De Olho nos Ruralistas publica relatórios sobre desmatamento na Amazônia e no Cerrado

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Observatório evade dados sobre empresas e cadeias produtivas relacionadas a dezenove casos emblemáticos de desmatamento ocorridos ao longo de 2020; série de reportagens detalha, alerta por alerta, as relações políticas e econômicas em cada imóvel

Por Bruno Stankevicius Bassi

Alerta mostra supressão de 3.784 hectares na Fazenda Serra Branca I, em Uruçuí (PI).

A destruição da Amazônia e do Cerrado não se resume a coordenadas e imagens de satélite. Por trás dos números estão nomes e CNPJs. De empresários e clãs políticos, mas também de multinacionais. Cadeias produtivas inteiras que continuam contribuindo para o desmatamento, seja fazendo vistas grossas, seja adotando controles complacentes com seus fornecedores.

Ao longo de 2020, o De Olho no Ruralistas participou do consórcio de pesquisa responsável pela publicação dos relatórios Rapid Response. Ele divulga, todo mês, casos de supressão de vegetação nativa nos dois biomas relacionados às cadeias de soja e pecuária. O trabalho é realizado a partir do cruzamento dos alertas de desmatamento emitidos pelo Sistema de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes) e pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) com imagens de satélite para confirmação visual.

Os dados são então cruzados com informações do Sistema de Gestão Fundiária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Sigef/Incra), do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (SiCAR) e de outras bases públicas para confirmação da titularidade das terras. Outros sistemas são utilizados, então, para verificação das relações empresariais e comerciais de cada propriedade, dentro e fora do país.

Parte desses casos será agora publicada em português e disponibilizada pelo observatório em quatro volumes. Cada um correspondente a um trimestre do último ano. As duas primeiras edições trazem onze casos, compreendendo os estados do Pará, Mato Grosso, Bahia, Piauí e Maranhão, com um total de 21.635 hectares de vegetação nativa suprimida. Confira abaixo:

Rapid Response vol. 1 – Janeiro a Março de 2020
Rapid Response vol. 2 – Abril a Junho de 2020

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O consórcio é liderado pela organização ambiental Aidenvironment. Além do observatório, ele é composto pelas instituições Mighty Earth e Waxman (que publicam as versões originais em inglês) e pela Repórter Brasil.

SÉRIE TRARÁ CASOS DE GRILAGEM, CONFLITOS E PODER ECONÔMICO

Boa parte dos desmatamentos registrados pelo Rapid Response ocorreu já com a pandemia de Covid-19 em curso. Dos vinte casos identificados pelo consórcio, dezesseis foram registrados após o decreto de calamidade pública de 20 de março de 2020.

Em relação aos biomas, a Amazônia concentra onze alertas, contra nove no Cerrado. As áreas em risco, no entanto, são maiores no segundo: ao todo, os alertas de desmatamento registrados pela Rapid Response no Cerrado somaram 21.211 hectares, enquanto na Amazônia foram 11.688 ha. Esse número é puxado, em grande parte, pela supressão de 5.200 hectares na Fazenda Bom Jardim, em Formosa do Rio Preto (BA).

Com 68 ha desmatados em fevereiro, Fazenda Paraíso, em Carolina (MA), pertence a político com histórico de grilagem.

A propriedade pertence à Tebex Empreendimentos, empresa de investimentos agropecuários ligada a empresários dos setores têxtil e financeiro — entre eles, o dono da Le Postiche, Álvaro Miguel Restaino. Ela foi integrada à Fazenda Parceiro e é administrada pela SLC Agrícola.

A gigante do setor tornou-se, recentemente, a segunda maior proprietária de terras do Brasil após a incorporação da Terra Santa Agro, empresa que também aparece nos relatórios pelo desmatamento de 607 hectares na Fazenda Iporanga, em Nova Maringá (MT). Essa história é contada em detalhes na reportagem que abre a série especial sobre os casos: “Colosso do agronegócio nasce com casos de devastação e invasão de terras públicas“.

Fazem parte também dos relatórios — e da série de reportagens — empresas conhecidas do agronegócio, como a AgroSB, do banqueiro Daniel Dantas; a Calyx Agro, da trading francesa Louis Dreyfus; e a Agrícola Xingu, do grupo japonês Mitsui.

Outras histórias estão relacionadas a madeireiras e a casos históricos de grilagem, com destaque para a Operação Faroeste, na Bahia. Como não poderia faltar, há também políticos. Alguns de muito longe da fronteira agrícola, como o médico e deputado estadual Deodalto Ferreira, o Doutor Deodalto (DEM-RJ). Dono de, pelo menos, seis fazendas em Rondon do Pará (PA), ele aparece junto ao senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) nas investigações das “rachadinhas” da Alerj.

Foto principal (Felipe Werneck/Ibama): desmatamento na Terra Indígena Pirititi, em Roraima

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