Ex-consultor para desmatamento do Reino Unido é o 4º mais multado pelo Ibama em 25 anos

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Empresa do bilionário Johan Eliasch está entre as dez mais autuadas por crimes contra a flora desde 1995; uma das autuações milionárias, em 2008, ocorreu quando ele trabalhava para o governo Gordon Brown; ONG do sueco é financiada pela União Europeia

Por Yago Sales

Quarto lugar no ranking dos mais multados pelo Ibama nos últimos 25 anos, o bilionário sueco Johan Eliasch ganha dinheiro e prestígio como ambientalista. Até a União Europeia financia sua ONG, a Cool Earth. Amigo do príncipe Andrew, ele foi consultor sobre clima e desmatamento durante a gestão do primeiro-ministro Gordon Brown (2007-2010). Exatamente nesse período, em 2008, ele levou a primeira autuação milionária no Brasil.

A soma das multas de Eliasch, em quase vinte anos, chega a R$ 231,1 milhões, sem correção monetária, conforme pesquisa feita pelo De Olho nos Ruralistas com mais de 280 mil multas aplicadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) entre 1995 e 2000. Confira aqui o mapa com os principais desmatadores. Aqui, a lista elaborada pelo observatório e publicada pelo Intercept Brasil.

O empresário é dono da Head, uma multinacional de produtos esportivos vendidos em mais de oitenta países. Entre eles as raquetes de tênis utilizadas pela tenista russa Maria Sharapova, patrocinada pela empresa. Eliasch chegou ao Brasil em 2005 para comprar florestas na Amazônia sob o argumento de protegê-las. As multas para a madeireira Gethal-Amazonas S.A, de propriedade do sueco, foram aplicadas entre 1997 e 2014, em sete anos diferentes. As duas maiores, em 2008 e 2014, quando ele controlava a empresa, somam R$ 230,6 milhões do total de R$ 231,1 milhões.

O sueco comprou 160 mil hectares de floresta do grupo americano GMO Renewable Resources, nos municípios de Itacotiara, na região de Manaus, Manicoré e Lábrea, ambos no sul do Amazonas, em região de fronteira agropecuária — e de exploração madeireira ilegal. (AM). Por meio da ONG Cool Earth (um jogo com as palavras “Earth”, Terra, e “cool’, refrescada, mas também legal), da qual ele é fundador e atual presidente, Eliasch arrecada doações para financiar proteção de florestas tropicais.

Entre os financiadores da Cool Earth está a União Europeia, como mostra o próprio site da ONG, com sede no Reino Unido. Em março de 2019, a ONG informou que recebe fundos da Aerospace, um programa financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional da Inglaterra, como parte do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, mantido pela União Europeia.

ONG do sueco conta com fundos da União Europeia. (Imagem: Reprodução / Cool Earth)

‘COMO GOSTO DE ÁRVORES, FIZ PARAR O DESMATAMENTO’

— É um pedaço de terra com muitas árvores. Como eu gosto de árvores, fiz parar todo o desmatamento e quando me perguntam o que vou fazer com a terra a resposta é simples: nada.

Foi o que disse Eliasch a um repórter da BBC quando iniciou o marketing da Cool Earth. Essa campanha obteve a contribuição de mais de 120 mil membros para a proteção a florestas tropicais.

A ONG gerou suspeitas durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva em 2008, quando Eliasch sugeriu em uma reunião em Londres que US$ 50 bilhões seriam suficientes para comprar a Amazônia. Ambientalistas e o Congresso Nacional chamaram a atenção para a internacionalização da Amazônia.

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e a Polícia Federal (PF) foram acionadas para investigar o sueco. À época, a Abin apontou indícios de fraude nos negócios de Eliasch. E informou que as terras pertenciam ao Parque Estadual do Cristalino e à Força Aérea Brasileira (FAB). Algumas áreas que o sueco havia adquirido são ricas em ouro e diamante.

Com o relatório da Abin em mãos, a PF passou a investigar supostas conexões do sueco com biopirataria, grilagem de terras e extração ilegal de recursos minerais. “Qual é o propósito de alguém que compra terra e não põe em seu nome? Precisamos ver se ele não é um estelionatário”, afirmou o então secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior.

Johan Eliasch não pagou nenhuma das multas. (Foto: Reprodução / Facebook).

Depois que o relatório da Abin foi divulgado por O Globo, o Daily Telegraph, mesmo jornal que atualmente publica artigos de Eliasch, defendeu o sueco em um editorial: “Não é possível, diante da realidade do Brasil, obrigar fazendeiros que buscam prosperar com suas produções e a proteger a floresta. Para os brasileiros, terras improdutivas significam menos prosperidade”.

