Ruralista que sugeriu demitir “petistas e esquerdistas” desrespeitou leis trabalhistas e tem tio envolvido em grilagem

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Apoiador incondicional de Bolsonaro, o piloto Raijan Mascarello se referia à crise do coronavírus; ele  já foi investigado por irregularidades na fazenda Comil, em Sapezal (MT); seu tio Rovílio é acusado de grilagem no Pará e no Matopiba

Por Bruno Stankevicius Bassi, Leonardo Fuhrmann e Alceu Luis Castilho

“Empresários do Brasil, caso tenham que escolher funcionários pra mandar embora nessa crise, escolham os petistas ou os que são de esquerda”. A postagem do piloto de automobilismo e fazendeiro Raijan Cezar Mascarello, lançada em sua conta do Instagram na última sexta-feira (10), causou polêmica nas redes.

Em post do Instagram, piloto defendeu a demissão de “petistas”. (Imagem: Reprodução/Instagram)

Conhecido por adesivar seus carros de corrida com campanhas pró-agronegócio e mensagens de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, Raijan recebeu apoio de seguidores famosos, como o deputado federal e ex-senador José Medeiros (Podemos-MT), que endossou a afirmação em sua conta do Twitter: “Fez uma especie de legitima defesa, pois de norte a sul do país esse segmento é demonizado por essa galera”.

A conclamação de Raijan, que viola o direito fundamental da liberdade de manifestação de pensamento (Artigo 5º, incisos IV e VIII da Constituição Federal de 1988, segundo jurisprudência), não é a única polêmica em sua vida. Em 2008, o Ministério Público do Trabalho (MPT) instaurou um inquérito civil contra o piloto-fazendeiro e seu pai, Raimundo Tivotto Mascarello, falecido em 2015, após apontar a existência de irregularidades trabalhistas na fazenda Comil, em Sapezal (MT).

Segundo a portaria nº 402, de 11 de setembro de 2008, assinada pela procuradora Eliney Bezerra Veloso, foram constatadas “retenção de CTPS, pagamento de salário inferior ao contratado, ausência de repasse do adicional de insalubridade, anotação irregular da jornada de trabalho, não concessão de repouso semanal remunerado, intervalo intrajornada inferior a 01 hora, trabalho em feriados, labor extraordinário em limite superior ao permitido pela legislação e não pagamento das horas suplementares trabalhadas”.

Carros de Raijan estampam campanhas pró-agronegócio e em apoio a Bolsonaro. (Foto: Facebook)

De acordo com o portal da Procuradoria Regional do Trabalho da 23ª Região, o processo, de nº 000054.2010.23.000-9, foi arquivado em abril de 2010 após a situação ter sido solucionada.

Dono da Mascarello Armazens Gerais Ltda e da Agropecuaria Alto Do Sapezal, Raijan também responde a processo instaurado em 2018 pela 3ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de Mato Grosso por falsificação de documento público.

Em seus posts no Facebook, Raijan Mascarello defende que o Brasil “não pode parar”, em meio à pandemia do novo coronavírus. Apesar de ser ruralista, ele já fez postagens contra a China, defendendo a substituição das exportações do Brasil — as principais em seu setor — para o país asiático. Seu alinhamento com Bolsonaro é incondicional, o que inclui ataque a quaisquer adversários políticos do presidente.

TIO ROVILIO FOI DENUNCIADO NA OPERAÇÃO ARARATH

Apesar de ter construído sua carreira em Sapezal, a ponto de receber em 2014 o título de cidadão mato-grossense, Raijan e sua família são originários de Cascavel (PR), onde reside seu tio Rovílio Mascarello.

Fundador de um dos maiores grupos empresariais do Paraná, que fabrica de ônibus e carrocerias a silos e secadores sob a marca Comil (mesmo nome da fazenda de Raijan em Sapezal), Rovilio aparece como réu em uma dezena de processos que se estendem da região Sul ao Mato Grosso, passando por Pará e Piauí.

