Criança Kaingang morre atropelada em Chapecó; parentes apontam indiferença

In Povos Indígenas, Últimas

“Se fosse um índio que tivesse atropelado um branco já tinham feito alguma coisa“, gritava amiga da família; Naman da Rosa tinha 9 anos

Por Isadora Stentzler

A mãe desencosta-se dos joelhos sob os quais está prostrada e se levanta do banco onde permanecia sentada na lateral da avenida para se aproximar, até a altura que a fita de isolamento permitia, do carro do Instituto Geral de Perícia (IGP). Ali dentro está seu filho do meio, Naman da Rosa, de 9 anos, atropelado no início da tarde desta sexta-feira (3) quando atravessava a Avenida Fernando Machado, em Chapecó (SC).

Está absorta. Ora geme. Ora chora. Mal conversa. Deixa o espaço para ir até à delegacia fazer o Boletim de Ocorrência, onde narraria a morte do menino.

“Se fosse um índio que tivesse atropelado um branco já tinham feito alguma coisa”, grita aos policiais militares Silvana Garcia, de 39 anos, amiga da família, enquanto segura o emaranhado de filtro de sonhos que o menor comercializava pelo Centro.

Ela também é Kaingang vive na Aldeia Condá. Como os demais amigos e familiares convocados para o local, sente que nada será feito diante da morte da criança. “O infeliz vai sair impune”, diz, evocando a história do menino Kaingang Vitor Pinto, de 2 anos, assassinado a facadas há um ano quando estava no colo de sua mãe, em Imbituba.

Em dezembro os Kaingang da Aldeia Condá fizeram um ritual para homenagear os jogadores da Chapecoense mortos em acidente de avião na Colômbia. O símbolo do time é um índio Condá, nome de um antigo cacique Kaingang do município.

VENDA DE ARTESANATO

Segundo a Autoviação Chapecó, concessionária responsável pelo ônibus, um automóvel atingiu a criança, e então “foi a mesma jogada em direção à traseira de um ônibus de sua frota, que estava saindo de um ponto de embarque e desembarque, na direção bairro/centro, não tendo o motorista condições de evitar o acidente”.

A versão foi confirmada pelos transeuntes. Uma câmera da Polícia Militar instalada na esquina da avenida com a rua Marechal Bormann pode ter gravado a cena, mas as imagens só podem ser liberadas via mandato judicial, segundo agentes do 2º Batalhão da PM de Chapecó.

A tia de Naman, Marília Farias, de 29 anos, foi chamada assim que o menor foi atropelado. Com a filha de 1 ano no colo, mirando o sangue do garoto no asfalto, chora. Deixa transparecer que para os brancos foi só a morte de mais um indígena e que ele será condenado por causa de sua cultura.

“[O artesanato] é a fonte de sobrevivência do índio. Não temos como de uma hora para a outra entrar no ritmo da cidade”, afirma, sobre as crianças que vendem as peças produzidas pela tribo no Centro.

Em nota, a Autoviação lastima o ocorrido, mas sua assessoria disse que não tem um posicionamento sobre prestar ou não auxílio à família de Naman.

O velório em Chapecó. (Fotos: Isadora Stentzler)
O velório em Chapecó. (Fotos: Isadora Stentzler)

‘NÃO FOI POR FOME QUE MORREU’

Na Aldeia Condá eram poucos os que choravam antes do relógio se aproximar das 11 horas no sábado, dia 4. O corpo dentro do caixão branco de madeira estava no centro da capela de chão batido da Igreja Pentecostal Só o Senhor é Deus da Paz. Atrás, um  pacote com quatro bolinhos doces e salgadinhos de panificadora – última coisa comprada pelo menino antes de ser atropelado na sexta-feira.

“Era dele e vamos deixar com ele. Não foi por fome que morreu”, disse o pai, Ronivan Rosa, 29, sentado em uma cadeira ao lado de sua casa e a três metros da capela de madeira onde jazia o corpo do filho. Os olhos estão fixos ao horizonte, como que olhando tudo, mas não olhando nada. Fala baixo e manso. Sofre.

Na sexta saíram ele, a mulher e os três filhos para vender artesanato no centro de Chapecó. Ao meio-dia descansavam quando Naman e a irmã mais velha saíram para comprar comida. Minutos depois a menina, de 11 anos, voltou correndo sozinha: Naman fora atropelado por um ônibus. 

Um vídeo que circulou no Facebook mostrou o momento em que pai e mãe encontraram seu corpo ensanguentado, morto no asfalto. Um dos comentários dizia:  “Um bugre esmoleiro a menos”.

Na Aldeia Condá, no sábado de manhã, ele fazia falta. Enquanto o pai relembrava, atônito, o rito de despedida na avenida, sua mulher era carregada: desmaiara. Sua mãe se apoiava em um canto ao lado de fora da singela capela. “Ai, meu Deus”, soluçava.

Miguel Salles, tio de Naman, caminhava perplexo no velório. “Vamos denunciar ao Ministério Público”, sentenciou. Um dos coordenadores regionais do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) denunciará o crime de ódio.

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