Cooperativa onde Moro esteve, com explosão, é aliada de Luiz Nishimori

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Conterrâneo do ex-juiz, relator do PL do Veneno é autor de projeto de lei que beneficia a Cocamar no Paraná; ele já participou de missão oficial para promover os produtos vendidos pelo grupo e defendeu agrotóxicos em palestra com associados

Por Mariana Franco Ramos

A Cooperativa Agroindustrial de Maringá (Cocamar), que registrou uma explosão durante visita do ex-ministro da Justiça e pré-candidato à Presidência da República Sérgio Moro (Podemos-PR), no dia 04, é também aliada do deputado federal Luiz Nishimori (PL-PR). O parlamentar bolsonarista já esteve em missão oficial no Japão para promover produtos vendidos pela Cocamar, como leite de soja, óleo e café, e tem atuação próxima ao grupo, inclusive quando o tema é a defesa de agrotóxicos.

Explosão em tanque causou a morte de dois trabalhadores. (Foto: Divulgação/Samu)

De Olho nos Ruralistas publica, desde 17 de fevereiro, uma série de reportagens mostrando as relações conflituosas do relator do Projeto de Lei 6.299/02, conhecido como PL do Veneno, com empresas que produzem e vendem os pesticidas. Leia a primeira delas aqui: Nishimori, do PL do Veneno, fez acordo por dívida de R$ 1,5 milhão com a Syngenta.

Segundo o Corpo de Bombeiros do Paraná, dois trabalhadores, de 32 e 36 anos, que estavam soldando um tanque de fluidos, morreram no acidente da Cocamar. Os homens foram arremessados para mais de 20 metros longe do local. A suspeita é de que resíduos de biodiesel causaram a explosão. O ex-juiz, conterrâneo e aliado de Nishimori, estava distante do local, discursando, e interrompeu a visita. Ele prestou condolências às vítimas em nota. A cooperativa, após lamentar o ocorrido, frisou que se tratavam de terceirizados.

DEPUTADO LIDEROU COMITIVA QUE PROMOVEU COCAMAR NO JAPÃO

O lobby do político a favor dos associados é antigo. Em 2005, quando ainda era filiado ao PSDB, ele liderou uma comitiva que passou dez dias no Japão, em visita a indústrias do setor. A cooperativa paranaense expôs seus produtos na Feira Foodex Japan 2005, em Tóquio. Nishimori falou à imprensa como representante da Cocamar. Ele comemorou que 65% do suco de laranja consumido no país asiático era então produzido no Brasil. No retorno, fez um discurso sobre a “missão econômica” na tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep).

Nishimori, quinto da esquerda para a direita, em visita à Cocamar. (Foto: Divulgação)

A proximidade é tanta que, em 2019, o deputado federal apresentou um projeto de lei com o objetivo de tornar Maringá a “Capital Nacional do Associativismo”. Na justificativa, ele cita o fato de a agricultura ser “um grande destaque” do estado e diz que a Cocamar, criada em 1963, “é uma das maiores cooperativas agroindustriais do país”, com mais de 15 mil associados. “É importante estimular e incentivar essa cultura que tanto tem contribuído para o desenvolvimento e progresso do município e até do Brasil”, escreveu.

NAS VISITAS À COOPERATIVA, POLÍTICO DISCURSOU A FAVOR DE VENENOS

Deputado em reunião na FPA. (Foto: Divulgação)

Membro ativo da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a face mais organizada da bancada ruralista no Congresso, e integrante da Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop), Nishimori costuma visitar a unidade de Maringá, junto a outros políticos, para ouvir as demandas dos associados. Em maio de 2019, por exemplo, ele acompanhou o vice-governador do Paraná, Darci Piana, secretários e prefeitos, em um giro pelo parque industrial.

Em julho do mesmo ano, dividiu o palco com o superintendente de Negócios Grãos e Insumos da Cocamar, Anderson Alves Bertoletti, em palestra da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subseção Maringá. Na ocasião, falou sobre a nova lei de agrotóxicos, aprovada recentemente na Câmara, e as perspectivas do agronegócio internacional.

O lobby a favor do PL do Veneno, do qual o deputado é relator e interessado direto, porém, é anterior. Em 2018, Nishimori fez um discurso para os cooperados no qual alegava ser necessário “modernizar” a legislação, “para que continue garantindo o alimento seguro na mesa da população brasileira”.

Ele chegou a reclamar de uma suposta demora na liberação dos produtos. “Não podemos admitir que um registro demore cerca de oito anos”, criticou, fazendo um comparativo com um automóvel. “A tecnologia de um veículo, hoje, será obsoleta daqui a oito anos”. O governo Jair Bolsonaro bateu sucessivos recordes na liberação dos pesticidas.

NISHIMORI LAMENTOU SAÍDA DE MORO DO GOVERNO

Luiz Nishimori é natural de Marialva, município a 17 quilômetros de Maringá, onde nasceram Sérgio Moro e o atual líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), ex-ministro da Saúde. Os três estiveram do mesmo lado nas eleições de 2018: Nishimori e Barros diretamente no palanque de Bolsonaro e Moro, então juiz, na retaguarda, uma vez que só assumiu o bolsonarismo após as eleições, quando passou a ocupar o Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Em abril de 2020, quando o ex-magistrado deixou o governo, o relator do PL do Veneno lamentou. Em entrevista à Rádio CBN, afirmou que Moro era “uma pessoa íntegra” e que fazia “trabalho técnico”. “A demissão pedida por ele no atual momento é ainda pior porque o Brasil vive a pandemia do coronavírus”, comentou. O deputado federal continuou na base aliada, enquanto o ex-ministro se afastou providencialmente, para disputar o Palácio do Planalto.

| Mariana Franco Ramos é repórter do De Olho nos Ruralistas. |

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