Ruralista sem terras, Nelson Barbudo é acusado de incentivar invasões de terra dos Xavante

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Ofensas a colegas de Congresso, derrubada do presidente local do Incra e ameaças a indígenas fazem parte do estilo do deputado mais votado do Mato Grosso; ele atua contra a TI Marãiwatsédé, antes invadida por fazendeiros e objeto de desintrusão em 2012

Por Leonardo Furhmann

A barba longa e desgrenhada e o chapéu enterrado na cabeça, que o torna parecido com o personagem Urtigão, de Walt Disney, são características da face mais visível do estilo que fez Nelson Barbudo (PSL) ser eleito o deputado federal mais votado do Mato Grosso na eleição passada. Fora da imagem aparentemente folclórica, Barbudo é visto como uma ameaça aos direitos dos povos originários do estado.

O principal constrangimento é imediato e causa preocupação aos moradores da Terra Indígena Xavante de Marãiwatsédé, nas proximidades do município de São Félix do Araguaia. Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), Barbudo prometeu invadir a demarcação e devolver o espaço a agropecuaristas retirados da reserva, em 2012, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O Ministério Público Federal afirmou, em  nota, que vai responsabilizar civil e criminalmente quem tentar invadir a área indígena.

O território foi objeto de desintrusão – expulsão de invasores, entre eles políticos – durante o governo de Dilma Rousseff. Barbudo nega que esteja incentivando as invasões. Mas há vídeos em que ele ataca a demarcação de terras. Ele é apontado por líderes indígenas, entre eles Vanderlei Temireté Xavante, como um dos principais políticos que ameaçam a terra indígena.

Vanderlei Temireté Xavante denuncia ameaças de Barbudo aos indígenas. (Foto: Câmara de Bom Jesus de Araguaia)

“Nosso direito à terra já foi reconhecido pela Justiça”, disse Vanderlei Xavante em entrevista ao De Olho nos Ruralistas. “Nossos ancestrais estavam aqui desde os anos 1920”. Vanderlei aponta o ex-senador José Medeiros (Pode), segundo deputado federal mais votado, como outro autor de incitação ao ódio contra indígenas.

Barbudo já mostrou suas garras em Brasília. Depois de não conseguir emplacar um afilhado político na coordenação estadual do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ele passou a atacar o engenheiro agrônomo Claudinei Chalito da Silva, que havia sido escolhido para o cargo pelo presidente do Incra, general João Carlos de Jesus Corrêa. Chalito é um funcionário de carreira do instituto. Barbudo tentava emplacar o pecuarista Gilberto Cattani, dono de uma fazenda em Nova Mutum com 50 cabeças de gado leiteiro, segundo a declaração dele à Justiça Eleitoral em 2018. Cattani foi candidato a deputado estadual pelo PSL no ano passado, mas não conseguiu se eleger.

Se não conseguiu levar o aliado para o cargo, Barbudo conseguiu a demissão do nomeado, sob o argumento de que ele era ligado ao PT. Na sua campanha contra Chalito, ele chamou o profissional de “meliante ligado à esquerda”. O deputado afirmou em abril que os petistas continuam a dominar os cargos na Funai e no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e defendeu que o governo retire profissionais “de esquerda” dos cargos de confiança.

PROJETO PROIBIU A PALAVRA CARNE EM PRODUTOS DE ORIGEM VEGETAL

A incontingência verbal tem sido uma característica de Barbudo também na Câmara. Ele xingou a deputada Maria do Rosário (PT-RS) de “psicopata” após ela ter criticado uma carta enviada pelo então ministro da Educação, Ricardo Vélez, às escolas. Vélez queria que fossem enviados vídeos ao ministério dos alunos perfilados cantando o hino nacional e dizendo, em seguida, o slogan de campanha de Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. A proposta foi engavetada após o anúncio do Ministério Público Federal de que Vélez seria investigado por “improbidade administrativa” em razão da carta. O ministro foi demitido dias depois.

Maria do Rosário é a mesma deputada que foi ofendida pelo presidente Jair Bolsonaro em 2014, quanto ambos eram deputados. Bolsonaro afirmou que só não “estupraria” a petista porque “ela não merecia” por ser “feia”. O presidente foi condenado a indenizá-la pelas ofensas.

Como legislador, a proposta de Barbudo que ganhou maior repercussão é a que proíbe o uso da palavra “carne” em produtos de origem vegetal, como hambúrgueres de soja ou de jaca, consumidos por veganos e vegetarianos. Para ele, o uso da expressão configura “propaganda enganosa”. O parlamentar se apresenta como “produtor rural” e é coordenador de infraestrutura e logística da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

Apesar de se apresentar como “produtor rural”, Barbudo não declarou a propriedade de terras ou de produtos ligados à produção à Justiça Eleitoral no ano passado. Seu único bem listado é uma carreta de reboque avaliada em R$ 2,5 mil. Nem o veículo para transportá-la o deputado alega ter.

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One commentOn Ruralista sem terras, Nelson Barbudo é acusado de incentivar invasões de terra dos Xavante

  • Inês Rosa Bueno

    Ainda há muito a ser julgado na ação civil pública contra a empresa multinacional AGIP Petroli e latifundiários da região, que inicia em 1992, quando as terras de Maraiwatsede foram invadidas num plano arquitetado entre eles, com participação do governador do estado, dois meses após a entrega do relatório de identificação como terra indígena. Os cerca de 60 invasores estavam invadindo um latifúndio improdutivo da multinacional, com apoio do governador do estado e da polícia civil. O único passo que foi dado até o momento foi devolver as terras, totalmente desmatadas ao longo do processo de vinte anos, pelo qual os réus nada pagaram. É preciso punir os réus, após condená-los por seus múltiplos crimes, entre eles invasão das terras e depredação. Tudo isso ainda está no Judiciário sendo analisado. Falo como perita do juiz (não de uma das partes ou da FUNAI, MAS SIM DO JUDICIÁRIO), autora do laudo que levou à desintrusão. Pessoas como esse deputado devem também constar no processo e serem julgadas por incitação a maiores crimes. O Brasil tem que ter leis e respeitar sua Constituição. Ou então, que deputados como este cumpram seu dever e mudem a Constituição. Enquanto não conseguirem isso, Maraiwatsede é por lei terra da União de posse indígena.

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