Minas: maior bancada ruralista do Congresso tem 26 integrantes tentando reeleição

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Integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária e outros fazendeiros tentam vaga, entre eles investigados pela Lava Jato e réus na Justiça, como Aécio Neves

Por Bruno Stankevicius Bassi

A maior bancada ruralista do Congresso – em números absolutos – pretende reeleger 26 parlamentares signatários da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). É exatamente com a bancada mineira que o De Olho nos Ruralistas – no mês em que seu site completa dois anos – inaugura sua cobertura eleitoral. O observatório detalhará, nos próximos 20 dias, quem são os candidatos ruralistas à reeleição, com pelo menos um texto por Unidade da Federação.

Na lista desses candidatos mineiros há nove investigados pela Operação Lava Jato. Essa lista não inclui parlamentares que não integram a FPA, como o senador e ex-presidenciável Aécio Neves (PSDB). Ele concorre para conseguir uma vaga na Câmara, sem os riscos de uma eleição ao Senado, para garantir sua imunidade contra denúncias. Uma delas, relativa à construção de um aeroporto, com dinheiro público, em fazenda de sua família.

Há também acusados em outras frentes de investigação, como a deputada Raquel Muniz (PSD), agora dona de um patrimônio de R$ 6,1 milhões – diante dos R$ 717 mil declarados em 2014. Ela ficou famosa na votação pelo impeachment de Dilma Rousseff, ao elogiar a idoneidade de seu marido Ruy Muniz, prefeito de Montes Claros – preso menos de 24 horas depois por improbidade administrativa. Ruy tentou beliscar uma vaga ao Senado pelo PSD, mas não conseguiu.

Entre os mais ativos da bancada ruralista mineira está o deputado federal Newton Cardoso Junior, que tenta o seu segundo mandato. Outra reportagem desta série – que traz pelo menos um texto por Unidade da Federação – mostra que o filho do ex-governador Newton Cardoso está disposto a trabalhar pelos interesses próprios e do agronegócio: “Deputado que exporta eucalipto é quem defende lei para relaxar licenciamento de eucalipto“.

60% DA BANCADA MINEIRA É RURALISTA

Dos 53 deputados federais eleitos por Minas Gerais em 2014, 32 pertencem à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Em 2010, eram 27. Protagonista da política do “café com leite” na República Velha, o estado lidera o ranking ruralista com boa distância para o segundo colocado, Paraná, com 20 parlamentares na Frente. Braço mais organizado da bancada ruralista, a FPA possui – na última lista disponibilizada no site da instituição – 216 parlamentares.

Senador quer vaga na Câmara. (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Nem todo político ruralista faz questão de integrar essa frente. Caso notório: Aécio Neves, dono de 950 hectares em Montezuma, ao norte, uma das cidades mais pobres do estado. As terras estão em nome da Perfil Agropecuária e Florestal Ltda e foram arrematadas pelo pai de Aécio em um processo de usucapião – apesar do tamanho – movido em 2000, quando o filho exercia seu quarto mandato como deputado federal.

Bem mais famosa, a fazenda do senador localizada no município de Cláudio – a “cidade dos apelidos”, no oeste mineiro – recebeu a construção de um aeroporto de R$ 14 milhões, pago com recursos do governo de Minas. A obra foi alvo de inquérito da Polícia Federal e levou à prisão, em 2017, da irmã de Aécio, Andrea Neves da Cunha, e de um primo do senador.

O próprio senador se tornou réu a partir das delações premiadas dos proprietários da JBS, que gravaram o político negociando uma propina de R$ 2 milhões. O teor da conversa com Joesley Batista ficou famoso, no ano passado, diante da necessidade que eles tinham de escolher um emissário: “Tem de ser um que a gente mata ele antes de fazer delação“.

Em agosto, Aécio lançou sua campanha a deputado federal em uma fazenda no município de Teófilo Otoni. O público foi bem mais acanhado do que na sua candidatura à Presidência da República, quatro anos atrás: compareceram 20 eleitores, levados em uma van escolar.

MONTES DECLARA OITO FAZENDAS

Membro da FPA e líder nas intenções de voto para governador, o senador Antonio Anastasia (PSDB) orientou a bancada de seu partido pela aprovação do refinanciamento das dívidas do Funrural. Nos últimos quatro anos, o ex-governador dobrou seu patrimônio: de R$ 562 mil para R$ 1,3 milhão. Ele tenta voltar ao Palácio da Liberdade, onde esteve no comando entre 2010 e 2014.

