Reportagem sobre Arthur Lira ganha Prêmio Megafone de Ativismo

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Vencedor da categoria Mídia Independente, dossiê do De Olho nos Ruralistas detalha face agrária e conflitos de interesse da família do presidente da Câmara; prêmio do júri homenageia líder camponesa Elizabeth Teixeira, retratada em documentário do observatório

Por Bruno Stankevicius Bassi

Produzido pelo De Olho nos Ruralistas, o dossiê “Arthur, o Fazendeiro”, que mostra a face agrária de Arthur Lira e seu clã no Agreste alagoano, foi eleito ganhador do Prêmio Megafone de Ativismo 2024 na categoria Reportagem de Mídia Independente. O ativismo ambiental venceu em dez das catorze categorias do prêmio. O grande prêmio e o prêmio do júri, por exemplo, as trajetórias do ativista ambiental Thiago Ávila e da líder camponesa Elizabeth Teixeira, agora com 99 anos.

Dossiê revelou a dimensão do império agropecuário dos clãs Lira e Pereira.

Durante seis meses, o núcleo de pesquisas do observatório investigou as conexões econômicas e políticas das famílias Lira e Pereira, sobrenomes paterno e materno do presidente da Câmara. Lançado em novembro de 2023, o documento —com mais de 70 páginas— revela um histórico de violações de direitos socioambientais: do despejo de camponeses por Arthur e seu pai Benedito de Lira em Quipapá (PE) à criação e venda gado criado dentro da Terra Indígena Kariri-Xocó pelos primos do presidente da Câmara.

A pesquisa identificou seis fazendas administradas pelos herdeiros de Adelmo Pereira — primo da mãe de Arthur — em São Brás (AL), às margens do Rio São Francisco. Os imóveis estão sobrepostos a 2 mil hectares da TI Kariri-Xocó, homologada por Lula em abril de 2023.

Liderada pelo filho mais velho de Adelmo — o prefeito de Craíbas (AL), Teófilo Pereira — a família vende os bois criados dentro da terra indígena para o frigorífico Dom Grill, fundado por um dos netos do patriarca. Esse gado é abatido em um matadouro público construído por outra parente, a ex-prefeita de Campo Alegre Pauline Pereira.

Os dados sobre os conflitos entre a família de Arthur Lira e povos indígenas em Alagoas foram utilizados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) durante a campanha internacional Emergência Indígena, destinada a combater o projeto do Marco Temporal.

O dossiê revela ainda a criação de uma rede de prefeituras e consórcios intermunicipais que atuam em benefício do clã, em diálogo direto com as verbas federais: dos tratores às cavalgadas, das escavadeiras às vaquejadas protagonizadas por Arthur e seu filho Alvinho.

PRÊMIO DO JÚRI, ELIZABETH TEIXEIRA FOI TEMA DE DOCUMENTÁRIO DO OBSERVATÓRIO

Cartaz do documentário Elizabeth, lançado em setembro pelo observatório.

Além das doze categorias fixas, a terceira edição do Prêmio Megafone de Ativismo contou com duas homenagens especiais. A categoria Megafone do Ano foi concedida ao ativista ecossocialista Thiago Ávila pela criação de conteúdo sobre o genocídio do povo palestino perpetrado por Israel. O Prêmio do Júri, por sua vez, homenageou a líder camponesa Elizabeth Teixeira, que gravou seu nome na história da luta pela reforma agrária no Brasil.

Aos 99 anos, Elizabeth foi fundadora das Ligas Camponesas em Sapé, na Paraíba, e protagonizou o clássico “Cabra Marcado para Morrer” (1984), do documentarista Eduardo Coutinho.

Em julho de 2023, a equipe do De Olho nos Ruralistas viajou a João Pessoa, onde Elizabeth vive atualmente, e conversou com ela sobre o assassinato do marido João Pedro Teixeira, em 1962; sobre o período em que viveu na clandestinidade, no Rio Grande do Norte, sob outro nome; e sobre sua crença na educação e na reforma agrária como plataforma de desenvolvimento no campo brasileiro. A reportagem também percorreu o município de Sapé, entrevistando mulheres impactadas pelo exemplo e pela luta de Elizabeth.

As gravações resultaram no documentário “Elizabeth“, lançado em setembro, em parceria com o Memorial das Ligas e Lutas Camponesas. Dirigido por Alceu Luís Castilho, Luis Indriunas e Vanessa Nicolav, o curta de 18 minutos está em circuito, tendo sido exibido em doze estados e nas Assembleias Legislativas da Paraíba e de São Paulo. O filme foi um dos ganhadores na categoria Curta-Metragem do 2º Festival Internacional de Cinema Agroecológico (FicaEco), no Rio de Janeiro.

São as imagens do documentário que ilustram a homenagem à Elizabeth Teixeira publicada pelo Prêmio Megafone em sua conta no Instagram.

ATIVISMO SOCIOAMBIENTAL VENCE DEZ CATEGORIAS

Divulgados ao longo das últimas duas semanas, os resultados do Prêmio Megafone de Ativismo mostram a importância da questão agrária e ambiental nas mobilizações sociais em curso no Brasil. Das 14 premiações anunciadas — incluindo os prêmios especiais do júri e Megafone do Ano — dez estão diretamente relacionadas às lutas de povos indígenas e camponeses.

Ato contra Braskem foi ganhador da categoria Marcha ou Manifestação. (Imagem: Megafone)

Além da categoria de Reportagem de Mídia Independente, vencida pelo De Olho nos Ruralistas, e das homenagens a Elizabeth Teixeira e Thiago Ávila, as escolhas no eixo de comunicação incluem o filme “Luta por reparação”, vencedor em Documentário. Produzido pela Mongabay Brasil, o curta retrata as denúncias dos Pataxó e Pataxó Hã Hã Hãe contra a mineradora Vale após o crime de Brumadinho.

Na categoria Fotografia, a ganhadora foi Juliana Duarte, pelo registro da jovem indígena Natalia Moraes em ato contra o Marco Temporal, em Brasília. A luta indígena também foi destaque nas categorias Meme ou Humor de Internet, dada a Zadiel e Lúcia Munduruku pela esquete “Barbie Climática”; e Música ou Videoclipe, pela produção “Brasil do Cocar Remix”, parte da campanha Emergência Indígena, da Apib.

Os movimentos do campo estiveram representados nas categorias ligadas a ações de base. A juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) venceu em Ação Direta pelo “escracho” na sede da multinacional alemã Basf, em Sapucaia do Sul (RS). Darlon Neres dos Santos, membro do coletivo Guardiões do Bem Viver, foi escolhido como Jovem Ativista pelas denúncias realizadas contra a exploração de madeira ilegal no Assentamento PAE Lago Grande, em Santarém (PA).

Por fim, na categoria Marcha ou Manifesto, o vencedor foi o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) pelo ato unificado em Maceió (AL) contra a petroquímica Braskem, responsável pelo afundamento de cinco bairros no entorno da Lagoa do Mundaú.

| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de projetos do De Olho nos Ruralistas. |

Imagem principal (Megafone): dossiê sobre Arthur Lira é vencedor de prêmio de ativismo

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