Exército e Sesai doam colchões velhos e sujos para indígenas com Covid-19 em SC

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Material seria destinado a ala de atendimento aos infectados que está sendo estruturada na TI Laklãnõ, na região central do estado; desde o primeiro registro, no dia 30 de julho, 70 indígenas contraíram a doença e dois faleceram

Por Poliana Dallabrida

Colchões velhos, sujos e rasgados. Essa foi a “doação” que o Exército e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) fizeram aos indígenas infectados por Covid-19 na Terra Indígena (TI) Laklãnõ, entre os municípios de Doutor Pedrinho, Itaiópolis, José Boiteux e Vitor Meireles, na região central de Santa Catarina, nesta quinta-feira (13).

Junto a cobertores, também sujos, os cinquenta colchões seriam destinados a uma ala que está sendo estruturada para o tratamento e isolamento dos indígenas infectados pelo novo coronavírus dentro da TI. Ao todo, 2.300 pessoas vivem em nove aldeias.

Desde o primeiro registro da doença na região, no dia 30 de julho, setenta indígenas do povo Xokleng, autodenominado Laklãnõ, foram contaminados e dois faleceram. Entre as vítimas está uma bebê nascida morta. A mãe tinha Covid-19 e a criança também estava infectada.

A promessa feita aos indígenas era a da entrega de colchões novos que estavam guardados em uma unidade da Sesai em Ipuaçu, no oeste do estado. O Exército era responsável por buscar o material e entregá-lo na TI. “A Sesai disse que esse material não tinha sido usado”, explica Faustino Criri, da aldeia Palmeira. “Achamos que era um material novo, fechado. Quando chegou em José Boiteux é que vimos que os colchões não eram adequados”.

A “doação” foi motivo de chacota entre os Xokleng. “Nem minha cachorra quis deitar no colchão”, disseram, em tom jocoso, os indígenas em áudio que circula no WhatsApp.

Depois da reclamação dos moradores, o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Interior Sul recolheu os colchões e os cobertores, ainda na quinta-feira. O DSEI Interior Sul é o braço da Sesai para o atendimento de saúde a 38,9 mil indígenas em 194 aldeias.

Com um aumento expressivo no número de casos, os indígenas contam com apenas um médico para o atendimento de todas as nove aldeias. “Semana passada eles mandaram uma equipe de resposta rápida, com um enfermeiro e um técnico de enfermagem”, afirma Faustino Kriri. “Semana que vem, me parece, que está vindo mais um médico provisoriamente”.

A reportagem do De Olho nos Ruralistas tentou contato por telefone com o DSEI Interior Sul, mas ninguém respondeu as ligações. O Ministério da Saúde afirmou em nota que já investiu cerca de R$ 70 milhões em ações de enfrentamento da Covid-19 entre os povos indígenas, para além dos recursos próprias da Sesai. Uma busca rápida na internet mostra que um colchão de solteiro novo custa em torno de R$ 260,00.

Atualização: a Sesai e o DSEI Interior Sul afirmaram, em nota, que os colchões recebidos para compor o alojamento de pacientes com Covid-19 na TI Laklãnõ não estavam em bom estado de conservação e foram devolvidos. A Sesai esclarece que nenhum indígena se encontra em isolamento no local, que ainda está sendo equipado. “Novos colchões estão sendo adquiridos em parceria com a Defesa Civil de Santa Catarina para montagem do alojamento”, diz trecho da nota.

O Comando da 5ª divisão do Exército também se pronunciou por meio de nota e afirmou que os colchões foram usados para equipar uma unidade de atendimento na TI Xapecó, no município de Ipuaçu, em Santa Catarina, no dia 1º de julho. “O estado dos colchões não era novo, mas em boa situação de uso”, diz a nota, que traz em anexo duas imagens do alojamento. No dia 31 do mesmo mês, o DSEI Interior Sul pediu, segundo nota do Exército, a transferência do material para a TI Laklãnõ. O translado dos colchões, cobertores e beliches foi realizado pela Sesai.

 

| Poliana Dallabrida é repórter do De Olho nos Ruralistas |

Foto principal (Reprodução): distribuição de colchões velhos em terra indígena

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One commentOn Exército e Sesai doam colchões velhos e sujos para indígenas com Covid-19 em SC

  • GERALDO GALVAO FILHO

    É uma vergonha que o Exercito Brasileiro trate nossos Povos indígenas com tanto descaso. Depois quando se fala em genocídio o governo fica melindrado.

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