Montes recebendo Temer na FPA. (Foto: Beto Barata/PR)

Para vice, Anastasia escolheu um ruralista “puro sangue”: Marcos Montes (PSD). Ele foi presidente da FPA entre 2015 e 2016 – quando assistiu, sem reagir, à expulsão da equipe do De Olho nas Ruralistas da mansão onde se reúnem os ruralistas, todas as terças-feiras, em Brasília: “Almoço da bancada ruralista tem ira de deputados e expulsão de repórteres“.

O deputado foi lançado pela frente parlamentar como candidato à presidência da Câmara no biênio 2017/2018. Perdeu para Rodrigo Maia (DEM). Ex-prefeito de Uberaba (1997-2004), cidade mineira conhecida como a “capital mundial do Zebu”, Montes assumiu a presidência da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural logo em seu primeiro mandato como deputado federal, em 2007. É co-autor do RCP 16/2015, que instituiu a CPI da Funai e Incra.

Pecuarista, Montes é dono das fazendas Estação I e Estação II no município de Prata, na região de Uberlândia. Em Barra do Bugres (MT), possui outras duas fazendas – e onde esteve com o prefeito prometendo ajudar a enviar recursos. Na declaração de bens de 2018 entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), acrescentou outras quatro propriedades ao seu patrimônio, sem detalhar o tamanho de nenhuma. No total, as oito fazendas de Marcos Montes somam R$ 2,9 milhões.

DA ARISTOCRACIA AO TRABALHO ESCRAVO

Do outro lado da disputa pelo governo de Minas Gerais, o ex-vice de Fernando Pimentel (PT), Antônio Andrade (MDB), também está ligado ao agronegócio. Ele é dono da Agropecuária Bom Pastor, em Vazante (MG). Em julho, Andrade foi destituído da presidência estadual do MDB e concorre a uma vaga na Câmara. O rompimento com Pimentel, em 2017, levou o MDB a lançar candidato próprio ao governo do estado: Adalclever Lopes, filho do deputado federal Mauro Lopes, outro membro da FPA.

Entre os 26 ruralistas que concorrerão à reeleição estão produtores de leite que conseguem barrar importação do produto do Uruguai, cafeicultores endividados, políticos apoiados por empresas acusadas de trabalho escravo, os aristocratas da família Andrada e diversos interessados em manter o foro privilegiado, seja por causa da Lava Jato, seja por outras acusações. Conheça-os um pouco melhor.

Raquel Muniz empolgada com o impeachment de Dilma. (Foto: Nilson Bastian/Câmara)

A deputada Raquel Muniz (PSD), diretora da Comissão de Agricultura Familiar da FPA, se tornou uma celebridade na internet ao elogiar o marido Ruy Muniz – como vimos, preso menos de um dia depois – durante a votação pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Entre 2014 e 2018, o patrimônio declarado pela médica cresceu 564% – mas ali não aparece nenhum bem rural.

Outra liderança importante da FPA, Zé Silva (SD) ocupa a vice-presidência da região Sudeste. Engenheiro agrônomo, ele foi presidente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-MG) entre 2003 e 2010 e, em 2014, secretário de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Em junho, assim como Raquel, votou na comissão especial pela aprovação do PL do Veneno.

Nas eleições de 2014, Zé Silva recebeu doação de R$ 100 mil da multinacional Cutrale, autuada por manter trabalhadores – na região do Triângulo Mineiro – em regime análogo à escravidão. A empresa também financiou naquele ano o deputado Marcos Montes, que recebeu R$ 155 mil.

ELES DEFENDEM SETORES DO CAFÉ E DO LEITE

Minas Gerais também se destaca no lobby setorial. Junto ao Espírito Santo, Minas compõe a “bancada do café”, encabeçada por Carlos Melles (DEM). Líder da Frente Parlamentar do Café, Melles foi, durante 28 anos, presidente da Cooperativa Regional dos Cafeicultores de São Sebastião do Paraíso. Em 2015, deixou o grupo em maus lençóis. Com uma dívida de R$ 12 milhões, a Cooparaíso foi vendida e incorporada pela Coopercitrus.

