Vandria Borari, indígena com celular citada por Salles, responde ao racismo do ministro

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Advogada e ceramista diz que uso de tecnologias é essencial para povos indígenas denunciarem crimes socioambientais do governo; titular do Meio Ambiente, que já usou cocar em evento, referiu-se a manifestantes como “tribo do Iphone”

Por Julia Dolce

Em pleno intervalo entre o Dia Nacional dos Povos Indígenas, 19 de abril, e o início, nesta quinta-feira (22), da Cúpula de Líderes sobre o Clima, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, publicou ontem em seu Instagram imagens que pretendiam ridicularizar os povos indígenas que se manifestavam em frente do Ministério do Meio Ambiente, como parte das atividades do Acampamento Terra Livre. Com o texto “recebemos a visita da tribo do Iphone”, o ministro divulgou fotos da manifestação, circulando os celulares nas mãos dos indígenas.

Ministro Ricardo Salles fez uma série de posts contra indígenas. (Imagem: Reprodução/Instagram)
De vestido verde, Vandria Borari estava na manifestação. (Foto: Reprodução/ Instagram)
Ministro destacou os celulares nas mãos dos indígenas presentes. (Foto: Reprodução/Instagram)

A manifestação divulgada por Salles — que já utilizou cocar em eventos com povos originários — unia representantes dos treze povos cujo território faz parte do Baixo-Tapajós: Arapium, Apiaká, Arara Vermelha, Borari, Jaraqui, Kumaruara, Maytapu, Munduruku, Munduruku Cara Preta, Tapajó, Tapuia, Tupayú e Tupinambá. Entre os indígenas que participavam da comunicação da manifestação e filmavam o evento estava Vandria Borari, que aparece de vestido verde nas imagens postadas por Salles.

Indígena Borari da aldeia de Alter do Chão, no município de Santarém, Vandria, avalia que, embora não surpreendam, as publicações do ministro denunciam seu “total despreparo para o cargo que ocupa”.

“A utilização dos meios de comunicação e tecnologia é justamente o meio que temos para desarmar todas as mentiras e preconceitos que recaem sobre nós, povos indígenas, além de todos os crimes ambientais que esse governo pratica em nossas terras”, afirma a Borari de 38 anos.

Para Vandria, existe uma necessidade crescente de contrapor o próprio uso que o governo faz das tecnologias de comunicação e das redes sociais:

— Esse governo manipula os meios para colocar o povo contra o povo, então precisamos nos apropriar desses mecanismos para ter nosso direito constitucional de liberdade de expressão. 

ADVOGADA TEVE EMBATE COM EX-MINISTRO DA EDUCAÇÃO, ABRAHAM WEINTRAUB

Vandria não tem dúvida sobre sua identidade indígena e não acredita que ela pode ser diminuída ou apagada por portar um smartphone. Ela é uma das principais ceramistas vivas do povo Borari, trabalhando com a prática tradicional da cerâmica da região do Rio Tapajós, um dos principais traços culturais de seu povo. Os registros arqueológicos da cerâmica tapajônica remetem a pelo menos 6 mil anos de história.

O interesse dela pela prática fez parte de um processo de retomada pessoal da ancestralidade indígena. Durante sua infância, brincando nas margens do Rio Tapajós, ela encontrava diversas peças de cerâmica enterradas na areia, e no fim do dia, voltando para casa, observava a própria avó moldando jarros.

Vandria Borari é a primeira mulher indígena formada em Direito pela Ufopa. (Foto: Rerprodução)

Já adulta, estudando a cultura tradicional dos povos do Tapajós, ela começou a transformar a argila tirada do encontro das águas tapajônicas e amazônicas, e assim foi moldando a própria identidade. “A cerâmica é um momento de paz”, conta. “Eu sinto que estou na época dos meus antigos, me conectando com eles, mesmo sabendo que estou aqui e agora”.

