo escondido pela violência verbal do líder nas pesquisas

Por Alceu Luís Castilho e Leonardo Fuhrmann

De um lado, uma candidata indígena: Sonia Guajajara, candidata a vice-presidente na chapa de Guilherme Boulos (PSOL). Do outro, duas senadoras ruralistas: Ana Amélia (PP-RS), em dobradinha com o tucano Geraldo Alckmin, e, principalmente, Kátia Abreu (PDT-TO), escolhida por Ciro Gomes para a corrida à Presidência da República. São três mulheres e pelo menos dois projetos muito diferentes de país no que se refere à questão agrária.

Trata-se de algo inédito na história das eleições. A última vez em que um candidato teve essa carga tão explícita, no campo do agronegócio, foi em 1989, com o atual senador Ronaldo Caiado, à época no PSD, hoje líder nas pesquisas para o governo goiano. Na outra ponta, o Brasil tem candidaturas sucessivas da seringueira Marina Silva (Rede), ex-ministra do Meio Ambiente, agora a adotar um discurso mais conciliador com o modelo que a Globo tem chamado de “agro”.

Nos anos 80, nas únicas eleições presidenciais da década, a candidatura ambientalista de Fernando Gabeira pelo PV trazia um ar de novidade, após os governos militares e o elástico mandato indireto de José Sarney (PDS). Em 2018, Marina Silva e Eduardo Jorge – ambos candidatos em outros pleitos pelo PV – não trazem o mesmo apelo e têm dificuldade de emplacar um discurso setorial. A ponto de gerarem uma certa dificuldade para o ilustrador Baptistão, que faz o desenho desta reportagem: o que Eduardo passaria para Marina nessa corrida?

A ilustração – feita a pedido do De Olho nos Ruralistas – tem desde já o mérito de ser mais importante do que este texto que a acompanha. Com apenas seis candidatos, escolhidos pelos índices na pesquisa e pela representatividade em relação aos tema do observatório (por isso a inclusão de Guajajara, portanto Boulos), ela traz Kátia Abreu passando uma motosserra para Ciro; Ana Amélia, um relho; Manuela D’Ávila, do PC do PB, entrega uma foice ao petista Fernando Haddad; e o capitão Jair Bolsonaro (PSL) rende o General Mourão recebendo dele uma arma.

DE QUE LADO ESTÁ KÁTIA ABREU?

A arma representa o discurso acirrado destas eleições. Um discurso que avança para os temas do agronegócio, com frases de Bolsonaro contra povos tradicionais e originários. “Nem um centímetro a mais para terras indígenas e quilombolas”, diz ele. O projeto do militar – associado sem nuances à expansão agropecuária armada – acabou escondendo a carga simbólica da candidatura de Kátia Abreu, ministra da Agricultura durante o governo derrubado de Dilma Rousseff (PT) e ex-presidente da Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA).

Perto de Kátia, a presença de Ana Amélia chega a ser tímida, como representante do agronegócio. Mas a senadora gaúcha – há oito anos no cargo – também teve uma atuação marcante no Senado em relação ao tema. Ela faz parte da bancada do fumo e defende setores como o do eucalipto. Foi escolhida a dedo, por Alckmin, por ser mulher (estas eleições são formalmente inclusivas) e por essa conexão ruralista. Ambas são duas faces de um mesmo lobby.

Em 2014, Kátia recebeu de Sônia o Prêmio Motosserra de Ouro. (Foto: Greenpeace)

Com Kátia e Ana Amélia o agronegócio explicita sua estratégia desenhada há anos: a de colocar um pé em cada canoa. Se a amizade com Dilma Rousseff inspira leituras cândidas de parte da esquerda em relação ao perfil da senadora por Tocantins, do lado do agronegócio não existem tantas dúvidas em relação ao que ela representa. Ao retornar ao Senado, logo após o governo petista ser deposto, Kátia Abreu foi recebida com reverência por senadores de diversas siglas, que a descreviam como “melhor ministra de Dilma”.

As contradições existem. Kátia Abreu foi expulsa da CNA após se aproximar da petista. No fim de agosto, Ciro Gomes – a pedido da companheira de chapa – se recusou a participar de uma sabatina entre presidenciáveis promovida pela organização de classe. Ele definiu a atual diretoria da CNA como fascista e anti-povo. “O setor é muito importante, tenho compromisso com ele, mas essa direção é uma com a qual não quero conviver”, declarou o candidato. “Ninguém pode servir a dois senhores”.

SÉRIE TRARÁ DETALHES SOBRE CANDIDATURAS

A quem servem os candidatos à Presidência da República, em relação aos temas do campo? Para ajudar o leitor a entender essa questão, De Olho nos Ruralistas publica nos próximos dias uma série com o perfil agrário de cada uma das chapas presidenciais. Ela não terá somente os perfis desenhados por Baptistão, mas também textos sobre Henrique Meirelles (MDB), João Amoedo (Novo) e Álvaro Dias (Podemos), além de uma síntese das propostas dos presidenciáveis com menos de 1% nas pesquisas presidenciais.

A candidatura de Amoedo, por exemplo, é mais uma a representar diretamente o agronegócio. O vice-presidente de sua chapa, o cientista político Christian Lohbauer, já presidiu a Associação Nacional de Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR). Em 2013, ele deixou o cargo para assumir a Diretoria de Assuntos Corporativos da Bayer, a multinacional alemã do setor. Antes, foi diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos (Abef).

A série do observatório detalhará essa e outras movimentações agropecuárias das chapas presidenciais. Com isso ela se soma à série De Olho na Bancada Ruralista, que detalha desde o dia 10, por Unidade da Federação, as candidaturas do agronegócio no Congresso e nos governos estaduais, a partir da lista de membros da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Essa série específica tem nos conflitos de interesses um de seus fios condutores. A série sobre presidenciáveis, igualmente.

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