Líderes indígenas avaliam protagonismo feminino na resistência contra Bolsonaro

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Representando três diferentes povos, Kerexu Yxapyry, Cristiane Julião e Cacique Irê analisam conjuntura e protestam contra silenciamentos; elas relatam ataques contra aldeias e descrevem a mobilização de gênero em torno da luta de cada etnia

por Julia Dolce

Sete de fevereiro foi instituído como Dia Nacional da Luta dos Povos Indígenas, em homenagem ao líder Guarani Sepé Tiaraju, que resistiu à dominação espanhola e portuguesa nos anos 1750. À liderança, hoje se atribui a frase “Esta terra tem dono!”, bradada durante a Batalha de Caiboté, no Rio Grande do Sul, a mesma que tirou naquele dia a vida de Sepé Tiaraju. Séculos depois, o direito à terra ainda é a principal pauta da resistência indígena, e sua garantia encontra-se ameaçada.

O movimento indígena tem se afirmado como linha de frente na oposição às medidas de Bolsonaro, que em seu primeiro mês no poder focou no desmonte da demarcação de terras. Ao longo das últimas semanas, a campanha Janeiro Vermelho teve mobilizações em pelo menos 50 cidades do mundo. Esses atos refletem um crescente grande protagonismo de mulheres, que pode ser observado desde a estrutura interna das aldeias até a política institucional: a candidatura de Sônia Guajajara à vice-presidência em 2018, pelo PSOL, e a eleição da deputada federal Joenia Wapichana (Rede-RR), são exemplos dessa mudança.

De Olho nos Ruralistas ouviu três líderes indígenas, mulheres de diferentes etnias, que analisam a importância dessa representação.

KEREXU YXAPYRY: ‘É DE NOSSA CASA QUE ESTÃO FALANDO’

Líder na Terra Indígena Morro dos Cavalos, em Santa Catarina, Kerexu Yxapyry foi nomeada a primeira cacique mulher de sua Terra Indígena em 2012. Ela assumiu o comando por quatro anos. Ela considera a representatividade das mulheres indígenas uma resposta ao patriarcado trazido pela sociedade europeia. “Para nós indígenas, a mulher tem seu papel e o homem também, ninguém é melhor do que ninguém”, diz. “Os homens tomaram os papéis das mulheres por longos anos ditados por um sistema medieval que a Igreja trouxe. Mas se puxarmos nossas origens vamos ver o quanto nossas antepassadas não foram reconhecidas como guerreiras”.

Kerexu Yxapyry foi ameaçada por 30 homens em Santa Catarina. (Foto: Reprodução)

Em outubro de 2015, com as aprovações paralelas em comissões especiais da Câmara de mudanças no Estatuto do Desarmamento (PEC 2015) e da PEC 215, que visa a transferência da demarcação de terras indígenas do Executivo para o Congresso, Kerexu avisou seu povo para se preparar. Três dias depois, ela foi ameaçada de morte por trinta homens que invadiram a aldeia, dispararam para o alto com revólveres, soltaram rojões e disseram que expulsariam os indígenas. O argumento deles era o seguinte: se a PEC poderia tirar os Guarani dali, eles bem que poderiam antecipar o serviço por conta própria. Dois meses antes, a casa de Kerexu fora alvejada por um grupo de motoqueiros.

Kerexu esteve nesta quarta-feira (06/02) em Brasília com uma delegação de sua aldeia, participando do julgamento de um recurso que visa colocar a comunidade indígena como parte do processo da Ação Cível Originária 2323, que pede a nulidade da portaria declaratória da TI Morro dos Cavalos, sob o argumento do Marco Temporal. Em decisão anterior, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, restringiu a comunidade Guarani a assistente simples no processo.

“Nós indígenas queremos ser ouvidos porque é de nossa casa que estão falando, as autoridades têm que nos ouvir”, afirmou a líder. “Já juntamos todas as provas para provar os questionamentos contrários do governo, mesmo assim estamos sendo perseguidos”. O julgamento foi adiado por conta do atraso de Alexandre de Moraes na sessão.

