Polícia do MA indicia sojicultor que contratou 22 jagunços encapuzados para invadir comunidade

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Camponeses divulgam, mesmo assim, imagens recentes de desmatamento por correntão; com R$ 2 milhões em multas do Ibama, Gilmar Lunelli é acusado de formar milícia e de esbulho possessório; animais morrem em comunidade vizinha após despejo de agrotóxicos

Por Julia Dolce

O sojicultor gaúcho Gilmar Lunelli de Freitas foi indiciado por formação de milícia privada, desmatamento e esbulho possessório no dia 28 de maio, com a conclusão do inquérito da Polícia Civil que investigou a contratação de jagunços pelo empresário para a invasão de comunidades camponesas tradicionais no município de Brejo (MA), no dia 19 de maio. De Olho nos Ruralistas contou essa história dois dias depois: “Encapuzados, 22 jagunços invadiram a comunidade tradicional no Maranhão“.

Gilmar Lunelli de Freitas, da Masul Agrícola, coleciona multas no Ibama e processos. (Foto: Reprodução/Twitter)

Cerca de 500 pessoas vivem na Gameleira há 120 anos, sobrevivendo da agricultura e do extrativismo. As famílias filmaram e fotografaram a ação e denunciaram que há anos sofrem diferentes ameaças por parte do sojeiro. Lunelli de Freitas é proprietário da Masul Agrícola e, segundo camponeses ouvidos pela reportagem, grila terras na região por meio do uso de laranjas.

Eles relataram a destruição de cercas e roças e o uso de correntão para a destruição de vegetação nativa do Cerrado. 

O Programa de Assessoria Rural da Diocese de Brejo e o Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Brejo estiveram na comunidade na terça-feira (01) para entender o conflito. Logo após a invasão dos jagunços, a Delegacia de Conflitos Agrários e Igualdade Racial do Maranhão também esteve na área. 

O observatório descobriu que o sojicultor tem quinze autos de infração no Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama), de maio de 2004 a fevereiro de 2017. As multas se referem a desmatamento de até 2.476 hectares de Cerrado nativo, transporte ilegal de carvão vegetal sem documentos, descumprimento de embargos do Ibama e até abandono de embalagens vazias de agrotóxicos. Elas somam R$ 1,825 milhão. 

CAMPONESES GRAVARAM NA SEXTA-FEIRA OUTRA DESTRUIÇÃO POR CORRENTÃO

Mesmo com o indiciamento, as pressões de Lunelli sobre a comunidade gameleira não cessaram. Na última sexta-feira (04), os camponeses gravaram outra ação de destruição de vegetação por uso de correntão na comunidade e atribuem o fato ao sojicultor. A comunidade Gameleira ajuizou uma ação na Vara de Brejo para obter a posse das terras disputadas com Lunelli. 

O fazendeiro responde a processos no Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, acusado de grilagem de terras e uso de camponeses como laranjas. Em um deles, a lavradora Jeane Oliveira Silva, esposa de um ex-funcionário de Lunelli, conta que foi obrigada pelo sojicultor a assinar documentos sem ter noção do conteúdo, sob pena de demissão do marido. 

Anos depois, Jeane descobriu que Lunelli registrara no nome dela a compra de uma fazenda de 120 hectares em Milagres do Maranhão e vendido a fazenda para ele mesmo. Ao visitar o cartório, descobriu que a fazenda havia sido adquirida junto ao Instituto de Colonização e Terras do Maranhão (Iterma), mas revendida a Freitas, por R$ 419.941. A camponesa nunca recebeu o dinheiro. Ela chegou a perder o benefício do Bolsa Família por causa do sojicultor. 

SOJICULTORES AMEAÇAM CAMPONESES E QUILOMBOLAS COM AGROTÓXICOS

A comunidade da Gameleira não é a única que sofre com a pressão do agronegócio sobre suas terras tradicionais. No dia 27 de maio, parte do gado criado por camponeses da comunidade Cantinho dos Vieira, próxima da Gameleira, morreu intoxicado por uma substância não identificada. Os camponeses acreditam ter sido agrotóxico utilizado para a produção de soja. Os animais estavam próximos do campo de soja do produtor conhecido como Evaldo Gaúcho quando começaram a passar mal simultaneamente. “Dois camponeses que tiveram contato com os animais também passaram mal”, conta Cabral. “Um deles chegou a desmaiar no meio do campo de soja”. 

Vídeos dos animais agonizando foram enviados ao advogado. Sete bois do pai da camponesa Raimunda Vieira Gonçalves morreram na ocasião. “A gente tentou socorrer, não conseguimos, de jeito nenhum”, ela conta. “Muito triste a gente ver um animal berrando sem a gente poder ajudar”. O sojicultor Evaldo Gaúcho disse para os camponeses que não jogou agrotóxicos no campo e que os animais morreram todos picados por cobras.

Outro inquérito foi aberto para investigar o caso e a Defensoria Pública do Maranhão acompanha os camponeses. Raimunda diz que a investigação pode não apontar o que de fato aconteceu com os animais, já que o inquérito coletou apenas o sangue de bois que não estavam, naquele momento, na região do campo de soja. 

“Estamos encurralados por soja e eucalipto”

Diogo Cabral recebeu nesta segunda-feira outros vídeos gravados por quilombolas da comunidade Tanque de Rodagem, em Parnarama (MA), a 300 quilômetros de Brejo. Os quilombolas denunciam um caso semelhante ao sofrido pelos camponeses da comunidade Cantinho dos Vieira. Raimundo Lima conta que eles estão sofrendo as consequências dos venenos das grandes empresas, que afetam suas plantações: 

— O feijão que a gente planta já está morrendo, caindo as folhas, como se tivéssemos jogado secante. Não estamos conseguindo produzir no nosso território por conta dessas empresas que disseram que compraram o nosso território. Estamos encurralados, rodeados de soja e eucalipto. 

Segundo Raimundo, os agrotóxicos já estão prejudicando a saúde da população quilombola: “Aqui é todo mundo doente gripado agora, porque o veneno está caindo aqui em cima do território e eles não estão nem aí para a saúde de ninguém”.

Outro quilombola de Tanque da Rodagem diz que está com o corpo todo empolado por causa do “veneno da soja”. “Nós estamos rodeados que nem porco no chiqueiro, não temos saída por nenhum lado e meu corpo está queimando como brasa”.

Confira:

O advogado Diogo Cabral, que trabalha com violência agrária no estado há treze anos, revela preocupação com os conflitos crescentes entre sojicultores e comunidades tradicionais no estado: “É muito grave, a gente não sabe para onde vai essa situação toda”.

Defensor da comunidade Gameleira, ele considera a pronta resposta do Estado fundamental para enfrentar o que define como “atual onda de violência no campo”. 

| Julia Dolce é jornalista investigativa, com atuação na área socioambiental. |

Foto principal (Delegacia de Conflitos Agrários e Igualdade Racial do Maranhão): correntão deixado por jagunços na Comunidade Gameleira, em Brejo

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