Advogada, Vandria Borari integra o coletivo Maparajuba de Advocacia Popular da Amazônia, que atua pelos direitos humanos, territoriais, socioambientais, étnicos e internacionais dos povos tradicionais do Baixo Tapajós. O nome do coletivo homenageia o caboclo que liderou a Cabanagem, insurreição negra e indígena que, entre 1835 e 1840, tomou conta da então província do Grão-Pará.

Ela também dá nome ao Centro Acadêmico de Direito da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). Lá, em 2019, Vandria foi a primeira mulher indígena a se formar em Direito. No dia 31 de março, o CAD Vandria Borari e o coletivo Maparajuba integraram uma ação coordenada com organizações estudantis do Brasil que protocolaram um de 35 pedidos de impeachment simultâneos contra o presidente Jair Bolsonaro.

Não é a primeira vez que Vandria é abertamente criticada por um ministro do governo Bolsonaro. Em julho de 2019, a advogada e ceramista indígena teve um embate com o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, durante visita de férias do ministro na turística Alter do Chão. Na ocasião, Vandria protestou contra cortes em verbas de inclusão social na Ufopa e contra as políticas do governo para o ambiente.

“Entrei na universidade por uma política de inclusão social, sou fruto de uma política de desenvolvimento desse país”, afirmou a indígena, com microfone montado na praça central de Alter do Chão. “Hoje, indígenas estão ameaçados de voltar para seu território porque foram cortados R$12 milhões da Ufopa e as bolsas de incentivo de permanência dos estudantes na universidade”. Ela disse que o governo “não ouve seu povo, não luta por igualdade”.

Durante a manifestação, Weintraub exaltou-se e afirmou, dirigindo-se aos indígenas e demais manifestantes presentes: “Quem roubou o Brasil foram vocês”.

‘ELE NÃO NOS RECEBEU, FICAMOS EM FRENTE DO MINISTÉRIO, EM PROTESTO PACÍFICO’

Treze povos indígenas do Baixo Tapajós se manifestaram em frente do Ministério de Meio Ambiente. (Imagem: Reprodução)

A falta de diálogo entre o governo e os indígenas foi motivo de crítica novamente na manifestação de ontem. “Ele não nos recebeu, nós ficamos em frente ao Ministério, em protesto pacífico”, afirma Vandria.

Os indígenas do Baixo Tapajós carregavam o cartaz retratado na imagem ao lado: “Ministro do desmatamento, tira a mão do nosso Tapajós”. A frase faz referência às visitas recentes de Ricardo Salles ao Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, no município de Santarém. O território abriga 144 comunidades, entre povos extrativistas, camponeses e indígenas, e é palco de diversos conflitos, como mostrou o observatório na última quinta-feira: “Assentados do Pará denunciam extorsão por advogado ligado ao agronegócio“.

Salles esteve no território para defender madeireiros investigados pela Operação Handroanthus, da Polícia Federal, divulgada como a maior apreensão de madeira da história do país. O ministro se posicionou em suas redes sociais alegando que as toras apreendidas são legais, e divulgou fotos em que ele posa ao lado dos madeireiros. O evento levou à exoneração do delegado Alexandre Saraiva, responsável pela operação, após ele pedir investigação contra Salles.

Vandria Borari destaca que a própria legalidade da exploração da madeira dentro do território precisa ser motivo de denúncia. “Na verdade essas práticas de exploração que ocorrem dentro das reservas são feitas a partir da liberação do próprio governo”, afirma. Ela conta que os licenciamentos e planos de manejo muitas vezes são burlados pela própria legislação.

Para a advogada, a vigilância das ações do governo — entre elas, as do Ministério do Meio Ambiente — indica a necessidade de que os povos indígenas tenham cada vez mais familiaridade com as tecnologias. “Para tornar públicas as ilegalidades e os acordos que ministros têm feito com madeireiros, mineradoras e grandes empresas que exploram nosso território, além de projetos de lei como o que permite a exploração de minérios em terras indígenas”, diz Vandria, referindo-se ao PL 191/2020.

Julia Dolce é jornalista investigativa, com atuação na área socioambiental. |

Foto principal (Reprodução): Ricardo Salles e Tereza Cristina com indígenas Paresi, no Mato Grosso

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