Ex-namorada de Ayrton Senna disputa terras com acampados em Eldorado dos Carajás

In De Olho nos Conflitos, Em destaque, Principal, Últimas

Adriane Yamin namorou o piloto quando adolescente; ela, a irmã e o pai Amilcar, criador das Duchas Corona, declaram ser donos de fazenda contígua ao Acampamento Osmir Venuto, alvo de tiros e de incêndio na noite de segunda-feira, no Pará 

Por Alceu Luís Castilho

Adriane divulgou em livro imagens com Senna. (Foto: Reprodução)

De um lado, glamour. Adriane Rocha Yamin ficou conhecida nos últimos anos como a “namorada secreta” de Ayrton Senna. Ela namorou o piloto entre 1985, quando tinha 16 anos, e 1988, quando ele foi campeão do mundo pela primeira vez, aos 27 anos. Em novembro de 2019, a socialite — agora uma mulher de 51 anos — lançou um livro de 730 páginas sobre essa relação: “Minha Garota“. Com muitas fotos das viagens pelo mundo. O ponto de encontro quando ele estava em São Paulo era a Fazenda São Judas Tadeu do Chapadão, em Porto Feliz (SP), onde eles se refugiavam da imprensa e brincavam de jet-ski.

Do outro lado, conflitos de terra na Amazônia. Adriane, a irmã Christiane e o pai — Amilcar Farid Yamin é o fundador da Corona, aquela mesmo das duchas — estão ligados a um dos principais conflitos por terra no sudeste do Pará. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o complexo de fazendas que eles possuem, entre Eldorado dos Carajás e Xinguara, é “um latifúndio com mais 20 mil hectares construído a partir de processos de grilagem de terras públicas, trabalho escravo e assassinatos de trabalhadores/as rurais”.

A Liga dos Camponeses Pobres (LCP) mantém ao lado do Complexo Surubim um acampamento que o movimento chama de Área Revolucionária Osmir Venuto, em referência à defesa de uma revolução agrária. Na noite de segunda-feira (14), pistoleiros atiraram contra os acampados e atearam fogo em suas casas. Cerca de 150 famílias moram no local, na BR-155, em uma área do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), vinculado ao Ministério da Infraestrutura. Isto após despejos movidos pela família Yamin.

FOGO DESTRUIU A MORADIA DE TODAS AS FAMÍLIAS DO ACAMPAMENTO

Fogo no acampamento: segundo CPT, pistoleiros gritavam e atiravam. (Fotos: Reprodução)

Eram 23h40 quando os pistoleiros chegaram ao acampamento, informou a CPT de Xinguara, com base em imagens e nos relatos dos camponeses. Deram tiros e, aos gritos, incendiaram os barracos: “O fogo consumiu todos os pertences das famílias que aguardam serem inseridas em políticas de reforma agrária. No momento do ataque, os camponeses, entre eles mulheres, crianças, pessoas idosas e também portadores de deficiência, foram acordados pelo barulho dos disparos, momento em que fugiram para a mata para não serem assassinados. Muitos estão feridos”.

A contiguidade com a Fazenda Surubim não significa que a família Yamin esteja sendo investigada. A polícia ainda não divulgou informações sobre o crime. O procurador da República Sadi Flores Machado, que atua na região, instaurou ontem uma Notícia de Fato no Ministério Público Federal (MPF) com a seguinte ementa: “Conflito ocorrido no complexo de Fazendas Surubim, em área na qual se noticia possível grilagem de terras públicas e objeto de ação judicial em trâmite perante a Subseção Judiciária de Marabá”.

Em 2018, um procedimento aberto pela 12ª Promotoria de Justiça de Marabá apontava Amilcar Yamin como “pretenso proprietário da Fazenda Surubim”. E falava em “provável incidência de terra pública”.

Em dezembro de 2019, a PM do Pará atirou em acampados que colhiam castanhas dentro da Fazenda Surubim, em área que eles consideram públicas. A região é conhecida como Polígono dos Castanhais. Segundo a CPT, em nota assinada também por organizações de direitos humanos e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-Pará), os policiais não tinham mandado judicial. Seis camponeses foram alvejados com balas de borracha, à queima-roupa. Um deles registrou a ação por meio de seu celular.