No período das investigações, a Cool Earth tinha o apoio do ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, David Miliband, que, durante o governo anterior de Tony Blair, era o ministro do Meio Ambiente.

Em 2007, o sueco foi contratado pelo primeiro-ministro britânico Gordon Brown para revisar o papel dos mecanismos financeiros internacionais na preservação das florestas globais, visando o combate às mudanças climáticas. Um relatório denominado Eliasch Review tornou-se diretriz para o Redd, a sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação, como parte da convenção internacional sobre mudanças climáticas.

Em artigo publicado no The Daily Telegraph, um dos principais jornais do Reino Unido, o sueco defendeu seu posicionamento quando a Amazônia ardia em chamas em agosto de 2019. “A Amazônia não é apenas um cenário para documentários sobre a natureza”, escreveu e completou: “Fornece um quinto do oxigênio do nosso planeta, um quarto da água doce e abriga um terço de todas as espécies conhecidas.”

SUECO FOI CASADO COM SOCIALITE BRASILEIRA

Eliasch foi casado com a socialite brasileira Ana Paula Junqueira. Com bandeiras voltadas ao ambiente e tentativas de incursão na política partidária, ela se casou em 2009 com o sueco em uma cerimônia para cem pessoas na casa do bilionário estadunidense Theodore Forstmann, dono de um conglomerado de esportes e mídia. O casal, no entanto, mantinha uma relação desde 2002.

Enquanto isso, o príncipe Andrew Albert Christian Edward, quarto na linha da sucessão do trono britânico e amigo há décadas de Eliasch, sobrevoava e conhecia a floresta amazônica. Na mesma visita ao Brasil, em São José dos Campos (SP), o príncipe participou da assinatura de um protocolo de intenções entre os governos britânico e brasileiro para cooperação científica.

Tratava-se de um acordo entre o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) e o Rutherford Appleton Laboratory, que representa o Science Technology Facilities Council, equivalente do Ministério da Ciência Tecnologia, Inovações e Comunicações brasileiro. A intenção dos dois lados era o monitoramento ambiental e previsão meteorológica por satélites.

Por causa das aquisições de terra pelo marido, Ana Paula Junqueira foi apelidada pela imprensa de “A dona da Amazônia”. Ela foi filiada ao PV, na época em que Marina Silva foi candidata à Presidência da República pelo partido, e ao atual MDB. Ela concorreu à Câmara Municipal de São Paulo e a uma vaga na Câmara dos Deputados. O casamento acabou menos de um ano depois da cerimônia na casa de Forstmann.

OITO MULTAS SOMAM R$ 224 MILHÕES

Sede da Gethal em Itacoatiara, um dos municípios onde a madeireira levou multas do Ibama. (Foto: Reprodução / Facebook)

O marketing do projeto de proteção à Amazônia endossava a pretensão do sueco de proteção enquanto a IstoÉ o chamava de grileiro e o Ibama aplicava autuações à Gethal. Em 1997, a Gethal já tinha sido flagrada quatro vezes, no Amazônia e em Rondônia, com multas por desmatamento em Amazonas e em Rondônia, num total de R$ 600 mil. Mas nesse ano Eliasch ainda não estava à frente da empresa.

Em 2008, já com assinatura do sueco, a madeireira recebeu oito multas que chegaram a R$ 224,3 milhões. Em 2014, a ONG que ajudaria a estancar a derrubada de árvores recebia doações pelo mundo, mas o Ibama continuava multando a empresa, com mais R$ 6,27 milhões.

Em 2008, a madeireira demitiu mais de 800 funcionários. Em compensação, a Head caminha bem em seu nicho de mercado. Sob a gestão do sueco, a madeireira Gethal tem débitos tributários que totalizam R$ 7,21 milhões. Nenhum centavo foi quitado pelo sueco. Assim como os R$ 231,1 milhões — isto sem correção monetária —  das multas aplicadas pelo Ibama.

Em nota enviada ao De Olho nos Ruralistas, a Cool Earth diz que “as alegações referidas a respeito de Gethal e Johan Eliasch foram falsas e nunca foram substanciais”. E que a organização não é associada a nenhuma empresa. Eliasch foi definido como um membro não executivo do conselho de administração da Cool Earth. Segundo a ONG, uma “investigação pelas autoridades brasileiras” retirou as multas. Perguntada sobre qual seria a investigação, ela não respondeu.

Foto principal: Eliasch, o amigo da realeza. (Foto: Reprodução / Facebook)

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