Mortes de agentes indígenas de saúde escancaram omissão do governo federal

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Profissionais relatam escassez de equipamentos de proteção durante a pandemia e cobram da Secretaria Especial de Saúde Indígena, a Sesai, um plano que não seja apenas genérico; eles precisam utilizar a mesma máscara o dia todo e elas estão acabando 

Por Maria Fernanda Ribeiro

A agente indígena de saúde Daniela Teodozio Tabajara, 30 anos, estava em uma ambulância sendo transferida para uma unidade hospitalar de alta complexidade em Sobral, no Ceará, quando o automóvel deslizou e caiu em um barranco. Ninguém se feriu, mas o acidente impediu que a profissional chegasse até o destino final. Com a saturação baixa, ela não conseguiu o respirador para tentar sobreviver à infecção pelo coronavírus e morreu.

Daniela morreu oito dias após atualizar seu perfil com recomendação de isolamento. (Imagem: Facebook)

Daniele foi a primeira indígena no Ceará com confirmação de óbito pela Covid-19, mas não foi o primeiro caso nem de morte e nem de contaminação entre profissionais de saúde que trabalham na linha de frente no combate à pandemia entre os indígenas no Brasil.

Na Amazônia há mais dois óbitos registrados de agentes indígenas, ambos da etnia Tikuna, segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab): Raimundo Quirino Ramos, técnico de enfermagem, e o médico Cleubir Tikuna. Nessa conta ainda não entra o óbito confirmado do Tikuna Alberto Parcia Felix, agente de saneamento básico, que durante trinta anos trabalhou em Benjamin Constant (AM).

Além dele, o motorista não-indígena Edil Castro Miranda, 61, da Casa de Saúde Indígena (Casai) de Boa Vista, foi a primeira vítima confirmada do novo coronavírus em Roraima.

CONSELHO INDÍGENA COBRA PLANO EMERGENCIAL

Os problemas entre os profissionais da saúde são os mesmos entre indígenas de diversas etnias: omissão por parte do poder público e o sentimento de estarem lutando contra o vírus sem a ajuda necessária, da prevenção ao tratamento. Relatos colhidos pela reportagem do De Olho nos Ruralistas apontam para a escassez de equipamentos de proteção individual e a ausência de testes rápidos, que deveriam ser fornecidos pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão ligado ao Ministério da Saúde.

Com isso, os profissionais estão se contaminando, alguns deles morrendo. E a omissão do governo ainda colabora para a disseminação do vírus nas aldeias.

O primeiro caso de coronavírus entre os povos indígenas foi de uma agente de saúde, de 20 anos, da etnia Kokama, no município de Santo Antonio do Içá, no Amazonas, em março. Ela foi infectada por um médico que entrou no território sem ser testado e estava contaminado. Pelo menos mais quarenta casos positivos entre os indígenas do Alto Rio Solimões estão relacionados a ele.

De acordo com Cassimiro Tapeba, da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), a situação tem se agravado: “Não tem chegado quase nada para o nosso estado. Muitos profissionais estão sendo infectados e como não tem teste é alto o nível de subnotificações. Recebemos 120 testes rápidos para uma população de 36 mil indígenas e uma equipe de quase sessenta profissionais”.

Associações indígenas pedem à Sesai um plano emergencial de apoio às comunidades, que atenda a demandas específicas de cada um dos territórios e povos e não um plano genérico, como o estabelecido até o momento. Recentemente, após a morte da professora Macuxi Bernita Miguel, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) divulgou nota de pesar solicitando que a Sesai “apresente de imediato os planos emergenciais para apoio às comunidades”.

Técnica de enfermagem organizou ação de conscientização em Cantá, Roraima. (Foto: Reprodução/CIR)

ENFERMEIRA DIZ QUE MÁSCARAS ESTÃO ACABANDO

Uma enfermeira ouvida pela reportagem afirma que na unidade onde ela atua falta quase tudo, o que tem está prestes a terminar e cada um se vira como pode. Segundo ela, a falta de estrutura nos serviços de atenção básica já era presente antes da pandemia, que só veio para escancarar o descaso. Se não fossem as doações de terceiros, ela disse, a situação seria ainda pior.