No Mato Grosso, foi um dos alvos da Operação Ararath, sendo acusado de fraude cartorial na compra de uma fazenda de 40 mil hectares em Paranatinga, parte de um esquema de compra de sentenças ao lado do empresário José Pupin, que já foi chamado de “o rei do algodão” e está com sua empresa agropecuária em recuperação judicial, e do advogado Xavier Dallagnol, tio do procurador da República Deltan Dallagnol, chefe das investigações na Operação Lava Jato. A operação buscava pagamentos irregulares feitos pelo governo do Mato Grosso a empreiteiras e investigou deputados, conselheiros do Tribunal de Contas, um ex-prefeito de Cuiabá e um ex-governador.

Rovilio Mascarello (dir.) exibe sua Ferrari de rua ao lado do modelo esportivo 458 GT3. (Foto: Auto Racing)

Em 2015, Xavier Dallagnol figurava como um de seus advogados, em processo movido pelo Ministério Público Estadual contra Mascarello e Pupin, entre outros, referente a uma acusação de improbidade administrativa supostamente praticada por um oficial do Cartório de Registro de Imóveis de Paranatinga (MT). Essa e outras histórias foram contadas pelo observatório no ano passado, em uma série de reportagens sobre a face agrária da família Dallagnol.

A atuação de Rovílio no Mato Grosso também inclui uma disputa judicial com o irmão Raimundo Mascarello, pai de Raijan, pelo usucapião de um imóvel rural de 604 hectares em Sapezal. Na ação ajuizada por Raimundo Tivotto Mascarello e sua esposa Jandira Júlia Sartori Mascarello em face de Ângelo Brizot, Rubem Krug, Agrícola Sperafico Ltda (do ex-deputado paranaense Dilceu Sperafico) e Fazenda Planorte, Rovilio é citado junto à ex-esposa, Iracele Maria Crespi Mascarello, por possuir propriedade que estaria sobreposta à área requerida pelo irmão.

Mais tarde, Rovilio e Iracele recuaram de sua contestação após observarem que “a área usucapienda não é a mesma constante da matrícula nº 31.719, razão pela qual informaram nada ter a opor quanto à pretensão autoral”. O imóvel também é disputado pela União: parte do perímetro incidiria sobre a Gleba Vertigem.

GRILAGEM DE 1 MILHÃO DE HECTARES NA TERRA DO MEIO

As acusações contra Rovilio Mascarello não param por aí. Ostentando fama de bon vivant em Cascavel, onde seus passeios de Ferrari pelo centro lhe valeram uma aparição no Fantástico como exemplo de “vovô galanteador”, o empresário paranaense foi acusado em 2013 de tentar se apropriar ilegalmente de 1,2 milhão de hectares sobrepostos a unidades de conservação federais no município de Altamira, no Pará.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Pará cancelou três registros em nome de empresas controladas por Rovilio no Cadastro Ambiental Rural (CAR), sobrepostos às Reservas Extrativistas (Resex) Rio Iriri, Riozinho do Anfrísio e Rio Xingu, às Estações Ecológicas da Terra do Meio e do Rio Xingu, ao Parque Nacional da Serra do Pardo, e à Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu.

Rovilio Mascarello tentou grilar área de 1,2 milhão de hectares na Terra do Meio, Pará. (Imagem: Cândido

Em 2013, Rovílio foi acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) por crimes contra a ordem tributária e sonegação fiscal cometidos em movimentações financeiras no sul dos estados do Maranhão e Piauí. As suspeitas tiveram início após um saque em espécie no valor de R$ 8,3 milhões na boca do caixa de uma agência do Banco do Brasil em Teresina, cujo valor havia sido depositado dias antes pela RM Imóveis Ltda, da qual Rovílio Mascarello é sócio.

De acordo com o MPF no Piauí, a empresa movimentou mais de R$ 18 milhões de forma atípica. A sequência das investigações desvendou uma teia de grilagem de terras no Piauí, envolvendo o paulista Euclides De Carli, falecido no mês passado e suspeito pela grilagem de mais de 1 milhão de hectares no Sul do Maranhão, área equivalente ao território do Líbano.

Em 2014, o tio de Raijan foi indiciado por estupro de vulnerável em Cascavel. As vítimas tinham entre 13 e 17 anos. Segundo a mãe de uma delas, ele oferecia dinheiro e imóveis em troca da virgindade.

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