A CPT e os juristas informaram na época que essa não tinha sido a primeira violência contra os acampados. Em 2018, Eudes Veloso Rodrigues foi assassinado por pistoleiros. No ano anterior, Denizart Alves de Souza, da Liga dos Camponeses Pobres, já tinha sofrido um atentado. “Muito embora os casos tenham ganhado repercussão”, informava a Pastoral da Terra, “não há notícias das investigações referentes aos crimes praticados pelas milícias que atuam na Fazenda, ou com relação aos mandantes”.

EMPRESÁRIO É REFERÊNCIA NA REPRODUÇÃO DE GADO BOVINO

Mais conhecido pelas Duchas Corona, Amilcar Yamin é uma referência nacional em genética bovina. Ele criou gado das raças holandês e pardo suíço. Depois, trouxe da França a raça limousin. Sempre com fama de eficiência. Em seguida, apostou no gado guzerá. E no nelore. O nome do chuveiro elétrico de plástico migrou para o gado, com um certo “Projeto Corona” — o empresário não poderia imaginar a pandemia do novo coronavírus. Em 2015, a Corona foi incorporada pela Duratex, empresa do grupo Itaú. E cede seu nome à marca principal, a Hydra.

Christiane, fã de Bolsonaro, e Amilcar Yamin. (Foto: Reprodução)

Um perfil da revista Dinheiro Rural, em 2016, falava em 16 mil hectares de Yamin na região de Marabá. O município contíguo a Eldorado dos Carajás é o principal da região, no sudeste do Pará. E em 15 mil cabeças de gado.

Segundo a CPT, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) constatou a existência de terras públicas federais na área da fazenda. E, por isso, ajuizou uma ação contra Amilcar, Adriane e Christiane Yamin, pedindo que se imponha a eles o dever de “não oferecer obstáculo à realização de vistoria em imóvel rural que lhes pertence”.

Ainda de acordo com a Pastoral da Terra, o Complexo Surubim é composto pelas Fazendas Surubim, São José, Canta Galo e Cedro. Em uma ação movida em 2012, pai e filhas afirmaram à Justiça que eles “sempre exerceram o domínio e a posse mansa e pacificamente” e que a propriedade “cumpre todos os requisitos da função social”.

A família do fazendeiro possui terras no Pará e no interior paulista. Em Angatuba (SP) ele mantém a empresa Santa Fé Administração de Bens Próprios Empreendimentos e Participações Ltda, voltada para a pecuária, em sociedade com a mulher, Marilene Rocha Yamin. A empresa Central de Genética Limousin Limitada, em Porto Feliz (SP), está no nome dela.

É em Porto Feliz que fica a Fazenda São Judas Tadeu do Chapadão, uma referência na criação de gir leiteiro. A ex de Ayrton Senna, Adriane Yamin, costuma se referir a ela de forma abreviada, como neste post no Instagram: “A Fazenda Chapadão, da minha família, era nosso ponto de encontro social quando Beco (apelido carinhoso de infância para o Ayrton) estava em São Paulo. Era nosso refúgio, longe do agito da capital e do olhar sempre atento dos jornalistas”.

| Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas. |

Imagem principal: fotos de Adriane Yamin (Reprodução) e do Acampamento Osmir Venuto (Ellan Lustosa/AND)

You may also read!

Assentados do Pará denunciam extorsão por advogado ligado ao agronegócio

Eles dizem que tática de William Lopes é difamar órgãos públicos, ONGs e sindicatos, enquanto cobra dinheiro para criar

Read More...

Acusado de matar líder, fazendeiro ameaça com armas e drones no Tocantins, contam camponeses

Em 2018, o grileiro Paulo Freitas conseguiu expulsar famílias que acampam em Palmeirante; hoje ele intimida as famílias obrigadas

Read More...

Plataforma mostra uso do fogo como arma de guerra contra povos do campo

Dossiê lançado por trinta organizações retrata devastação ambiental e conflitos por terra gerados pelo agronegócio no Cerrado, na Amazônia

Read More...

Leave a reply:

Your email address will not be published.