“Nossas máscaras estão acabando e já bate um desespero porque não sabemos se receberemos mais”, afirma, sem querer se identificar. “Temos que usar a mesma máscara o dia todo e não somos testados”. A enfermeira disse que a orientação “da chefia” é testar apenas os profissionais que apresentem sintomas. “O problema é que até apresentar sintomas a gente já circulou nas aldeias e já contaminamos ou somos contaminados”.

A ausência de testes rápidos é apontado como um dos problemas mais graves quando o assunto é a segurança dos agentes de saúde. Se a pessoa tem o vírus, mas é assintomática e vai para a aldeia trabalhar, ela passa de profissional que trabalha na linha de frente para um agente da contaminação, além de não receber o tratamento necessário.

MPF RECOMENDA AQUISIÇÃO IMEDIATA DE EQUIPAMENTOS

Vacinação no Dsei Guamá-Tocantins, em abril. (Foto: Sesai)

Realizar o teste em massa dos profissionais de saúde para evitar a disseminação do vírus nas aldeias é o objetivo do Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA) ao recomendar ao Dsei Guamá-Tocantins que adquira, “imediatamente”, equipamentos de proteção individual para todos os profissionais das Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena, “inclusive aos agentes de saúde e os agentes de saneamento, garantindo a proteção dos profissionais e dos indígenas que entre em contato com eles”.

A região é responsável pelo atendimento de 42 etnias. É de lá que vem o relato de uma cacica do povo Gavião, Katia Silene da Costa Valdenilson, da Terra Indígena Mãe Maria, sobre a omissão da Sesai na prevenção e a possibilidade de a contaminação ter chegado até o território por meio dos agentes de saúde: “Estávamos em quarentena, usando máscara, álcool gel, e com muita preocupação que esse vírus chegasse. Víamos as informações na televisão, pois não tivemos orientação e nem recebemos material de prevenção. A prevenção partiu da consciência de cada um. Conversamos e decidimos fechar as aldeias”.

Mesmo assim, ela e toda a sua família acabaram contaminadas pela Covid-19. Ela disse acreditar que é possível que o vírus tenha chegado no território por uma equipe de saúde que realizou uma vacinação na aldeia Parkatêjê, onde mora sua filha, no fim de abril. A Terra Indígena Mãe Maria fica no Pará, no município de Bom Jesus do Tocantins.

“Antes da vacina todo mundo estava bem, mas depois todos adoeceram”, conta ela Começamos a sentir sintomas que não eram de uma gripe normal. Fizemos o teste na cidade e deu positivo. Foi muito difícil receber a notícia do resultado positivo, foi assustador”.

PANDEMIA JÁ ATINGE 61 ETNIAS NO BRASIL

O Congresso aprovou na quinta-feira (21) um plano emergencial para combater a disseminação do vírus entre os povos indígenas. Ele prevê a quarentena compulsória antes de profissionais terem acesso às aldeias. A lei foi proposta pela deputada Joenia Wapichana (Rede-RR), a primeira mulher indígena a assumir uma cadeira no Congresso.

De Olho nos Ruralistas mostrou no dia 03 que a contaminação de profissionais de saúde indígena já havia acendido o alerta para a disseminação do coronavírus dentro dos territórios pelos próprios agentes que atuam na linha de frente no combate à pandemia: “Agentes de saúde indígena contaminados colocam em xeque política do Ministério da Saúde“. E que isso coloca em xeque o Plano de Contingência Nacional para Infecção Humana pelo novo Coronavírus (Covid-19) em Povos Indígenas, lançado no dia 17 de março pela Sesai.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) registra até o momento 125 mortes em dez estados brasileiros. As estatísticas incluem os indígenas aldeados e também os de contexto urbano. Já são 987 indígenas contaminados e 61 etnias atingidas.

A Sesai não respondeu às perguntas da reportagem.

Foto principal (Reprodução): agentes do Dsei Alto Solimões, em Santo Antônio do Içá, no Amazonas 

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