O deputado Domingos Sávio (PSDB) presidiu a Frente Parlamentar do Cooperativismo. Sua fazenda em Divinópolis, no oeste mineiro, avaliada em R$ 1,5 milhão, abriga cafeicultura e criação de gado leiteiro. Em outubro de 2017, Sávio teve atuação decisiva na suspensão das importações de leite do Uruguai.

Outro defensor do café no Congresso – voltaremos a falar do setor na reportagem sobre o Espírito Santo – é Silas Brasileiro (MDB). Ele é dono da Reunidas Brasil Central, pela qual comercializa a safra cafeeira de suas fazendas no oeste de Minas: quatro em Patrocínio e uma, de 1.911 hectares, em Romaria. Desde 2017, Silas é presidente do Conselho Nacional do Café.

As eleições também trazem algumas despedidas. Bonifácio de Andrada (PSDB), autor do relatório que rejeitou a segunda denúncia de impeachment contra Michel Temer, não concorrerá à reeleição após cumprir dez mandatos consecutivos. Em seu lugar, indicará o filho Lafayette Andrada (PRB).

Para além das fazendas em Antônio Carlos (MG), a ligação da família Andrade com o “café com leite” é antiga: ela está no Congresso desde antes da Primeira República (1889-1930), quando as oligarquias rurais de São Paulo e Minas Gerais se alternavam no poder. Seu patrono é José Bonifácio de Andrada e Silva.

A lista dos deputados federais candidatos à reeleição inclui outros empresários ligados ao agronegócio, como o petista Adelmo Carneiro Leão, que não pertence à FPA. Ele assumiu o cargo em abril de 2018, após obter um recurso no STF. Possui a Agropecuária Água da Pedra, com cinco fazendas no Triângulo Mineiro. Seu colega Misael Varella (PSD), empresário do setor logístico e terceiro candidato mais rico do estado, possui fazendas em Campo Formoso (BA) e Itaperuna (RJ).

A FAZENDA DE ‘100 MIL ALQUEIRES’

Ruínas em Mariana: setor da mineração também tem representante. (Foto: Mídia Ninja)

No setor de mineração – cuja demanda pelo afrouxamento do licenciamento ambiental casa diretamente com o lobby do agronegócio – o destaque é Leonardo Quintão, líder do MDB na Câmara durante o impeachment de Dilma Rousseff. Seu irmão, Rodrigo Lemos Quintão, é sócio em quatro mineradoras e cria avestruzes em Caratinga (MG). Quintão foi relator do novo Código da Mineração, escrito diretamente do computador do advogado das mineradoras Vale e BHP, sócias da Samarco, a responsável pelo desastre de Mariana.

Entre os ruralistas mineiros,  nove foram delatados durante a Operação Lava-Jato por recebimento de propina. Foram citados no “listão” da Odebrecht: Antônio Andrade, Fábio Ramalho e Mauro Lopes (MDB), Domingos Sávio e Paulo Abi Ackel (PSDB), Carlos Melles (DEM), Julio Delgado (PSB), Marcos Montes (PSD) e Weliton Prado (PROS) – além de Aécio Neves e Antônio Anastasia, citados também na lista da JBS.

O frigorífico fez doações de campanha a outros candidatos importantes, como Adelmo Carneiro Leão (PT), Aelton Freitas (PR), Bilac Pinto (PR), Diego Andrade (PSD), Lincoln Portela (PR), Mário Heringer (PDT), Renzo Braz (PP), Saraiva Felipe (MDB), Zé Silva (SD) e, mais uma vez, diretamente de Uberlândia, Weliton Prado.

Dono da Agropecuária Gavião, em Cavalcante (GO), e de outras duas fazendas em Iturama (MG), Aelton Freitas é um responsável direto pela existência do De Olho nos Ruralistas. Em 2006, ele declarou 100 mil alqueires em Altamira (PA), o maior município do Brasil. Depois ele disse ter ocorrido um engano: eram 100 alqueires, na região Norte o equivalente a 272 hectares. Discrepâncias como essa motivaram a elaboração do livro Partido da Terra (Contexto, 2012), a partir do qual foi concebida a ideia de um observatório sobre agronegócio no Brasil.

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