Jullyene Lins: “Arthur Lira me ofereceu R$ 5 milhões para desistir de ação e falar bem dele”

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Mãe dos filhos do presidente da Câmara, diz que proposta veio do ex-assessor Luciano Cavalcante, investigado pela PF; Jullyene, que acusa o deputado de agressão e estupro, tem usado as redes sociais para repercutir as informações do dossiê “Arthur, o Fazendeiro”, publicado pelo De Olho nos Ruralistas

Por Carolina Bataier e Nanci Pittelkow 

Dossiê revela a dimensão do império agropecuário dos clãs Lira e Pereira.

Por meio do seu ex-assessor Luciano Cavalcante, o presidente da Câmara, Arthur Lira, tentou fechar um acordo de R$ 5 milhões com sua ex-mulher Jullyene Lins, em 2019. Fonte: a própria Jullyene, que acusa o deputado de agressão e estupro. Em entrevista ao De Olho nos Ruralistas, ela contou quais as condições: encerrar a ação de partilha de bens da união de dez anos entre os dois e escrever uma carta “para ele distribuir na imprensa falando que ele era um bom pai, que eu não tinha problema com ele”. 

A quantia significa 83,8% do patrimônio declarado por Lira no ano passado ao Tribunal Superior Eleitoral: R$ 5.965.870,58. E três vezes mais o patrimônio declarado em 2018, R$ 1.718.924,20.

“O Luciano Cavalcante falou com uma advogada, que mandou fazer interlocução para me oferecer isso”, afirma Jullyene. Corria o ano de 2019. Ela recusou a proposta: “Eu quero tudo na Justiça”.

Cavalcante é um dos investigados em operação da Polícia Federal que identificou fraude em licitações de compra de kits de robótica para municípios de Alagoas, em 2023.

Jullyene falou com a reportagem após a divulgação do dossiê “Arthur, o fazendeiro”, que mostra as relações agrárias e políticas dos clãs Pereira e Lira.  Ela disse não ter conhecimento sobre muitos dos fatos apontados no relatório. “Isso já foi de um tempo para cá toda essa logística que ele está fazendo de usar dinheiro público para fazer o benefício próprio”.

O estudo identificou mais de cem fazendas de propriedade das duas famílias. Entre elas propriedades incidentes na Terra Indígena Kariri-Xocó, na região do Rio São Francisco, fronteira com Sergipe. Nas redes sociais, ela conta como viu vários desses parentes de Lira crescerem. E lamenta que eles tenham aderido às práticas do primo poderoso.

ELA TEME “APARECER LÁ MORTA COMO MARIA”

Jullyene Lins. (Foto: Arquivo pessoal)

Jullyene Lins diz temer pela sua vida. “Eu não posso sair pra lugar nenhum, eu tenho medo de emboscada, tenho medo de um assalto”. A ex-mulher de Lira já pediu asilo internacional após as reportagens em que ela falou, pela primeira vez, sobre o estupro.

Na época, ela procurou o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, então sob gestão de Damares Alves. Ao seu pedido de proteção, recebeu a proposta de se mudar para o extremo Norte do Brasil, receber uma nova identidade e um salário mínimo por mês. Jullyene recusou: “Para depois que eu aparecer lá morta como Maria?”.

Durante todo o governo Bolsonaro, Arthur Lira foi um aliado de primeira hora do presidente e fez campanha para a reeleição.

“Para os homens poderosos, Maria da Penha não funciona”, continua Jullyene. “Imagine agora, o cara presidente da Câmara, cheio de poder, todo mundo na mão dele, acha que vai acontecer alguma coisa com ele?”

ENTENDA AS DENÚNCIAS DE JULLYENE CONTRA O DEPUTADO

Arthur Lira com seu ex-assessor Luciano Cavalcante. (Foto: Reprodução)

Jullyene Lins e Arthur Lira se conheceram em 1996 e começaram uma união estável. Em 2006, após alguns meses de separação, Jullyene prestou queixa por agressão e violência doméstica, com testemunhas e exame de corpo de delito comprovando as lesões. Nove anos depois, Lira foi inocentado em julgamento do STF, após testemunhas voltarem atrás em seus depoimentos. A própria Jullyene disse ter sido ameaçada durante o processo. 

Desde então, ela passou a dar entrevistas acusando o deputado de corrupção e recebimento de propina. Em 2023, as acusações ganharam novo destaque quando Jullyene deu uma entrevista à Agência Pública: disse que foi vítima de violência sexual no mesmo episódio da acusação de violência física.

Jullyene conta que guardou essa história em respeito aos filhos, na época crianças.Eu não falei por conta que eles eram pequenos, né”, diz. “Tinha a família, a vergonha. Enfim, tudo isso engloba essa situação”. A reportagem foi censurada pela 6ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios em setembro.

ELA DEFENDE A CRIAÇÃO DE UMA CPI PARA INVESTIGAR O DEPUTADO

Assim que o ICL divulga a primeira reportagem, Jullyene compartilha nas redes. (Foto: Reprodução)

Assim que o dossiê do De Olho nos Ruralistas foi publicado, na manhã de 13 de novembro, em parceria com o portal ICL Notícias, Jullyene passou a compartilhar posts em suas redes sociais com as reportagens e informações.

Na primeira publicação, no X/Twitter, ela provoca: “A sujeira não fica embaixo do tapete durante muito tempo, a fama e o poder um dia acabam, as únicas coisas que ficam são os verdadeiros valores!”. 

Em outra postagem, com recorte do comentário de Eduardo Moreira no noticiário do ICL Notícias, ela sugere uma CPMI. “[Os deputados] São tão corajosos para lidar com ilações fantasiosas, mas são omissos em criar comissões para investigar os “Kits rouboticas” (sic), ou mesmo o mega patrimônio omitido, sonegado e escancarado para todo o Brasil pela imprensa independente e séria!”, referindo-se aos dados publicados no dossiê.

No dia 14, ela compartilha a segunda reportagem da série, “Arthur Lira expulsou camponeses de terras que não declarou“, e afirma:

— Expulsar camponeses, de suas terras, tomar posse de terras indígenas, usar seus capatazes para tocar o terror nos que resistem, é típico de um covarde CALOTEIRO, que de competência nunca teve em nada, apenas de chantagear e se apropriar de dinheiro público como se fossem terras, pelas quais só precisava bater o pé para assustar os camponeses, assim como tem feito com membros do judiciário!”

Em sua conta no Instagram, Jullyene Lins também repercute o dossiê sobre seu ex-marido, além de manter nos destaques dos stories denúncias sobre a face agrária de Arthur Lira. Um áudio de um ex-funcionário fala: “Mentira, ele não vendeu nenhuma, a [fazenda] Estrela, a Pantaneiro, a Taquari, a Santa Quitéria e o Limão, tudo em Pernambuco é dele [Lira]”. Segundo o funcionário, não identificado, o presidente da Câmara tem 5 mil cabeças de gado.

As publicações de Jullyene, somadas, ultrapassaram as 50 mil visualizações e 2 mil compartilhamentos pouco mais de 24 horas depois do lançamento do dossiê. Ela tem repercutido todos os posts do De Olho nos Ruralistas (reproduzidos no ICL Notícias) sobre o tema.

Foto principal (Reprodução/A Notícia de Alagoas): ex-esposa acusa Arthur Lira de oferecer dinheiro para desistir de ação.

| Carolina Bataier é jornalista e escritora. |

|| Nanci Pittelkow é jornalista. ||

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