Políticas públicas sobre agrotóxicos ignoram saúde do trabalhador

In Agrotóxicos, De Olho na Comida, Em destaque, Principal, Últimas

Dissertação de mestrado da Unicamp mostra que tema fica em segundo plano nas ações dos ministérios, em relação a temas como contaminação dos alimentos e importância econômica

Por Inês Castilho

O percentual de trabalhadores rurais intoxicados entre 1999 e 2012 caiu de 65,90% para 59,75% do total, aponta uma dissertação de mestrado defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), enquanto o de mulheres subiu de 33,18% para 39,50%. Os números apontam a necessidade de olhar atentamente para as trabalhadoras: enquanto caiu de 3080 para 2.782 o número de homens intoxicados, o de trabalhadoras subiu de 1.551 para 1.839 no período.

O estudo “Intoxicação do trabalhador(a) rural por agrotóxicos: (sub)notificação e (in)visibilidade nas políticas públicas”, dissertação de mestrado de Vanessa Fracaro Menck apresentada à Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), analisou ações governamentais e não governamentais de 1989 a 2016.

A pesquisa mostra que a maior contribuição para a saúde dos trabalhadores e trabalhadoras rurais contra os efeitos nocivos dos agrotóxicos não veio nem dos órgãos de governo, nem dos movimentos sociais. E sim dos pesquisadores ativistas, que além de artigos e publicações científicas vêm produzindo filmes e cartilhas e posicionando-se em programas de rádio, na internet e outros tipos de manifestação.

Vanessa procurou entender como a questão das intoxicações por agrotóxicos em trabalhadores e trabalhadoras rurais é reconhecida pelos Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), da Saúde, do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), e por atores não-governamentais, como os movimentos sociais voltados à defesa da reforma agrária, agricultura familiar e agroecologia.

“A ênfase principal das ações envolve, de modo geral, a temática dos alimentos contaminados, dos direitos do consumidor e da importância econômica destes produtos, além de sua necessidade para ações de combate à fome”, observa a autora ao Jornal da Unicamp. “A saúde dos trabalhadores rurais fica quase sempre em segundo plano”.

A autora nota que também os trabalhadores rurais tendem a negar a gravidade dos riscos representados pelo uso de agrotóxicos. Mas não é o caso de acusá-los por isso. “Não se trata de culpar os trabalhadores rurais sobre essa questão até porque, na maioria das vezes, a negação dos riscos é a única saída que eles têm naquele momento”, considera.

161019_agrotoxicos_trabalhadores1

2º MAIOR CAUSA DE INTOXICAÇÃO

Dados levantados por Vanessa Menck mostram que os agrotóxicos são a segunda maior causa de intoxicação no Brasil, depois dos medicamentos. No Tocantins, é a principal causa dos registros. Doenças como câncer, infertilidade e disfunção hepáticas, entre outras, estão associadas à utilização destes venenos em curto, médio e longo prazos. Os mais afetados são os trabalhadores e trabalhadoras rurais, que lidam diretamente com eles ou vivem próximo às áreas de uso.

O estudo lembra que, no caso de intoxicação por agrotóxicos, há alta subnotificação, calculada em 50 casos não notificados para cada um registrado, dado o aumento exponencial do uso de veneno por área plantada no país. E que, nos últimos 40 anos, o consumo de agrotóxicos no Brasil aumentou 700%, enquanto a área plantada cresceu 78%. É o país que mais consome agrotóxicos no mundo, sendo que 22 dos 50 produtos mais utilizados na agricultura brasileira já foram proibidos em quase todos os países do mundo.

O veneno mais usado é o herbicida glifosato, princípio ativo do Roundup, da Monsanto, conhecido como “mata mato” e principal responsável por intoxicações agudas no país. Vendido durante algum tempo como produto biodegradável, causa má formação fetal e câncer, entre outras doenças, segundo relatório lançado em 2015 pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A autora assinala duas políticas públicas importantes para a saúde dos trabalhadores rurais: o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos, no contexto da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, criada em 2012 pelo governo federal; e a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta, de 2011.

You may also read!

Desmatadores entregam carta a Mourão pelo fim do desmatamento

Empresas que assinam documento entregue ao governo, como Vale e Santander, estão na lista dos maiores multados pelo Ibama

Read More...

De Olho nos Ruralistas transmitirá lives com entrevistados indígenas

Iniciativa é do projeto História Indígena Hoje; criado por duas historiadoras, projeto dá voz a representantes dos povos originários

Read More...

Prefeito do “morra quem morrer” desviou recursos do combate à fome

Fernando Gomes acumula acusações de corrupção no sul da Bahia; ele ficou conhecido em Itabuna por receber salário milionário

Read More...

Leave a reply:

Your email address will not be published.