Segundo Kerexu, o Brasil passa por uma “segunda invasão”:

– Querem nos tirar as poucas riquezas que ainda nos restam, que são os recursos naturais. Sabemos que o projeto do atual presidente é entregar nossos rios, nossas águas, nossas energias e nossos minérios. Mas já conhecemos essa história e não vamos deixar isso acontecer, não recuaremos um centímetro de nossas terras.

CACIQUE IRÊ: ‘NÃO ACEITO GOVERNO QUE NÃO ME ACEITA COMO MULHER’

Juliana Alves é a cacique Irê do povo Jenipapo-Kanindé, que ocupa a Terra Indígena Lagoa da Encantada, no município de Aquiraz (CE). Ela considera o crescimento da participação das mulheres indígenas uma consequência da somatória de forças de dois grupos – indígenas e mulheres – que têm seus direitos perseguidos pelas ideias propagadas por Jair Bolsonaro. Pós-graduada em gestão e coordenação escolar, Irê se candidatou a vereadora pelo PCdoB, em 2016. Não aceita o governo atual:

Cacique Irê e sua irmã herdaram o cacicado da mãe. (Foto: Arquivo Pessoal)

– As mulheres estão bem fortes na resistência contra Bolsonaro. Não conseguimos aceitar um governo que não me aceita como mulher, que menospreza, que diz que mulher só serve para isso, para aquilo. É como se toda uma conquista que tivéssemos alcançado fosse para o ralo. Com relação aos povos indígenas, sabemos que é um retrocesso para todos nós, homens e mulheres que podem perder suas terras. Mas queremos organizar uma marcha de mulheres indígenas, para mostrar a importância do nosso protagonismo e atuação. Existe uma visão de que as indígenas são quem fica em casa, cuidando dos filhos, em um espaço secundário. Queremos desconstruir isso.

Líderes femininas não são novidade na aldeia de Juliana. Ela e sua irmã, cacique Jurema, herdaram o cacicado de sua mãe, cacique Pequena, em 2010. Hoje com 74 anos, cacique Pequena se tornou nacionalmente conhecida, em 1995, após ser escolhida para liderar os Jenipapo-Kanindé, com o falecimento do cacique anterior.

Cacique Irê conta que, em um primeiro momento, sua mãe achou que ela não daria certo no cargo, que era uma dona de casa, uma mulher parideira. Mas o povo confiava nela e no trabalho comunitário que já fazia na aldeia. “Cacique Pequena lutou pelos direitos não só das mulheres, mas da coletividade”, descreve a irmã. Com isso, conquistou para a aldeia um posto de saúde, uma escola, uma casa de farinha.

Em 2010, quando Cacique Pequena ficou doente, revelou que não queria que a sucessão fosse para um homem; queria dar continuidade à luta das mulheres. “Os homens Jenipapo Kanindé são muito calados, no meu povo as mulheres costumam participar mais das assembleias, conferências, e os homens cuidam da roça, da casa”, relata. “É uma característica que observamos nos povos indígenas do Ceará e também da região nordeste”.

Durante a manifestação nacional do Janeiro Vermelho, na quinta-feira (31/01), mulheres indígenas reunidas em Fortaleza foram xingadas de “vagabundas” e “desocupadas”. Cacique Irê faz uma leitura histórica – e até mesmo poética – desse ódio:

– Somos insultados o tempo inteiro, principalmente nós mulheres, porque ainda acham que somos mais frágeis. Não sei como, porque nessa luta não temos como nos fragilizam, muito pelo contrário, estamos sempre unidas. Somos como água, crescemos quando nos juntamos. Então nós nos defendemos. Dissemos que somos nativas desse chão, que ele é nosso.

A criação de movimentos e grupos específicos de mulheres indígenas tem se espalhado pelo país. Cacique Irê é coordenadora da Articulação de Mulheres Indígenas do Estado do Ceará, que desde 2004 trabalha com 14 povos do estado: “Com certeza a experiência que conseguimos levar a outros locais e espaços de debate político faz com que mais mulheres hoje cheguem na liderança de aldeias e povos indígenas, diferentemente de uns 10 anos atrás, quando a liderança ainda era muito masculina. Não queremos passar a frente dos homens, apenas ser reconhecidas como líderes que trazem resultados para nossos povos”.

