De Olho na História (I) — Margarida Maria Alves: “Da luta não fujo”

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A camponesa de Alagoa Grande (PB) foi assassinada a mando de latifundiários em 1983; os criminosos não foram condenados, mas Margarida tornou-se inspiração para milhares de mulheres que, como ela, resistem a injustiças e retrocessos

Por Maria Lígia Pagenotto

Onde se informar sobre Margarida Maria Alves, a mulher que inspira a Marcha das Margaridas? Que livros ler, a que vídeos assistir? O observatório estreia com ela a série De Olho na História. A proposta é oferecer um panorama rápido – e didático – sobre líderes camponesas, indígenas e quilombolas que fizeram ou fazem história no país. Um convite para que o leitor saiba mais sobre as mulheres do campo. E sobre heroínas brasileiras. Uma série sobre Margaridas.

Nascimento: 5 de agosto de 1933 em Alagoa Grande (PB), município da região do Brejo Paraibano, a 100 quilômetros de João Pessoa.

Família: descendente de indígenas por parte de pai e de negros por parte de mãe, ambos camponeses, pais de onze filhos. Católica desde criança, seu envolvimento com a igreja aproximou-a, nos anos 1970, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Casou-se em 1971 com Casemiro, também camponês, com quem teve o filho José de Arimatéia, nascido em 1975.

Escolaridade: ensino fundamental, até a quarta série.

Principal atividade: participou do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande por 23 anos, como tesoureira e presidente. Em sua gestão, o sindicato moveu mais de 600 ações trabalhistas e fez diversas denúncias.

Margarida discursa em manifestação em Alagoa Grande; à esquerda, o líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. (Foto: Reprodução)

 

Trajetória: viu seus pais serem expulsos das terras em que viviam pelo proprietário local, João Senhor. Contra o ato, entrou com uma ação na Justiça do Trabalho. A partir daí, envolveu-se com a luta pelos direitos dos camponeses. Fundou o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural, uma iniciativa para o desenvolvimento rural e urbano sustentável, em prol da agricultura familiar. Incentivou diversas outras mulheres a se aproximarem do sindicato e das disputas políticas, em um meio dominado por homens e extremamente machista. Desse contato, nasceu uma instituição que leva seu nome e o de uma companheira de luta (Maria da Penha do Nascimento Silva): o Instituto Ipema, criado por mulheres de Alagoa Grande para dar orientação a famílias de assentados. Também no município nasceu o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais. É ela quem inspira a Marcha das Margaridas, realizada a cada quatro anos. A última marcha foi realizada nesta semana em Brasília: “Marcha das Margaridas deixa recado em meio à retirada de direitos: ‘Vamos renascer das cinzas’“.

“É MELHOR MORRER NA LUTA DO QUE MORRER DE FOME” 

Morte: foi assassinada na porta de sua casa, na frente de sua família, com um tiro no rosto, no mesmo município onde nasceu, em 12 de agosto de 1983, por matadores de aluguel.

Uma das edições da Marcha das Margaridas, em Brasília; evento homenageia Margarida Alves. (Foto: Contag)

Acusados pelo crime: foram mencionados como mandantes o usineiro Aguinaldo Veloso Borges, latifundiário e proprietário da Usina Tanques, e seu genro José Buarque de Gusmão Neto (Zito Buarque). Eles faziam parte do chamado Grupo da Várzea, composto por 60 fazendeiros, três deputados e 50 prefeitos. Aguinaldo era avô do ex-ministro e ex-deputado Aguinaldo Velloso Borges Ribeiro, o Aguinaldinho. Foram acusados pelo crime o soldado da PM Betâneo Carneiro dos Santos, os irmãos pistoleiros Amauri José do Rego e Amaro José do Rego e Biu Genésio, motorista do carro que parou levou os matadores até a casa de Margarida.

Por que ela foi assassinada: ameaçada de morte algumas vezes, Margarida lutava pelos direitos trabalhistas dos camponeses da Usina Tanques, expostos a situações de trabalho escravo, durante a ditadura iniciada em 1964. Reivindicava registro em carteira de trabalho, jornada diária de trabalho de oito horas, 13° salário, descanso semanal, férias e licença maternidade. Nunca se intimidou diante dos poderosos. Quando aconselhada a deixar o sindicato para não ser vítima de violência, disse: “É melhor morrer na luta do que morrer de fome”.

Sobre o crime: os assassinos nunca foram condenados. Dos envolvidos, apenas Zito Buarque foi julgado. Ele ficou preso por três meses, tendo sido absolvido em 2001 em João Pessoa.

SAIBA MAIS SOBRE A VIDA DA CAMPONESA

A série De Olho na História começa sem a pretensão de resumir a trajetória de cada uma das heroínas brasileiras no campo. O mais importante, no momento, é que o leitor se interesse em saber um pouco mais sobre cada uma delas.

Livro: “A mão armada do latifúndio – Margarida: quantos ainda morrerão”, de Sebastião Barbosa (João Pessoa, 1984. Editora A União).

Documentários: Margarida sempre viva” (1983), de Claudio Barroso;  “Uma questão de terra”, (1988), de Manfredo Caldas; “Nos Caminhos de Margarida“ (2017), realizado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag).

Trabalho acadêmico:A trajetória político-educativa de Margarida Maria Alves: Entre e o velho e o novo sindicalismo rural“, de Ana Paula Romão (Universidade Federal da Paraíba, 2010).

Museu: Casa de Margarida Alves, em Alagoa Grande.

Foto principal: Museu Casa de Margarida Alves / Prefeitura de Alagoa Grande (PB)

 

 

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