CRISTIANE JULIÃO: ‘DISSERAM QUE NOS COLOCARIAM PARA CORRER’

É o caso do Povo Pankararu, cuja Terra Indígena, homologada em 1987, se localiza no sertão pernambucano, próximo do Rio São Francisco. Segundo Cristiane Julião, representante Pankararu da Aldeia Brejo dos Padres, as histórias sobre lideranças femininas se tornaram praticamente um mito entre seu povo:

– O protagonismo das mulheres Pankararu têm um grande destaque. Temos heroínas como as três Marias, Maria Chulé, Maria Calu e Maria Preá, que tinham um poder enorme dentro do povo nos anos 1920. Já no final dos anos 1970, tivemos a resistência de Quitéria Binga, que lutou pelo reconhecimento legal da nossa terra, foi parte do Movimento Constituinte. Temos também a Pankararu Maria das Dores, primeira indígena do Brasil a fazer um doutorado.

Cristiane Julião foi pesquisadora no Museu Nacional. (Foto: reprodução)

Cristiane destaca que o movimento indígena sempre teve uma visão muito coletiva sobre as demandas etárias e de gênero. “Mas na última década começamos a pensar mais na questão da participação feminina”, diz. Ela representa Pernambuco no programa Voz das Mulheres Indígenas da ONU, que desde 2015 debate e procura medidas para multiplicar o espaço dessas lideranças. Entre as ações organizadas por Cristiane e pelo grupo está o espaço de articulação de mulheres indígenas no Acampamento Terra Livre de 2018. A ação foi inédita no evento, o maior encontro indígena do país, que acontece todo ano, geralmente em Brasília.

O momento político é de retrocessos, com a transferência da atribuição da demarcação de terras indígenas, antes responsabilidade da Fundação Nacional do Índio (Funai), para o Ministério da Agricultura. Ou o controle da própria Fundação Nacional do Índio (Funai) pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, sob controle da ministra Damares Alves, cujo histórico é polêmico entre os povos originários. Cristiane avalia que os indígenas estão arcando com o ódio da população brasileira, atiçado pelo discurso preconceituoso do governo.

Em janeiro, pelo menos oito ataques a Territórios Indígenas foram mapeados pelo De Olho nos Ruralistas. Mas o aumento das ofensivas já ocorria durante a campanha eleitoral de Bolsonaro. Em outubro, o território Pankararu sofreu ataques de posseiros que tiveram sua saída compulsória do TI decretada por um juiz federal da comarca de Serra Talhada, no dia 13 de setembro. Eles incendiaram duas escolas, um posto de saúde e a igreja da aldeia.

Cristiane relata que os ruralistas da região acreditam na possibilidade de o governo Bolsonaro rever a demarcação do Território Pankararu:

– Durante a campanha eles enalteceram muito Bolsonaro, principalmente na internet, dizendo que ele nos colocaria para correr. Se a opinião pública em relação a nós estava adormecida, ela aflorou totalmente. O preconceito voltou com garra total, chegamos nos espaços das cidades próximas e nos olham da cabeça aos pés, a testa franze, a boca torce.

Ela conta que quem atacou nem se esconde: “São ruralistas, que quando querem se vitimar se afirmam pequenos agricultores”. Os líderes reúnem todas as ameaças que chegam. “Mas temos receio, principalmente com a mudança no Estatuto do Armamento, a situação da Damares, da Funai. Não sabemos o que vem por aí, mas não desistimos da luta”.

A líder em Pernambuco considera que o protagonismo indígena na resistência ao governo Bolsonaro traz uma potência muito grande, pois reflete a luta de todos os trabalhadores brasileiros: “Temos muito claro que nossos direitos são originários e legítimos. Dentro do direito ao território se compreendem muitos outros, como o direito à educação, ao alimento, à segurança, à saúde. Lutar pela terra compreende tudo isso. Então, quando gritamos “demarcação, já!”, ou “pelo direito de existir”, trazemos essa compreensão de que é uma luta de todos”.

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